Bali 40 graus - Despachos da Conferência do Clima
 

"Invictus" mostra o Mandela marqueteiro

Finalmente consegui ver “Invictus” ontem à noite, bem depois do que eu pretendia (culpa do terremoto no Haiti, que fui lá cobrir). Para mim, o filme é correto e bem narrado, mas um tanto quadrado e sem a genialidade já demonstrada tantas vezes por Clint Eastwood.

 

Mas deixo isso para os críticos de cinema, coisa que estou longe de ser. Vou me ater aqui aos aspectos históricos da trama, contada de forma surpreendentemente fiel aos que realmente se passou na metade dos anos 90, quando Nelson Mandela (Morgan Freeman), recém-eleito presidente da África do Sul, ainda tateava num campo minado que poderia num piscar de olhos levar a uma guerra civil.

 

Se “Invictus” tem um mérito, é o de revelar um lado fundamental, mas pouco explorado, da personalidade do ícone sul-africano. Muito se falou já do estadista, do visionário ou do incrivelmente generoso Nelson Mandela, uma figura “canonizada” ainda em vida. Quase nada sobre o gênio do marketing que ele também é.

 

O episódio narrado no filme culmina num dos momentos mais famosos do Mandela presidente. De jaqueta verde-ouro e bonezinho dos Springboks, a seleção sul-africana de rúgbi, ele entrega a taça de campeão mundial ao capitão da equipe, o branquelo fortão François Pienaar, orgulho da raça africâner.

 

 

Uma imagem chocante para negros e brancos, visto que os Springboks, nas longas décadas do apartheid, eram a personificação do sistema racista. Rúgbi era esporte para brancos.

 

Mandela enxerga na competição uma oportunidade de ouro para identificar-se com a minoria branca, por meio de uma de suas grandes paixões. A política é feita de símbolos, como o primeiro presidente pós-apartheid entende perfeitamente. O aperto de mão de Mandela em Pienaar não tornou o líder negro adorado pelos brancos, mas o fez menos alienígena a seus olhos.

 

Desde que surgiu na política antiapartheid, no final dos anos 40, Mandela sempre fez uso do marketing. Quando estava na clandestinidade, deixava-se fotografar em calção e luvas de boxe, treinando como pugilista amador (recado ao governo: tenham medo de mim).

 

Ao ser preso, dispensou advogado e fez um discurso memorável no julgamento por “traição”, em 1964. Suas palavras finais, em que afirma que o fim do apartheid “é um ideal pelo qual estou preparado para morrer”, é hoje recitado de cor por crianças de escola. A fala gerou comoção mundial tamanha que, ironicamente, evitou que sofresse a pena de morte (a condenação foi por prisão perpétua).

Nos anos 80, recusou uma oferta indecente de ser libertado pelo regime do apartheid mandando sua filha fazer um discurso emocionado num estádio, em que denunciava que liberdade sem o fim da discriminação de nada valia. Seu mito cresceu exponencialmente nesse episódio.

 

Em 1990, ao sair da prisão, manteve o braço direito levantado enquanto caminhava lentamente para a rua, e nisso simbolizou que o poder a partir daquele momento estava mudando de mãos.

 

 

Naquele momento, deu um recado de firmeza, assim como usou o rúgbi para um recado de conciliação na final da Copa do Mundo, cinco anos depois.

 

Naquele mesmo ano, talvez o gesto mais surpreendente de todos: a visita à viúva do ex-primeiro-ministro Hendrik Verwoerd –o homem que o colocou na prisão por 27 anos. As fotos de Mandela sorrindo ao lado da velhinha degelaram milhões de corações.

 

 

São incontáveis exemplos de seu lado marqueteiro ao longo dos anos. Um político carismático, que deu a esse termo uma conotação bem mais positiva que a habitual, aliás. Marketing, no difícil processo de reconciliação nacional que viveu a África do Sul, foi uma necessidade. A alternativa, felizmente evitada, eram balas e coquetéis Molotov.

Escrito por Fábio Zanini às 20h20

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Um game sobre o genocídio em Darfur

A idéia é tão genial quanto polêmica. Pode uma tragédia humana servir de matéria-prima para o entretenimento?

“Darfur is dying” (Darfur está morrendo) é um game que usa o genocídio na região localizada no oeste do Sudão como mote.

Este é o link: www.darfurisdying.com

O jogador escolhe entre oito pessoas (seis crianças, uma mulher e um homem) para desempenhar várias tarefas. A principal delas é buscar água, que será usada para o cultivo de vegetais e fabricação de tijolos.

Mas no meio do caminho há os temíveis “janjaweed”, ou as milícias armadas pelo governo sudanês que são as responsáveis por grande parte da matança contra etnias locais. Desde que Darfur virou sinônimo de holocausto, em 2003, calcula-se que 300 mil pessoas tenham sido mortas e outras 2 milhões expulsas de suas casas. A situação é descrita por agências humanitárias como a maior catástrofe em vigor hoje no planeta. O presidente do Sudão, Omar al-Bashir, foi indiciado por crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional.

Não sou grande especialista em games, apesar de jogar um Mario Bros. de vez em quando, mas “Darfur is dying” parece bem caprichado. Os gráficos são bons, e a dificuldade é razoável. Leva tempo até pegar a manha de coletar água no poço, desviando dos jipes com os janjaweed (eu, pelo menos, demorei). De vez em quando, soa um alerta: vem aí um ataque generalizado, e o pânico se espalha na pequena vila que seve de cenário.

Nenhum detalhe sórdido é poupado do jogador. “Amina”, uma personagem do jogo, foi procurar seu filho após um ataque e achou apenas sua cabeça decepada. “Melna”, mãe de dez filhos, perdeu sete deles após uma investida dos genocidas. E por aí vai.

A idéia é de um grupo de estudantes da Universidade do Sul da Califórnia, com apoio da Reebok Human Rights Foundation (uma ONG norte-americana) e do International Crisis Group (um dos mais importantes centros de pensamento do mundo). Pedem, no site, que espalhem “de forma viral” o joguinho para que as pessoas se familiarizem com a situação em Darfur. Há também links para mandar mensagens diretamente ao presidente Barack Obama.

E é moralmente condenável o que eles fizeram? Eu não vejo problema, ainda mais num mercado que tem títulos inspirados em outros fatos da história (como a Segunda Guerra Mundial e a do Vietnã). Mas gostaria de ouvir outras opiniões. Crises internacionais são guerras de propaganda. Ganha quem tiver a opinião pública a seu lado.

