Zanzibar: exotismo e chá com pimenta
ZANZIBAR (TANZÂNIA) - Zanzibar é um pouco como Timbuctu ou Marrakesh, um nome que evoca memórias de histórias fantásticas da infância, mas que depois misteriosamente some de nossas vidas.
Zanzibar, uma ilha a 70 km da Tanzânia continental, no oceano Índico, sabe bem usar o marketing do exotismo a seu favor. Vive infestada de turistas, mesmo agora, na baixa temporada.

O que atrai os visitantes? Praias, claro, mas principalmente a Stone Town (cidade de pedra), um patrimônio da humanidade. A arquitetura tem claras influências árabes, resquício dos 400 anos de dominação por sultões oriundos de Omã, no Golfo Pérsico. Depois de 200 anos de influência portuguesa, os sultões chegaram no século 16 e só saíram em 1964.

Há também o legado de muçulmanos indianos e paquistaneses, o que contribui para que Zanzibar seja um curiosíssimo enclave islâmico em plena África negra.

Mulheres usam khanga, que cobre a cabeça e o corpo, ou buibui, que também esconde o rosto, parecida com a burca afegã. As mais velhas costumam usar preto, as mais novas preferem tons alegres. Homens desfilam de kofia, um chapeuzinho.

Zanzibar é a capital da cultura swahili, cuja língua de mesmo nome é o mais influente dos idiomas africanos, com ampla literatura e 70 milhões de usuários na costa do Índico, de Moçambique, no sul, até a Somália, no norte. Muitos habitantes aqui não falam inglês, a outra língua oficial da Tanzânia.

No século 19, era uma espécie de Hong Kong do seu tempo, com uma das economias mais abertas e prósperas do planeta. Europeus e norte-americanos vinham buscar mercadorias da Ásia e do continente africano. Canela, cravo e pimenta cultivados na ilha rodaram o mundo. O sultanato chegou a ter uma embaixada nos EUA. Para quem acredita na ideologia do livre comércio, é um caso a ser estudado.
Havia o tráfico de escravos, também, do interior africano para o Oriente Médio, que só cessou na década de 1890 _depois, portanto, do Brasil. Veio o século 20, o domínio britânico, e o lugar foi vítima da tendência geral do continente de ficar para trás. E isso aparece na precária conservação da cidade histórica.
Mas pelo menos é um centro histórico vivo, com pessoas morando, trabalhando e andando de bicicleta, o meio de transporte preferido aqui. Não como aquelas cidadezinhas coloniais “preservadas” que são uma sucessão de restaurantes e lojinhas caras para turistas, onde 15 minutos de caminhada em qualquer direção revelam bairros miseráveis onde a vida realmente acontece.

Zanzibar é um lugar para caminhar calmamente pelas ruas estreitas de pedra, visitar os mercados, sentar, almoçar um polvo por US$ 5, tomar um chá com pimenta (sim, chá com pimenta, delicioso). Tem também a casa onde nasceu o Freddy Mercure, se alguém se interessar.
E é um lugar orgulhoso e patriótico. Até os anos 60 era uma colônia independente, e a união com a Tanzânia nunca foi digerida por muita gente. Na chegada da travessia de ferry (duas horas e meia), tem carimbo no passaporte e alfândega, como se fosse outro país. Um lugar exótico, sem dúvida.
Escrito por Fábio Zanini às 11h20
Nas vilas, o capitalismo africano
DAR ES SALAAM (TANZÂNIA)
- Para quem está dentro do trem, é apenas mais uma parada. Mas vai
dizer isso para quem nos espera ansiosamente.
Foram 18 paradas “oficiais” durante
a viagem entre a Zâmbia e a Tanzânia, mais um sem-número de imprevistas. A
multidão vê o trem de longe, e começa a maratona. Mulheres correm com mercadoria
na cabeça: bananas, ovos, frango frito, batata doce, temperos diversos,
mandioca, doces, tortas.

