Tá dominado. Pelos chineses
ADDIS ABABA (ETIÓPIA) – Há meses procuro um “gancho”, como dizemos no jornalismo, para falar sobre a presença chinesa na África. Presença talvez seja na verdade um termo muito tímido. Domínio seria melhor.
Eles estão em toda parte, construindo ferrovias em Angola (praticamente tudo em Angola, na verdade), o Parlamento em Guiné-Bissau, ministérios em Moçambique, estradas no Congo, administrando minas de cobre na Zâmbia, oleodutos no Sudão. E sem constranger os aliados com perguntas desagradáveis sobre direitos humanos e democracia, até porque convenhamos que os chineses não têm essa moral toda para tratar desses assuntos.
Eles querem é matéria-prima, minerais, petróleo, para abastecer sua economia pujante.
Mas aqui em Addis Ababa encontrei o gancho, o símbolo perfeito do controle chinês. Eles estão construindo nada menos que a nova sede da União Africana, a organização regional que reúne 54 países do continente.
Addis sempre foi a sede desse organismo, desde os tempos de sua antecessora, a Organização da Unidade Africana, fundada nos anos 60 (e que era conhecida como “clube dos ditadores”). A sede até que não é tão caída assim, e não me pareceu que precise de ampliação.
Ela fica perto do centro da cidade e é um complexo com três prédios dos anos 60, mais um prédio moderno inaugurado em 2003 (na foto).

Tem ainda um restaurante, uma clínica médica própria e, veja você, quadra de tênis e campo de futebol (será por isso a referência a “clube”?).
Mas os chineses ofereceram-se para aumentar ainda mais o elefante branco, e os africanos adoraram. Num enorme terreno ao lado do atual complexo, que antes abrigava uma favela devidamente removida, mais prédios serão erguidos. O trabalho começa até o final do ano e deve demorar dois anos. O espaço vai dobrar.
Hoje trabalham na sede da União Africana 800 pessoas. O problema maior, me explicou um segurança muito simpático que me levou para um rápido tour, é o tamanho do auditório. Cabem ali “apenas” 450 pessoas. O novo, feito pelos chineses, terá lugar para 2.500.
É, claro, um golpe de marketing magistral dos chineses, fazer uma gentileza, numa tacada só, a todos os chefes de Estado do continente. Claro que na hora de fechar um contratinho aqui e outro ali, tudo fica mais fácil, não é mesmo? E pensar que há meros dez anos o investimento chinês na África era negligenciável.
Agora, só falta a União Africana dizer a que veio. Talvez agora que terão um novo auditório ultra-moderno eles decidam fazer alguma coisa de verdade em Darfur, Somália, Zimbábue...
Escrito por Fábio Zanini às 04h39
A fé na igreja cristã etíope
ADDIS ABABA (ETIÓPIA) – A Catedral da Santa Trindade, no centro de Addis Ababa, ainda está fechada, mas dezenas de pessoas já estão esperando as portas abrirem. Algumas rezam ajoelhadas, de olhos fechados, por longos minutos, tocando a testa nos degraus da igreja.

Outras rezam de pé, beijando as paredes ou as portas.
Pouco antes das 16h, um padre com uma longa túnica negra aparece, com a chave da igreja e uma cruz de madeira na mão. É seguido por fiéis que querem beijar a cruz ou tocá-la com a testa.
Algumas horas passadas na catedral, o centro mais importante do cristianismo ortodoxo etíope, impressionam. Não exatamente pela imponência do prédio ou os murais pintados do lado de dentro, mas pela imensa devoção das pessoas.
A igreja ortodoxa etíope é única, e é parte da identidade nacional do país. O cristianismo foi adotado aqui por volta do século 4, o que faz da Etiópia um dos mais antigos países cristãos do mundo. Ao longo dos séculos, os sucessivos imperadores etíopes espertamente difundiram a imagem de que eram baluartes da cristandade numa região “infestada” por muçulmanos, o que deu a eles considerável popularidade na Europa cristã e ajudou a Etiópia a manter-se independente.
Mas a imagem da Etiópia como um país cristão “puro” simplesmente não corresponde aos fatos. Até porque o islamismo é a religião de cerca de um terço da população, e mais 20% seguem religiões tradicionais africanas (há ainda uma minúscula comunidade de judeus, que seguem seu rito particular, no norte do país).
O mais interessante na ortodoxia cristã etíope é justamente a influência que ela absorveu de várias fés diferentes. O chão da igreja, por exemplo, é todo forrado de tapetes, e só se entra sem os sapatos, igual ao que ocorre numa mesquita. Os fiéis ajoelham e beijam o chão, levantam-se e repetem o gesto, num movimento muito parecido com o dos muçulmanos rezando em direção a Meca.
Do Judaísmo vêm o ritual da circuncisão masculina e a adoração às tabuas com os Dez Mandamentos, que Moisés recebeu do Monte Sinai. Cada igreja tem uma réplica no seu altar.
Diz a lenda, inclusive, que a famosa Arca Perdida que guardou as tábuas está na igreja de Santa Maria de Zion, na cidade de Aksum, no norte do país. Indiana Jones não procurou direito.
Durante a missa, a iluminação da igreja é reduzida a uma penumbra, e a leitura da Bíblia é feita à luz de velas. Ajudantes do padre passam várias vezes pelos corredores espalhando incenso, que as pessoas recebem abaixando a cabeça. Dei a sorte de acompanhar a missa quando caía uma tempestade do lado de fora, o que só contribuiu para escurecer ainda mais o ambiente interno.
Há também um lado político muito forte na igreja cristã ortodoxa. Até 1974, quando o regime marxista assumiu o poder e destronou o imperador Haile Selassie, ela era a religião oficial do Estado, e mesmo hoje continua sendo a fé da elite política e econômica, e a que predomina entre os moradores de Addis Ababa e das regiões centrais. O islamismo é mais forte nos cantos mais afastados do país.
Dentro da igreja da Santa Trindade, ao lado do altar, ainda estão os tronos que eram usados pelo imperador e sua mulher. Ficam escondidos da nave principal, atrás de uma parede. E, na cúpula da igreja, em vez dos tradicionais murais com motivos religiosos, há murais com cenas políticas. Lá está, por exemplo, Selassie fazendo seu famoso discurso à Liga das Nações (antecessora da ONU), nos anos 30, protestando contra a invasão italiana.
Do lado de fora, as cruzes estão cobertas com as cores nacionais da Etiópia.