Para mim, o que os criadores de “Darfur is dying” fizeram foi encontrar uma maneira criativa de colocar um problema distante na escrivaninha de pessoas que jamais teriam contato com essa importante questão...

Escrito por Fábio Zanini às 18h24

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Rumo ao Haiti

Amigos,

este blog fará uma pausa por alguns dias. Estou viajando hoje ao Haiti, para participar da cobertura da Folha de S. Paulo da tragédia. Não tenho data para voltar. Se der (mas não garanto...), atualizo com notícias de lá.

Até a volta!

Escrito por Fábio Zanini às 11h15

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Tragédia num pedaço da África na América

É comum definir o Haiti, que sofreu ontem um terremoto de proporções apocalípticas, como um pedaço da África nas Américas. Claro que isso não é feito para elogiar os haitianos, mas para dar uma dimensão do estado de miséria em que vivem.

 

É triste para a África servir como parâmetro dessa forma, mas convenhamos que o paralelo não é despropositado. No ranking anual compilado pela ONU sobre desenvolvimento humano (o IDH), o Haiti aparece na posição 149 entre 182 pesquisados. Está à frente de 31 países africanos, mas atrás de outros 20. Perfeitamente encaixado no meio da África, portanto.

 

Há outras ligações óbvias, no entanto. A primeira pode ser vista na cor da pele dos haitianos. Aquele é um país negro, mais negro do que muitos países africanos. A proporção de haitianos afrodescendentes chega a 95% (na África do Sul, só para comparar, é de 80%).

 

O Haiti, afinal de contas, foi formado em grande medida a partir da importação de escravos africanos pelos espanhóis. Junto com a República Dominicana, com quem divide a ilha de Hispaniola, foi um entreposto do tráfico negreiro.

 

Lá surgiu a primeira república negra do planeta, mais de um século antes de o processo de descolonização africano do século 20 dar origem a dezenas de Estados negros no mundo. No Haiti, em 1804, uma revolta liderada por ex-escravos conseguiu obter a independência dos franceses.

 

A partir dos anos 1950, quando os “pais da pátria” africanos precisavam de um modelo para mobilizar suas massas e expulsar seus próprios colonizadores, buscaram-no no exemplo do Haiti.

 

No Haiti inspirou-se, por exemplo, a “negritude”, um movimento de reafirmação dos valores negros que forneceu uma base moral e teórica para diversos processos de independência africanos. Seu maior expoente foi o poeta e ex-presidente senegalês Leopold Senghor.

 

Em 2004, no bicentenário da independência, um grande evento foi organizado em Porto Príncipe. Thabo Mbeki, o então presidente da África do Sul, fez questão de comparecer. No mesmo ano, quando Jean Bertrand Aristide foi removido da presidência do Haiti, foi em solo africano que ele buscou refúgio –primeiro, na República Centro-Africana e depois na própria África do Sul, onde vive até hoje.

 

A bela história política do Haiti espelha o belíssimo processo de independência africano. Mas também é preciso dizer que o paralelo se manteve uma vez amainado o entusiasmo com a liberdade. Os haitianos mergulharam em uma espiral de violência e pobreza, assim como muitos dos novos Estados africanos.

 

No século 21, haitianos e africanos passaram a dividir um período de relativa estabilidade e reconstrução, após anos de autodestruição. Até, obviamente, que um desastre natural se abatesse sobre o mais africano dos países fora da África.

Escrito por Fábio Zanini às 19h14

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Entrevista com o líder rebelde de Cabinda

Falei no último sábado com o líder político das Flec (Forças de Libertação do Estado de Cabinda), grupo que promoveu o ataque contra a seleção do Togo no enclave angolano de Cabinda, que deixou três mortos.

 

Chama-se Rodrigues Mingas e deu a entender que estava fora do território quando conversamos. Sua retórica é polêmica: o território está em guerra, e numa guerra, pessoas morrem. Inclusive inocentes. Reproduzo abaixo a entrevista, que saiu publicada na Folha de ontem. Tire suas próprias conclusões.

 

***

 

O líder do grupo separatista que anteontem atacou um comboio levando a seleção de futebol do Togo, Rodrigues Mingas, disse em entrevista à Folha que a delegação esportiva teve “azar”. O ataque, diz ele, era contra forças angolanas, país que controla o enclave de Cabinda.

Secretário-geral das Flec-PM (Forças de Libertação do Estado de Cabinda-Posição Militar), ele afirmou que mandou carta há dois meses ao presidente da Confederação Africana de Futebol, o cameronês Issa Hyatouh, avisando de que a região está em guerra e que poderia haver problemas. Não descartou novos ataques durante o torneio.

Mingas, 48, (“a mesma idade de Barack Obama”) falou à Folha por um telefone celular francês. Não quis dizer onde estava _dentro ou fora de Cabinda.

 

FOLHA - Por que o ataque à seleção de Togo?

RODRIGUES MINGAS -O nosso território está em guerra. Dois meses antes desse torneio mandamos carta ao presidente da Confederação Africana de Futebol para informá-lo disso. Deixamos claro a ele que Cabinda não é parte de Angola.

 

FOLHA - Sim, mas o que Togo tem a ver com isso?

MINGAS - O ataque não foi levado a cabo contra a equipe nacional do Togo. Nós não temos nada contra eles. Nós estamos em guerra com Angola, que ocupa ilegalmente nosso território. Levamos a cabo um ataque contra as forças de Angola, e a equipe de Togo, por um malogro [infortúnio], foi atingida pelas balas de nossa tropa.

 

FOLHA - Vocês sabiam que a seleção de Togo estava no local naquele momento?

MINGAS - Não. Havia os primeiros carros, com as tropas angolanas, e atrás havia outros com mais tropas. No meio, estava o ônibus que levava a equipe do Togo. É uma coisa que lamentamos.

 

FOLHA - Ninguém percebeu que havia um ônibus ali?

MINGAS - Os carros da frente estavam cheios de soldados angolanos. Foi uma emboscada contra as tropas angolanas, não contra a equipe de Togo.

 

FOLHA - Mas três pessoas acabaram morrendo.

MINGAS - Repito, não temos nenhum problema estratégico contra o Togo. Isso talvez se chame azar. Isso é assim.

 

FOLHA - As pessoas atiraram especificamente contra a delegação do Togo, tanto é que três morreram.

MINGAS - Nós tínhamos avisado os organizadores. A carta está na mesa do presidente [da CAF]. As autoridades angolanas disseram a eles: “[os rebeldes] são uns bandidos, não há problema”.

