Bali 40 graus - Despachos da Conferência do Clima
 

Um Carnaval na Tunísia

TÚNIS (TUNÍSIA) - “One, two, three! Viva l´Argelie!”.

Em ritmo cadenciado, hipnotizante, este era o grito, numa mistureba divertida de inglês e francês, que saía da garganta de milhares de jovens ensandecidos com a emocionante classificação da Argélia para a Copa do Mundo da África do Sul. Foi preciso realizar um jogo desempate contra o Egito, em campo neutro (no Sudão) para definir quem se classificaria. No final, 1 a 0 para a equipe de verde do Magreb.

O grito de guerra não era a única coisa improvável do evento. O local da comemoração era igualmente estranho. Pois estávamos não em território argelino, mas na vizinha Tunísia, que havia perdido sua própria chance de ir à Copa alguns dias antes, numa vitória para a limitada seleção de Moçambique.

Presenciei a comemoração no último dia 19, no centro de Túnis, a capital da Tunísia. Está certo que ali vive uma grande diáspora argelina, que obviamente não se continha de felicidade, mas deu para perceber uma enorme alegria também dos moradores locais.

Me diga: você sairia às ruas para comemorar a classificação da argentina? Os portugueses celebrariam extasiados um triunfo da Espanha? E os italianos com relação aos franceses? Vizinhos geralmente são rivais amargos no campo do esporte (e em outros campos também).

Como explicar o que aconteceu naquela noite em Túnis, a agradável capital da Tunísia? Como entender o fato de as principais artérias do centro da capital terem sido tomadas por buzinaço e as bandeiras verdes de um país vizinho?

Não tenho muito a resposta. O “chamado da tribo” é um ingrediente, obviamente. Em outras circunstâncias, o Egito, rival derrotado pela Argélia, poderia muito bem ter sido o beneficiário da torcida tunisiana. Ambos são países árabes e muçulmanos.

Mas a identidade com a Argélia é mais forte. Ex-colônia francesa, compõe, com a Tunísia e o Marrocos, um triunvirato conhecido como “Magreb” (vem do árabe “ocidente”, em relação à sua localização no oeste do mundo árabe). 

São países que atuam de maneira muito parecida na esfera política internacional e têm laços culturais, étnicos e históricos fortíssimos, apesar de uma certa heterogeneidade econômica.  A Tunísia é muito mais desenvolvida que o Marrocos e, principalmente, a Argélia.

Na cabeça daqueles jovens ensandecidos, portanto, prevaleceu a conclusão de que pelo menos um magrebiano irá para a Copa. De alguma forma, na África do Norte, a solidariedade intratribal fala mais alto.

Mas o mistério da alegria na noite de Túnis não se resolve. Afinal, uruguaios e argentinos, ou colombianos e venezuelanos, por exemplo, também são feitos da mesma “costela” cultural e histórica. E estou para ver um comemorando o sucesso do outro...

Escrito por Fábio Zanini às 11h13

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Chegou Pé na África, o livro!

Olá!

Tem alguém aí?

Ainda estou de férias, mas interrompi brevemente para contar uma novidade das boas. Aos muitos que ao longo do último ano me perguntavam sobre "Pé na África, o livro", chegou a resposta. Está pronto e sai agora, pela editora Publifolha.

Para quem acompanhou minha viagem entre março e agosto do ano passado, por 13 países da África, está aí uma chance de reviver várias das histórias que contei nesse blog, com mais detalhes, além de outras que na época não couberam. Também faço uma análise histórica, política e social mais aprofundada sobre cada um dos lugares por onde estive. Algumas coisas um tanto assustadoras que eu não contei sobre o Zimbábue na época, para não preocupar minha família no Brasil (e também para não provocar as autoridades locais), estão lá. Como diz um amigo, é uma espécie de "Proibidão do blog". E tem fotos, mapas e o "making of" de cada passo da viagem.

Quem só quem conheceu esse blog recentemente poderá entender de onde ele surgiu. E para todos que se interessam pela África, por jornalismo e por viagens, espero que seja uma pequena contribuição.

Enfim, esqueça o novo livro do Dan Brown. Lançamento literário de fim de ano é Pé na África!

No link do lado direito desta página você já pode comprar. Em breve, estará nas livrarias.

Em Brasília, onde vivo, farei um lançamento em 10 de dezembro, na Livraria Cultura do Casa Park Shopping, a partir das 19h30 . Quem puder comparecer me deixará muito honrado!

Bem, é desnecessário dizer como estou feliz que o projeto Pé na África finalmente culmine nesse livro. E só tenho a agradecer a vocês, queridos leitores! Muito obrigado pelos comentários, elogios e críticas durante todo esse tempo. Valeu!

Escrito por Fábio Zanini às 09h56

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Férias!

Amigos leitores,

Desde que voltei da minha viagem à África no ano passado, há longos 15 meses, não tiro férias. Amanhã isso se resolve. Saio de viagem e retorno no final de novembro. Esse blog ficará sem atualização durante esse período.

Mas mesmo nas férias não deixarei de pisar no nosso querido continente. Aguardem detalhes.

Até a volta!

Escrito por Fábio Zanini às 15h40

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Saramago sobre a África

A dica é da leitora Luiza Romão.

José Saramago, o grande escritor português e prêmio Nobel de literatura, mantém um blog (“O Caderno de Saramago”) em que comenta assuntos diversos. No final de agosto, fez um texto interessante sobre a África (foto do Greenpeace).

Bastante poético, inicialmente pessimista e, para minha opinião, algo demagógico (não acho que a culpa dos problemas da África seja quase que exclusivamente do “homem branco”, apesar da parcela expressiva de responsabilidade do colonizador).

http://caderno.josesaramago.org/2009/08/11/africa/

Mas no final, Saramago acerta na mosca. “É um erro entregar ao futuro o encargo de julgar os responsáveis pelo sofrimento das vítimas de agora, porque esse futuro não deixará de fazer também as suas vítimas”, diz ele. Para bom entendedor, uma defesa apaixonada dos tribunais internacionais para julgarem crimes de guerra, tão combatidos pelos que temem “desestabilizar” o continente.

Aqui está, a opinião de um ícone da literatura sobre a África. Mantive sua grafia no original luso.

 “Em África, disse alguém, os mortos são negros e as armas são brancas. Seria difícil encontrar uma síntese mais perfeita da sucessão de desastres que foi e continua a ser, desde há séculos, a existência no continente africano.

O lugar do mundo onde se crê que a humanidade nasceu não era certamente o paraíso terrestre quando os primeiros “descobridores” europeus ali desembarcaram (ao contrário do que diz o mito bíblico. Adão não foi expulso do éden, simplesmente nunca nele entrou), mas, com a chegada do homem branco abriram-se de par em par, para os negros, as portas do inferno.

Essas portas continuam implacavelmente abertas, gerações e gerações de africanos têm sido lançados à fogueira perante a mal disfarçada indiferença ou a impudente cumplicidade da opinião pública mundial. Um milhão de negros mortos pela guerra, pela fome ou por doenças que poderiam ter sido curadas, pesará sempre na balança de qualquer país dominador e ocupará menos espaço nos noticiários que as quinze vítimas de um serial killer.

