Bali 40 graus - Despachos da Conferência do Clima
 

Esperando os resultados

HARARE (ZIMBÁBUE) – Boatos, nervosismo e uma confusão inacreditável das autoridades. Ontem, o day after da eleição zimbabuana foi de testar os nervos. Centenas de jornalistas, observadores e diplomatas passaram o dia correndo para cima e para baixo, tentando checar todo tipo de rumor e à espera da fumaça branca da comissão eleitoral, que não apareceu.

 

O dia acabou sem um mísero resultado anunciado e a promessa de que hoje vai. Está demorando mais do que o previsto. O ar está pesado em Harare, o espectro de um confronto cresce e o medo de fraude também.

 

Eu não fugi à regra e passei um dos dias mais confusos desde minha chegada à África. Acompanhe (horários do Zimbábue, cinco horas a mais que o Brasil):

 

7h50 – Sem café da manhã, vou ao internet café ao lado hotel atualizar este blog. Chego e vejo a dona sentada na calçada. “O meu empregado, que tem a chave, ainda não apareceu”. Felizmente, acho outro lugar.

 

10h – O motorista da embaixada brasileira passa no meu hotel. Dentro do carro já estão Andréa Murta, da Folha de S. Paulo, e Sergio Kalili, da revista Caros Amigos. Vamos entrevistar o embaixador brasileiro no Zimbábue, Raul de Taunay, e o deputado federal Antônio Carlos Pannunzio, que formam a gloriosa missão observadora brasileira.

 

12h – Depois da embaixada, começa um périplo. Primeira parada, Hotel Miekles, sofisticadíssimo, onde o MDC, partido de oposição, vai dar uma coletiva. Chegamos e descobrimos que não há coletiva nenhuma.

 

12h30 – Dou um pulo no comitê central do MDC, que fica a quatro quadras. Chego e não há energia. São seis andares de escada. Procuro alguém da campanha. Sandra, uma funcionária simpática, me recebe. “Estamos com medo. O governo virá para cima de nós.”

 

13h – De lá para o Hotel Sheraton, onde fica o centro de apuração. De novo, nada de resultado. Aproveito para almoçar com os colegas um omelete de três ovos, mais um ovo frito que veio no hambúrguer da Andréa e ela não quis. Quatro ovos, portanto. Mas o café tomei com adoçante.

 

14h30 – Chega informação de que agora sim teremos coletiva do MDC no Miekles. Voamos para lá. O hotel está deserto. A coletiva é no Holiday Inn, às 15h, somos informados.

 

15h – Holiday Inn. Coletiva nenhuma. Quem vai falar, e só às 17h, é a rede de ONGs que observa o processo.

 

16h – Dou uma fugida para tentar telefonar para a patroa, no Brasil. Ligação péssima, mas consegui.

 

17h – Na coletiva das ONGs (foto abaixo), vem a cobrança. “A demora na divulgação dos resultados alimenta especulações de que alguma coisa está ocorrendo”, diz o comunicado. Um observador holandês que conheci ontem, um senhor de meia idade, vem cochichar comigo. “Mugabe e o seu politburo estão reunidos. Sabe que perdeu e prepara o golpe”.

 

 

17h45 – Chego de novo ao Sheraton. Um jornalista espanhol vem com novo boato: “Morgan Tsvangirai (do MDC) ganhou com 55%. Mugabe teve 36%”.

 

18h – Nada de resultados ainda. Vou para o quarto hotel do dia, o Crowne Plaza, onde Sergio e Andréa estão hospedados, buscar o laptop. O taxista quer cobrar 100 milhões de dólares zimbabuanos (o normal é 60 milhões). Saio do carro batendo a porta, como uma prima donna. Ele grita: “Ok, ok, 60...”

 

18h30 – Estou de volta ao Sheraton. Observadores africanos vão dar uma coletiva. Sala abarrotada, tenho de ficar de pé.

 

19h05 – 35 minutos de atraso. Continuo de pé. Um sujeito de boné vai ao microfone dizer que começará em breve.