FOLHA - Vocês podem promover outros ataques durante a Copa Africana?

MINGAS - Sim, sim. Podemos. O território está em guerra. Tudo pode acontecer.

 

FOLHA - Quantos combatentes as Flec têm hoje?

MINGAS - Ah, muitas pessoas!

 

FOLHA - Quantos?

MINGAS - Desculpe, sr. jornalista, isso é um problema estratégico que não posso revelar aqui.

 

FOLHA - Por que vocês recusam a solução pacífica?

MINGAS - Porque somos atacados o tempo todo!

 

FOLHA - A maioria do povo de Cabinda aprovou o ataque?

MINGAS - Todo mundo aprova, porque sofremos intimidação. O governo tem 50 mil homens em Cabinda.

 

FOLHA - Houve grande condenação internacional a esse ataque. Isso não prejudica seu grupo?

MINGAS - Quando Angola mata os cabindenses no nosso território, isso nunca é condenado! Ontem eu vi um governante de Angola dizer que nós somos um grupo de terroristas. Não somos terroristas. Os terroristas estão no Oriente Médio, não na África central.

 

FOLHA - Vocês não são terroristas mesmo tendo matando civis inocentes?

MINGAS - Não somos terroristas. Somos independentistas. A morte de uma pessoa inocente não é uma boa coisa. Mas na guerra, sempre é assim. Há balas perdidas.

 

Escrito por Fábio Zanini às 11h39

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A atrocidade contra a seleção do Togo

Já são três as vítimas no ataque de rebeldes de Cabinda (Angola) à seleção do Togo, ontem à tarde. Além do motorista, também o técnico-assistente e o porta-voz também morreram. Traumatizada, a equipe deve abandonar a Copa Africana de Seleções.

Uma tragédia humana, esportiva e política para todo o continente. Comparar Angola com a África do Sul é injusto (são dois países com histórias diversas, sistemas políticos próprios e separados por milhares de quilômetros), mas a copa continental, que reúne a elite do futebol africano, estava sendo vista como um “aperitivo” para o Mundial, que começa em junho.

Cabinda é uma esquisitice geográfica própria da África. Um pontinho de terra pouco maior do que o nosso Distrito Federal, separado fisicamente de Angola. Fica encravado, na verdade, entre dois países chamados Congo. A própria Cabinda já foi chamada de Congo português, e foi uma colônia separada de Portugal. Em 1975, quando os angolanos se declararam independentes, a pequena região foi anexada ao novo país. Nenhuma consulta foi feita a seus habitantes, muitos dos quais consideram que passaram sem escalas de um colonialismo para outro. Daí o ressentimento.

Que é reforçado pelo fato de Cabinda ser a fonte de 80% do petróleo angolano (incrível como petróleo e problemas andam juntos na África). Pouco disso retorna para a província em forma de investimentos públicos.

Nada justifica a atrocidade cometida, evidentemente. As Flec (Forças de Libertação do Enclave de Cabinda) são um grupelho com a mentalidade congelada no século 20 e que agora demonstra ter um tenebroso senso de oportunidade (na verdade, é um grupelho dentro do grupelho, já que a maioria das Flec havia abandonado a luta armada em 2006).

Os radicais escolheram metralhar atletas inocentes, achando que a projeção internacional que o atentado daria poderia lhes ser benéfica. Mas ao praticarem o maior ato de violência contra o esporte desde a matança de atletas israelenses por terroristas palestinos na Olimpíada de Munique (1972), jogaram no lixo qualquer traço de simpatia a sua causa que poderia haver.

Há duas lições a serem tiradas desse capítulo terrível para a África. Primeiro, pelos dirigentes angolanos, que tentam a todo o custo projetar uma imagem artificial, de país que cresce a ritmo chinês em razão do petróleo. Mas o ataque mostra que novos arranha-céus subindo no centro de Luanda não bastam para criar um novo país.

E o segundo vai para os organizadores da Copa do Mundo. Na África do Sul, vai-se tentar repetir a estratégia adotada em Cabinda: entope-se um lugar conflagrado com soldados e policiais na esperança de criar uma “bolha” de segurança para turistas durante um curto período (o Brasil fez isso no Pan do Rio, aliás). Como mostra o ataque contra a seleção do Togo, nem sempre isso funciona.

Escrito por Fábio Zanini às 15h04

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Leitora escreve sobre meio ambiente na África

O que têm a ver Aids, desertificação e desenvolvimento na África? Tudo a ver, como explica a leitor do blog Carolina Carvalho, geóloga que mandou o seguinte artigo, que reproduzo abaixo.

Os desafios ambientais da África

Por Carolina Carvalho

"Pesquisando dados sobre degradação ambiental na África, encontrei informações que me impressionaram. O fato de a população portadora do vírus HIV não chegar à idade adulta é um fator agravante da degradação dos solos, já que não há população suficiente para trabalhar na área de meio ambiente, ou qualquer outra área. Fui então, atrás de mais dados ambientais da África, entre outros fatos, porque será (e já está sendo) um dos lugares mais afetados pelas mudanças climáticas.


A África é rica em recursos naturais. Florestas, petróleo, diamantes, muita terra disponível para agricultura. Poderia ser um lugar próspero, com plena capacidade de atender às necessidades de sua população. Por que isso não acontece? A má gestão destes recursos é um motivo. A falta de atuação em conjunto dos setores de saúde e meio ambiente é outro. O país lida com a desertificação, a pobreza e a fome como uma reação em cadeia. E tudo isso se agrava por estar intimamente ligado aos conflitos políticos e sociais. 


A degradação das terras, e por conseqüência, a falta de alimentos, é a principal causa da fome no continente, associada à seca profunda. Esta degradação ocorre devido ao desmatamento, que vem acontecendo de forma intensa, por falta de manejo correto no setor de agricultura, exploração de madeira e até mesmo no estabelecimento de fronteiras.

 
Associado ao desmatamento vem o sério problema da erosão, inclusive de áreas costeiras, e também a desertificação. A erosão das áreas costeiras acontece porque estes locais são usados para caça e pesca, pastagem, construção de represas e agricultura, sem qualquer tipo de supervisão ou técnica. Como a taxa de recuperação do solo em regiões de clima árido é muito lenta, a erosão por vento e água afeta profundamente estas terras antes que elas tenham qualquer chance de se recuperar.