Selassie hoje está enterrado na igreja, a monarquia caiu e a igreja cristã etíope não tem a mesma força que tinha no passado. Mas o fervor religioso do etíope continua inabalável.
Escrito por Fábio Zanini às 04h25
Starbucks vs. Etiópia
ADDIS ABABA (ETIÓPIA) – Dê uma olhada na fachada da loja abaixo:

Lembra alguma coisa?
A foto é da rede de cafés Kaldi’s, que tem sete filiais em Addis Ababa. E que é uma cópia assumida (e orgulhosa!) da gigante norte-americana Starbucks. Tanto que por aqui ninguém fala “vamos tomar um café no Kaldi’s?”, mas simplesmente “vamos ao Starbucks?”.
Starbucks, a maior rede de cafés do mundo, e a Etiópia, de onde o café é originário, têm um passado turbulento. Tudo começou em 2005, quando os etíopes entraram com um pedido no escritório norte-americano de marcas e patentes para registrar três das melhores variedades cultivadas no país: sidamo, harar e yirgacheffe, todas do leste do país.
É um pouco o que os italianos fazem com o presunto parma e os franceses com o champanhe. Só eles podem usar o nome, e se alguém quiser usar, tem que pagar.
A Starbucks, que importa café etíope e usava as denominações em suas especialidades “gourmet” de café, claro que não gostou. E o escritório de patentes norte-americano acabou dando razão à multinacional americana.
Mas aí, um desastre de relações públicas começou a se formar. Principalmente quando a britânica Oxfam, uma das maiores (e mais lúcidas) ONGs deste planeta, tomou as dores dos cafeicultores etíopes. Primeiro acusou a Starbucks de fazer lobby junto às autoridades norte-americanas, o que a empresa nega ter ocorrido.
Mais importante, começou a detalhar alguns fatos, como o de que o lucro da Starbucks com uma saca de café etíope que ela transforma em “café gourmet” era 25 vezes maior do que o que recebiam os produtores de café etíopes.
O café é um patrimônio nacional na Etiópia. Diz a lenda que lá pelo ano 500 da nossa era um agricultor chamado Kaldi (veja que a Starbucks etíope escolheu a dedo seu nome), ao perceber que suas cabras ficavam excitadas ao comer aquela frutinha, resolveu misturá-la a água fervente. A bebida depois foi descoberta pelos árabes e ganhou o mundo.
Na Etiópia, 25% dos agricultores dependem em alguma medida da planta. Com a diferença de que os etíopes escolheram o caminho de marquetear o café deles como tendo qualidade e sabor diferenciados. Experimentei e é bom realmente, mas não achei muito diferente do nosso (claro que sou leigo no assunto...).
Mas imagine o desespero dos executivos da Starbucks com o risco de sua empresa começar a ser acusada de lucrar horrores à custa da miséria de cafeicultores de um país de Terceiro Mundo.
No ano passado, após dois anos de briga, os dois lados fecharam um acordo. A Etiópia desistiu de patentear as marcas, mas a Starbucks passou a pagar um licenciamento sobre elas, além de ajudar a promover o café etíope pelo mundo.
E o Kaldi’s, onde entra nisso? Bem, digamos que é uma pequena vingancinha dos etíopes contra a gigante dos EUA. Algo como dizendo que, se a Starbucks usa o café etíope, então nós vamos imitar a marca deles.
E eles não fazem questão de disfarçar. O garçom da filial que visitei, com o mesmo avental verde da multinacional, me recebeu falando que tinha “capuccino, frapuccino, igualzinho ao Starbucks...”
Há diferenças entre as duas cadeias de cafés, claro. Aqui, por exemplo, eles são econômicos nos famosos sofás (havia apenas um na filial que eu visitei).
E o preço, bem... Enquanto você paga até US$ 4 por um latte no original, aqui sai por 667 birr, ou US$ 0,60.
Talvez por tudo isso, a Starbucks original ainda não tenha chegado aqui....
Escrito por Fábio Zanini às 04h27
Bem-vindo ao ano 2000
ADDIS ABABA (ETIÓPIA) – Excepcional Etiópia.
Parece que eles fazem questão de serem diferentes em tudo. Estão ainda comemorando, por exemplo, o novo milênio, oito anos após o resto do planeta. Por onde você anda em Addis Ababa, há torres, cartazes e faixas alusivas ao ano 2000.