Crianças geralmente vendem água,
refrigerante ou pão. Proto-capitalistas oferecem escova de dente, sabonete,
papel higiênico, chip para celular e até Red Bull. As transações ocorrem
rapidamente, da janela do trem mesmo.

E quem não tem o que oferecer pede
água, dinheiro, sabonete, comida, proporcionando ao viajante, que muitas vezes
carrega consigo o equivalente ao PIB mensal de uma vila inteira, um antológico
dilema de consciência. Jogar ou não um pacote de pão pela janela, como um
monarca francês do século 18, sabendo da humilhante disputa a tapa que isso
proporcionará?
A chegada em uma vila é das mais
interessantes visões de uma viagem pela África, com criancinhas correndo e
acenando.

Na África, a chegada do trem pode
fazer a diferença no salário apertado de uma família que vive da agricultura de
subistência. O trajeto entre a Zâmbia e a Tanzânia é por vilas pobres, mas a
terra é fértil e pelo menos não se passa fome _ao menos não nas margens da
ferrovia. A dificuldade é conseguir roupas, remédios, brinquedos, e para isso os
trocados obtidos com turistas é fundamental.
São poucos minutos para fechar os
negócios. O trem parte com mais acenos, e a população esperando o
próximo.
Escrito por Fábio Zanini às 06h25
De trem pelas savanas africanas
DAR ES SALAAM (TANZÂNIA)
- No fim, foram 58 horas de viagem pela savana africana, um atrasozinho
de 18 horas, e uma história típica deste continente. A locomotiva quebrou três
vezes, a última na verdade uma pane seca. Alguma mente iluminada calculou errado
a quantidade de combustível, ou simplesmente não tinha dinheiro suficiente para
a viagem toda, e o resultado foram sete horas parados no meio do mato, no escuro,
esperando resgate.
A viagem de trem de Kapiri Mposhi, na Zâmbia, até Dar es Salaam, na Tanzânia, é a clássica epopéia africana (o mapa abaixo é meio tosco, mas ajuda a dar uma idéia)

Paisagens fantásticas, conforto
zero. São 1.800 km entre vales, vilas, campos de arroz, milho, banana e girassol
e parques nacionais, com girafas, elefantes, zebras e antílopes atônitos
espiando o trem passar.
Começou às 16h da sexta-feira, na
Zâmbia, com o trem incrivelmente saindo no horário. Meu compartimento tinha
quatro camas, mas só eu e uma senhora belga dividimos o meu, o que levou a uma
interminável caça às bruxas entre a tripulação pelo culpado por tão inaceitável
quebra de protocolo. As cabines devem ser unissex, e o pessoal da Tazara Railway
Company, a administradora da linha, é extremamente conservador nesse
aspecto.
17h: ganhamos duas garrafas d’água,
dois saboneses “de luxo” (sei...), um rolo de papel higiênico e uma colcha para
servir também de travesseiro e colchão. A água acabou sendo usada para lavar a
mão e escovar os dentes na primeira noite, em que as torneiras estavam
secas.
17h30: primeira parada, a vila de Mkushi, com cabanas de palha. Primeira visão bucólica, também: garotos jogam bola num campinho improvisado,

18h: o garçom anota o pedido para o
jantar: arroz, cozido de carne e batata frita.
20h30: não há nada para fazer, o
bar do trem não é nem um pouco convidativo, e a senhora belga quer dormir. Durmo
também, mais por falta de opção.
2º
dia
7h: amanhece com os oficiais de
imigração da Zâmbia carimbando o passaporte de saída. Logo em seguida, a
primeira quebra: 2 horas parados
8h: chega o café da manhã, com ovo
frito frio, torrada fria e chá frio. Como com esforço e culpa. Dez garotos me
observam, do lado de fora do trem.
10h: outra parada, outro grupo de
garotos, que fogem quando eu aponto minha câmera.
12h: ainda na Zâmbia, a paisagem
começa a mudar. De mato e arbustos, para grandes plantações de milho e,
surpresa, de girassol. As casas não são mais apenas de palha, mas também de
tijolos de barro e teto de zinco.