 

Quanto à desertificação, esta atinge a África mais do que qualquer outra região do planeta. Dois terços do continente estão situados em zona árida ou semi-árida onde o processo se apresenta ainda mais intenso. E por esta razão as atividades agrícolas se concentram nas áreas costeiras ou em margens de rios, pois são locais onde a vegetação consegue se desenvolver mais por estar mais próxima da água.

Além disso, as freqüentes queimadas visando a caça também contribuem para a perda de fertilidade do solo e por conseqüência, desertificação. É importante saber que a África já tem uma tendência natural para a desertificação, mas este processo poderia ser mais ameno se medidas sustentáveis para o desenvolvimento agrícola, pecuária e outras atividades, fossem tomadas.

 

Alguns governos têm tomado a iniciativa de recuperação das terras degradadas, através do plantio de árvores e preservação dos ecossistemas ainda intactos, como a Nigéria, por exemplo.

 
A água é um grave problema também. A questão principal não é a escassez, mas a gestão, pois a água não chega a toda a população, e quando chega a contaminação é certa. A distribuição deste recurso é ineficiente, e segundo estudiosos, não está nas prioridades dos governos dos países africanos. Aproximadamente metade da população da região subsaariana não tem acesso à água de qualidade. O nível de doenças transmissíveis devido à poluição da água e também à degradação e contaminação do meio ambiente na África é mais alto que em qualquer outro lugar do mundo, segundo a ONU.

Todos estes problemas são como um freio para o desenvolvimento do continente africano. Cuidar dos problemas ambientais da região não é somente uma opção, mas é crítico para obter este desenvolvimento."
 

 

Escrito por Fábio Zanini às 21h35

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De cada 4 pessoas, 1 com Aids

MANZINI (SUAZILÂNDIA) – Feliz 2010!

Dei uma sumida nas últimas semanas porque fui dar um pulinho no Suriname, enviado pela Folha de S. Paulo para acompanhar o ataque contra garimpeiros brasileiros na véspera de Natal. Até que foi bem apropriado: o Suriname tem muita identidade com a África. Sua população tem uma grande parcela de descendentes de escravos africanos, que falam uma língua (chamada “tak-tak”) que tem grandes influências de idiomas do continente.

Mas voltemos à África propriamente dita.

Falei da Suazilândia nos dois últimos textos: seu inusitado sistema político e suas fortes tradições. Falta um terceiro capítulo, infelizmente vital para qualquer apreciação honesta deste país. Hoje, falo sobre Aids.

É dramática a relação da Suazilândia com essa epidemia. Para começo de conversa, basta lembrar que este é o país com a maior concentração de infectados pelo vírus do mundo, em termos de proporção populacional. Em outras palavras, em nenhum outro lugar do planeta é tão fácil encontrar uma pessoa que sofre de Aids, tocá-la e conversar com ela. Em 99% dos casos, sem saber disso.

A última estatística disponível fala em 25,9% dos suazis com Aids. Já foi pior: há dez anos, o índice rondava a casa dos 40%. Mas é evidente que o atual número ainda está muito além do aceitável. Em cada quatro suazis que você encontra na rua, um tem a doença. Numa fila de banco com 20 pessoas, cinco serão aidéticos. Num restaurante cheio, talvez sejam dez. Simplesmente inacreditável.

Com tamanha proporção do povo atingida, era de se esperar uma estratégia convincente do governo para bloquear a doença. A abordagem mais eficaz baseia-se num tripé: campanhas de publicidade para alertar sobre o risco e reduzir o estigma da doença; tratamento para pessoas infectadas com drogas anti-retrovirais; ações concretas como distribuição de preservativos ou promoção de mudança de comportamento (incentivo à monogamia, por exemplo).

Vi muito pouco disso na Suazilândia. Nenhum outdoor nas ruas da principal cidade, Manzini, nas estradas que percorri ou no aeroporto. Numa mesinha do Museu Nacional, dedicado à rica história desse povo, vi alguns panfletinhos e um solitário cartaz de alerta (está em suazi, não sei traduzir).

 

E foi só. Em países igualmente afetados pela doença, como África do Sul e Moçambique, a fase da negação do problema já passou há muito tempo.

A coisa piora: a eficácia das drogas para melhorar e prolongar a vida dos doentes é minada pela promoção de alternativas tradicionais que resvalam no curandeirismo. Quando eu estive por lá, no final de novembro, uma reportagem com destaque no principal jornal local, o “Times of Swaziland”, anunciava a abertura da primeira “clínica de medicina tradicional” no país, para tratamento de várias doenças, inclusive a Aids, a partir de plantas locais.

A distribuição de camisinhas também é muito precária. Não vi nenhum tipo de defesa de seu uso em larga escala. Nem mesmo a polêmica alternativa que em Uganda deu algum resultado (de promoção da abstinência e monogamia) tem alguma chance de vingar na Suazilândia. Como poderia se o próprio rei tem 14 mulheres?

Folhear as páginas do “Times” é para quem tem nervos de aço. Principalmente a última seção, a do obituário. São pelo menos três páginas cheias de fotos de mortos, a maioria abaixo de 40 anos. Não se fala a causa, mas não precisa. Todo mundo sabe o que aconteceu.

Há alguns sinais de esperança para os suazis, mas que não vêm do governo. Pastores evangélicos têm adotado o hábito de fazer em público o teste de HIV, para incentivar a população a fazer o mesmo (o fato de grande parte não saber que está infectado é uma das principais causas da propagação da doença). Na semana em que eu estive por lá, um senador ganhou as manchetes de jornal ao dizer que também faria –mas, estranhamente, não divulgaria o resultado.

E apesar do impacto econômico e social que as mortes de pessoas em idade produtiva têm para o pequeno reino, resta o consolo de que bem ou mal o país continua funcionando. Pessoas com Aids vão ao banco, fazem compras e circulam pelas ruas. A doença não é sentença de morte hoje como já foi. Paradoxalmente, a melhor prova de que não é tarde demais para a Suazilândia tomar jeito está no dia-a-dia da própria Suazilândia.

Escrito por Fábio Zanini às 17h34

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Os polêmicos rituais da Suazilândia

LOBAMBA (SUAZILÂNDIA) - Os rituais tradicionais da Suazilândia são tão ricos quanto polêmicos. É difícil imaginar festival mais criticado (pelo menos no mundo ocidental) do que o Umhlanga, um evento que ocorre anualmente em honra do rei e de sua mãe.

 

Talvez alguns já tenham lido algo sobre esse festival aqui e acolá. Embora seja um evento longo e complexo, que costuma durar mais de uma semana, um de seus momentos chama sempre a atenção da imprensa mundial: quando jovens garotas suazis, algumas menores de idade, dançam com os seios de fora em frente à família real. (A foto abaixo capturei na internet; as demais são minhas, tiradas em novembro). 

