Bali 40 graus - Despachos da Conferência do Clima
 

Cacoetes zimbabuanos

HARARE (ZIMBÁBUE) – Um de meus passatempos favoritos quando viajo é perceber os maneirismos e cacoetes das línguas locais. O Zimbábue, que fala inglês, é um prato cheio.

 

Praticamente toda frase começa com um “Áaaaaaaaaaaaa...”, bem aberto e que dura cerca de um segundo, para organizar as idéias.

 

Exemplos:

-Está com fome?

- Áaaaaaaaaaaaa..., sim, um pouco.

 

-O que você acha de Mugabe?

- Áaaaaaaaaaaaa..., não gosto dele.

 

Tem ainda um Iiiiiiiiii agudo, mas bem agudo, que expressa surpresa/indignação, em várias frases.

 

Depois vem o boss, que eles falam com o “o” fechado. É um cruel resquício do colonialismo, quando os negros eram obrigados a chamar os brancos de boss (chefe). Sempre que um garçom ou taxista se dirige a mim é dizendo boss. Os meninos que pedem esmola também... Fico até meio constrangido.

 

E ainda há o impagável “ôráite”, corruptela de all right (tudo bem). Se o “Áaaaaaaaaaaaa...” inicia as frases, o “ôráite” termina. É como se fosse um “tá”.

 

O sotaque também é difícil. Outro dia perguntei o que tinha pra comer e o cara falou: “bâga”. Perguntei o que era isso e ele, certamente achando que eu fosse louco, começou, pacientemente: “é um tipo de sanduíche, com carne no meio...” “Bâga” era como ele pronunciava o inglês burguer, o nosso hambúrguer...


Escrito por Fábio Zanini às 06h20

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A oposição finalmente reage

HARARE (ZIMBÁBUE) – É inacreditável o que está acontecendo nesse país. Por lei, a comissão eleitoral tinha até a meia-noite de ontem para divulgar o resultado da eleição presidencial. O prazo se esgotou, não saiu resultado nenhum, a comissão não deu nenhuma explicação e ficou por isso mesmo.

 

A oposição finalmente tomou uma atitude e está entrando na Justiça para obrigar a divulgação. Escrevo esse post no sábado de manhã, exatamente uma semana após a votação e nenhuma parcial da eleição presidencial saiu.

 

A imprensa internacional praticamente toda já foi embora. Se Mugabe roubar o jogo, será um crime quase sem testemunhas.

 

Eu vou ficando, esperando, esperando, esperando, na companhia das centenas de policiais que agora patrulham ostensivamente Harare. Ontem vi pela primeira vez dois blindados passeando pelo centro da cidade.

 

A polícia aqui é assustadora, com a pior das caras de mau que você pode imaginar. Ontem dobrei uma esquina e dei de cara com quatro policiais caminhando, com capacete e tudo. Cruzei com eles, virei e tive uma tentação quase irresistível de tirar uma foto deles de costas, se afastando. Vocês iam adorar... Felizmente, tive juízo e desisti. Se me pegam fazendo isso, vou pra cadeia, como aconteceu com uma repórter da TV canadense, a CBC.

 

E às vezes parece que eles não largam do meu pé. Ontem à noite eu assistia, de pé, ao noticiário local, na TV colocada no lobby do hotel Sheraton, quando dei uma olhada à minha volta e tinha a companhia de uns 15 policiais, vidrados da tela. Ô, gente chata...

Escrito por Fábio Zanini às 06h10

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Noite tensa em Harare

HARARE (ZIMBÁBUE) – Ontem à noite acabou a tranqüilidade nórdica dessa eleição e fomos lembrados de que isso aqui é, afinal, um Estado policial.

 

Por volta das 20h30, depois de um dia intenso de trabalho, íamos saindo do Hotel Sheraton, onde fica o centro de imprensa, para finalmente termos um jantar decente (traduzindo: que não seja hambúrguer da horrorosa lanchonete do hotel). Estávamos eu, Andréa Murta, da Folha de S. Paulo, Sergio Kalili, da Caros Amigos, e Antônio Pina, um português que vive na África do Sul e trabalha para a Agência Lusa.