Sabemos que o horror, em todas as suas manifestações, as mais cruéis, as mais atrozes e infames, varre e assombra todos os dias, como uma maldição, o nosso desgraçado planeta, mas África parece ter-se tornado no seu espaço preferido, no seu laboratório experimental, o lugar onde o horror mais à vontade se sente para cometer ofensas que julgaríamos inconcebíveis, como se as populações africanas tivessem sido assinaladas ao nascer com um destino de cobaias, sobre as quais, por definição, todas as violências seriam permitidas, todas as torturas justificadas, todos os crimes absolvidos.

Contra o que ingenuamente muitos se obstinam em crer não haverá um tribunal de Deus ou da História para julgar as atrocidades cometidas por homens sobre outros homens. O futuro, sempre tão disponível para decretar essa modalidade de amnistia geral que é o esquecimento disfarçado de perdão, também é hábil em homologar, tácita ou explicitamente, quando tal convenha aos novos arranjos económicos, militares ou políticos, a impunidade por toda a vida aos autores directos e indirectos das mais monstruosas acções contra a carne e o espírito.

É um erro entregar ao futuro o encargo de julgar os responsáveis pelo sofrimento das vítimas de agora, porque esse futuro não deixará de fazer também as suas vítimas e igualmente não resistirá à tentação de pospor para um outro futuro ainda mais longínquo o mirífico momento da justiça universal em que muitos de nós fingimos acreditar como a maneira mais fácil, e também a mais hipócrita, de eludir responsabilidades que só a nós nos cabem, a este presente que somos.

Pode-se compreender que alguém se desculpe alegando: “Não sabia”, mas é inaceitável que digamos: “Prefiro não saber”. O funcionamento do mundo deixou de ser o completo mistério que foi, as alavancas do mal encontram-se à vista de todos, para as mãos que as manejam já não há luvas bastantes que lhes escondam as manchas de sangue. Deveria portanto ser fácil a qualquer um escolher entre o lado da verdade e o lado da mentira, entre o respeito humano e o desprezo pelo outro, entre os que são pela vida e os que estão contra ela. Infelizmente as coisas nem sempre se passam assim.

O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses.

Em tais casos não podemos desejar senão que a consciência nos venha sacudir urgentemente por um braço e nos pergunte à queima-roupa: “Aonde vais? Que fazes? Quem julgas tu que és?”. Uma insurreição das consciências livres é o que necessitaríamos. Será ainda possível?"

 

Escrito por Fábio Zanini às 17h48

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Um prêmio sem vencedores

Ficou sem vencedor a edição deste ano de um dos prêmios mais esquisitos já criados. O Mo Ibrahim Prize, inventado pelo magnata das telecomunicações sudanês de mesmo nome, não conseguiu encontrar uma pessoa que preenchesse os pré-requisitos para a bolada de US$ 5 milhões ao longo de dez anos, e depois mais US$ 200 mil por ano pelo resto da vida, para os agraciados. É o maior prêmio individual concedido no mundo (o Nobel agracia o vencedor com “apenas” US$ 1,5 milhão).

 

O que há de diferente (e polêmico) sobre esse prêmio é que ele é conferido a ex-presidentes africanos que demonstraram ser bons governantes e construtores de sistemas democráticos em seus países. Não há muitos, portanto. Líderes populares que decidem deixar o poder voluntariamente, uma exceção num continente em que um mesmo sujeito passa três décadas no governo, venceram as duas primeiras edições do prêmio: Joaquim Chissano, de Moçambique, e Festus Mogae, de Botsuana.

 

Em 2009, segundo o comitê que decide quem vence o prêmio, ninguém se destacou. Estranho, tendo em vista que pelo menos dois ex-presidentes deixaram o poder sem resistências nesse período e poderiam perfeitamente se encaixar no critério: John Kufuor, em Gana (cujo partido foi derrotado na eleição presidencial) e Thabo Mbeki, da África do Sul (removido do cargo pelo seu próprio partido).

 

O comunicado oficial do comitê do prêmio celebra “o progresso feito na governança de alguns países africanos, enquanto nota com preocupação recentes revezes em outros”. Sem grandes explicações, diz apenas que  neste ano, o comitê do prêmio considerou alguns candidatos possíveis. No entanto, após uma análise profunda, não foi possível escolher num vencedor”.

 

Talvez seja uma constatação de que os nobres objetivos do dr. Ibrahim não estejam funcionando. A idéia por trás do prêmio é dar um incentivo a que presidentes e líderes africanos se comportem de maneira razoável. Há os que digam que muito melhor seria aplicar essa dinheirama em projetos sociais que beneficiem mais de uma pessoa. Mas há quem pondere que um presidente que governe de maneira responsável causa muito mais impacto positivo para um país.

 

O fato é que em 2009, a África continuou a ter problemas de corrupção, golpes de Estado e governos falidos. Mauritânia, Madagascar e Guiné são alguns exemplos. O recado é claro: não será um prêmio, por mais generoso, que mudará de forma artificial problemas estruturais e históricos de um continente.

Escrito por Fábio Zanini às 20h30

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Sem Joel, Copa perde um pouco da graça

Vuvuzelas de luto. Joel Santana foi demitido hoje do cargo de técnico da seleção sul-africana.

 

 

Surpresa? Sim e não.

 

“Sim” porque há meros quatro meses Joel era venerado pelos torcedores locais por ter levado a medíocre equipe do Bafana Bafana a um respeitável quarto lugar na Copa das Confederações. Mas “não” porque desde então a inacreditável sequência de derrotas para equipes que são o fim da picada (como a Islândia) tornou a saída de Joel cada vez mais uma certeza. Hoje ele se foi.

 

Todo mundo tem um pouco de razão nesse triste episódio. É difícil não entender o desespero das autoridades sul-africanas com o risco iminente de um vexame no ano que vem, quando a Copa chega à África do Sul. Sob pressão, os cartolas tremeram na base e descontaram no treinador, como acontece em qualquer equipe do mundo. Nada de anormal aqui.

 

Mas é fato também que Joel pegou um rabo de cometa. Nunca teve vida fácil. Precisou assumir uma seleção de supetão, após a saída inesperada de Carlos Alberto Parreira, no ano passado. Segundo Joel me contou numa entrevista em Johanesburgo há pouco mais de seis meses, foi o próprio Parreira quem ligou para sua casa convidando-o a assumir seu lugar.

 

Joel teve pouco tempo para mostrar serviço antes que viessem as primeiras cobranças. Em abril, pouco antes do início da Copa das Confederações, foi humilhado publicamente por Danny Jordaan, presidente do comitê organizador da Copa, que cobrou dele que pelo menos passasse à semifinal da competição. Joel foi lá e calou o linguarudo Jordaan.

 

Agora, nova humilhação. Teve de se submeter a um esdrúxulo comitê de três treinadores sul-africanos que avaliaram seu trabalho. O resultado era previsível. Imagine Dunga avaliado por Wanderley Luxemburgo, Leão e Renato Gaúcho. Mostraram-lhe a porta de saída.

 

Joel tinha vários planos para a seleção. Na mesma entrevista, me disse que pretendia trazer os Bafana para o Brasil no final do ano, para um “camping” (foi o termo que ele usou). Sua idéia era botar o time para jogar contra grandes equipes do futebol nacional, para pegar experiência. Depois, faria o mesmo na Alemanha.

 

Os planos foram por água abaixo. Para completar a sensação de pastiche, fala-se na volta de Parreira.

 

O episódio todo mostra duas coisas. Primeiro, a África do Sul precisa se profissionalizar muito ainda (em comparação, o futebol brasileiro parece a Premier League).