 

 

O rei costuma escolher mais uma de suas esposas nesses eventos (embora isso não seja uma regra). Ele atualmente tem 14 mulheres (reconhecidas).

 

O ritual ocorre sempre entre agosto e setembro, de acordo com a escolha feita por astrólogos do rei (em 2009, ocorreu em 31 de agosto). Garotas de todo o país se concentram em Lobamba, a sede da realeza da Suazilândia, para oferecer à rainha-mãe o “reed”, uma espécie de bambu, que coletaram nos dias anteriores. Se a garota segura também uma tocha, é sinal de que fez a busca de noite. Se utiliza uma pena vermelha no corpo, é porque já faz parte da família real. Com vestimentas tradicionais, todas dançam e são observadas por platéias-gigante, que chegam às milhares de pessoas. Para os turistas, a boa notícia é que a cerimônia pode ser fotografada.

 

Pode parecer estranho para um forasteiro, mas o “reed” tem uma importância fundamental na cultura da Suazilândia. Só fui entender o porquê numa visita a uma vila situada dentro da reserva cultural Mantenga, em Lobamba, aberta à visitação de turistas.

 

São dez cabanas em formato de iglu, feitas de madeira e cobertas com palha, que mantêm a temperatura ambiente confortável o ano inteiro. Seguram o calor no inverno e refrescam no verão. “É nosso sistema de ar-condicionado”, disse o garoto que me levou para um tour.

 

 

Os “reeds” formam imensas paredes onduladas circundando as cabanas, e servem para quebrar o vento.

 

 

Dado que 30% dos suazis ainda vivem em vilas tradicionais (algo como 300 mil pessoas), o “reed” é um material precioso no país. Na Suazilândia, é um símbolo de proteção.

 

A estrutura da vila é também algo curioso. Todos os que moram ali são aparentados, como ocorre em geral. A linhagem é patriarcal: o pai mora numa cabana e visita suas várias mulheres, que têm cada uma sua própria cabana. Filhos e netos vivem em cabanas menores, nas adjacências da vila. Homens de um lado, mulheres de outro. Cada casinha pode abrigar até sete pessoas. E todas têm uma curiosa entradinha com 80 centímetros de altura: a idéia é forçar todos os visitantes a se abaixarem em respeito.

 

Se isso não fosse suficientemente polêmico, ouça essa: é prática legalizada na Suazilândia a cobrança de “lobola”, ou o dote que a família do noivo precisa pagar à da noiva (também ocorre entre os zulus, na África do Sul). Se a mulher for virgem, o preço é 17 cabeças de gado. Se não for, o preço é negociável.

 

Mais politicamente correto impossível, como você pode ver. A Suazilândia é um exemplo sem par no debate interminável entre quem vive a África “por dentro” e quem observa “de fora”. Há valores universais ou eles precisam respeitar as tradições locais? É correta a tentativa de banir rituais que nos parecem cruéis e ultrapassados, como a poligamia ou a mutilação genital feminina (em que o clitóris é retirado da garota)? Ou é preciso haver respeito absoluto ao que é diferente?

 

Esta é hoje uma das discussões mais quentes na África, frequentemente descambando para a agressividade. Em nenhum lugar ela é tão presente como na Suazilândia.

 

Com a palavra, você, leitor. O que pensas?

Escrito por Fábio Zanini às 20h04

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O Luís 14 da África

LOBAMBA (SUAZILÂNDIA) – É difícil imaginar que um lugar assim fique a apenas três horas de carro de Johanesburgo, a mais moderna metrópole da África. Mas nada na Suazilândia é esperado, compreensível ou fácil de explicar.

Este é um país sui generis. Uma anomalia geográfica num território em formato circular, espremido entre dois gigantescos Estados, a África do Sul e Moçambique, e sem saída para o mar.

Uma das últimas três monarquias do continente (as outras são Marrocos e o Lesoto, outra anomalia da cartografia, aliás) e a última absoluta.

Em quantos países do mundo o rei exerce poder de fato, nos dias de hoje, concentrando em sua pessoa poderes executivos, legislativos e judiciários? Em qual outro lugar a vida urbana tem de se submeter a tradições seculares das quais os suazis se orgulham, mas que enrubescem observadores estrangeiros? Na Suazilândia, o modelito rainha da Inglaterra, preferido pela maior parte das monarquias que sobrevivem no mundo, não funciona. O Estado é sua majestade, o rei Mswati 3°, 41 anos de idade (e sorriso de bebezão), 14 mulheres (na última contagem) e número de filhos desconhecido. O Luís 14 da África (foto do "Daily Telegraph").

Passei rapidamente pela Suazilândia no final de novembro, um país que respira tradição. A própria existência do lugar é produto de uma riquíssima cultura, de uma nação bastante coesa e de espírito guerreiro. Em alguns lugares, parece que todo mundo tem o mesmo sobrenome –os Dlamini, descendentes das famílias que migraram para a região montanhosa vindas do que hoje é Moçambique, por volta do século 16. O rei tem sempre que ser um Dlamini.

Em 500 anos de história, os suazis, guerreiros, mas também com um agudo senso de diplomacia, protegeram-se de zulus, boers (colonizadores holandeses) e ingleses. Perderam muito de seu território, mas conseguiram se manter independentes. Ensaiaram adotar uma monarquia parlamentarista ao estilo britânico na independência, em 1968, mas cinco anos depois o embrião de democracia foi anulado pelo lendário rei Sobhuza 2º (pai do atual monarca), considerado o pai da pátria. “Em nome das tradições”, justificou.

E que tradições! O próprio sistema de escolha do rei é singular. Não é necessariamente o mais velho filho do rei que morre, como costuma acontecer em outras monarquias. Ele tem de ser o único filho do rei com sua mãe –não pode ter outros irmãos por parte dos dois pais, apenas meio-irmãos por parte de pai (lembre-se de que a poligamia é uma instituição normal na vida suazi).

E, enquanto o rei tem poderes absolutos, sua mãe também goza de grande prestígio político. A rainha-mãe, na Suazilândia, costuma ter enorme influência em assuntos de estado. Há ainda um “conselho real”, que ajuda o rei a escolher o primeiro-ministro e seu gabinete. Todos são demissíveis ao bel prazer do monarca.