15h: fronteira. O oficial da
Tanzânia vem, pega meu passaporte, sai com ele e diz que já volta. Retorna
depois de uma longuíssima meia hora, comigo à beira do desespero. Empreendedores
locais sobem no trem e ali mesmo trocam dinheiro, vendem chip de celular e
cartões pré-pagos.
16h: nova parada. Os garotos
tanzanianos parecem mais valentes. Brincam de atirar em
mim.
17h: passamos por um cemitério de
vagões tombados, sinal nada alvissareiro.
19h: nova pane, dessa vez de uma
horinha só. Vou dormir.
3º
dia
8h: no café da manhã, o trem dá um
tranco e o chá com leite fervendo jorra por cima de mim. Felizmente, só pegou a
calça.
10h: a paisagem muda para savanas,
uma espécie de grama gigante, em tons que vão do amarelo ao verde-limão,
lembrando um pouco os trigais de Van Gogh. Aparece a primeira girafa,
solitária.
12h-13h: o trem entra pelo parque nacional de Selous, um dos principais da Tanzânia, e o show começa. Uma manada de antílopes passa bem pertinho. Girafas aparecem às dúzias. Dois elefantes surgem como pontos pretos, lá longe. Tente achar as girafas, neste video:
15h30: o trem pára. É a pane seca.
Estamos literalmente no meio do mato.
18h: escurece. Não há energia
elétrica no trem. Não há comida. Não há informação. Parece que deu pane na
locomotiva. Começa a chover.
20h: desisto de esperar e vou
dormir.
22h40: chegou o combustível.
Partimos.
1h15: Dar es Salaam, para o primeiro banho em 72 horas.
Escrito por Fábio Zanini às 06h20
40 horas (ou 50, ou 60...) num trem
LUSAKA (ZÂMBIA) – Cheguei hoje de meu “pulinho” em Gana, mais 10 mil km e mais uma triangulação por meio da África do Sul, mas dessa vez a mochila chegou junto.
Amanhã parto de novo, agora de trem. Vou enfrentar o que se poderia chamar de uma mini Trans-siberiana, a famosa viagem de sete dias entre Moscou e Pequim. O meu trem levará “apenas” 40 horas, mas dizem que isso pode facilmente virar 50 ou até 60 horas. São 18 paradas no caminho.
Irei da Zâmbia, onde estou agora, até a Tanzânia. A viagem começa de ônibus na verdade, três horas entre Lusaka e uma cidade no meio da Zâmbia, chamada Kapiri Moshi. Lá é que começa a maratona ferroviária, até Dar es Salaam, na Tanzânia, onde espero chegar no domingo à noite. Dizem que terei uma cabine com cama, mas o preço que paguei (US$ 30) está barato demais para confiar... Sobre banho, não tenho a menor idéia.
Aparentemente, é uma viagem agradável pelas savanas africanas. Encontrei um alemão que me disse que conseguiu ver até elefantes no trajeto. Vamos ver se terei essa sorte.
Só no Brasil mesmo é essa vergonha de não termos transporte de trem. O mundo inteiro utiliza. A rede ferroviária africana é bem razoável, cortesia dos colonizadores. No sul da África, era a melhor maneira de ligar as várias colônias britânicas. No oeste, os franceses fizeram uma estrada entrando quase que pelo deserto, ligando o Senegal a Mali.
Mas, sinal dos tempos, os vagões do trem que estou pegando são chineses. Os novos senhores da África.
Até a Tanzânia, então!
Escrito por Fábio Zanini às 15h10
O mercado das bruxas de Gana
(O blog Pé na África adverte: esse post contém fotos que podem ser chocantes, especialmente para os que acham cachorrinhos bichinhos fofinhos.)