 

Segundo (e talvez mais importante), sem Joel, sua cara de bonachão, suas tiradas e seu incrível e mundialmente famoso inglês macarrônico, a Copa acabou de perder um pouquinho de sua graça...

Escrito por Fábio Zanini às 20h24

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Uma entrevista polêmica sobre a África

Dambisa Moyo é a nova enfant terrible africana. Nascida na Zâmbia, migrou para os EUA, onde fez carreira no mercado financeiro. Tem idéias fortes sobre como acabar com a pobreza em seu continente de origem que, naturalmente, vêm com um forte viés liberal. E ela tem também um senso agudo de marketing.

Moyo deu a entrevista abaixo à repórter Andrea Murta, minha colega da Folha de S. Paulo (cobrimos juntos a eleição no Zimbábue no ano passado, em que pelei de medo dos capangas de Robert Mugabe, como a Andrea foi testemunha) e cedeu os, digamos, direitos para Pé na África.

Suas idéias estão em um livro recém lançado, “Dead Aid” (algo como “ajuda morta”), em que defende um tratamento de choque para os africanos: chega de ajudá-los. A ajuda causa dependência, fomenta a corrupção e toma o lugar da indústria local (foto da AP).

 

 

Outras idéias suas são ainda mais polêmicas. Dambisa Moyo morre de amores pelos investimentos na África da China, uma ditadura que não se importa muito com genocídios. Também prega um regime de “despotismo esclarecido” em alguns países antes que se tornem democracias.

Sua receita para substituir a ajuda internacional é mais comércio, mais investimentos e maior uso do mercado global de títulos soberanos.

 

Leia abaixo a entrevista:

 

Por Andrea Murta

 

FOLHA - Como países doadores e governos africanos têm recebido sua proposta de interromper em definitivo doações financeiras em cinco a dez anos?
DAMBISA MOYO -
Deixe-me esclarecer algo: esse prazo de cinco anos é só um exemplo que eu dou no livro. Obviamente, os países são diferentes, e não podemos fixar cegamente um prazo de cinco anos para o fim de doações a todos eles. Mas eu passo muito tempo falando com ministros de desenvolvimento em países doadores, muito tempo com líderes africanos, inclusive presidentes, e todos estamos do mesmo lado. Todos concordamos que não podemos ter doações para sempre. Esta é a boa notícia.
Onde há algum desacordo, e por isso a minha experiência tem sido tão interessante, é que eu acredito que precisamos ter uma estratégia transparente e clara para cada país. Precisamos dizer “Ok, o país X está neste ponto de desenvolvimento, então vamos dar a ele mais 20 anos”. E precisamos começar a implementar políticas que permitam isso. Alguns países não se sentem muito confortáveis em discutir esses pontos. Mas no geral todos concordam que o sistema de doações não está fazendo aquilo a que se propõe. Não está reduzindo a pobreza, nem promovendo crescimento.


FOLHA - Mas se o problema é a forma como a ajuda está sendo dada ou como o dinheiro é gasto, não seria melhor mudar a estratégia de transferência de fundos em vez de acabar com ela?
MOYO -
Eu não acredito nisso, por duas razões. Primeiro, porque não há nenhum país no mundo hoje que alcançou sucesso econômico e reduziu a pobreza por meio de doações externas. Não aconteceu assim no Leste Europeu, nem na América, nem foi assim para os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China). Todos os países que conseguiram se desenvolver não o fizeram simplesmente esperando por ajuda externa, mas sim adotando as políticas que eu sugiro no livro [acesso a mercados de crédito, investimento em comércio, formação de uma classe média pagadora de impostos por meio da geração de empregos, parcerias com a China].
Segundo, porque já tentamos muitas formas diferentes de usar o dinheiro externo. Direcionamos fundos para infraestrutura nos anos 1960; para o combate à pobreza nos anos 1970; para ajustes estruturais nos anos 1980; democracia nos anos 1990; e agora temos esse modelo de “caridade”. Nenhuma dessas abordagens funcionou. Porque a ideia de dar algo a alguém sem exigir nada em troca não cria os incentivos corretos de que precisamos para garantir crescimento econômico.
Nós, como sociedade global, sabemos o que gera crescimento econômico. Temos experiência suficiente para isso. Implementar um modelo de desenvolvimento baseado em doações, mesmo sem nenhum caso documentado em lugar nenhum de que isso pode gerar crescimento a longo prazo e aliviar a pobreza, simplesmente não faz sentido.


FOLHA - No livro a sra. afirma que o volume de doações já vem diminuindo na última década. Isso não está forçando algumas mudanças?
MOYO
- Sim. Já estamos vendo uma onda na direção correta. Vários países, como Gana e Gabão _que emitiram títulos em mercados internacionais_, além de África do Sul e Botsuana, já estão buscando novas formas de fomentar o desenvolvimento. Mas precisamos ver muito mais iniciativas como essa. Os países africanos precisam aceitar a realidade. Levantar dinheiro para o desenvolvimento econômico vai demandar muito mais do que pedir dinheiro. É preciso encontrar formas novas para financiar o crescimento, seja entrando em mercados de capitais, aumentando o comércio, encorajando investimentos internacionais diretos, construindo uma base fiscal... Alguns países acham que precisam apenas sentar e esperar que alguém assine um cheque. O que eu sugiro é que essa filosofia está ultrapassada e não tem mais lugar.
Claro, basta olhar para o continente para ver os países que ainda estão muito longe desta abordagem. Ainda temos Estados falidos na África, muitos países onde a taxa de crescimento é negativa, países ainda em guerras... houve quatro golpes de Estado no último ano.
Mas veremos ainda mais “Somálias” [que mal tem um governo] se não ajustarmos o modelo de desenvolvimento africano. Teremos muito mais gente nas ruas, muito mais instabilidade, mais golpes e agitações políticas e econômicas. As pessoas se esquecem de que mais da metade da população do continente tem menos de 24 anos. Estão desesperados por empregos e oportunidades.


FOLHA - A sra. vê risco de que a diminuição do envio de recursos gere disputas violentas entre grupos locais pelo pouco que chega aos países?
MOYO -
Não. A África na década de 1990 teve mais guerras civis e agitações do que o resto do mundo combinado. Não dá para piorar muito. Temos Estados falidos, temos os Zimbábues, as Somálias, grupos inteiros de países que não funcionam direito. A pergunta é: como podemos incentivar governos africanos a fazer a coisa certa? Minha resposta é: eles farão a coisa certa se tiverem de prestar contas ao povo africano e não a doadores internacionais. E para isso, é preciso tirá-los do esquema das doações. Precisam responder a uma base fiscal, uma classe média que paga impostos.


FOLHA - A crise econômica global não dificultou a abordagem de incentivar acesso a mercados de crédito?
MOYO -
Sim e não. Acho que se o interesse for em mercados tradicionais, como EUA e Europa, sim, claro, obviamente há problemas enormes. Mas há outros países que têm grandes reservas de moeda e estão loucos para investir na África. Lugares como a China, o Oriente Médio, a Rússia estão de olho nisso. Minha visão é positiva: se os mercados estão fechados no Ocidente, o que mais podemos fazer para levantar fundos? É uma questão de pensar em formas alternativas.