Existe, na teoria, um Parlamento independente, mas é fraquinho, fraquinho... O Senado tem 12 membros, chefes de clãs e famílias escolhidos pelo rei. A Câmara baixa tem 55 deputados eleitos diretamente. Mas eles não podem pertencer a partidos políticos, que são todos ilegais. Têm de concorrer como independentes. E, claro, não podem jamais questionar a monarquia ou o poder soberano do rei.

Ah, já ia esquecendo. O rei também escolhe todos os juízes, claro.

No período que passei na Suazilândia, encontrei muita gente insatisfeita com essa situação, mas cuidadosa para não externar isso de maneira muito direta. Um motorista de táxi (adoro conversar com motoristas de táxi, são ótimas fontes) foi quem chegou mais perto de um testemunho radical: “Isso tudo é uma palhaçada”, afirmou. Mas logo em seguida qualificou sua declaração, ressalvando que achava o rei uma pessoa muito justa com seus súditos.

A “Versalhes” suazi fica na vila real de Lobamba, num vale a meio caminho da capital, Mbabane, e do principal centro comercial, Manzini. Ali, numa região belíssima, ficam o palácio de Mswati 3°, o Museu Nacional, um moderno hospital (somente para a família real), o Parlamento e um memorial para o reverenciado rei Sobhuza 2°, que contém algumas pérolas de seu pensamento vivo, num mural. “Partidos políticos de oposição não são aceitos na Suazilândia porque eles se comportam como inimigos. Na África, a oposição é inimiga”, disse o então rei, em 1982.

É nessa região também que se desenrolam cerimônias tradicionais para o rei que param o país todo fim de ano. Falarei delas no próximo texto.

Escrito por Fábio Zanini às 23h35

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Um oásis ameaçado

DURBAN (ÁFRICA DO SUL) - Não há nada como as townships sul-africanas, assim como não há nada como as favelas brasileiras. Para simplificar, costuma-se dizer que são equivalentes (como estou fazendo no título desse post).

KwaMashu é a mais famosa township de Durban, a segunda maior cidade sul-africana, e uma das três mais importantes do país –as outras duas sendo Cape Flats, na Cidade do Cabo e, obviamente, Soweto, em Johanesburgo.

Townships, ao contrário das favelas, geralmente são horizontais, e não em morros; segregadas racialmente, e não uma mistura de negros, mestiços e brancos, como no Brasil. E mais importantes, são construções políticas.

Sua função, nos tempos do apartheid, era servir de reservatório de mão de obra barata para preservar o alto padrão de vida dos brancos. A partir dos anos 50, um escandaloso fenômeno urbano se estabeleceu na África do Sul: negros eram evacuados de regiões centrais das grandes cidades e despejados em áreas dezenas de quilômetros distantes. KwaMashu nasceu em 1958, a exemplo de outras pelo país. Em alguns casos, como no Soweto (cujo nascimento remonta ao início do século 20), o então regime segregacionista aproveitou para expandir o que já existia.

Instalações precárias, falta de luz e saneamento, essa era (e em muitos casos ainda é) a realidade de uma township sul-africana. Só o transporte para o centro das cidades, geralmente por trem, funcionava bem. Os negros pobres tinham que chegar na hora certa nas residências e empresas brancas.

Essa situação mudou bastante desde o fim do apartheid, em 1994. Mesmo nos locais mais pobres, como KwaMashu, há asfalto, calçadas e energia elétrica. O governo construiu em 15 anos 3 milhões de casas, o que amenizou um pouco a paisagem deprimente de barracos com paredes de zinco.

E há a tradição de organização comunitária, muito presente num país altamente politizado como é a África do Sul. Em KwaMashu, que tem meio milhão de habitantes, pude testemunhar isso de perto, no mês passado.

Lá funciona o Ekhaya Multi Arts Center.

O nome vem da palavra em zulu que significa “em casa”, e é disso mesmo que se trata. São 150 jovens freqüentando cursos de computação, teatro, dança e música, num galpão simples de concreto. Recentemente, foi inaugurada uma estação de rádio, que consegue ser captada em toda a região metropolitana de Durban. (Na foto, um estúdio de música).

Cada jovem, além de não pagar nada pelos cursos, recebe uma bolsa mensal de 600 rands, ou R$ 150 pelo câmbio atual. Os professores são jovens idealistas, mas profissionais, pelo que pude perceber. Recebem salário e são cobrados por seu desempenho.

Mas Ekhaya está ameaçada de fechar. O custo mensal de 100.000 rands (R$ 24 mil) é bancado pelos governos dos EUA, Reino Unido e Noruega, mas o financiamento termina agora no final do ano. “Os doadores nos disseram que há lugares mais pobres na África e que precisam mais de sua ajuda”, diz o fundador do local, Edmund Mhlongo.

Aos 43 anos, Mhlongo é uma figura que você só encontra numa township sul-africana. Nos anos 80, como líder estudantil, organizava passeatas contra o apartheid. Tornou-se um quadro do Congresso Nacional Africano, o partido liderado por Nelson Mandela que está hoje instalado no poder.

 Como milhares de pessoas com uma biografia semelhante, tem hoje várias críticas ao regime. A primeira: como é possível deixar Ekhaya morrer? “O governo nos deveria dar 100% de apoio. Nós estamos fazendo trabalho que eles não fazem. Estamos evitando que jovens alimentem a violência em Durban”, afirma.

Além de fundador, diretor executivo e agitador cultural, ele é também escritor e diretor de peças de teatro. Um dia, nos idos de 1993, previu que, numa África do Sul democrática, haveria espaço para novas idéias da sociedade civil que ajudassem a mitigar uma situação de extrema desigualdade social (o fosso social sul-africano é até maior do que o brasileiro e, ao contrário do nosso, não para de aumentar). Demorou 11 anos para colocar o projeto de pé.

Mhlongo e seu centro Ekhaya são uma amostra do que é preciso para salvar a África do Sul. Uma mescla de presença do Estado, ajuda internacional e mobilização de comunidades. Só o Estado não dá conta de entrar em locais que a própria história se cuidou de tornar emaranhados intransponíveis, como é o caso das townships sul-africanas. Assim como não há resposta para a Rocinha sem engajamento de seus próprios habitantes, não há solução para KwaMashu sem pessoas como Edmund Mhlongo.

Esperto, ele guarda na manga um trunfo para convencer o governo a de alguma forma prover (ou ajudar a prover) o centro Ekhaya com os recursos de que precisa em 2010: uma placa na entrada do prédio, que mostra que a inauguração foi prestigiada por ninguém menos do que o atual presidente, Jacob Zuma, em 2004 (quando ele era o vice-presidente).