ACRA (GANA) – O Timber Market é o centro da bruxaria em Gana. Fica no meio de uma quebrada, impossível de ser encontrado por alguém de fora, como eu. Para chegar lá, tive que “contratar” um morador local que a cada dois minutos repetia: “Este é o mercado secreto... Este é o mercado secreto...”
Anda daqui, anda de lá no terrível sol do meio-dia, chegamos a uma viela com umas 10 a 15 barracas, no meio de um favelão. “Este é o mercado secreto”, disse meu guia, mais uma vez, certamente para valorizar o passe dele e me pedir uma grana extra.
Não sei se é secreto, mas eu era o único estrangeiro ali, e chamava a atenção. O Timber Market, que tem esse nome por que é todo de madeira (“timber”), vende matéria prima para feitiçaria. Logo na primeira barraca, cabeças de cachorro ressecadas:
Em seguida, ratazanas, passarinhos, sapos, lagartos, camaleões, cabeças de cobra (na foto abaixo tem uma, bem no meio).
Enfim, uma espécie de supermercado da Maga Patalógica. Só não vi asa de morcego.
As donas das barracas não pareciam prestes a sacar sua vassoura e sair voando. Ali era uma feira como outra qualquer, apesar do toque mórbido do local. Pelo que meu guia me explicou, a matéria prima vem de Acra e do interior do país, trazida por mercadores, como se fosse um produto normal. Uma cabecinha de cachorro sai por uns 2 dólares.
Fiquei poucos minutos no tal “mercado secreto”, porque as pessoas não me pareciam muito felizes com minha presença. Para tirar essas fotos, só depois de muita negociação e de pagar 1 cedi (equivalente a 1 dólar) para a dona da barraca.
Bruxaria é parte da cultura africana, parecida com a nossa macumba. A bruxaria é 100% tradicional, baseada em elementos da natureza, e convive mais ou menos civilizadamente com as religiões estabelecidas. Se bem que costuma ser denunciada por igrejas evangélicas rotineiramente.
No oeste africano, a bruxaria e suas variações é ainda mais forte do que em outras partes do continente. O vudu, por exemplo, vem do Benin, um país vizinho a Gana. Na Nigéria, de onde vieram muitos de nossos escravos, a feitiçaria é praticada abertamente em algumas regiões.
Não perguntei para que servem as cabeças de cachorro. Melhor não saber.
Escrito por Fábio Zanini às 11h33
Parreira desiste da vida na África do Sul
ACRA (GANA) – Estava ficando claro que a situação de Carlos Alberto Parreira na África do Sul era insustentável. Na semana em que passei por lá, em março, vi a imprensa local malhando o treinador, principalmente depois do fiasco que foi a participação da anfitriã da Copa do Mundo na Copa Africana de seleções.
Parreira alegou razões pessoais para voltar ao Brasil. Sua mulher estaria com problemas de saúde. Provavelmente a vida que ele leva em Johannesburgo contribuiu para sua decisão.
Ele mora num hotel cinco estrelas em Sandton, distrito chique da cidade. Na verdade, ao invés de um distrito, é uma coleção de shopping centers e protegidíssimos condomínios residenciais.
Em Sandton as pessoas não andam nas ruas. Saem de casa e, ainda dentro do seu condomínio fechado, entram em seus carros. As janelas vão fechadas até o local de trabalho, que ficam em torres de escritórios acopladas aos tais shopping centers. Trabalha-se, come-se e vive-se dentro de enormes complexos de lojas e escritórios.
O motivo é a violência. Respira-se medo na África do Sul, e especialmente
Quem acha que São Paulo é violenta deveria dar uma voltinha
Escrito por Fábio Zanini às 09h41
Lula pintado para a guerra
ACRA (GANA) – Desde 2000 que cubro com maior ou menor regularidade o presidente Lula. Poucas vezes o vi tão agressivo como nesta viagem a Gana (ele foi embora ontem de manhã). Não digo agressivo no sentido de raivoso, arrogante, mal-humorado. Pelo contrário, ele estava uma flor de pessoa.