FOLHA - Alguns críticos usam o exemplo do dinheiro para a compra de remédios contra a Aids para dizer que a proposta de interromper a ajuda é irresponsável. Como a sra. responde?
MOYO -
O problema da África é estrutural. A pergunta fundamental que devemos fazer é: quem é responsável por oferecer serviços públicos como educação e saúde? Os líderes africanos, eleitos pelos africanos, ou os ocidentais? Como africana que vota em líderes africanos, penso que é meu governo quem deve me oferecer serviços. É claro que, quando há cenários emergenciais -como é o caso hoje da Aids- entendo o raciocínio de se ter intervenção externa na forma de doações. Mas minha preocupação é com o longo prazo. Não é uma boa política depender dos EUA, que hoje têm quase 10% de desemprego e outras prioridades. O que faremos se a fonte secar? Temos que ter soluções independentes.

 

FOLHA - Seria como o exemplo do fabricante de redes contra o mosquito da malária -é melhor investir para que ele aumente a produção do que doar milhares de redes que ele ainda não consegue produzir?
MOYO -
Exatamente. Não vejo contradição nisso. Veja o exemplo do Brasil e dos outros países do Bric: eles se transformaram, e não por meio de um ciclo dependente de doações. O Brasil tem projetos inovadores que deveriam ser examinados. Acho que podemos aprender mais com os países que estão se desenvolvendo mais recentemente, como os Brasis do mundo, do que com os que já são desenvolvidos há séculos.


FOLHA - O livro defende parcerias da África com a China, que muitas vezes são criticadas pelo apoio que Pequim dá a governos com histórico negativo em direitos humanos. Não é um parceiro complicado?
MOYO -
É uma hipocrisia os EUA por exemplo criticarem investimentos chineses na África. Eles tomam empréstimos da China o tempo todo. Ou a questão dos direitos humanos incomoda ou não incomoda, não dá para aplicar isso seletivamente. Os africanos não somos crianças. Temos políticos que devem atentar para os problemas africanos. Como cidadã, não quero ocidentais me dizendo o que posso ou não fazer. Por que vamos votar se ainda precisamos de chancela americana ou europeia para os investimentos feitos na África?
Além disso, os ocidentais fazem exatamente a mesma coisa [defender governos onde há interesses econômicos em jogo]. Eu tenho um amigo sudanês que diz que prefere ter comida na mesa e viver sob um déspota do que não ter comida na mesa e ainda assim viver sob um déspota. Não é uma situação perfeita, mas para muitos africanos é uma melhora.


FOLHA - Declarações da sra. sobre a eficácia de jovens democracias africanas versus autocracias moderadas geraram controvérsia. Qual é sua posição sobre  o assunto?
MOYO -
Eu fui citada incorretamente por aí. Quero deixar claro que acredito na democracia. Todos queremos viver em uma sociedade livre. Mas o que digo no livro é que não creio ser possível ter processos democráticos sólidos sem ter antes uma classe média. O governo precisa poder recolher impostos. Até lá, não haverá representatividade real. Hoje, na África, você pode ficar no poder pelo tempo que quiser desde que alguém te dê dinheiro. E aí, precisam de doações, porque é preciso pagar um Exército. Em outras palavras: acredito na democracia, mas não teremos uma democracia crível até vermos crescimento econômico sólido.

Escrito por Fábio Zanini às 20h24

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"Herança do apartheid vai ajudar na Copa"

Em menos de um ano, a África do Sul sediará o evento em que espera ser reconhecida definitivamente como uma nação madura, democrática e estável, longe do estigma de ter sido o palco do apartheid.

 

Mas o legado do regime racista, que perdurou de 1948 a 1994, não apenas perdura 15 anos depois de seu fim, como deve acabar ajudando no sucesso da Copa do Mundo.

 

Quem aponta a ironia é Moeletsi Mbeki, 64, um dos principais analistas políticos sul-africanos, em entrevista ao Pé na África.

Sua tese: a separação física imposta pelo apartheid, que confinou negros pobres em favelas distantes dos centros urbanos, ajudará a conter ondas de violência e mantê-las afastadas dos olhos de turistas.

 

“Mesmo se houver batalhas entre a polícia e trabalhadores, isso não vai afetar o evento. A infraestrutura da Copa do Mundo fica na cidade, longe”, diz Mbeki, ligado ao South African Institute of International Affairs, uma ONG.

 

Um dos países mais violentos do mundo, com índices de homicídio 50% maiores do que os brasileiros, a África do Sul teve duas grandes ondas recentes de violência recentes: uma em julho, contra a demora do governo em cumprir promessas de campanha, e outra há um ano e meio, contra imigrantes, que deixou 62 mortos.

 

Culpa, segundo ele, de promessas irresponsáveis do governo, da corrupção do regime e da crescente desigualdade de renda entre os negros.

Crítico ácido do governo, Mbeki é considerado a ovelha negra de uma família de alto pedigree no Congresso Nacional Africano, o partido governista há 15 anos.

 

O pai Govan (1910-2001), colega de Nelson Mandela na prisão, é um dos totens do movimento anti-apartheid. O irmão mais velho Thabo foi presidente sul-africano entre 1999 e 2008, e um alvo constante das críticas do caçula.

 

*

 

Pé na África - Por que a explosão de raiva na África do Sul?

Moeletsi Mbeki - Há uma série de razões. Uma são os sindicatos, que estão negociando seus novos acordos. Eles seguem ciclos periódicos, que estão se encerrando agora. Estão mostrando sua força e estão nervosos. Também há, claro, a Copa do Mundo, que coloca o governo e as empreiteiras numa posição vulnerável, porque há prazos que elas têm que cumprir para construir os estádios. Isso facilita a que os sindicatos se tornem atuantes. Eles sabem que assim podem conseguir aumentos maiores. Se os sindicatos conseguem, os outros trabalhadores [não-sindicalizados] também vão querer. Aumentos que chegam ao dobro da inflação estão sendo dados por causa dessa situação.

 

Pé na África - Como isso ocorre se o nível de sindicalização é relativamente baixo, e a violência maior acontece entre os desempregados?

Mbeki - Essa é outra dimensão, de longo prazo. Tem relação com as pessoas que vivem nas favelas, que na última eleição ouviram promessas sobre muitas coisas. O presidente Jacob Zuma rodou o país durante a última campanha eleitoral prometendo criar meio milhão de empregos antes do final do ano. Essas pessoas viveram em favelas nos últimos 15 anos. Agora estão dizendo que votaram no atual governo, que muito foi prometido e que estão cansados de esperar.

 

Pé na África - O presidente foi eleito em abril. Não é cedo para tanta cobrança?

Mbeki - Na África do Sul, nós não temos o sistema norte-americano de eleições em indivíduos. Nós votamos no partido. As pessoas têm votado e eleito o Congresso Nacional Africano nos últimos 15 anos, não apenas nos últimos meses. Nos comitês locais do partido, o nível de corrupção está crescendo muito rapidamente. As pessoas podem ver essa corrupção de perto, e a eleição não fez diferença nenhuma nessa situação.

 

Pé na África - Então o que o sr. está dizendo é que as pessoas não estão decepcionadas com Zuma, mas com o partido.

Mbeki - Zuma, como um indivíduo, não significa nada em nosso sistema eleitoral. As pessoas estão desapontadas com o partido, especialmente seu desempenho no nível local.

 

Pé na África - Ele foi irresponsável de prometer tanto num momento de crise?

Mbeki - Totalmente. Zuma é um populista e, como todos os populistas, seu discurso se molda à platéia para a qual ele se dirige. Se a platéia está animada, promete coisas de uma forma animada. Ele promete o que a audiência gosta de ouvir.