“Vou procurar Zuma com vários argumentos”, diz Mhlongo. “Principalmente, vou dizer a ele que aqui está o seu legado. Se isso aqui desmoronar, desmorona também uma parte do legado dele”.

Para quem se interessar, esse é o site do Ekhaya Multi Arts Center: www.kcap.co.za

Escrito por Fábio Zanini às 18h34

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Praias e bunnychow

DURBAN (ÁFRICA DO SUL) – Desculpem a confusão. Nos últimos 30 dias, passei por Tunísia, África do Sul, Suazilândia e Moçambique (de férias) e por isso estou cheio de material destes lugares tão distantes. Estou postando aos poucos, intercalando com outras histórias, o que pode gerar alguma tontura no pobre leitor. Mas espero que compreendam.

 

Passei por Durban, a segunda maior cidade da África do Sul. Foi minha primeira vez por lá, e a metrópole me obrigou a reavaliar alguns conceitos até então muito sólidos que eu tinha sobre o país.

 

Sou jornalista, e jornalistas vivemos de simplificações e analogias. Para mim, Johanesburgo sempre foi equivalente a São Paulo: gigante, entupida, diversificada, um centro econômico com infinitas possibilidades.

 

A Cidade do Cabo é o Rio de Janeiro: linda, montanhosa, relaxada (no bom sentido). Pretoria, a capital, é obviamente Brasília: uma cidade moderna, voltada para a administração pública (alguns a comparam a Curitiba, por ser pacata demais).

 

Durban veio bagunçar esses estereótipos. A mais importante cidade africana na beira do oceano Índico foi uma agradável surpresa. Mistura um pouco do que têm suas irmãs mais famosas: é no mínimo tão diversificada quanto Johanesburgo, em razão da enorme presença de indianos (e asiáticos em geral); e tem atributos que em alguns momentos a levam a ser o verdadeiro “Rio de Janeiro sul-africano”. Isso muito embora não haja nada na paisagem que se assemelhe à Table Mountain, da Cidade do Cabo, muito menos ao Pão de Açúcar.

 

O destaque da cidade é sem dúvida seu “waterfront” –a orla da praia, com 6 km, que rivaliza com o Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon.

 

 

A Cidade do Cabo tem lindas praias também, mas estão menos integradas ao centro. Já que esse post é sobre comparações, a Cidade do Cabo tem apenas Barra da Tijuca. Não tem avenida Atlântica, como tem Durban, com suas praias de areias brancas e água morna pertinho do coração da cidade.

 

Há um interessante calçadão, que quando visitei estava em reformas, para ficar tinindo para a Copa do ano que vem. Há belos prédios em cores pastéis, que, junto com coqueiros aqui e ali dão um certo ar caribenho em alguns momentos.

 

Na época do apartheid, essas praias no centro eram reservadas para os brancos. Agora, são para todos, e é interessante ver a diversidade passeando na sua frente. Garotas de biquínis e garotões com pranchas de surfe dividem espaço com mulheres de niqab, uma vestimenta muçulmana que cobre todo o corpo da mulher. Na areia, lado a lado acontecem peladas de futebol e de rúgbi.

 

O que nos leva para a segunda marca registrada de Durban: a saudável mistureba cultural que só alguns países podem ostentar. Estima-se que haja na África do Sul cerca de 1 milhão de descendentes de indianos (2% da população), a grande maioria na região de Durban, trazidos pelos colonizadores ingleses a partir de 1860. Primeiro, como mão de obra baratíssima para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar, e depois para exercer atividades “liberais”, como a advocacia (um deles foi o jovem Gandhi, na virada do século 20).

 

Muitos ficaram e tornaram Durban uma das cidades mais indianas fora da Índia. Por onde se ande, há templos hindus ou mesquitas (muitos dos indianos que para lá foram eram da parte muçulmana do país).

 

 

Deixaram também uma contribuição peculiar para a culinária local, o bunnychow (“bunny”, para os íntimos).

 

Trata-se de uma comida rápida, prática e surpreendentemente pesada. Coma um “bunny” no almoço e pode comer só uma saladinha no jantar. É também um monumento à criatividade: numa fatia grossa de pão de forma, o miolo é arrancado, e em seu lugar coloca-se carne de vaca, carneio, frango, vegetais, feijão ou o que mais pintar.

 

 

Coisa baratinha, de no máximo US$ 5.

 

A invenção é da era do apartheid. Negros não podiam sentar-se em restaurantes, e algum indiano genial inventou o “bunny” como uma comida “portátil”, digamos assim, fácil de ser carregada. Hoje, é uma instituição de Durban e arredores (e difícil de ser encontrada em outras regiões). Singularidade de uma cidade singular.

Escrito por Fábio Zanini às 19h29

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Um país no breu

Já andei por muitos lugares, digamos, ferrados, mas Guiné-Bissau entra fácil no meu top 5 dos piores. Há cinco anos estive na capital, Bissau, e tudo que encontrei foi uma cidade semidestruída, com uma ou duas avenidas asfaltadas apenas, porcos defecando no centro da cidade, um palácio presidencial abandonado e tomado pelo esgoto e comércio às moscas. À noite, breu total. Energia elétrica é luxo.

Hoje, se algo mudou, foi para pior. Nesse meio tempo, um presidente foi assassinado, e a Guiné-Bissau tornou-se um narco-Estado, tamanha é a quantidade de cocaína que circula, vinda da América Latina e rumando para a Europa.

Recentemente, a TV Brasil esteve por lá, retratando a escuridão (em todos os sentidos) desse lugar miserável (mas com um povo surpreendentemente bem-humorado e que fala um português deliciosamente próximo ao que se fala em Lisboa ou Porto). No link abaixo, você pode acompanhar a interessante reportagem do correspondente Carlos Alberto Jr.

http://diariodaafrica.blogspot.com/2009/12/guine-bissau.html

A reportagem ajuda a entender por que Guiné-Bissau é o décimo país mais pobre do mundo, entre 182 pesquisados, segundo a lista anual compilada pela ONU.

Escrito por Fábio Zanini às 19h34

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Um pequeno exemplo de corrupção

TÚNIS (TUNÍSIA) – Já havia acontecido antes em viagens pela África, mas nunca de maneira tão explícita quanto 20 dias atrás, no aeroporto de Túnis, capital da Tunísia.