 

O plano foi interrompido com a notícia que logo começou a se espalhar: o regime de Robert Mugabe acabara de começar uma caça a jornalistas estrangeiros e a molestar dirigentes do partido de oposição, o MDC. Parece que, na véspera da divulgação do resultado presidencial, Bob avisa: não vou cair sem brigar.

 

As notícias vinham truncadas. Um tal de York Lodge, num bairro afastado e escuro da capital, tinha sido cercado pela polícia, porque ali havia jornalistas norte-americanos. Pegamos um táxi para lá, uma rua deserta. Nenhuma alma viva.

 

Andrea e Sergio descem do carro e interfonam: “Houve prisão de jornalistas aí?”

 

Resposta do outro lado: “Sem comentários”

 

Insistem: “Mas está tudo bem?”

 

A voz, agora quase sussurrando: “Sem comentários. A polícia ainda está aqui”.

 

Achamos melhor ir embora.

 

Fomos depois para outro hotel, onde há muitos jornalistas. Um italiano nos diz que revistaram seu quarto e o de um espanhol.

 

Antônio recebe um chamado no telefone: são dois jornalistas, um do “The New York Times”, outro não se sabe de onde.

 

Nos últimos dias, gradativamente a presença da tropa de choque nas ruas foi ficando mais evidente. O que você via uma vez por dia agora é freqüente. Hoje vi vários policiais de choque, com seus capacetes azuis, viseira protetora, cassetetes. Fala-se muito que há agentes secretos do governo infiltrados em lobbys de hotel, onde jornalistas passam muito tempo fofocando.

 

Há uma clara, claríssima tentativa de intimidação. Mas algo indica que são os últimos espasmos de autoridade de um regime moribundo. O clima no país é de mostrar a porta da rua para o velho presidente.

 

Hoje de manhã, Mugabe reúne seu politburo, no que deverá ser um dos encontros mais importantes da história desse país. Pode aceitar os resultados ou dar um golpe. De noite deve ser divulgado, finalmente, o vencedor da eleição. O Zimbábue prende o fôlego...

 

p.s.: escrevo às 23h de ontem (18h no Brasil). O plano de ir para o restaurante há muito foi abandonado. Estamos de volta ao Sheraton, e a nossos laptops. Acabo de pedir meu hambúrguer.

 

Escrito por Fábio Zanini às 03h20

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Quatro dias de espera

HARARE (ZIMBÁBUE) – Ontem a oposição anunciou novamente que ganhou no primeiro turno. Mas que aguarda os resultados. E que aceita se houver segundo turno. Entendeu?

 

Está ficando monótono isso. Quatro dias de apuração e nada de resultados da eleição presidencial. Quem sabe hoje?

 

O Zanu-PF, partido do governo, perdeu a maioria da Câmara dos Deputados. É um terremoto político isso. A África tem uma certa dificuldade de separar partido de Estado. O padrão sempre foi: o partido que liderou a luta pela independência se instala no poder e de lá não sai mais. É assim em Angola, Moçambique, Tanzânia, Namíbia e era no Zimbábue.

 

Mas ainda não saiu o resultado das presidenciais.

 

Ontem cansei de esquentar o sofá do saguão dos hotéis Sheraton (centro de apuração) e Meikles (base da oposição), de beber Coca-Colas e cafés em seqüência, e fui falar com pessoas.

 

Achei um taxista revoltado, que promete botar pra quebrar se houver roubo. Conheci um garçom figuraça, que só faltou me beijar quando eu disse que achava que a oposição ganharia. Mas o melhor foi o culto da Igreja Universal do Reino de Deus, no centro da cidade.

 

Lá pelas tantas, o pastor, um brasileiro, soltou o gogó, entre uma passagem bíblica e outra, para uma platéia de 200 pessoas: “Obrigado, senhor, pelos resultados da eleição! Esse povo está sofrendo! Deus abençoe o Zimbábue! Deus abençoe o novo presidente!”. E a galera aplaudiu, orou, levou as mãos ao alto.

 

Grande parte da população já vê Mugabe como história. Se o resultado oficial trouxer decepção, não sei não... As autoridades eleitorais estão brincando com fogo.