 

19h45. 1h15 em pé. Começa a coletiva. O chefe da missão, um angolano, diz que a foi tudo transparente. Alguém pergunta: “Como você diz isso sem saber o resultado?”. A resposta é antológica: “Somos observadores da votação, não da contagem”.

 

20h15 – O embaixador espanhol me confidencia: “Morgan Tsvangirai ganhou”. Como?! “As ONGs fazem apuração paralela”. Mas como o sr. sabe? Ele ri: “Quem financia as ONGs somos nós”.

 

20h30 – Janto uma fatia de bolo de chocolate.

 

22h – Hora de bater matéria para a Folha.

 

23h30 – Estou desabado no sofá do Sheraton. De repente, sem mais nem menos, o presidente da comissão eleitoral começa a falar na TV estatal. O desgraçado marca a divulgação dos resultados para as 6h da manhã! Tenho menos de seis horas para dormir. Boa noite.

Escrito por Fábio Zanini às 03h35

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Zimbábue: o voto na ponta dos dedos

HARARE (ZIMBÁBUE) - Eles chegavam, mostravam a mão limpa para o mesário, pegavam quatro cédulas, preenchiam na cabine secreta, depositavam na urna transparente e recebiam uma camada de tinta púrpura, indelével por 24 horas, nos dedos. Prova de que votaram e não fariam de novo. A maioria saía sorridente. Era assim que ficava:

 

 

Aparentemente, o que se imaginava um delírio apenas alguns meses atrás aconteceu. A votação para presidente e Parlamento ontem no Zimbábue parece ter sido um modelo de transparência.

 

Mas ontem foi apenas a parte mais fácil. Como me disse um embaixador europeu em Harare, Mugabe e sua turma operam com a seguinte lógica: “o povo vota, mas nós é que apuramos”. É na campanha, antes do dia da votação, e na apuração, nos dias seguintes, que as sutilezas da fraude se manifestam. Em 2002, eleição presidencial que Mugabe provavelmente roubou, o dia do voto também foi tranqüilo.

 

Estive ontem, junto com minha colega Andrea Murta, da Folha de S. Paulo, em quatro seções eleitorais de Harare. Muita polícia em todas elas. Mesmo ela, devidamente credenciada pelas autoridades zimbabuanas ao módico preço de US$ 1.800 (provavelmente o credenciamento mais caro da história), teve problemas para trabalhar. Já eu, que, hmmm..., como direi, estava “menos credenciado”, tive que olhar de longe.

 

Em um dos casos, na seção montada na Sir Wilfrid Anson School, ao lado de uma indústria de tabaco que fechou, nos mandaram manter uma distância de 300 metros (eu e Andrea ignoramos a ordem).

 

Mas nem a polícia podia me proibir de falar com eleitores que não cabiam em si. Na Eastridge School, zona residencial e arborizada da cidade, um sujeito engraçadíssimo, com gigantescos óculos que poderiam fazer o Mr. Magoo voltar a enxergar e se disse “aconselhador profissional de casais”, veio em minha direção já armando um longo abraço. “Obrigado, obrigado, vocês estão nos ajudando muito”.

 

Não vi filas enormes, nem intimidação explícita. Talvez porque fui de manhã, quando muitos estavam na igreja e votariam mais tarde. Esta era a fila na Nettleton School.

 

 

Mas vi muita cara de bravo daqueles policiais, controlando todo o ambiente, cujo efeito numa população traumatizada por décadas de um Estado repressivo você pode imaginar. A foto acima tirei escondido deles.

 

O dia da eleição, fora alguns incidentes isolados, transcorreu bem. Mas são “eles” que apuram. O resultado sai entre hoje e amanhã.

Escrito por Fábio Zanini às 03h09

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O Dia D de Robert Mugabe

HARARE (ZIMBÁBUE) – Desde que cheguei aqui, no domingo de Páscoa, falei com dezenas de pessoas extasiadas com o dia histórico que acreditam será amanhã: o dia da derrubada, pelo voto, de Robert Mugabe, um dos últimos dinossauros africanos ainda em atividade.