 

Pé na África - Por outro lado, a população está ávida por mudanças sociais, após 15 anos de política econômica ortodoxa. Como ele podia não fazer promessas?

Mbeki - É uma boa análise, sem dúvida, mas o que temos aqui na África do Sul, em termos gerais, é que nossa economia está se desindustrializando. Significa que nossas indústrias manufatureiras estão declinando. Significa que temos desemprego crescente. Nossa agropecuária também está em declínio. Muitas pessoas perderam seus empregos nos últimos 15 anos.

 

Pé na África - Mesmo a oposição admite que houve avanços. Criou-se um sistema de assistência social. Casas foram construídas. Acesso a água, eletricidade, tudo isso melhorou. O sr. não está sendo muito duro na avaliação?

Mbeki - Em alguns pontos, o governo foi bem-sucedido na economia em razão dos altos preços das commodities minerais, entre 2000 e 2007. A economia estava declinando, mas os preços das commodities subiam. O governo conseguiu expandir a rede de bem-estar social. Agora, os preços destes produtos caíram, e nossa economia continua o processo de desindustrialização. O desemprego aumenta. Por causa da crise econômica mundial, esses dois fatores estão convergindo agora. É o dia da verdade. Há dez ou 15 anos, a indústria manufatureira era a principal empregadora no nosso país. Hoje, está em terceiro lugar. A indústria emprega cada vez menos, a inflação sobe, principalmente a dos alimentos. Esses são os temas que estão fazendo as pessoas ficarem nervosas.

 

Pé na África - O sr. diria que essa é uma revolta contra a elite política e econômica? Há corrupção também no nível nacional?

Mbeki - Sim. As desigualdades de renda entre os negros hoje é enorme, e cresceram muito desde o fim do apartheid. A elite negra se tornou muito rica, graças a bons empregos obtidos junto ao Estado. Mas as pessoas pobres, que esperam algo do Estado, estão descobrindo que não têm sistema de esgoto e água. Os representantes que elegeram recebem salários enormes. Há outro problema: a ostentação. Da última vez que fui ao Brasil, três ou quatro anos atrás, passei dez dias no Rio de Janeiro e vi apenas uma BMW. Mas se você vier à África do Sul, o primeiro carro que você vê é uma BMW. Nossa nova elite negra adora uma extravagância. Adora ostentar. Nossa desigualdade de renda é ainda maior do que no Brasil, e você pode testemunhar isso andando nas ruas.

 

Pé na África - Em sua opinião, a situação pode sair de controle?

Mbeki - Há potencial de muito perigo. A insurreição que ocorre nas favelas pode levar a violência política, entre a polícia, dirigentes do CNA e a massa dos pobres. Hoje nós vemos dirigentes locais do partido carregando armas. Muitas pessoas foram mortas por eles em manifestações. É assustador. Todos estão ficando mais nervosos. Mata-se dois nesta semana, na semana que vem mais três, e antes que você perceba, ocorre uma grande explosão.

 

Pé na África - Podemos ver a repetição do que ocorreu no ano passado, quando 62 pessoas morreram numa onda de violência contra imigrantes?

Mbeki - Poucas pessoas morreram agora, mas por um lado essa onda é mais preocupante para as autoridades. Porque é diretamente voltada contra o governo. A situação é muito perigosa e volátil.

 

Pé na África - O que aconteceu com a “nação arco-íris” de Nelson Mandela, da transição exemplar após o fim do apartheid?

Mbeki - O conflito hoje na África do Sul não é mais entre negros e brancos, como antes de 1994. Nesse aspecto, nós realmente somos uma nação arco-íris. O que temos na África do Sul é um conflito de classes entre os negros, a nova classe média negra, a nova elite negra, contra as massas pobres nas favelas. Há uma competição por recursos econômicos entre negros.

 

Pé na África - O governo errou no passado ao focar demais na superação do conflito entre negros e brancos e não o suficiente na questão da desigualdade entre negros?

Mbeki - Sim. Mas também penso que o governo adotou uma política econômica muito influenciada por oligarcas econômicos e o Consenso de Washington. E não viram o estrago que essas duas influências teriam no nível de emprego e no bem-estar social.

 

Pé na África - Como é possível sediar uma Copa do Mundo nessa situação, em menos de um ano?

Mbeki - A África do Sul é um organismo social muito peculiar, em razão da história do apartheid. A massa dos negros ainda hoje vive nas townships [favelas], que ficam a milhas de distância das cidades. Mesmo se houver batalhas entre a polícia, líderes políticos e trabalhadores, isso não vai afetar o evento. Porque a infraestrutura da Copa do Mundo fica na cidade, longe.

 

Pé na África - Mas é possível isolar esses dois mundos?

Mbeki - Sim, em razão da própria geografia das favelas, desenhada pelo regime do apartheid. É fácil isolá-las.

 

Pé na África - Não é irônico que o evento no qual a África do Sul aposta para virar a página do apartheid dependa em certa medida da estrutura montada pelo apartheid?

Mbeki - [risos] Bem, se eu fosse Sepp Blatter [presidente da Fifa] eu só teria a agradecer ao regime do apartheid. Com certeza, é extremamente irônico. Isso nos faz pensar um pouco sobre como está nosso país atualmente.

Escrito por Fábio Zanini às 19h51

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Lula e Zuma

Jacob Zuma, o homem mais poderoso da África, esteve aqui hoje.

 

Já o tinha visto pessoalmente, mas à distância ou então de passagem. Hoje foi a primeira vez que pude comprovar um dos lugares-comuns mais associados ao presidente sul-africano, o de que é um homem de grande carisma. Bem ao estilo do nosso presidente Lula.

 

Ambos se encontraram hoje de manhã, no Palácio do Itamaraty (sede do Ministério das Relações Exteriores), para a assinatura de atos protocolares nas áreas de comércio e esportes, por causa da Copa do Mundo (foto de Sergio Lima/Folha Imagem).

 

 

Zuma leu um discurso chocho, prometendo cooperação com o Brasil na reconfiguração da ordem geopolítica mundial. Ou algo parecido. Depois respondeu a uma pergunta sobre tráfico de drogas defendendo que quem trafica deve ser punido. Interessante... (A bem da justiça, nosso Lula também não estava lá muito inspirado, e em determinado momento disse até que torcia pela paz mundial).

 

O forte de Zuma é o improviso, o aperto de mãos, o “cair na galera”. É um artista. E extremamente inteligente, antes que entendam esse texto como excessivamente crítico. Zuma é de uma inteligência política rara, uma raposa que dá nó em adversários que na superfície parecem muito mais refinados. E que já teve a morte política decretada várias vezes, apenas para ressurgir mais forte. Um pouco como nosso Lula.

 

Os dois têm muitas semelhanças. São ex-sindicalistas e ex-ativistas com papel importante na queda de regimes autoritários (Lula à frente dos metalúrgicos do ABC, Zuma liderando guerrilheiros contra o apartheid). Veem-se um pouco como irmãos em uma causa, a de dar mais voz ao mundo subdesenvolvido em fóruns internacionais.

 

Mas Zuma acabou de chegar ao poder, e Lula já está lá há sete anos. É natural que o sul-africano se espelhe no brasileiro, e alguns assessores de Zuma dizem abertamente que Lula é um modelo a ser seguido.