Mas agressivo no que disse, nos petardos que soltou e nas críticas pesadas que fez contra os países ricos. Lula, nas 48 horas que passou em Gana, mostrou-se um perseguidor implacável e só faltou jogar a pia do banheiro em europeus e norte-americanos.
Ele está acuado com as críticas a uma política estratégica de seu governo, a dos biocombustíveis. Eles eram, até pouco tempo atrás, uma unanimidade mundial: mais baratos que o petróleo, mais limpos, mais efetivos como fator de distribuição de renda. E, para Lula, o que é muito importante: um veículo para projetar sua influência sobre o Terceiro Mundo.
Mas os biocombustíveis vêm sendo vilanizados, e não apenas no mundo rico, porque estariam tirando terra da produção de alimentos e assim causando inflação de produtos agrícolas.
A diplomacia brasileira foi claramente pega de surpresa e sentiu o baque. Sem saber como reagir, decidiu reagir esperneando contra tudo. Em Gana, Lula chamou os subsídios agrícolas dos ricos de “droga”, insinuou que europeus são hipócritas, que norte-americanos não cumprem suas promessas e que todos são desastrados em suas políticas econômicas.
É uma tática deliberada, que ele pretende usar em todos os fóruns de que for capaz. Não foi à toa que Lula foi um dos pouquíssimos chefes de Estado a prestigiarem a reunião da Unctad, aqui em Acra, um dos mais desprestigiados órgãos da ONU (na foto, ele está ao lado do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, na abertura do evento).

Espere, portanto, um Lula cada vez mais com toques de Chávez ao longo desse ano, pelo menos no cenário internacional: terceiro-mundista, agressivo contra os ricos, quem sabe até usando algum tipo de jargão “imperialista”. O risco é virar um cão raivoso. Parecer Chávez pode render amigos entre os pobres, mas ao preço da falta de credibilidade internacional.
Como Lula mesmo disse aqui em Acra, a batalha ainda nem começou.
Escrito por Fábio Zanini às 09h55
Lula reclama do pescoço
ACRA (GANA) – O segundo dia da viagem de Lula foi corrido. Entra de um evento, sai para outro evento, corre para um lado, corre para o outro, na melhor tradição de viagens presidenciais.
Cobrir um evento desses transforma você numa espécie de parasita presidencial. Você busca o presidente no aeroporto, segue o homem por toda parte, aproveita para almoçar quando ele está almoçando, para jantar quando ele está jantando, vai levá-lo embora para o aeroporto. Só não bota o cara para dormir. Não dá para descuidar um minuto, correr o risco de perder uma frase, ou uma resposta. E Lula é muito imprevisível, como já falei anteriormente.
Aqui vão algumas pílulas de seu segundo dia em Gana:
Incomodado – Lula continua reclamando do torcicolo no pescoço. Dá para perceber, de vez em quando, ele levando a mão ao local, fazendo cara de desconforto, virando para um lado e para o outro. No começo de seu governo, era a bursite, no ombro, que não o deixava em paz, mas isso foi mais ou menos resolvido com acupuntura. Agora, o inferno é o pescoço.
***
Empapado – Lula sua, e sua muito. E não suporta ficar com camisa suada. Às vezes troca de camisa quatro vezes durante o dia. Ontem, no sol escaldante de Gana, foram três. Primeiro de manhã, na visita aos tabom, uma camisa com motivos tradicionais africanos. Depois, na sede regional da Embrapa, já era outra camisa. E à tarde, naabertura da conferência da Unctad, mais uma, dessa vez com terno.
***
Com que roupa? – As camisas leves geraram um curto-circuito com o presidente de Gana, John Kufuor, aliás. Na cerimônia na Embrapa, o ganense apareceu de terno e gravata, enquanto a delegação brasileira estava toda casual. Lula olhou para Kufuor e brincou: “Mas que terno é esse?” Depois, ao microfone, avisou que “o presidente brasileiro não usa terno de domingo”. Kufuor respondeu que, em Gana, o protocolo requer que as pessoas “sofram”.