Eles seguem o antigo calendário cóptico, que tem 12 meses de 30 dias e um décimo terceiro mês de cinco dias. Também não houve as atualizações que a cristandade ocidental promoveu em séculos passados _ignoraram, por exemplo, a introdução do calendário gregoriano, no século 16. O resultado, ao longo dos séculos, é este “atraso”.
E a maneira de contar as horas é parecida com a cultura swahili, ou seja, enlouquecedora. Quando amanhece é 12h (6h para nós). Após uma hora de sol (7h para nós), é 1h para eles, e assim por diante. Às (nossas) 18h, volta a ser 12h. E a primeira hora da escuridão (19h para nós), volta a ser 1h. Capisci?
Sorte que eles geralmente têm o bom senso de “traduzir” o horário quando falando com um estrangeiro.
A escrita da língua nacional, o amaraico (não confundir com aramaico, a língua falada por Jesus Cristo), também é única no continente. Para mim, parecem rabiscos de criança (com todo respeito).

E tem a comida, claro. O prato nacional é injera, cuja massa lembra panqueca, mas bem mais borrachuda. É acompanhada de porções de frango, carne, vegetais e queijo. Olhe a foto abaixo:

Está vendo a “toalha” em que as porções estão espalhadas? É injera. A textura é tão borrachuda que serve de forro para o prato. Você arranca um pedaço com a mão mesmo, cata um teço do recheio favorito e manda ver. Em outras palavras, come-se a toalha.
Sempre acompanhado de tej, outra excentricidade etíope: trata-se de mel fermentado, que eles chamam aqui de vinho de mel.
Docinho, mas forte, pelo que já percebi...
Escrito por Fábio Zanini às 14h05
Acabo de perder 10 milhões de dólares
ADDIS ABABA (ETIÓPIA) – Não é todo dia que você acorda 10 milhões de dólares mais pobre. Aconteceu comigo hoje.
Não que eu me preocupe muito. São dólares zimbabuanos. Na verdade, uma nota que eu guardei como souvenir da minha visita ao país de Bob Mugabe, gloriosamente reeleito no domingo.

O dinheiro vale tão pouco, destruído por uma hiperinflação, que as próprias autoridades monetárias zimbabuanas têm de reconhecer que em algum momento vai virar pó. Num caso único no mundo, as notas vêm com data de validade. No caso da minha, expirou ontem, 30 de junho.
Na verdade, o Banco Central do Zimbábue é um otimista incorrigível. Porque já há muito tempo elas não valiam nada. Quando adquiri minha cédula, no final de março, os 10 milhões de dólares do Zimbábue eram 25 cents de dólar americano _três delas compravam uma garrafa d’água. Ontem, dia em que ela virou peça de museu, valia menos de 1 cent.
Mas Mugabe ganhou a eleição de novo, prometendo arrumar a economia. Agora, sim...
Escrito por Fábio Zanini às 13h29
Etiópia: que país é esse?
ADDIS ABABA (ETIÓPIA) – Não tem muito como evitar. Pensou em Etiópia, pensou em crianças esquálidas, com o olhar fundo de quem está morrendo de fome. Desde 1985, pelo menos, é assim. Foi por causa da Etiópia que o Live Aid foi organizado, foi a Etiópia que despertou o sentimento humanitário de um Bono, e foi em favor da Etiópia que cantaram “We are the World” (essa ela não merecia).

Então, se há um país precisando de um banho de imagem, de um novo design ou uma nova marca como diriam os publicitários, é a Etiópia. Estamos falando da civilização mais forte, enraizada e orgulhosa de toda África sub-saariana, uma potência econômica e militar regional, com 75 milhões de habitantes que, num caso raríssimo nesse continente, jamais foram colonizados por europeus.
A Etiópia tem sua própria versão do cristianismo ortodoxo, mas também fortes tradições islâmicas e ligações milenares com o Judaísmo. É um país com seu próprio calendário, sua própria escrita e, dizem eles (vamos ver), o melhor café do mundo.
A Etiópia foge a qualquer categorização na África. Nas divisões artificiais que jornalistas e historiadores adoramos fazer, a Etiópia sempre “atrapalha”. Existe, por exemplo, a África árabe, a anglófona, a francófona, a lusófona...e a Etiópia. Existem os países claramente cristãos, muçulmanos...e a Etiópia, em que tudo se mistura.