 

A geração da descolonização africana no século passado praticamente toda se foi. No Zaire, Mobutu caiu de podre. Na Zâmbia, Kenneth Kaunda perdeu eleições e aceitou, assim como Daniel arap Moi no Quênia. Robert Mugabe continua firme, 84 anos de vida e 28 de poder.

 

Mas não subestimem esse dinossauro. Ele provavelmente tentará roubar a eleição, mas talvez nem precise. Mugabe soube construir um mito bastante sólido, principalmente nas zonas rurais. Sua decisão de arrancar terras produtivas de brancos para dar a negros sem experiência pode ter arruinado a economia, mas teve seu toque de gênio. As áreas rurais, onde vive metade da população, são quase 100% suas. No mínimo, ele estará no segundo turno.

 

A oposição é notoriamente fraca e incompetente, apesar de qualquer coisa ser melhor do que Mugabe. Morgan Tsvangirai, líder sindical parrudão que adora usar chapéus de cowboy, conseguiu respaldo nas classes médias urbanas e deve vencer fácil nas principais cidades. Mas ele é virtualmente desconhecido nas periferias. Usa métodos condenáveis de campanha, como transportar eleitores para comícios. Como nesse flagrante, que peguei:

 

 

Já Simba Makoni, dissidente do campo de Mugabe e ex-ministro da Fazenda, parece ser o candidato da “The Economist” _e só. Um de seus comícios, na zona rural de Harare, que acompanhei na última segunda-feira, foi de dar pena. Tinha no máximo 300 pessoas, e Simba acabou nem aparecendo.

 

Mas mais importante de tudo, Mugabe é um mestre na arte de explorar o orgulho do zimbabuano: sua independência, a soberania. Não é à toa que ele passou campanha acusando seus adversários de serem prepostos de uma nova onda colonizadora branca. Imagens suas dos anos 70, quando ele era um admirado “freedom fighter” (inclusive na Europa e EUA) monopolizam os cartazes nas ruas de Harare e a programação da TV estatal.

 

O país está aparentemente calmo, mas ja se observam mais soldados nas ruas. Se Mugabe levar no primeiro turno, é imprevisível o que acontecerá aqui. O espectro do que ocorreu no Quênia no início do ano está presente.

 

Amanhã vou acompanhar a votação. Continue acessando esse blog.

Escrito por Fábio Zanini às 08h52

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A terra das filas sem fim

HARARE (ZIMBÁBUE) – Filas têm vida própria aqui no Zimbábue. Misturam-se, cortam-se, tomam as calçadas do centro comercial da cidade. Há filas para comprar pão, água, para pagar a conta nos supermercados, mas, principalmente, filas enormes na entrada de cada banco.

 

É a hiperinflação, que gera desabastecimento. Se você tem dinheiro vivo na mão, compra hoje mesmo, porque amanhã já vale bem menos. Da mesma forma, você não guarda dinheiro em casa. Tem que ir todo dia tirar do caixa eletrônico, já que a economia toda é na base do cash. Veja um exemplo:

 

 

Ontem contei oito filas num mesmo quarteirão. Decidi pegar a do Stanbic Bank, para ver como é. As filas daqui têm suas regras e sua ética. Primeiro, ninguém reclama. Não tem “olha a frente!”, “anda!”, “ai que saco”. As pessoas ficam em silêncio, olhar perdido, lendo seu jornal, teclando no celular. Sabem que não adianta. Mas também ninguém fura a fila. E não adianta aparecer com criança de colo. Vai ter que esperar do mesmo jeito.

 

Cheguei às 11h40 e confesso que fraquejei _peguei uma fila com sombra. A 50 metros, o pessoal da fila do Beverly Building Society estava bem pior, com sol direto na moleira. Mães protegiam os rostos de seus filhos com bolsas e jornal. Privilegiados usavam sombrinha.