***
Íntimo – Ao ler seu discurso na abertura da reunião da Unctad, Lula preferiu não arriscar. Desistiu de ler o complicadíssimo nome completo do secretário-geral da organização, Supachai Panitchpakdi. Trocou para "Dr. Supachai".
Escrito por Fábio Zanini às 04h27
Chegou!
ACRA (GANA) – Foi só um susto. A mochila já tinha chegado na sexta-feira, mas as inteligências da South African Airways aqui em Gana me diziam o contrário. Precisou minha mãe e minha namorada acionarem a companhia no Brasil para localizaram a bendita...
Ontem fui pegá-la. Talvez eu sinta mais felicidade do que tive ao vê-la, perto da meia-noite, intacta, quando eu tiver um filho. Talvez.
A todos os que torceram por mim, muito obrigado.
Escrito por Fábio Zanini às 04h25
Lula e o Carnaval africano
ACRA (GANA) – Pode
ter certeza. Viagem de dignatário à África tem overdose de batucada e danças
típicas. Ontem, Lula teve uma dose cavalar disso.
Mas teve também carnaval e até uma
mini-escola de samba, comandada por um baiano que mora em Londres e, claro, é
praticamente um clone do Carlinhos Brown.
Lula passou a manhã na corte do rei
Nii Azumah V, numa favela de Acra. Por toda a África há chefes tradicionais,
chamados de reis, que não têm pode legal, mas representam uma fonte de
autoridade moral junto a determinado grupo. Muitos são consultados pelos governo
democraticamente eleitos na hora de tomar decisões. O rei dos zulus, na África
do Sul, por exemplo, é poderosíssimo.
Azumah é o rei dos tabom, um povo
que descende de um grupo de escravos baianos que, no século 19, comprou sua
liberdade e decidiu retornar à terra de seus ancestrais, a África. O nome vem do
fato de que trouxeram o costume bem brasileiro de terminar frases com “ta
bom?”.
Azumah chegou ladeado por súditos
protegendo-o do sol forte com uma sombrinha. Atrás vinha um senhor soprando de
uma concha marítima, como se fosse uma corneta. Eles usam o nome “concha”,
aliás, em português mesmo, para descrever o instrumento.
A visita foi a uma casa que serve
de “palácio” dos tabom, numa favela de Acra e foi restaurada com apoio do
governo brasileiro. Lula chegou com uma camisa estampada com motivos africanos,
discursou, posou ao lado do trono de Azumah e, quando ia saindo, ouviu o batuque
da escola de samba local. Primeiro olhou pela janela, do segundo andar da casa,
e depois desceu e foi cumprimentar o povo.
A escola de cem pessoas mais ou menos tinha pandeiro, bumbo, chocalho, agogô, cornetas, uma mini ala das baianas com mulheres carregando vasos de flores e uma comissão de frente com bandeiras de Gana e do Brasil. E uma suspeita marchinha que reproduzia a melodia do grito de guerra eternizado pelas campanhas presidenciais do petista: “olê, olé, olé, olá...Lula, Lula...”.
Escrito por Fábio Zanini às 18h38
A difícil arte de traduzir Lula
ACRA (GANA) – Lula é uma pessoa muito informal, e isso frequentemente gera momentos interessantes. Hoje fui acompanhar o primeiro dia da sua visita a Gana, que basicamente se resumiu a uma reunião no palácio presidencial com o presidente John Kufuor, um sujeito de ar bonachão, mas que claramente não está acostumado às lulices.
Eu tenho dó mesmo é do tradutor dele, Sergio Ferreira (na foto falando com Lula, enquanto Kufuor olha para longe). Lula improvisa demais, fala rápido e não tem paciência para esperar a tradução simultânea. Traduzir “companheiro” é um problema: ontem virou primeiro “colleague” e depois (pasmem) “brother”.

Ferreira já está com o presidente há mais de uma década, desde o PT, então releva os puxões de orelha que leva. Como quando o presidente disse que esperava uma revolução agrícola beneficiasse a África e Gana, o tradutor referiu-se só à África. “E Gana!”, reforçou Lula, impaciente.