Mas é um país fechado ao mundo e, sim, miserável, como já deu para perceber no enorme número de pedintes nas ruas. Aqui e ali começam a pipocar notícias de que uma nova onda de fome está surgindo no sul do país. O primeiro-ministro Meles Zenawi já foi um dos queridinhos do Ocidente, mas tem o hábito de mandar prender a oposição.
Cheguei ontem à noite, dessa vez de avião, porque a viagem de ônibus de meros 1.100 km desde o Quênia pode durar de três a cinco dias. Pelo menos a primeira imagem que esse país tenta passar ao viajante é diferente da tradicional: um ultra-moderno aeroporto, tinindo de novo.
Mas depois você lembra que está chegando à Etiópia, e que aqui há uma cultura burocrática que torna muito difícil a revolução capitalista de que este continente precisa. É até natural, visto que há apenas 17 anos isso aqui era um regime marxista fechado, e, como todo bom regime marxista que se preza, sanguinário.
Quase uma hora na fila do passaporte, com os oficiais de imigração vagarosamente anotando todos os dados, fazendo cópia... Depois, numa apoteose burocrática, uma alfândega em que não havia a opção “verde”, como ocorre em qualquer lugar do mundo. O resultado, uma fila caótica para passar malas no raio x do aeroporto, que, detalhe, estava com a tela apagada quase o tempo todo. Mas não adiantava argumentar que ninguém estava vendo o que o raio x mostrava, a ordem era jogar as malas dentro da máquina.
E só na Etiópia (talvez na Coréia do Norte) para muitos dos hotéis serem estatais. Estou num deles, o Ras, que se orgulha de ter hospedado Nelson Mandela durante seu exílio. Fica convenientemente localizado no centro da cidade, é baratinho (US$ 15 a noite) e se enquadra na categoria que eu criei dos “moquifos decentes” (um moquifo decente é um moquifo que não tem barata e em que a descarga funciona, basicamente). Tem longos corredores em tom cinza, a perder de vista, com nada menos que 40 apartamentos por andar.
E algumas esquisitices, do tipo um piano de cauda com uma camada grossa de poeira e teclado trancado por um cadeado. Além de um incrível leão empalhado (na jaula), na entrada.
Vamos ver o que esse país sui generis tem a mostrar.
Escrito por Fábio Zanini às 03h44
Nairobbery?
NAIROBI (QUÊNIA) – Para um continente com tantos problemas, a África é surpreendentemente segura. Falo de bandidagem, não de conflitos políticos ou guerras.Andando pelas ruas, incluindo várias periferias, de grandes cidades, sinto-me bem mais seguro do que em São Paulo, Rio, ou mesmo Brasília, uma cidade considerada tranqüila para os padrões brasileiros.
Mas há sempre exceções, e estou agora no que é considerada uma delas: Nairobi, ou “Nairobbery” para os íntimos (robbery significa assalto em inglês).
Felizmente, até agora o apelido não se justificou para mim. Claro que aqui não vacilo caminhando por uma favela, como fiz em outros locais. De noite, só táxi, ainda assim chamado pelo hotel ou restaurante.
Parece estranho, mas o medo coletivo pode ser sentido facilmente, como uma nuvem de poluição. Aqui há um pouco da paranóia de uma Johannesburgo, na África do Sul (um pouco menos, na verdade), em que as pessoas parecem olhar sobre seus ombros o tempo todo.
São pequenas coisas que você capta. Perguntar a um local em Kampala (Uganda), por exemplo, se posso ir até a esquina de noite, e a resposta é um “claro!”, indignado. Em Nairobi, a resposta é um firme “de jeito nenhum”.
E o medo pode ser visto também. Outro dia fui dar uma volta em Karen, um subúrbio de ricaços aqui de fazer a galera do Morumbi corar de inveja. Casas fantásticas, enormes, que eu na verdade não pude ver: todas protegidíssimas por muros altos e cercas vivas (aquelas com plantas).
A sede do Country Club é um exemplo (claro que num lugar desses ia ter um country club...):