 

Na minha fila, atrás de mim, estava Giros, funcionário de uma ONG. Ao ver um branco na fila, perguntou de onde eu era. Respondi com meu “quebra-gelo” favorito: “I’m from Brazil”, e o papo engatou.

 

Vinte minutos e tínhamos andado dez passos. Faltava muito ainda. “As máquinas só deixam sacar 500 milhões de dólares por dia. Não dá para nada. Então tem que vir todo dia”, explicou ele. São meros 20 dólares norte-americanos.

 

12h15 e Giros recebe uma ligação. Um amigo seu conseguiu sacar em outro local e iria emprestar um pouco a ele. Ele se despede e sai, aliviado. Eu decido que minha experiência acabou e vou procurar a fila da água gelada.

Escrito por Fábio Zanini às 15h32

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Zimbábue: que país é este?

HARARE (ZIMBÁBUE) - Difícil entender o povo desse país que vai às urnas no sábado O zimbabuano vive num lugar com a economia destroçada. Pega fila de manhã para comprar pão e no meio do dia para sacar dinheiro do caixa eletrônico. Água, só se for da torneira.

 

E no entanto estou para ver gente mais cordial. Ontem à noite fui dar uma volta a pé, coisa que jamais faria na África do Sul ou em Angola. A avenida Samora Machel, a principal do centro, está cheia de arranha-céus que poderiam muito bem estar na avenida Paulista. Veja:

 

 

O trânsito flui que é uma beleza (talvez pela escassez de combustível, é verdade). As pessoas são simpaticíssimas, dão bom-dia gratuitamente e ajudam a quem precisa. Como o porteiro de dois metros de altura do Crowne Plaza (que atende pelo impagável nome de Marvelous, aliás), que me deu o maior presente que eu poderia pedir: um adaptador de tomadas do nosso pino para o deles. Fiquei feliz como uma criança que acaba de ganhar um Wii.

 

No centro, o Zimbabwe Gardens não deixa muito a dever aos parques londrinos. Grama bem cortadinha, famílias fazendo piquenique. Na hora do almoço, a onda é dormir estirado na grama.

 

 

E tem a mulherada, com seus bebezinhos pendurados nas costas, amarrados por colcha, lençol, toalha...

 

 

Não é o Éden, obviamente. Há miséria e fome nas ruas. Não dá para relaxar com cuidados básicos. Sou branco, chamo a atenção, e há grande ressentimento histórico com brancos aqui.

 

A polícia é especialmente chata, pronta para te lembrar que isso aqui é, afinal, uma ditadura (está um pouco melhor agora, com o enfraquecimento de Mugabe). Hoje tomei uma dura de um “polícia”, apenas por ter feito uma foto da sede do Banco Central. Um arranha-céu inacreditável, que vou ficar devendo. Tive que deletar.

 

É provável que Mugabe ainda esteja dando as cartas após 28 anos em grande parte por causa dessa cordialidade do zimbabuano. Quem sabe isso muda com a eleição.

 

 

Escrito por Fábio Zanini às 15h28

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Símbolos de uma revolução

HARARE (ZIMBÁBUE) - Toda revolução tem seus símbolos. Os cravos, em Portugal. A cor laranja, na Ucrania. As rosas, na Geórgia. A que poderá ocorrer aqui a partir do proximo sábado, dia da eleição (pacífica, espero...), já tem os seus.

Morgan Tsvangirai, líder sindical que é uma pedra no sapato do presidente Robert Mugabe há dez anos, escolheu o cartão vermelho. Como se dissesse: "Mugabe, fora. Seu tempo acabou". Em todo lugar, seus simpatizantes ostentam, orgulhosos, os cartõezinhos. 

Mugabe escolheu o punho como símbolo. "Fist", em inglês. Repare na foto abaixo na sua cara de mau. Não tenha medo. A ideia é essa mesmo. Parecer desafiador contra os adversários, contra a hiperinflação, e evocar o passado de luta contra o colonialismo branco. Faz parte do show de tio Bob.