 

Até nas constantes referências ao futebol são parecidos. Foi esse o tema da única fala de improviso do presidente sul-africano, quando convidou Lula para visitar seu país na época da Copa do Mundo do ano que vem. “Espero que seja perto da final, em que o Brasil certamente estará, e onde espero que a África do Sul também esteja”, disse ele. Lula deu risada e retribuiu o gracejo também de forma futebolística. Afirmou que ele e Zuma formam um grande time: Lula como ponta de lança, Zuma como zagueiro.

 

Há também uma semelhança, que para mim foi um tanto desagradável. Zuma é refratário a entrevistas, como Lula era no início do mandato. Pedi entrevistas com ele nos últimos três dias, e levei um baile. Não satisfeito, plantei-me no lobby do seu hotel aqui em Brasília durante toda a tarde de hoje. Nada. Só consegui uma risadinha como resposta a meu pedido de “uma perguntinha só, Mr. President, please...”.

 

Lula hoje dá entrevistas a rodo. Quem sabe seu pupilo sul-africano também não muda?

Escrito por Fábio Zanini às 20h11

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Democracia ajuda a crescer?

Uma das questões intrigantes da política mundial é a relação entre democracia e crescimento econômico. Países democráticos crescem mais? O debate é quente na academia. Quem acredita na relação argumenta que níveis sólidos de crescimento e distribuição de renda dependem de regras bem definidas, liberdade para investir, morar e trabalhar e a fiscalização constante que apenas uma democracia pode dar.

 

Quem duvida dela lembra que a democracia é demorada e burocrática, e aponta para a China como exemplo de que uma ditadurazinha pode ser bem melhor.

 

A análise do último Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, divulgada na segunda-feira, oferece exemplos para as duas teses. O país africano com maior IDH é Líbia, um dos regimes mais fechados do planeta. Outro que figurou relativamente bem é uma ditadura de meter medo, a Guiné Equatorial. Apenas uma democracia do continente tem alto desenvolvimento humano, o minúsculo Estado insular das Ilhas Maurício.

 

Mas uma olhada no ranking “relativo”, o dos países cujos IDHs cresceram mais em relação ao ano passado, oferece uma visão mais favorável aos adeptos da importância da democracia para o desenvolvimento. Apenas para lembrar, o IDH obedece uma escala de 0 (pobreza) a 1 (riqueza), baseado numa complexa fórmula que pesa diversos indicadores.

 

Entre os 20 africanos que mais se desenvolveram no último ano, não há nenhuma ditadura absoluta. Numa classificação arbitrária e sujeita a alguma polêmica, identifiquei 13 democracias completas e 7 democracias que eu chamaria de “imperfeitas”, em que há eleições e multipartidarismo, mas por algum motivo estranho o mesmo partido (e o mesmo presidente) sempre ganha as votações.

 

Países recém-saídos de guerras civis horrorosas e agora democráticos estão em plena reconstrução. Serra Leoa foi o terceiro país cujo IDH mais cresceu no mundo nesse ano (aumento de 2,24%). A Libéria ficou em sétimo, com aumento de 1,84%.

 

A República Democrática do Congo, embora uma democracia imperfeita, teve um salto no IDH de 4,85% nesse ano, o maior entre 182 pesquisados. Também aparecem bem na foto democracias como Tanzânia, Moçambique, Maláui, Zâmbia, Botsuana e Gana (Gana, aliás, foi um dos poucos países a pular duas posições no ranking da ONU, indo para a posição 152).

 

Também tiveram ganhos expressivos Angola (em razão do petróleo), Etiópia e Uganda. Nenhuma pode ser considerada um modelo de democracia, mas também não são ditaduras barra-pesada.

 

É um fato que a África viveu uma onda liberalizante na última década e meia. Mais democracias surgiram, e até alguns bons exemplos de boa governança. Regimes opressores e corruptos caíram no Congo, África do Sul, Quênia, Zâmbia e Nigéria, entre outros. Verdade que muitas vezes o que veio a seguir decepcionou. Mas ao menos respira-se ares um pouco mais leves no continente. Falta agora o salto do crescimento econômico.

Escrito por Fábio Zanini às 19h26

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IDH: não é só desgraça

À primeira vista, nada a comemorar para a África no novo Relatório de Desenvolvimento Humano, divulgado hoje pela ONU. É o índice mais aceito mundialmente para medir o nível de bem-estar de um país.

 

Por meio de uma complexa fórmula que pesa diferentes indicadores, como acesso a educação, distribuição de renda e crescimento econômico, chega-se a um índice numérico variando de 0 (pobreza absoluta) a 1 (bem-estar absoluto). Há um intervalo de dois anos entre a aferição dos dados e sua divulgação, então os números de hoje refletem a realidade de 2007.

 

Todos os anos os africanos ocupam com destaque a parte de baixo da tabela, e hoje não foi diferente. Dos 20 países com menor índice entre os 182 pesquisados, 19 são africanos (o infiltrado é o Afeganistão). O mais pobre do mundo continua sendo o Níger, nação desértica no oeste do continente que enfrenta crises cíclicas de fome. Obteve nota 0,340 na escala. A primeira colocada é a Noruega, com índice 0,971. O Brasil ocupou a 75ª posição, com índice 0,813.

 

O Níger é seguido na escala de pobreza pelos afegãos e depois Serra Leoa, República Centro-Africana, Mali, Burkina Fasso, República Democrática do Congo (RDC), Chade, Burundi, Guiné-Bissau, Moçambique e mais uma penca de africanos.

 

Das 53 nações africanas, apenas 3 têm índice de desenvolvimento considerado alto (acima de 0,800): a Líbia, que nada em petróleo, e dois países insulares, que vivem do turismo: Ilhas Seychelles e Ilhas Maurício, no Oceano Índico.

 

Têm índice médio 26 países, enquanto 22 ficaram na mais absoluta pobreza. Por falta de condições de segurança para coleta dos dados, faltaram dois para serem avaliados: Zimbábue (que deve entrar no ano que vem, já que a situação melhorou um pouco no país) e a Somália (essa é um caso perdido, pelo futuro próximo).

 

Notícias deprimentes para o continente, sem dúvida. Mas é só desgraça mesmo? Não. Olhe por outros ângulos, e é possível enxergar um lado positivo.

 

Primeiro porque praticamente todos os países melhoraram suas notas no relatório desse ano com relação ao do ano passado (que reflete a realidade de 2006). Mesmo o coitado do Níger subiu de 0,335 para 0,340. As duas exceções foram Congo-Brazzaville e Chade. Por enquanto, não consigo achar uma explicação.

 

Essa boa notícia tem de ser relativizada pelo fato de que praticamente todos os países do mundo melhoraram suas notas (pelo menos a África manteve o padrão). Mas há algo muito mais interessante que ocorrer nos últimos 12 meses.

 

Comparei os índices desse ano e os do ano passado e fiz uma tabela de quem melhorou mais, percentualmente. Ou seja, quem fez mais progresso. Veja o resultado:

 

1-) República Democrática do Congo

de: 0,371 para 0,389

variação: 4,85%

 

2-) Etiópia

De: 0,402 para 0,414

Variação: 2,99%

 

3-) Serra Leoa

De: 0,357 para 0,365

Variação: 2,24%

 

4-) Angola

De: 0,552 para 0,564

Variação: 2,17%

 

5-) Tanzânia

De: 0,519 para 0,530

Variação: 2,12%

 

Os primeiros não africanos entre os que mais se desenvolveram só aparecem na oitava posição (Azerbaijão e Butão), ainda assim empatados com o africano Burundi. Dos 20 que mais cresceram no ranking, 14 são africanos. Ou seja, o ranking relativo é praticamente a imagem refletida no espelho do ranking em números absolutos.