Na porta, além das guaritas que temos no Brasil, carros com seguranças ficam estacionados, a postos para qualquer problema.
Tanta proteção deve ter seus motivos. Mais difícil é entender porque alguns países são tão mais relaxados e outros tão tensos, mesmo sendo vizinhos. O índice de desenvolvimento social não conta muito. Qual a razão para Maputo, em Moçambique, ser tão mais tranqüila que qualquer grande cidade sul-africana?
Já ouvi explicações de que tudo depende da “índole” do povo, mas que não me convencem, além de carregarem um cheiro desagradável de preconceito racial.
Desigualdade de renda pode ser uma explicação mais plausível, mas o perfil das sociedades africanas é muito parecido: uma minoria (minoria mesmo) de endinheirados, uma classe média ainda incipiente e a massa de pobres. De norte a sul do continente.
O contraste me parece mais dramático do que no Brasil, em que pelo menos temos uma classe média significativa.
Continuo procurando uma resposta.
Escrito por Fábio Zanini às 05h51
Eles adoram Obama
NAIROBI (QUÊNIA) – Há meses uma figura me persegue, por onde eu ande na África. Estou falando de Barack Obama.Ele está nas capas de todos os jornais, da Zâmbia à Tanzânia, de Ruanda ao Quênia. Seus livros aparecem em destaque em todas as livrarias. Durante as primárias do Partido Democrata, todo dia era dia de uma matéria enorme e favorável a Obama, nos telejornais. Às vezes eu custava a lembrar que Hillary Clinton ainda estava no páreo.
E John Mc Cain, quem é John Mc Cain mesmo?
Na principal revista de Uganda, a “Independent”, uma matéria de capa perguntava se haveria um Obama ugandense que pudesse salvar a política do país. Aqui no Quênia fotos dele são mais comuns do que a do presidente do país, cujo rosto emoldurado na parede é quase uma obrigação legal.
É obviamente muito natural a empolgação com Obama, principalmente no Quênia, onde seu pai nasceu. Um negro e quase africano governando a maior nação do mundo não é todo dia que acontece.
Mas esse culto à personalidade de Obama traz duas coisas preocupantes. A primeira é mostrar como continua enraizada nesse continente a cultura do homem forte, do salvador, a personalização da política.
Cada país africano tem o seu “pai da pátria”, aquela figura liderou a luta pela independência e dá nome ao aeroporto, à principal avenida de todas as cidades, à praça... Imagine Tiradentes, Cabral, Duque de Caxias, Pedro I e Pedro II, Marechal Deodoro, Getúlio Vargas, Princesa Isabel, Juscelino e Tancredo Neves todos somados e você terá uma idéia.
Jomo Kenyatta no Quênia, Kwame Nkrumah em Gana, Samora Machel em Moçambique, Julius Nyerere na Tanzânia, a lista é longa. Barack Obama segue numa tradição de décadas.
Pior que isso são as expectativas que estão sendo criadas. Frases como “Obama é nosso irmão”, “Obama vai nos ajudar”, “Obama vai melhorar nossas vidas” são comuns com pessoas com quem eu converso.
Esquecem-se que Obama antes de tudo será (se vencer, olha eu já entrando na onda...) o presidente de um país que limita muito o poder dos presidentes, e que coloca seus interesses em primeiríssimo lugar.
Algo me diz que, num continente que já viveu tantas decepções, vem uma das grandes por aí...
Escrito por Fábio Zanini às 07h43
O dia de glória de Mugabe
NAIROBI (QUÊNIA) – E lá foi tio Bob Mugabe, feliz votar em sua eleição democrática. Hoje é seu dia de glória.
Não seria delicioso se, mesmo sendo candidato único, ele tivesse, sei lá, no máximo uns 60% dos votos numa votação com comparecimento baixo?
Mas Mugabe não é bobo, e algo me diz que ele vem aí com uma vitória de dar inveja a ditador árabe, de no mínimo 80%. “São eles que votam, mas somos nós que apuramos”, como se diz por aqui.
E aposto como o resultado dessa vez vai sair rapidinho.
Espere um Mugabe mais manso nesse novo mandato, tentando recuperar um pouco do seu nome entre os grandes heróis da independência africana, provavelmente cedendo seu trono dentro de uns dois anos para um lambe-botas.
Emerson Mnangagwa, que já foi ministro de praticamente tudo no seu governo, ou Joyce Mujuru, sua vice-presidente: um desses será presidente lá por 2010, assegurando a Mugabe o merecido descanso numa de suas dezenas de fazendas, despreocupado quanto a um processo por crimes contra a humanidade em Haia.
Vem bem a calhar que Nelson Mandela esteja nesse momento sendo coberto de glórias pelos seus 90 anos de idade. Há cinco anos, eu estava na África do Sul nessa mesma época, e lembro da adulação pelos 85 anos do ícone. O alto-falante do aeroporto de Johannesburgo anunciava, de cinco em cinco minutos. “We wish Madiba a very happy birthday” (Madiba é o apelido de infância de Mandela).
Mugabe e Mandela. A história desses dois heróis do nacionalismo africano ajuda a entender um pouco as diferentes reações que o poder provoca. Ambos se martirizaram por uma causa, a da liberdade. Ambos deixaram a prisão cobertos de glórias. Ambos tiveram em seguida poder, muito poder.
Um seguiu o caminho de Gandhi, Luther King e é o melhor exemplo de alguém canonizado ainda em vida. O outro, o de Mobutu Sese Seko, outro que foi um jovem nacionalista cheio de ideais (nos anos 50 no Congo, antes de virar um ditador).
No caso de Mugabe e Mobutu, valeu a velha máxima. “Poder corrompe; poder absoluto corrompe absolutamente”.
Escrito por Fábio Zanini às 07h41
O país do safári
LAGO NAKURU (QUÊNIA) – Safári, safári, safári.
Se o Brasil é o país do futebol, o Quênia é o país do safári. É seu mais famoso produto de exportação e parte da sua identidade nacional. Fotos de leões, elefantes, girafas etc. estão nos cartazes das companhias aéreas, nos cartões telefônicos, no nome da principal operadora de celulares, a Safaricom. E respondem por uma gorda fatia do PIB.
Este ano a receita com safáris deve cair bastante, por causa da violência política do começo do ano, que já passou, mas que continua assustando os turistas estrangeiros.
Vim ao Quênia decidido a resistir ao apelo do safári, até porque já fiz um na África do Sul há alguns anos, e zebras são todas iguais (a primeira que você vê passeando é eletrizante, mas depois da quadragésima, você não agüenta mais).
Desde que pisei neste país, há uma semana, sou bombardeado por propostas de safári. Do motorista do táxi, do recepcionista do hotel, até do garçom do restaurante. Todo mundo tem ou conhece alguém que tem uma agência de safári, sem falar nos caras que te abordam a todo instante no meio da rua. Talvez por haver menos turistas, virei um alvo fácil.
Ontem eu cedi. E ainda bem que cedi. Se tem uma coisa que esses caras fazem bem é safári (palavra cujo significado original em swahili é “jornada”). Foi um mini-safári, é verdade, relativamente barato (US$ 60) e de cerca de quatro horas de duração no Parque Nacional do Lago Nakuru. Mas valeu mais do que o pacote de três dias da vez anterior.
No Quênia, há inúmeros parques nacionais, cada uma com sua especialidade. Há os parques para ver leões, para ver elefantes etc. O de Nakuru é famoso pelos flamingos e pelos rinocerontes.
A primeira coisa que salta aos olhos é a falta de timidez dos bichos, que chegam perto mesmo do carro (de onde é proibido sair, claro). No safári anterior, eram horas rodando de carro para ver manchinhas lá longe. Aqui, deu para ver rinocerontes bebendo água a cinco metros de distância.