Simba Makoni adotou estratégia oposta. Ele é um ex-ministro das Finanças de Bob que agora disputa como independente. Até tem um símbolo, um sol nascendo, mas sua marca registrada é a cara de bom moço e o sorriso de bebezão. Na foto abaixo, o cartaz esta em três línguas: inglês, a do colonizador, e as africanas shona (falada por 70% da população) e ndebele, pelos outros 30%. Veja aí, minha senhora, se esse não é o genro que a senhora gostaria de ter...

p.s.: hoje de manhã, paguei 18 milhões de dólares zimbabuanos por meia hora de internet. Agora à noite, custa 30 milhões. Hiperinflação, meu amigo...

Escrito por Fábio Zanini às 05h42

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Meu primeiro bilhão de dólares

HARARE (ZIMBÁBUE) - Não realizei o sonho yuppie de ganhar meu primeiro milhão de dólares antes dos 30. Mas ganhei meu primeiro bilhão aos 32! Dólares do Zimbábue, ok, mas são dólares.

A hiperinflação seria divertidíssima, se não estivesse destruindo esse país. Está em 100.000% ao ano, segundo as estimativas mais recentes. As coisas aumentam todos os dias, e as referências básicas de valores se perdem. Uma Fanta 500 ml custa menos do que uma 350 ml. Um pacote de batata frita vale 40 vezes o preço de um jornal e quase o mesmo que uma diária numa pousada. Em português claro, é uma zona.

No câmbio oficial, 1 dólar norte-americano vale 30.000 Zim dollars. Mas trocar no oficial é uma loucura, já que uma garrafa de água custa 30 milhões de Zim dollars. Ou seja, se alguém cometer a insanidade de trocar dólares num banco e quiser ir até a esquina comprar água, terá pago 1.000 dólares americanos!

O jeito é trocar no mercado negro, o que é proibido e por isso tem de ser feito de forma discreta. Ontem, troquei 40 dólares americanos. A mulher tirou da bolsa um maço de notas de 10 milhões de dólares do Zimbabue, inclusive com etiqueta da Casa da Moeda. Parecia um daqueles maços que os Irmãos Metralha roubam nas historias em quadrinho. Perguntei quanto aquilo valia e ela me deu uma resposta que nunca esquecerei. "Estou te dando 1 bilhão de dólares".

As notas são em papel vagabundo, sem frescuras como marca d'água. Valem tão pouco que ninguém vai querer falsificar. Ah, e têm prazo de validade, como se fosse um iogurte. As minhas valem até 30 de junho. Confira:

Esse é o cenario do país que vai às urnas no sabado. Robert Mugabe, o presidente desde 1980, tenta se segurar no poder. Vamos ver se consegue.

Escrito por Fábio Zanini às 05h39

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Na fronteira: onde os fracos não têm vez

BEITBRIDGE (FRONTEIRA ÁFRICA DO SUL-ZIMBÁBUE) - Odeio fronteiras. Odeio a cara de mau dos oficiais e seu poder de decidir sobre a vida das pessoas com uma canetada. Odeio a espera, as pessoas estranhas circulando, o ar de terra-sem-lei, a humilhação imposta a quem quer apenas ir e vir.

 

Já estive em muitas fronteiras difíceis. Já estive na de Gaza com Israel. Já entrei na Russia com visto vencido. Mas poucas vezes fiquei tão tenso como ontem à noite, na fronteira da África do Sul com o Zimbábue. Com a eleição chegando (será sábado), o governo mandou controlar o acesso de estrangeiros. Alguns dias antes, eu havia ligado para o consulado do Zim em Johannesburgo, e o cidadão que atendeu foi categórico: “Você não conseguirá o visto na fronteira”. Mas decidi arriscar, confiando em relatos de pessoas que conseguiram, nos ultimos dias.

 

Quanto mais perto chegava da ponte de Beitbridge, sobre o rio Limpopo, que separa os dois países, meu nervosismo aumentava. E o motorista do onibus não ajudou em nada ao dizer que era preciso cuidado, “ladrões operam nessa área”. Meu pesadelo era ficar sozinho, cheio de tralha, de madrugada, num local daqueles.