Refiro-me ao achaque, à corrupção. A Tunísia é, na fachada, um dos países mais modernos e desenvolvidos da África, onde as coisas aparentemente funcionam em ordem quase militar. O que não impediu que uma autoridade local se aproveitasse de um incauto viajante estrangeiro –euzinho.

Acompanhado de minha mulher, entrávamos na área de embarque do aeroporto para pegar o avião que nos levaria, via Itália, de volta ao Brasil. Coloquei minha mochila de mão e minha carteira numa bandeja para passar pelo raio-x quando, do outro lado da máquina, um policial apontou para minha carteira. Dentro, havia uma nota de 10 dinares tunisianos, algo como 5 euros (uns R$ 15).

“Essa tem que ficar”, disse ele, apontando para a nota.

Pedi para ele repetir, tentando entender direito, já que meu francês é bem limitado. Ele repetiu e confirmou. A nota teria que ficar.

Em alguns países africanos, é proibido levar dinheiro local para o exterior, mas isso se refere geralmente a grandes quantidades, não a dinheiro miúdo. Aquela notinha serviria no máximo para tomar um último café.

“Nessa parte do aeroporto, não se aceitam dinares. Só euros ou dólares”, afirmou, apontando para o setor de embarque.

Ingênuo e um tanto nervoso, tirei a nota e entreguei ao policial. Aeroportos são postos de fronteira, e postos de fronteira me tiram do sério. São locais em que o viajante está vulnerável, totalmente à mercê da autoridade, dependente de um sorriso simpático para prosseguir viagem. Talvez por isso, cometi a estupidez sem fazer mais perguntas. Afinal, era evidente ali que a história contada pelo policial não fazia sentido nenhum. Como eu perceberia logo em seguida, aliás.

Eu tinha também algumas moedas na carteira, e perguntei se podia levá-las. “Obrigado”, disse ele, rindo, com minha nota na mão. “Mas essa nota vai para o monsieur ali”, afirmou, apontando para um dos seus superiores, enquanto outros colegas davam risada. “Essas moedas você usa para tomar um café”, afirmou, colocando-as na minha mão, aparentando generosidade.

Foi quando percebi o golpe. Não havia regra nenhuma proibindo o turista de entrar na sala de embarque com dinheiro do país. E não havia impossibilidade nenhuma de usar dinares. Caminhando alguns passos, havia um café. Indignada com o achaque, minha mulher fez questão de perguntar se ali aceitava moeda local. “Claro”, respondeu o caixa.

Fizemos menção de voltar e tirar satisfação com o guardinha corrupto, mas nessas horas uma avaliação pragmática sempre acaba prevalecendo. São apenas 10 dinares. O avião já vai partir. Pior: o policial pode se enfurecer e nos deter ali, arruinando a viagem. Não vale a pena.

Embarcamos desmoralizados. É impressionante o poder que um pequeno gesto desse tem de estragar seu dia, assim como é impressionante a presença do achaque, da pequena corrupção no cotidiano dos africanos. Em Angola, policiais e pequenas autoridades pedem “gasosa” para resolver qualquer parada. Em vários países, governos corruptos dão a senha para que essa praga se espalhe por toda a sociedade.

A raiva do policial corrupto foi a última imagem que levamos do belo país que é a Tunísia. Esse talvez tenha sido o maior prejuízo de todos.

Escrito por Fábio Zanini às 08h43

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Na casa de Luke Skywalker

MATMATA (TUNÍSIA) – É a típica armadilha de pegar turistas. Mas como é legal!!

Tenho 33 anos e cresci vendo os filmes da série “Star Wars” (Guerra nas Estrelas). Quem é da minha geração sabe a importância que as aventuras de Luke Skywalker, Han Solo e os jedis tiveram para nossa formação.

A Tunísia, para os fanáticos, é o Xangri-lá. Nas incríveis paisagens desse pequeno, mas variado, país várias sequências foram gravadas, desde o primeiro filme, na longínqua década de 70, até os três episódios mais recentes, da última década.

São dezenas de locações, que levam incontáveis fãs babões a tentarem se imaginar por alguns momentos que sejam em algumas das mais emblemáticas cenas da cinessérie. Fui um deles no mês passado.

Em Matmata, cidade 350 km ao sul da capital Túnis, e já na boca do deserto do Saara, fica a mais visitada das locações. Lembra da cena no primeiro filme, logo no comecinho, quando Luke, ainda sem saber quem é, discute com seus tios à mesa de refeições?

Foi gravada no hotel Sidi Driss, que ainda funciona, três décadas depois.  

Na parede, há uma foto tirada durante a gravação. 

A grande maioria dos turistas que por lá aparecem todas as manhãs não quer saber de fazer check-in. Estão interessados apenas em entrar, circular pelos quartos e dependências de arquitetura surreal, tirar fotos e seguir viagem, não sem antes pagar uma gorjetinha ao gerente/guia local.

A escolha do hotel foi perfeita. Trata-se de um exemplo perfeito da arquitetura troglodita, comum na região. Antes que você estranhe o termo, é bom esclarecer que se refere a habitações que lembram cavernas.

 

Não se sabe exatamente quem as construiu em Matmata, mas desconfia-se que tenham sido feitas com uma dupla função: buscar proteção do calor infernal da região e oferecer refúgio contra invasores em tempos romanos. 

As casas são escavadas na rocha branca, com portas e janelas em formato oval, oferecendo a perfeita paisagem de outro planeta que George Lucas procurava para gravar seu filme. O hotel Sidi Driss é na verdade formado por seis crateras imensas abertas na pedra e conectadas por túneis e escadinhas.

 

Quartos, banheiros, cozinha, refeitório tudo funciona dentro dessas construções –e até que é bem confortável. O preço também não é mau: US$ 10 por uma noite.

A 150 km dali, indo para o oeste (em direção à Argélia), outra paisagem de outro planeta foi usada nas gravações. É o deserto de sal de Chott El-Jerid. O contraste do terreno branco com o marrom-avermelhado da cadeia de montanhas do Atlas ao fundo impressiona. 

Aqui, Luke contemplou duas luas já pressentindo o que o destino lhe reservava.

Dizem os entendidos que George Lucas sempre foi um diretor bastante limitado. Mas como produtor é imbatível. Em Matmata, mostrou nem sempre é preciso recorrer aos efeitos especiais para criar ambientes de outros planetas.

Escrito por Fábio Zanini às 20h49

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PERFIL

Fábio Zanini Fábio Zanini, 33, é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), com mestrado em relações internacionais pela School of Oriental and African Studies (Soas), da Universidade de Londres.

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