Escrito por Fábio Zanini às 04h38

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Críquete: o reduto dos brancos

HARARE (ZIMBÁBUE) - No Harare Cricket Club, bem ao lado da fortaleza ultra-protegida que serve de residência para Tio Bob Mugabe, um sistema de irrigação artificial trabalha sem descanso para manter a grama verdinha.

 

Com vista privilegiada para o campo, no Keg and Powder, um pub classudo com tapete verde, mesas de madeira e cerveja quente da melhor qualidade, senhores de meia idade passam o dia acompanhando canais britânicos na TV e remoendo-se de nostalgia.

 

Bem-vindo ao gueto branco de Harare.

 

 

Na parede, uma foto da seleção nacional de críquete de 1999 não deixa dúvidas sobre quem domina esse esporte, introduzido pelo colonizador britânico: são 13 brancos e 2 negros na equipe. Os negros preferem futebol.

 

 

O críquete é parte da identidade nacional zimbabuana. Para quem não sabe, é uma modalidade que guarda semelhanças com o beisebol, só que mais longa, mais chata e mais complicada, se é que isso é possível. Mas muitos ingleses, australianos, indianos, paquistaneses, sul-africanos e zimbabuanos adoram.

 

Há duas variantes: partidas que duram cinco dias, mais importantes e que são chamadas de “tests” e jogos mais simples, que demoram um dia. Não peçam para eu entrar em detalhes, por favor. Não consigo entender as regras desse troço.

 

O êxodo dos brancos do país em razão da crise econômica pegou em cheio o críquete. Já foram 250 mil, hoje são 10% disso. A convivencia entre brancos e negros é civilizada por aqui, mas já foi pior, principalmente no começo da década, quando Mugabe fez uma reforma agrária que tirou terras de brancos e passou para negros.

 

Tomando sua cervejinha do meio-dia, o médico Peter me explica que o Zimbábue sempre foi uma potência média do esporte: o que seria o México no futebol, digamos. Hoje é um nanico, uma Ilhas Faroe.

 

Tanto que o país vem sendo excluído por deficiência técnica dos “tests” e, suprema humilhação, disputa o campeonato nacional da África do Sul. “Viramos uma província sul-africana, e ainda assim estamos entre os piores do torneio”, suspira Peter. Poderia ficar ainda pior: o governo britânico vira e mexe ameaça pedir o banimento da seleção do Zimbábue de eventos internacionais, como forma de pressão contra Mugabe.

 

O clube de Harare é o principal centro do críquete no país. As arquibancadas têm lugar para 8.000 pessoas, mas há muito não vêem casa cheia. O clube já teve 500 sócios, hoje tem 100. Nas paredes, fotos de ídolos do passado e um ar pesado de melancolia.

 

A esperança reside na renovação, e na tarefa de incluir mais negros no esporte. No dia que visitei, três garotos negros brincavam no campo impecável, dois lançando bolas e um rebatendo.

 

 

Era o críquete na sua versão peladeira.

Escrito por Fábio Zanini às 04h28

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O novo presidente?

HARARE (ZIMBÁBUE) – A cidade amanheceu calma. Hoje, Morgan Tsvangirai promete apresentar as provas de que venceu a eleição presidencial: o número final de votos, que sua campanha totalizou em todas as seções eleitorais. Forma sutil de mandar um recado à comissão eleitoral, que é um poço de letargia e está sentada em cima dos resultados.

 

Ontem, Tsvangirai deu as caras pela primeira vez desde a eleição, numa entrevista coletiva. Fui lá ver. Impecável num terno escuro, ele finalmente parece ter contratado um Duda Mendonça. Já não era sem tempo: durante a campanha, usava um ridículo chapéu de cowboy.

 

 

Leu um comunicado, respondeu atravessado para vários jornalistas, fez uma ou outra gracinha sem graça e vazou.

 

Tsvangirai (pronuncia-se Tchanguirái) tem muitos paralelos com o nosso Lula, aliás. Surgiu como um líder sindical, com greves gigantescas contra a situação econômica. Tomou gosto pela coisa e começou a pedir liberdade política. Fundou seu partido, o MDC, e agora está a um passo da Presidência.