 

Felizmente, o gordinho do posto de controle até esboçou um sorriso quando eu disse que era brasileiro. A-do-ro ser brasileiro nessas horas. Entrei. Fico alguns dias por aqui.

Escrito por Fábio Zanini às 06h15

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Rumo ao Zimbábue

JOHANNESBURGO (ÁFRICA DO SUL) - Amanhã parto para o Zimbábue, uma viagem de 18 horas de ônibus. Normalmente, é fácil entrar no país, você chega na fronteira, mostra o passaporte, compra o visto e beleza. Mas o presidente Roberto Mugabe está tenso e determinou controle mais restrito da entrada de estrangeiros, sobretudo brancos.

No sábado, dia 29, ele enfrenta uma parada dura na eleição presidencial, contra dois fortes oposicionistas, o ex-ministro das Finanças Simba Makoni e o líder sindical Morgan Tsvangirai. Tio Bob está há 28 anos (!) no poder, tem 84 de idade e seu legado é um regime autoritário e a maior inflação do mundo, de 100.000% ao ano (você leu certo). Mas ele quer mais 5 anos no poder.

Conseguirei entrar? Em breve, você saberão.

 

Escrito por Fábio Zanini às 13h47

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Estádios da Copa de 2010

JOHANNESBURGO E BLOEMFONTEIN (ÁFRICA DO SUL) - Cadê a Copa, perguntei alguns posts atrás. Bom, fui procurar. Visitei 3 dos 10 estadios que serão usados em 2010.

O da foto aí embaixo é o de Bloemfontein, cidade no centro do país. Como metade dos locais que serão utilizados, ele está sendo reformado. Depois da orgia de novos estádios e tecnologia das Copas de 2002 (Coréia e Japão) e 2006 (Alemanha), a África do Sul adotou um modelo mais simplório e e econômico. Estádios velhíssimos (um deles, de 1906!) estão recebendo uma plástica. O de Bloem, normalmente usado para rúgbi (observe as traves no gramado), foi construído em 1952. Uma nova lateral de arquibancadas esta sendo construída, o que fechará completamente o quadrado. Terá capacidade para 48 mil pessoas e não chega a ser muito impressionante.

 

Mais legal é o Soccer City Stadium, da próxima foto. Aqui, devem ocorrer o jogo de abertura e a final. Fica na entrada do Soweto, o histórico distrito/favela perto de Johannesburgo, das lutas contra o apartheid. Um estádio que ja existe, de 1987, está sendo todo refeito, e terá 95 mil lugares. Ainda falta muito a fazer, e o pessoal parece não ter muita pressa. Hoje, quando visitei, a galera já tinha zarpado para o feriado de Páscoa e não pude entrar. Mas mesmo olhando de fora, impressiona.

O terceiro, da foto seguinte, é Ellis Park, no centro de Johannesburgo. Este é o Maracanã do rúgbi sul-africano, outro que será adaptado para o futebol. Construído em 1982, foi sede da maior glória da história do esporte sul-africano, a conquista da Copa do Mundo de Rúgbi, em 1995. Mas uma comparação mais adequada é dizer que Ellis será a Bombonera da Copa, o famoso estádio do Boca Juniors. O negócio é um alçapão, onde 61 mil pessoas se sentam em arquibancadas quase verticais, como se caíssem sobre o campo. O pessoal das primeiras fileiras fica a 5 metros do gramado! A Copa promete...

 

Escrito por Fábio Zanini às 07h56

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Ainda sobre brancos e negros

BLOEMFONTEIN (ÁFRICA DO SUL) - Eles chegam de manhã para as aulas em grupinhos barulhentos, como em qualquer universidade do mundo. Mas na University of Free State, em Bloemfontein, há uma diferença com este estudantes. São grupinhos de brancos e grupinhos de negros. Na hora do café, há mesinhas de brancos e de negros (veja um exemplo na foto que tirei). Na biblioteca, na sala de computadores etc. etc. Em um dia inteiro no campus, vi apenas duas vezes um branco e um negro conversando. A universidade tem 15 mil negros e 10 mil brancos e é um soco no estômago de quem acha que o legado do apartheid sul-africano está totalmente superado.