Pior veio mais à frente, quando Lula disse que veio para a reunião da Unctad, que começa amanhã, só porque é em Gana. Mas o tradutor entendeu “engana”, e congelou. O presidente fuzilou o tradutor com o olhar, que, constrangido, pediu explicações. “Estou dizendo que a reunião é em Gana”, disse o presidente, novamente.
No final da declaração, Lula, em vez de dar um aperto de mão, inventou de dar um “gimme five” com o grandalhão africano, aquele cumprimento com as mãos espalmadas que os adolescente americanos adoram. Pego de surpresa, Kufuor não correspondeu o gesto, e o que se viu foram preciosos segundos da mão de um tentando achar a mão do outro, os dois quase se estapeando, sem conseguir.
Lula, em coberturas internacionais, geralmente está amistoso e bem-humorado, diferente do que ocorre no Brasil. Hoje era todo gentilezas com a imprensa. Não queria, mas atendeu aos jornalistas, enquanto Kufuor esperava. Coube ao ministro Franklin Martins (Comuicação Social) bater papo furado com o ganense enquanto a rápida entrevista acontecia. É bem verdade que Lula tentou empurrar seu chanceler, Celso Amorim, para satisfazer a ânsia da imprensa, mas os repórteres não caímos nessa.
E não poderia faltar o futebol, claro. Hoje a seleção feminina do Brasil bateu Gana por 5 a 0, e a imprensa insistiu em extrair um comentário. “Acho que sou mais solidário a Gana que o futebol brasileiro é”, disse o brasileiro. Kufuor preferiu ser diplomático e boboca: “Só de jogar contra o Brasil nos sentimos campeões...”
Amanhã tem mais.
Escrito por Fábio Zanini às 13h42
O caso da mochila desaparecida
ACRA (GANA) – De repente, minha viagem ficou dramática. Minha mochila está neste momento em algum ponto não identificado do continente africano, perdida pela South African Airways na triangulação Zâmbia-África do Sul-Gana.
A perda de bagagem é um pepino para qualquer viajante. Para esta minha viagem, em que sou nômade por definição, é um problemaço. Talvez alguns de você se lembrem de um dos primeiros posts desse blog, em que eu descrevia como estava quase que levando minha casa dentro dela.
Lá estão todas as minhas roupas, todos os artigos de higiene pessoal, toalha, remédios diversos, caríssimos comprimidos para malária, tênis, carregador de baterias para câmera, celular, Ipod, Palm... Felizmente, dinheiro, passaporte e câmera eu sempre carrego comigo.
Estou desde quinta-feira com a roupa do corpo: sapato, calça jeans e uma camisa velha. Nestes trajes fui cobrir o primeiro dia da visita de Lula a Acra, agora há pouco, enquanto todo mundo usava a roupa apropriada: terno. Pelo menos de “imprensa burguesa” dessa vez não serei acusado.
Era para a mala ter chegado ontem, disse a South African. Não chegou. Agora, na melhor das hipóteses, só quando houver o próximo vôo de Johannesburgo para Acra, na segunda-feira. É no mínimo bastante duvidoso que eu vá ver essa mochila novamente. Talvez tenha de comprar tudo de novo. Aliás, já comecei a fazer isso.
A companhia não me parece muito preocupada em resolver meu problema. Sou um estorvo, como posso perceber pelo jeito que sou atendido. A verdade é que na África a revolução capitalista aconteceu de forma claudicante, e noções como direito do consumidor são ainda muito tênues. É uma coisa sistêmica.
Estou num mato sem cachorro. “In a dogless bush”, como diria um amigo meu engraçadinho. Se alguém aí souber rezar uma novena para mim, ou fazer uma macumba, a hora é agora.