 

Também suavizou o discurso, como o nosso petista, mas bem mais rápido. Passou a campanha eleitoral insinuando que mandaria Robert Mugabe para o Tribunal Penal Internacional, em Haia, por crimes contra a humanidade, mas ontem chegou a dizer que acreditava na honestidade do presidente. Prometeu um governo sem vinganças contra ninguém.

 

Ele é parrudão, meio troncho, dizem que autoritário, e tem carisma abaixo de zero. Mas é admirado pela coragem. Quase morreu espancado pela polícia no ano passado, mas voltou. E, claro, é o candidato queridinho dos países poderosos, coisa que ele não esconde.

 

Veja essa foto, que tirei ao final da entrevista: à esquerda, o braço direito de Tsvangirai, Tendai Biti (à esquerda), cercado por embaixadores, num sinal inequívoco de apoio. O negro à direita é o dos EUA.

 

 

Quem sabe hoje finalmente sai a fumaça branca dos burocratas eleitorais?

Escrito por Fábio Zanini às 04h59

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Harare ferve

HARARE (ZIMBÁBUE) – A capital está tensa como eu até agora não havia visto. Passou-se mais um dia sem uma só palavra das autoridades eleitorais sobre a eleição presidencial de sábado.

 

Por onde ando ouço cobranças de eleitores. Cadê os resultados?, perguntam a moça do internet café, que a essa altura já é minha amiga, todos os taxistas que você puder imaginar, o sorveteiro do parque, os engravatados das filas.

 

Mas a ZBC (Zimbabwe Broadcasting Corporation), a TV estatal, só quer saber de anunciar resultados das “constituencies”, os distritos do Parlamento. A cada hora, mais ou menos, uma dupla de burocratas, dos mais cinzentos que já vi, anuncia, de maneira tediosa, 10 ou 15 resultados de deputados eleitos, sempre alternando um governista e um oposicionista. São 210 no total para serem anunciados, e ontem não foi nem a metade.

 

A TV, aliás, não dá a mínima para o que país pensa. Agora de manhã, com todos esperando, mostrava um documentário sobre babuínos.

 

Ontem à noite vi soldados da tropa de choque pela primeira vez nas ruas. A oposição canta vitória, e as ONGs que fiscalizam o processo (e que são financiadas por governos europeus) anunciam que Robert Mugabe perdeu.

 

Há boatos de que haverá toque de recolher, de que massas de deliquentes mugabistas chegarão de madrugada para tomar a cidade. Até de que o presidente fugiu para a Malásia se fala.

 

Se Mugabe perder, aceitará pacificamente? E, se ele for anunciado vencedor, como é que a oposição, que já se sente vitoriosa, se comportará? Harare ferve...

 

Escrito por Fábio Zanini às 04h07

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Live and let die

HARARE (ZIMBÁBUE) – Das muitas bizarrices que este país reserva, trocar dinheiro é das maiores. Eu me sinto num filme de James Bond, às vezes.

 

Outro dia eu precisava trocar 500 rands sul-africanos (uns US$ 70). No câmbio oficial é loucura, porque é ridiculamente baixo. O jeito é o negro, mas que é ilegal. Então, você precisa ter contatos.

 

Fui num hotel e me disseram que Martin, um congolês, era o cara. Encontrei-o em frente a outro hotel, ao lado de mais três sujeitos. Pergunto se ele é o Martin, e ele, certamente imaginando do que se tratava, responde que sim. Seguem-se segundos de um silêncio ridículo, em que fiquei abanando a cabeça pra ele e ele pra mim. Até que solto:

 

“Sabe onde posso trocar dinheiro?

Martin: “Você acha por aí”

Eu: “Me disseram que você tem contatos”

Ele, em voz baixa: “Quanto?”

Eu: “500 rands”

 

Ele vai num canto, pega um telefone e liga pra alguém. E volta: “Alguém virá vê-lo”

Não dá cinco minutos aparece um Nissan branco com um casal. Martin entra no banco de trás e me chama. Entro também. A transação se dá em dez segundos: dou os rands, recebo os dólares zimbabuanos.

 

De longe, um policial olha. Pergunto a Martin se não há problema: “É meu amigo”, responde.

 

Mas eis que um Mistubishi preto com dois homens estaciona emparelhado com nosso carro. O motorista se assusta e, sem me dizer nada, liga o carro e sai rapidamente, comigo ainda dentro. Nem preciso perguntar o que está acontecendo: os dois homens podem ser policiais, então...