Não vi hostilidade mútua, mas um "gelo" difícil de ser quebrado. Claro que há exceções lamentáveis, como a pichação que vi num banheiro: "Ei, pobres negros. Vocês permanecerão explorados para sempre. Essa é nossa universidade."

O post anterior, sobre o vídeo de Bloemfontein, gerou muitos comentários, aqui e por email. Só precisa ficar claro que encontrei muitos brancos genuinamente preocupados com o racismo - e decididos a aproveitar a vida e mover adiante. Um deles, Terry, o dono do hotel em que fiquei (e cujas palavras contra o vídeo são impublicáveis), me levou para um bar na segunda-feira à noite meia hora depois que cheguei de viagem. Rock and roll sul-africano da melhor qualidade, galera se acabando na pista, posters de mulheres de biquini, de bandas de rock e atores e, no meio de tudo, uma gravura com detalhes psicodélicos de ninguém menos que Andries Pretorius (1798-1853), o líder afrikâner que é uma espécie de patrono dos brancos sul-africanos (a capital, Pretoria, é homenagem a ele).

Que ele seja "dessacralizado" assim pelos próprios brancos, mais ou menos como se nós, sei lá, retratássemos Duque de Caxias dançando o créu, é um bom sinal de que o passado não governa muitos dos sul-africanos.

Escrito por Fábio Zanini às 12h19

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O vídeo maldito dos estudantes de Bloemfontein

BLOEMFONTEIN (ÁFRICA DO SUL) - Cheguei ontem a Bloemfontein, 400 km ao sul de Johannesburgo. Você provavelmente nunca ouviu falar, a menos que seja fanático pelo escritor J R R Tolkien, de "O Senhor dos Anéis", que nasceu aqui (mas saiu aos 5 anos de idade). Pois essa agradável cidade de árvores frondosas e um dos menores níveis de violência do país acaba de marcar seu nome na conturbada historia das relaçoes raciais sul-africanas.

Tudo porque um grupo de estudantes brancos da University of Free State, que fica aqui, gravou um vídeo aplicando trotes em empregados negros da residência estudantil (para brancos) em que moravam. O vídeo caiu no You Tube no final de fevereiro, e o estrago foi feito. O começo é até inofensivo, e os empregados parecem se divertir. Uma cena em que eles imitam o filme "Carruagens de Fogo" chega ser engraçada. Mas o final é de revirar o estomago. Um estudante urina numa tigela de sopa e serve aos empregados. Se quiser, veja em http://www.youtube.com/watch?v=F4jq_sucA34, mas evite se tiver acabado de almoçar.

A reação num país em que a memoria do apartheid é recente você pode imaginar. No vídeo, os estudantes falam afrikaner, uma lingua derivada do holandês, que é também a lingua associada ao regime racista que vigorou no seculo passado. A ultima frase pode ser traduzida como "isso é o que chamamos de integração".

Os estudantes foram expulsos da universidade, o que não impediu o fuzuê, com estridentes minorias de brancos e negros prevendo a volta do apartheid. O que é claramente um exagero. A maioria das pessoas convive bem com a democracia racial, apesar das tensoes eventuais.

Em tempo, o "presidente" da residência em que houve o trote, um garoto de 20 e poucos anos, me garantiu que cena da urina foi forjada: o líquido que cai na sopa seria água, despejada de uma garrafa. Acredite se quiser.

Escrito por Fábio Zanini às 13h33

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Cadê a Copa?