E zebras, girafas, búfalos, hienas, impalas e incontáveis babuínos, andando em bandos enormes. Alguns deles, deliciando-se com salgadinhos roubados de turistas que deram mole.

O Quênia é conhecido por ter os melhores safáris porque está no lugar exato. Mais ao norte, a vegetação já é mais escassa. Mais ao sul, o mato é muito alto e dificulta a visão. Aqui, são pradarias e savanas cheias de animais.

Uma certa decepção foram os flamingos no lago, que eram em menor número do que eu imaginava, perdidos no meio da água. (Parece que são muitos na foto, mas não são).

Como me explicou meu guia, nessa época do ano eles estão fazendo seus ninhos em outros lugares.
Escrito por Fábio Zanini às 04h25
Africanos contra Mugabe?
NAKURU (QUÊNIA) – Continuo achando que a vitória de Robert Mugabe é uma desgraça sem qualificativos, mas uma coisa muito interessante aconteceu nesse último capítulo da tragédia zimbabuana. Líderes africanos perderam a vergonha de criticar o velho ditador.
Começou com Jacob Zuma, presidente do partido governista e provável futuro presidente da África do Sul. Depois vieram Levy Mwanawasa, presidente da Zâmbia, com palavras bastante duras contra Mugabe, e Paul Kagame, de Ruanda, cuja crítica tem grande importância, já que ele é reverenciado no continente como o gênio militar que pôs fim ao genocídio em seu país.
Em seqüência, líderes de Botsuana, Senegal, Tanzânia, Quenia e Angola também reprovaram a violência orquestrada por Mugabe. Até Joachim Chissano, ex-presidente de Moçambique e padrinho do segundo casamento de Mugabe, em 1996, resolveu falar.
Claro que muitas vezes são os rotos falando do rasgado, caso de Kagame, um quase-ditador. E os pedidos de mais democracia por José Eduardo dos Santos, há 30 anos presidente de Angola, dão vontade de rir.
Escrito por Fábio Zanini às 04h09
Campos de refugiados segregados
NAKURU (QUÊNIA) – Já faz seis meses que uma eleição presidencial fraudada no Quênia expôs ao mundo mais uma vez o horror dos conflitos étnicos.
Desde então, os caciques dos principais grupos tribais (kikuyu, luo e kalenjin) que formam a sociedade queniana se acertaram, repartiram o bolo do Estado, criaram uma penca de ministérios para acomodar seus apaniguados e estão aproveitando a vida, num governo de união nacional.
Mas basta passar algumas horas em um lugar como Nakuru, a 200 km da capital, Nairobi, para ver como esses acertos entre bacanas ignoram o que acontece na vida real. Nakuru, porta de entrada para um parque nacional famoso por seus milhares de flamingos cor-de-rosa, é uma cidade encravada no Rift Valley, oeste queniano, palco dos principais distúrbios étnicos em janeiro e fevereiro.

Ainda hoje, depois do Holocausto e do genocídio de Ruanda, o rótulo tribal ainda é o fator determinante por aqui. Pior é constatar que mesmo entre os que mais sofreram com a violência este sentimento prevalece.
Nakuru tem dois campos de refugiados, abrigando pessoas que perderam tudo na onda de violência. Ficam nos dois extremos da cidade. Numa ponta, num estádio de futebol, estão alojadas 1.400 pessoas pertencentes às etnias luo e kalenjin, que se uniram taticamente durante os conflitos.
A cerca de 4 km de distância, do outro lado da linha de trem que corta a cidade, um gigantesco campo abriga 12.000 pertencentes ao grupo dos kikuyu, num estacionamento público.
“Se misturássemos os dois campos, seria o inferno”, me explica Ewan, de 22 anos, um voluntário da Cruz Vermelha queniana.
Ontem à tarde, primeiro fui visitar o estádio de futebol que serve de casa para os luo e os kalenjin. Fui extremamente bem-recebido, por pessoas ávidas por desabafar. Ali, duas ou três famílias dividem tendas de não mais de 10 metros quadrados, em formato de iglu e feitas de lona. O chão é de terra, e não há colchões para todos dormirem.

A grama já está semi-destruída, as arquibancadas de madeira apodrecem, e as traves viraram varais improvisados.

Era por volta de 14h, e os iglus de lona eram fornos. De noite, no inverno queniano, a temperatura cai abruptamente, e, se chove, a umidade entra. Problemas respiratórios são o maior problema na pequena clínica improvisada no local, mantida pela Cruz Vermelha. Nos últimos meses, duas crianças e quatro adultos morreram.
Este campo pertence aos apoiadores de Raila Odinga, o candidato luo que disputou e perdeu a eleição presidencial, provavelmente por fraude. Foi o anúncio da sua derrota que originou os protestos. Hoje, Odinga é o primeiro-ministro no governo de união nacional.
Seus apoiadores foram perseguidos por kikuyu, e os perseguiram de volta. No Quênia, não houve um grupo matando o outro, como sérvios contra bósnios na antiga Iugoslávia ou hutus contra tutsi em Ruanda. Foi um todos contra todos, que deixou 1.200 mortos e 400 mil refugiados.
(A propósito, eu, por mais que tente, não consigo diferenciar fisicamente as etnias, mas os quenianos juram que é possível _e também pelo sobrenome. Os luo têm nomes começados com “O”, como Odinga e Obama, pai do candidato presidencial norte-americano).
O governo começou a ameaçar fechar à força os campos nas próximas semanas, dizendo que a situação do país está melhor, mas os refugiados não querem. “Vamos resistir”, diz Robert, um pastor evangélico. Os refugiados dizem que querem indenização para recomeçar a vida, além de temerem voltar ao convívio com as outras etnias. Querem viver em áreas segregadas.
Antes dos conflitos, as etnias se misturavam, mas hoje há uma desconfiança mútua. Simon, de 22 anos, conta que tinha vários amigos kikuyu antes da violência. “Não falo mais com eles”, disse ele, que teve a casa saqueada e os pertences todos roubados.
Do lado oposto da cidade, no outro campo de refugiados, as mesmas histórias vêm com sinal invertido. Ali estão apoiadores do presidente Mwai Kibaki, um kikuyu, reeleito na votação suspeita.
“Nós somos perseguidos pelos kalenjin a cada eleição. Nesta última, nos disseram que seria a perseguição final”, diz um senhor com dentes amarelados.
No meio do campo, uma escola improvisada, calorenta e mal-cheirosa, atende às crianças do local. Mas ontem, só vi uma garotada brincando nos bancos de madeira semi-destruídos.