 

Como explicar o fenômeno? Países em situação de terra arrasada em geral só têm como melhorar. Quem parte de uma situação pior tende mesmo a crescer mais.

 

Mas é preciso entender também que presidentes africanos têm uma incrível capacidade de continuar cavando, mesmo no fundo do poço. E isso agora não aconteceu. Uma onda ainda tímida de democracia, respeito a regras e liberação comercial no continente parece ter surtido algum efeito. Falarei mais sobre isso num próximo texto.

Escrito por Fábio Zanini às 22h26

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A semana sangrenta em Guiné

(Juro que eu sentei na frente do computador disposto a escrever uma história positiva, ou ao menos neutra, sobre a África hoje, mas não teve jeito).

 

A semana na África foi marcada pela matança em Guiné. É a mesma velha história. Um capitão desconhecido derruba num golpe um regime esclerosado. O novato a princípio é recebido com aplausos por uma população desesperada por mudanças, mas começa em pouco tempo a demonstrar comportamento errático. Promete eleições, depois as cancela, depois a reconfirma, mas desde que possa concorrer. Com fraude e intimidação, atinge seu objetivo.

 

Mesmo para a previsível história da África, o que aconteceu na Guiné nos últimos dias é chocante. Estamos falando de um país de 10 milhões de habitantes na costa oeste da África, ex-colônia francesa e maior exportador mundial de bauxita (matéria-prima do alumínio).

 

Metade da população vive abaixo da linha de pobreza. Desde sua independência, em 1958, uma sucessão de péssimos presidentes teve o efeito de uma praga de gafanhotos. Pelos primeiros e longos 26 anos do país, Sekou Touré comandou com mão de ferro a Guiné. De 1984 até o ano passado, o presidente foi Lansana Conte, cuja gestão foi marcada mais pela corrupção do que pela brutalidade (muito embora ele não fosse nenhum Gandhi). Com a morte de Conte depois de uma longa enfermidade em 2008, o jovem capitão Moussa Dadis Camara, de 44 anos, tomou o poder praticamente sem resistência. Desde então, governa (ou desgoverna) o país.

 

Nessa semana, manifestantes de oposição saíram às ruas para protestar contra a intenção do presidente Camara de disputar (e vencer, na prática) a eleição presidencial marcada para o ano que vem. Se isso ocorrer, ele terá descumprido uma promessa solene que fez ao assumir o poder de entregá-lo pacificamente.

 

Na última segunda-feira, o exército, leal ao presidente, abriu fogo contra a multidão na capital, Conakry. Morreram 157 pessoas, um massacre como há muito não se via no continente. Essa é a conta dos manifestantes, que ontem fizeram fila em necrotérios da cidade para reconhecer seus companheiros caídos. O governo reconhece que matou 57 pessoas, o que por si só já é uma cifra gigantesca. A lógica aqui é simples: se o próprio Exército reconhece 57 mortos, então o mais provável é que tenham morrido 157 mesmo, como diz a oposição.

 

A escala do crime é de tal monta que o presidente da Guiné se viu obrigado a admitir que o dia 28 de setembro, o dia do massacre, será “para sempre um símbolo de violência”. Em seguida, dando mais uma demonstração de que seu comportamento é imprevisível e errático, foi às rádios dizer que temia pela sua própria segurança. Ou está de piada e quer se escusar do assassinato em massa que promoveu, ou há realmente algo por trás de seu “medo”. Um golpe dentro do golpe estaria sendo articulado.

 

Com a palavra, a União Africana. Cenas como as que se observaram em Conakry estão mais para a África da década de 70 do que para o que se espera do continente hoje. O fato é que os últimos dois anos foram de retrocesso democrático, após avanços inegáveis. Exemplos: golpes na Mauritânia e em Madagascar, eleição fraudada na Nigéria, fora a violência no Quênia.

 

Contra esses abusos, o órgão regional deveria se levantar. Mas após um estranhamento inicial, se cala. Quem o preside é Muhammar Gaddafi, o ditador da Líbia.

Escrito por Fábio Zanini às 18h47

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Ecos da cúpula

ISLA MARGARITA (VENEZUELA) - Encontros multilaterais (com a participação de vários países) funcionam assim: durante meses funcionários anônimos de chancelarias debatem as minúcias de um documento final com 90% de banalidades (os outros 10% podem ter algum interesse). Deixam o meio de campo preparado para a chegada das grandes estrelas, os presidentes, primeiros-ministros e de vez em quando até reis, que podem assim se dedicar apenas ao que gostam: fazer discursos, contar piadas e bater papo.

 

No encontro da Isla Margarita, a presença de 18 líderes africanos e 9 sul-americanos, além de funcionários de menor escalão de mais 30 países, não tinha mesmo como deixar margem para discussões muito substanciais. Havia outras preocupações. Segurança era uma delas. Vários dos ali presentes mantêm-se no poder com base em esquemas duros de repressão, pelo medo de levarem um golpe. Sabem do que estão falando, já que muitos foram golpistas no passado.

 

Hugo Chávez, o anfitrião, não fez por menos. Ocupou militarmente a praia ao lado do hotel do evento, e entregou a segurança para seus fiéis soldados.

 

 

 

É uma cena inusitada e um tanto intimidadora: militares pedindo crachás de jornalistas.

 

Robert Mugabe, do Zimbábue, circulava cercado por 40 pessoas, muitos deles seus agentes de segurança, mas também um pessoal que veio disposto a aproveitar o paraíso de compras (duty free) que é a Isla Margarita.

 

 

 

Muhammar Khaddafi, vestido com uma túnica que parecia de um dos Três Reis Magos, como sempre, roubou o espetáculo.

 

Sua retórica do socialismo terceiro-mundista estava nos trinques. No lugar reservado à imprensa, cópias em capa dura de seu famoso “Livro Verde”, compêndio de suas doutrinas, foram distribuídas em várias línguas para os jornalistas.

 

“Em todos os fóruns internacionais nós temos maioria e por isso podemos transformar o mundo”, exortou ele à platéia.

 

Foi saudado por Chávez como “um herói deste século e do século passado pela liberdade e igualdade”.

 

Chávez, animado com tantos visitantes, estava impossível e com um repertório novo de piadas sem graça nenhuma. Ao anunciar Jacques Diouf, o senegalês que dirige a FAO, órgão das Nações Unidas sobre alimentação, disse que estava apresentando “Jack, o Estripador da Fome”. Sorrisos amarelos e constrangimento.

 

Não faltaram figuras bizarras no evento, algumas até de dar medo. Teodoro Obiang, o déspota da Guiné Equatorial, titular há 30 anos de um regime corrupto e cruel, ali estava de gravata azul com bolinha branca e lenço combinando. Defendeu respeito aos direitos humanos, e felizmente não cruzou meu caminho. Eu era capaz de fugir em pânico.

 

Outro a aparecer por lá foi o rei Mswati 3º, da Suazilândia, último monarca absoluto da África e um dos últimos do mundo. De terno bem cortado, parecia uma figura respeitável, e não o sujeito com mais de 30 mulheres, escolhidas em medievais festivais entre as mais formosas virgens do país. Seu reino tem a maior proporção de contaminados pela Aids do mundo, mas ali estava ele cobrando respeito a seu governo.