JOHANNESBURGO (AFRICA DO SUL) - A Africa me recebeu com frio e chuva. E onde está a Copa do Mundo? Esperava chegar ao aeroporto internacional de Johannesburgo e ver os saguoes cheios de posters da Copa de 2010. Nada. No táxi, a caminho da cidade, procurei outdoors, com a recém-comprada camera na mão. Nada. No Brasil, já falamos de 2014 como se fosse na semana que vem. Aqui, o soccer disputa espaco com criquete e rugbi. E ninguem torce para os times locais, como Kaizer Chiefs e Orlando Pirates, mas pelos clubes ingleses.

Tudo bem que faltam mais de dois anos ainda, mas nenhuma referencia ao que foi marketeado como grande evento esportivo da historia do continente? Pior, muitos por aqui acham que ela nunca acontecerá. Jimmy, o taxista bulgaro e jogador de futebol amador que minha amiga Lili me arrumou, tem certeza. "Tenho boas conexoes na Fifa, posso garantir que a Copa não será aqui", diz, com ar misterioso. Que conexoes?. "Hm... boas conexoes. 99% de chance de a Copa ser transferida para a Europa".

A teoria conspiratoria não é rara por aqui, a ponto de Danny Jordaan, chefe do comite organizador, ir aos jornais dia sim outro também para reforçar que tudo esta indo muito bem. Os estadios estao sendo construidos e devem ficar prontos a tempo. Os problemas são outros, brasileirissimos: crime e falta de energia. No caminho do aeroporto, um outdoor diz: "Cuidado. O crime não tira férias". Foram 25 mil assassinatos no ano passado, segundo Jimmy, o sabe-tudo. E tem o apagão. Falta energia com tanta frequencia que várias lojas exibem um cartaz: "We trade during power outages". "Funcionamos durante faltas de luz" (veja a foto). O apagao virou um fato da vida, e quem tem gerador sai na frente.

Escrito por Fábio Zanini às 05h40

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Fazer caber na mochila: uma arte

SÃO PAULO - 18 camisas/camisetas, 3 calças, 2 jaquetas, 2 bermudas, 20 cuecas, 20 pares de meias, 1 tênis, 1 sapato, 1 chinelo, 1 toalha, 1 sunga, 1 óculos de nadar (depois eu explico), escova de dentes, pasta, desodorante, 2 tubos de repelente-especial-inventado-pelo-exército-francês, protetor solar, tandrilax, cataflan, resfenol, amoxil, caladril, dipirona, termômetro... Tudo na belezinha aí ao lado, 50 litros com corpinho de 60. E cortesia da milenar arte de socar, que consiste em apoiar os dois braços por cima de tudo e jogar o peso do corpo.

Amanhã chego a Johannesburgo, para alguns dias como hóspede da minha amiga Lili, uma abnegada jornalista sino-brasileira que ajuda no esforço da ONU contra a Aids na África. Depois Zimbábue, Zâmbia, Tanzânia...

Escrito por Fábio Zanini às 09h51

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Começou

SÃO PAULO - "África?!! Mas por que você vai para a África?!!". Ouvi isso dezenas de vezes nos últimos meses, o tom de espanto subindo na medida em que a viagem ficava mais próxima. Muito espanto, às vezes até um pouco de pena, mas também muita admiração de pessoas que se confessaram mortas de inveja. Não sei bem responder, mas me vem à cabeça o que disse o alpinista britânico George Mallory quando perguntado por que queria subir o Everest: "Porque está lá". A África está lá, com 54 países, milhares de dialetos, petróleo, parques nacionais inigualáveis, ditadores de almanaque (Mugabe, me aguarde), banheiros sem papel higiênico, mosquitos que não ligam para repelentes e a maior diversidade cultural desse planeta.

Começo hoje uma viagem de ponta a ponta, da África do Sul até a Etiópia, durante 4 meses. De ônibus, preferencialmente, e todas as variáveis de locomoção que a criatividade africana permite. Vamos juntos.

Escrito por Fábio Zanini às 09h10

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PERFIL

Fábio Zanini Fábio Zanini, 33, é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), com mestrado em relações internacionais pela School of Oriental and African Studies (Soas), da Universidade de Londres.

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