Os problemas são os mesmos enfrentados no campo que abriga as etnias rivais. A base da alimentação é milho, feijão e um composto chamado CSB, distribuído pelo Programa Alimentar Mundial da ONU, que reúne seis cereais. É um pó amarelado rico em nutrientes que as famílias recebem a cada duas semanas. Misturado com água fervente, vira um mingau.
Mas não há frutas ou vegetais na dieta. Pergunto se as pessoas comem carne ou frango e um homem ri. “É o nosso sonho”, diz.
Mesmo assim, muitas famílias preferem ficar. Bem ou mal, ali têm comida, água, assistência médica e abrigo de graça.
“60% das pessoas aqui causariam problemas se o governo fechasse o campo”, diz Abdi, responsável da Cruz Vermelha (e que diz ser torcedor fanático do Santos). “As pessoas estão assustadas e temem por suas vidas”, diz.
Mas o governo promete fechar os campos de refugiados em breve. Vem mais violência por aí.
Escrito por Fábio Zanini às 03h22
A tragédia sem fim do Zimbábue
NAIROBI (QUÊNIA) – Não adianta tentar buscar qualificativos, ou tentar ver o lado bom das coisas. Robert Mugabe venceu de novo, dessa vez de forma acachapante. Perderam milhões de zimbabuanos.A tragédia é ainda maior pelo gosto de decepção. Foi por muito pouco que Mugabe não caiu, destronado por uma eleição limpa. Provavelmente ele já havia perdido no primeiro turno, mas seus capachos na comissão eleitoral deram uma massageada nos números e convocaram um segundo turno. Que ele perderia novamente, se houvesse uma votação de verdade.
No final, a estratégia brutal de perseguição funcionou, a poucos dias do final. Ficará sempre a dúvida se a oposição agiu corretamente ao jogar a toalha faltando tão poucos dias. Sim, porque mesmo que perdesse na contagem dos votos, deixaria clara a existência de uma fraude gigantesca.
Mas são eles que estão lá, apanhando e sendo mortos em Harare e no interior do país, e que têm toda a legitimidade para desistir ou continuar. O país, nas últimas semanas, virou praça de guerra. Eu, que tinha passagem comprada para o Zimbábue para hoje de manhã, já havia desistido de ir. No primeiro turno, entrei como turista e cobri a eleição como jornalista (e enganei aquela ditadura, o que me dá uma imensa satisfação pessoal...). Mas o clima de agora é outro, bem mais pesado.
E o que fazer agora? É deprimente, mas não há muito além de esperar que o peso dos anos se encarregue de finalmente afastar Mugabe, 84 de idade. E que está muito bem de saúde, pelo que consta.
Mas mesmo que ele se afastasse, certamente assumiria um aliado não muito melhor. Número um na lista de espera é Emerson Mnangagwa, seu ministro mais poderoso, que nos anos 80 chefiou o massacre de 20 mil civis da etnia ndebele, sob o pretexto de que tramavam um golpe. Belíssimo currículo.
A oposição não está morta, evidentemente, até porque controla a Câmara dos Deputados. E Morgan Tsvangirai está credenciado como um líder de claro apelo popular no Zimbábue. Mas no passado essa oposição também já mostrou que se desorganiza e se divide facilmente, quando os egos de seus líderes tomam o lugar da racionalidade.
Há sempre a esperança de que a comunidade internacional aumente a pressão sobre Mugabe. Nos últimos dias, um número surpreendente de líderes africanos perdeu o medo de criticar o ditador, o que é encorajador.
Mas não esperem intervenção humanitária de ninguém, pois não há apetite político para isso. Talvez novas sanções, que, no entanto, poderão ter o efeito inverso: castigar ainda mais a população inocente, fortalecendo o discurso nacionalista de Mugabe.
E cabe aqui um rodapé sobre a figura mais patética de todo esse processo, o presidente sul-africano, Thabo Mbeki, o único com peso político e econômico para fazer alguma coisa.
Mas ele, mais uma vez, silencia. Uma historinha contada numa biografia recente de Mbeki, “The Dream Deferred”, do jornalista Mark Gevisser, ajuda um pouco a entender a relação entre os dois.
Nos anos 80, auge do apartheid sul-africano, Mbeki vivia exilado em Lusaka, na Zâmbia. Um dia de manhã, sua mulher acorda, olha para o lado e não o vê deitado a seu lado. Entra em pânico, imaginando que o marido havia sido mais uma das incontáveis vítimas de assassinos que o regime racista sul-africano contratava.
Ela então começa a disparar telefonemas. E um deles vai para Mugabe, que já naquela época conhecia Mbeki. O presidente do Zimbábue por sua vez põe todo seu aparato de segurança e inteligência à procura do sul-africano.
Algumas horas depois, Mbeki aparece em casa, com cara de ressaca. No frescor de seus 40 anos de idade, havia ido a uma festa de diplomatas suecos, bebeu demais e desmaiou no sofá, como se fosse um adolescente.
Envergonhado, ele passa a evitar encontrar Mugabe. Mas alguns meses depois, num evento na Etiópia, os dois se cruzam. O zimbabuano, duas décadas mais velho, vai direto passando um pito: “Meu jovem, você faça o favor de me avisar da próxima vez que for dormir fora de casa!”.
Não é agora, depois de todos esses anos, que Mbeki vai peitar Mugabe.
Escrito por Fábio Zanini às 10h43
Discotecas sobre rodas
NAIROBI (QUÊNIA) – Primeiro, vem a vibração na calçada. Depois, você ouve um som forte de bate-estaca. Só alguns segundos depois, dobrando uma esquina ou encostando no meio-fio, aparece a origem de tamanha balbúrdia. Uma simples van de passageiros -o que nós chamaríamos de lotação.
Se há uma coisa que você encontra em qualquer lugar na África são essas vans. Os nomes são o máximo: candongo em Angola, chapa em Moçambique, toca-toca em Guiné-Bissau, dhala-dhala na Tanzânia, tro-tro em Gana...
Mas é tudo a mesma coisa: veículos caindo aos pedaços, com tarifa baratíssima (geralmente menos de 1 dólar). São a única opção de transporte para a maioria da população sem carro e sem dinheiro para táxi, já que ônibus maiores, convencionais, são raros na África.
Bom, pelo menos eu achava que fosse tudo a mesma coisa, até conhecer os matatus, como são chamadas essas vans no Quênia.