 

O sujeito dobra duas esquinas e me libera. Vou embora, olhando por cima do meu ombro, para ver se estou sendo seguido.

 

Isso acontece umas duas vezes por semana. Você recebe maços e mais maços, mas que acabam rápido. Cada conta paga é meio maço que se vai. A da foto abaixo é de um restaurante português, que tinha um karaokê medonho no meio.

 

Escrito por Fábio Zanini às 04h02

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Esperando os resultados

HARARE (ZIMBÁBUE) – Boatos, nervosismo e uma confusão inacreditável das autoridades. Ontem, o day after da eleição zimbabuana foi de testar os nervos. Centenas de jornalistas, observadores e diplomatas passaram o dia correndo para cima e para baixo, tentando checar todo tipo de rumor e à espera da fumaça branca da comissão eleitoral, que não apareceu.

 

O dia acabou sem um mísero resultado anunciado e a promessa de que hoje vai. Está demorando mais do que o previsto. O ar está pesado em Harare, o espectro de um confronto cresce e o medo de fraude também.

 

Eu não fugi à regra e passei um dos dias mais confusos desde minha chegada à África. Acompanhe (horários do Zimbábue, cinco horas a mais que o Brasil):

 

7h50 – Sem café da manhã, vou ao internet café ao lado hotel atualizar este blog. Chego e vejo a dona sentada na calçada. “O meu empregado, que tem a chave, ainda não apareceu”. Felizmente, acho outro lugar.

 

10h – O motorista da embaixada brasileira passa no meu hotel. Dentro do carro já estão Andréa Murta, da Folha de S. Paulo, e Sergio Kalili, da revista Caros Amigos. Vamos entrevistar o embaixador brasileiro no Zimbábue, Raul de Taunay, e o deputado federal Antônio Carlos Pannunzio, que formam a gloriosa missão observadora brasileira.

 

12h – Depois da embaixada, começa um périplo. Primeira parada, Hotel Miekles, sofisticadíssimo, onde o MDC, partido de oposição, vai dar uma coletiva. Chegamos e descobrimos que não há coletiva nenhuma.

 

12h30 – Dou um pulo no comitê central do MDC, que fica a quatro quadras. Chego e não há energia. São seis andares de escada. Procuro alguém da campanha. Sandra, uma funcionária simpática, me recebe. “Estamos com medo. O governo virá para cima de nós.”

 

13h – De lá para o Hotel Sheraton, onde fica o centro de apuração. De novo, nada de resultado. Aproveito para almoçar com os colegas um omelete de três ovos, mais um ovo frito que veio no hambúrguer da Andréa e ela não quis. Quatro ovos, portanto. Mas o café tomei com adoçante.

 

14h30 – Chega informação de que agora sim teremos coletiva do MDC no Miekles. Voamos para lá. O hotel está deserto. A coletiva é no Holiday Inn, às 15h, somos informados.

 

15h – Holiday Inn. Coletiva nenhuma. Quem vai falar, e só às 17h, é a rede de ONGs que observa o processo.

 

16h – Dou uma fugida para tentar telefonar para a patroa, no Brasil. Ligação péssima, mas consegui.

 

17h – Na coletiva das ONGs (foto abaixo), vem a cobrança. “A demora na divulgação dos resultados alimenta especulações de que alguma coisa está ocorrendo”, diz o comunicado. Um observador holandês que conheci ontem, um senhor de meia idade, vem cochichar comigo. “Mugabe e o seu politburo estão reunidos. Sabe que perdeu e prepara o golpe”.

 

 

17h45 – Chego de novo ao Sheraton. Um jornalista espanhol vem com novo boato: “Morgan Tsvangirai (do MDC) ganhou com 55%. Mugabe teve 36%”.

 

18h – Nada de resultados ainda. Vou para o quarto hotel do dia, o Crowne Plaza, onde Sergio e Andréa estão hospedados, buscar o laptop. O taxista quer cobrar 100 milhões de dólares zimbabuanos (o normal é 60 milhões). Saio do carro batendo a porta, como uma prima donna. Ele grita: “Ok, ok, 60...”