 

A comida estava boa, o hotel era bacana e a conversa entre os colegas fluiu bem. O presidente de Niger, Mamadou Tandja, um dos países mais quentes do mundo, reclamou certa hora de que o ar condicionado do salão de reuniões estava forte demais.

 

Mas fora isso, tudo correu bem. Bem para os dinossauros, com certeza.

Escrito por Fábio Zanini às 21h29

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O que os africanos obtiveram em Margarita

ISLA MARGARITA (VENEZUELA) - A cúpula entre países sul-americanos e africanos acabou ontem, e soterrada pela presença de Lula (meu foco principal como jornalista aqui), pelo histrionismo de Hugo Chávez e os trajes berrantes de  Muhammar Khaddafi (parecia um dos três Reis Magos), houve uma declaração final.

 

Um documento de 28 páginas cheio das boas intenções de sempre, mas com pontos importantes para os dois continentes. Està nesse link: http://www.asavenezuela2009.com.ve/doc/declaracin_final_portugues1.pdf

 

Estes textos finais de eventos multilaterais muitas vezes são genéricos e impossíveis de serem implementados, mas oferecem pistas valiosas sobre o estado geral das coisas.

 

Vou me ater aqui ao lado africano, claro. A primeira coisa que me chamou a atenção foi o item 25, em que as partes signatárias “compartilham a convicção de que recorrer ao pagamento de resgate por terrorismo deverá ser condenado e tipificado como delito”.

 

Isso agride o bom-senso, evidentemente, e me perguntei o que algo tão inusitado estaria fazendo ao lado de platitudes sobre o compromisso com o desenvolvimento econômico. A resposta está no item seguinte: Somália. É uma referência à pirataria nas águas territoriais deste país no extremo leste da África. Os africanos estão incomodados com a disposição de governos e empresas estrangeiras de negociar com piratas que às vezes mantém tripulações como reféns por semanas.

 

Há algo ainda mais revelador. O texto sobre pirataria diz o seguinte: “Reconhecendo os perigos e as consequências negativas provocadas pela pirataria, sublinhamos a necessidade de que a comunidade internacional analise as causas originárias do problema e condene firmemente e desestimule o pagamento de todas as formas de resgate”.

 

Ponto para a África. “Analisar as causas originárias” em terra, em um Estado falido, é urgente. Mas por enquanto o enfoque todo está mesmo em mitigar o problema pagando resgates.

 

Outro ponto diz respeito aos mercenários. Só mesmo uma declaração de países africanos para ainda hoje identificar esse problema de épocas passadas. Mas com razão. O uso de mercenários continua sendo um tema de segurança internacional importantíssimo. Há alguns anos, um grupo contratado por exilados de Guiné Equatorial quase derrubou o governo daquele país (não que o atual governo seja grande coisa).

 

“Reiteramos nossa profunda preocupação com o uso, recrutamento, financiamento, capacitação e transporte de mercenários o qualquer outra forma de apoio a mercenários, em violação aos propósitos estabelecidos na Carta das Nações Unidas”, afirma a declaração.

 

Há também trechos na declaração que fazem o leitor franzir a testa. “Reiteramos que os direitos humanos são universais, indivisíveis e interdependentes, e que a comunidade internacional deve avocar sua completa defesa”. Isso assinado por ao menos 20 ditadores revira o estômago.

 

Outro ponto “exorta a comunidade internacional a condenar toda medida ilegal unilateral e coercitiva como meio de exercer pressão política, militar ou econômica contra um Estado e em particular contra os países em desenvolvimento”. Aqui são os africanos se protegendo uns aos outros, o que é lamentável. As referências veladas do parágrafo são provavelmente ao Sudão, em que seu presidente, Omar al-Bashir (que não apareceu na cúpula) está com a prisão decretada pelo Tribunal Penal Internacional pelo genocídio em Darfur, e ao Zimbábue. Mas há outros exemplos: sob o manto da carta das Nações Unidas, dinossauros africanos pedem um passe livre para continuar dinossauros.

 

Pede-se também no documento a derrubada de barreiras agrícolas dos países ricos a produtos de países pobres, a reforma do Conselho de Segurança da ONU e o aumento da ajuda humanitária internacional. Todos objetivos nobres. Mas o que salta aos olhos na declaração da Isla Margarita são problemas do século 18, como pirataria e mercenários, ainda atrasando um continente inteiro.

Escrito por Fábio Zanini às 17h58

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O camping de Khaddafi

ISLA MARGARITA (VENEZUELA) – A segunda cúpula entre países africanos e sul-americanos começa para valer só amanhã aqui na Venezuela, mas o hotel Hilton, sede do evento, já está a postos.

 

Ao lado da monumental piscina, Muhammar Khaddafi armou sua tenda. Hoje pela manhã funcionários do hotel davam os últimos retoques. E se divertiam à beça com o inusitado da tarefa. Alguns tiravam fotos e contavam piadas. Uma faxineira não apenas não se importou com minha presença como fez questão de posar para um retrato.

 

 

 

O negócio é mesmo extravagante, ao modo de seu proprietário. Khaddafi hoje não vive sem sua tenda, e a transporta para cima e para baixo. A que está aqui é um modelo compacto, digamos assim. O presidente da Líbia e atual presidente da União Africana não dormirá nela, apenas receberá convidados.

 

O camping de Khaddafi é de lona verde, tem algo como 20 metros quadrados, carpete e poltronas. Deve ser ainda instalado um sistema de ventilação para suportar o calor de 35 graus que faz aqui. A decoração é o supra-sumo do kitsch saariano, com motivos de palmeiras e camelos.

 

 

 

A TV de plasma estava ligada, mesmo sem ninguém para ver, reprisando o discurso do líder líbio à Assembléia Geral da ONU, nessa semana, aquele em que pediu a reabertura da investigação sobre o assassinato de John Kennedy.

 

 

 

 

Khaddafi deve mais uma vez roubar o show aqui na Isla Margarita. Mesmo quando era um pária internacional (até há bem pouco tempo, aliás), seu prestígio em círculos do Terceiro Mundo nunca falhou. É um dinossauro que “enfrentou os imperialistas”, e isso basta para que seja celebrado.

 

Hoje, está reabilitado, e Khaddafi está livre para correr o mundo pregando sua versão árabe do socialismo. Não deixa de ser curioso que tenha montado sua barraca bem no coração de um dos símbolos do capitalismo, uma piscina de um hotel Hilton.

 

Outros dinossauros são aguardados por aqui. Robert Mugabe, do Zimbábue, é um deles. Omar al-Bashir, do Sudão, indiciado pelo Tribunal Penal Internacional pelo genocídio em Darfur, é outro. Gostaria muito de vê-los de perto, mas não sei se será possível. A segurança do evento está reforçadíssima. Jornalistas estamos confinados, também numa tenda, sem liberdade para circular entre os participantes do evento. Alguns matam o tempo vendo Venezuela x Nigéria pelo Mundial sub-20 de futebol. Alto-falantes transmitem a programação da rede estatal venezuelana, com suas aborrecidas “reportagens” mostrando os avanços do governo bolivariano.

 

Autoridades serão trazidas para onde nós estamos para darem entrevistas, se assim quiserem. Tudo muito controlado. Estamos em território chavista, afinal.

Escrito por Fábio Zanini às 15h35

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PERFIL

Fábio Zanini Fábio Zanini, 33, é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), com mestrado em relações internacionais pela School of Oriental and African Studies (Soas), da Universidade de Londres.

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