Muitos matatus não são simples meios de transporte. São obras de arte.
Primeiro, a lataria, que é toda grafitada, com referências musicais, políticas, charges ou o que der na telha. Esse aí embaixo escreveu “Casanova” (Freud explica).

Uma inspiração freqüente é o gangsta rap, a cultura de rua das gangues norte-americanas, cujo marketing é desafiar a polícia e fazer apologia do crime. A foto abaixo é um exemplo:

“If U C a Cop, Warn a Brotha”. “Se você vir um policial, avise um irmão”. Repare que o final da frase imita o logotipo da Warner Brothers, já que a pronúncia é parecida.
Irreverência é uma marca desses caras. Um matatu que eu vi em alta velocidade numa das avenidas de Nairobi tinha uma fotomontagem de Bush e Osama Bin Laden lado a lado, vestidos em trajes militares e portando armas.
Em tese eles carregam algo como 12 passageiros sentados, mas podem ser 14, 16, 18, depende da capacidade de espremer. Fiscalização não é o forte por aqui. Param em qualquer lugar para pegar ou deixar pessoas, e fazem as maiores barbaridades no trânsito.
Na porta vai o cobrador, se esgoelando para quem está na calçada, e não apenas gritando o trajeto, como acontece, por exemplo, em São Paulo. Ele é um artista: tenta convencer o passageiro a subir, com gestos e expressões faciais impagáveis. Um clássico é o cara te encarar na calçada e levantar o queixo em sinal desafiador, cara de mau, como quem diz: “escuta, vai entrar ou não?”
O cobrador corre na calçada, se pendura na porta, salta com a van andando... Como esse cara aqui:

É comum haver briga feia entre cobradores de duas (ou mais) vans por passageiros.
E o interior do matatu não fica devendo nada à lataria. Geralmente, o som vai no talo, literalmente ensurdecedor, daquele que torna impossível qualquer conversa com alguém a mais de dez centímetros de distância. Rap, claro, é o ritmo preferido.
Muitos têm também uma pequena TV, que vai mostrando clipes. O teto, o chão, tudo é decorado. Coisa caprichada mesmo, que às vezes faz você se sentir dentro de uma daquelas limusines caríssimas que as pessoas alugam para festas.
Felizmente, é apenas um matatu e sua incrível tarifa de 20 shillings quenianos, ou R$ 0,50.
Escrito por Fábio Zanini às 05h54
Quando Bin Laden disse “oi”
NAIROBI (QUÊNIA) – Foi numa esquina movimentada do centro de Nairobi que pela primeira vez Osama bin Laden disse “olá!” para o mundo.
Parece incrível, mas há dez anos, quem sabia quem era bin Laden? Um punhado de agentes secretos, especialistas e jornalistas (eu, não), certamente, mas só. Era apenas mais um líder fanático de barba e turbante, com nome exótico e agenda mais ainda, entre milhares que surgem periodicamente prometendo derrotar o grande Satã norte-americano e fundar uma comunidade islâmica universal.
Em 7 de agosto de 1998, bin Laden apresentou seu cartão de visitas, na esquina das avenidas Moi e Haile Selassie, pela qual passam milhares de quenianos todos os dias. Começou ali a se tornar o terrorista mais procurado do mundo.
Seu alvo foi a embaixada dos EUA. Por volta das 10h, um caminhão cheio de explosivos foi detonado por um terrorista suicida, e 219 pessoas morreram. Ironicamente, a maior parte deles de quenianos que trabalhavam num prédio de escritórios ao lado da embaixada, que não tinha nada a ver com a história. Praticamente na mesma hora, outra explosão matou mais 11 em frente à embaixada americana em Dar es Salaam, na Tanzânia.
Hoje, onde ficava a embaixada, há um parque e um memorial.

Logo na entrada, pode-se ver uma escultura de gosto duvidoso, feita com material retorcido recuperado dos escombros.

Bancos, jardins, uma fonte (que ontem estava desligada) e placas com citações de ícones do pacifismo como Gandhi e Martin Luther King completam o cenário. Há ainda um muro de granito preto, com os nomes das vítimas, uma cópia do Memorial da Guerra do Vietnã, em Washington.
Ao lado do parque, uma pequena sala acomoda um pequeno museu com fotos e um vídeo sobre o ataque. Ontem, um grupo de estudantes de uns 12 anos de idade acompanhava o documentário (mas pareciam mais interessados em mim, no fundo da sala).
O ataque mudou os parâmetros de segurança nas representações diplomáticas dos EUA no mundo inteiro. É inconcebível hoje que uma embaixada funcione num local como aquele, movimentado e cercado por outros prédios. Como explica a antiga embaixadora americana, atualmente é preciso haver uma zona intermediária de pelo menos 30 metros entre a rua e o muro da embaixada. Naquele local, não havia espaço para isso.
A explosão das embaixadas em Nairobi e Dar es Salaam não foi o primeiro ataque da Al Qaeda, outra quase desconhecida na época, mas foi um dos seus primeiros sucessos de marketing, digamos assim. Foi fundamental para Bin Laden ganhar confiança para, três anos depois, atacar as torres gêmeas.
Escrito por Fábio Zanini às 04h49

Fábio Zanini