 

18h30 – Estou de volta ao Sheraton. Observadores africanos vão dar uma coletiva. Sala abarrotada, tenho de ficar de pé.

 

19h05 – 35 minutos de atraso. Continuo de pé. Um sujeito de boné vai ao microfone dizer que começará em breve.

 

19h45. 1h15 em pé. Começa a coletiva. O chefe da missão, um angolano, diz que a foi tudo transparente. Alguém pergunta: “Como você diz isso sem saber o resultado?”. A resposta é antológica: “Somos observadores da votação, não da contagem”.

 

20h15 – O embaixador espanhol me confidencia: “Morgan Tsvangirai ganhou”. Como?! “As ONGs fazem apuração paralela”. Mas como o sr. sabe? Ele ri: “Quem financia as ONGs somos nós”.

 

20h30 – Janto uma fatia de bolo de chocolate.

 

22h – Hora de bater matéria para a Folha.

 

23h30 – Estou desabado no sofá do Sheraton. De repente, sem mais nem menos, o presidente da comissão eleitoral começa a falar na TV estatal. O desgraçado marca a divulgação dos resultados para as 6h da manhã! Tenho menos de seis horas para dormir. Boa noite.

Escrito por Fábio Zanini às 03h35

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Zimbábue: o voto na ponta dos dedos

HARARE (ZIMBÁBUE) - Eles chegavam, mostravam a mão limpa para o mesário, pegavam quatro cédulas, preenchiam na cabine secreta, depositavam na urna transparente e recebiam uma camada de tinta púrpura, indelével por 24 horas, nos dedos. Prova de que votaram e não fariam de novo. A maioria saía sorridente. Era assim que ficava:

 

 

Aparentemente, o que se imaginava um delírio apenas alguns meses atrás aconteceu. A votação para presidente e Parlamento ontem no Zimbábue parece ter sido um modelo de transparência.

 

Mas ontem foi apenas a parte mais fácil. Como me disse um embaixador europeu em Harare, Mugabe e sua turma operam com a seguinte lógica: “o povo vota, mas nós é que apuramos”. É na campanha, antes do dia da votação, e na apuração, nos dias seguintes, que as sutilezas da fraude se manifestam. Em 2002, eleição presidencial que Mugabe provavelmente roubou, o dia do voto também foi tranqüilo.

 

Estive ontem, junto com minha colega Andrea Murta, da Folha de S. Paulo, em quatro seções eleitorais de Harare. Muita polícia em todas elas. Mesmo ela, devidamente credenciada pelas autoridades zimbabuanas ao módico preço de US$ 1.800 (provavelmente o credenciamento mais caro da história), teve problemas para trabalhar. Já eu, que, hmmm..., como direi, estava “menos credenciado”, tive que olhar de longe.

 

Em um dos casos, na seção montada na Sir Wilfrid Anson School, ao lado de uma indústria de tabaco que fechou, nos mandaram manter uma distância de 300 metros (eu e Andrea ignoramos a ordem).

 

Mas nem a polícia podia me proibir de falar com eleitores que não cabiam em si. Na Eastridge School, zona residencial e arborizada da cidade, um sujeito engraçadíssimo, com gigantescos óculos que poderiam fazer o Mr. Magoo voltar a enxergar e se disse “aconselhador profissional de casais”, veio em minha direção já armando um longo abraço. “Obrigado, obrigado, vocês estão nos ajudando muito”.

 

Não vi filas enormes, nem intimidação explícita. Talvez porque fui de manhã, quando muitos estavam na igreja e votariam mais tarde. Esta era a fila na Nettleton School.

 

 

Mas vi muita cara de bravo daqueles policiais, controlando todo o ambiente, cujo efeito numa população traumatizada por décadas de um Estado repressivo você pode imaginar. A foto acima tirei escondido deles.

 

O dia da eleição, fora alguns incidentes isolados, transcorreu bem. Mas são “eles” que apuram. O resultado sai entre hoje e amanhã.

Escrito por Fábio Zanini às 03h09

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PERFIL

Fábio Zanini Fábio Zanini, 33, é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), com mestrado em relações internacionais pela School of Oriental and African Studies (Soas), da Universidade de Londres.

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