Escrito por Fábio Zanini às 13h40
A revolução dos celulares na África
ACRA (GANA) – Dificilmente encontramos na África algo que possa servir de exemplo quando se trata de infra-estrutura, mas a telefonia celular é, sim, um exemplo.
Os aparelhinhos estão revolucionando um continente em que a telefonia fixa é precária e a internet, caótica. Veja o caso de Gana: literalmente a cada esquina é possível ver não mais que uma barraquinha das mais rudimentares, às vezes com uma criança tomando conta, vendendo “sim cards” (aqueles chips de celular), ou cartões para pré-pagos, que aqui eles conhecem pelo divertido nome de “air time”.
É impressionantemente simples, rápido, básico e eficiente. E baratíssimo. Hoje saí à procura de um chip local para meu telefone comprado na África do Sul por US$ 30, que aliás funciona muito bem, obrigado. Não precisei procurar muito. Na avenida beira mar, meia dúzia de quiosques disputavam clientes.
Parei em um, administrado por uma senhora gorda, paguei 1,5 cedi (ou meros R$ 2,50) pelo chip, mais 7,5 cedis de “air time” e fui-me embora. Sem frescura, sem burocracia, sem preencher formulários, sem precisar ir na loja, nada. Resolvi em cinco minutos. E não é que, ao receber uma ligação do Brasil, funcionou? Tinha um delay de uns três segundos, ok, mas administrável.
A competição é feroz, entre a sul-africana MTN e companhias locais. Às vezes, o ponto de venda é um banquinho e uma mesinha triangular, debaixo de um guarda sol.
Na Zâmbia, foi a mesma coisa, embora as barracas de rua sejam um pouco mais sofisticadas e o chip tenha saído um tantinho mais caro, 10.000 kwacha (uns R$ 5).
O efeito disso na sociedade africana já foi objeto de estudos variados. Em algum momento em 2010, chegaremos ao patamar de 100 milhões de celulares no continente para 700 milhões de africanos. Ou seja, ainda ha muito espaço para crescer.
Os africanos usam muito o text message, e onde você anda vê pessoas digitando. Manifestações políticas se utilizam desse instrumento, como ocorreu recentemente no Quênia. Produtores rurais usam o text para se informar sobre a cotação de seus produtos nos mercados urbanos.
A exceção à regra é, adivinhe, o Zimbábue. Lá tentei encontrar um chip e só achei em um lugar, importado. O cara queria me cobrar 3 bilhões de dólares zimbabuanos (US$ 90 pela cotação de duas semanas atrás, hoje não tenho a menor idéia).
Se o futuro das comunicações está mesmo nos celulares, mais até do que nos computadores, os africanos estão queimando etapas. Não vai demorar muito para começarem a ter acesso à internet por meio de seus aparelhinhos. Pelo menos nesse campo, estão bem posicionados para o que virá.
Escrito por Fábio Zanini às 14h58
Aquecimento global é isso aqui
ACRA (GANA) – Que calor desgraçado faz aqui. Em países como Zâmbia e Zimbábue é quente, certamente, mas em Gana, pela proximidade com o Equador e pela umidade altíssima, chega a ser um risco à saúde.
Aqui brotam aquelas gotas de suor na testa, que escorrem pelo rosto e vão parar no ombro. Andar na rua ao meio-dia é impossível. Pedi arrego três vezes ontem, e fui atrás de táxis.
Uma medida de comparação eficiente é o índice garrafa d’água (IGA). Até agora, eram duas garrafinhas de meio litro por dia que eu comprava, no máximo. Mas em Gana, ninguém compra garrafinhas, mas as garrafas grandes, de um litro. Até agora, 17h aqui, foram duas que eu derrubei, e certamente virarei outra ainda hoje.
A cidade é praiana, claro, com um certo ar caribenho...
Mas não pense que isso ajuda muito. Ninguém anda de bermuda, havaiana e sem camisa (aliás, em quase lugar nenhum da África). Aqui pode estar 40 graus, mas é de calça comprida, tênis e meia que se anda. Até em sinal de respeito aos locais, tenho de fazer o mesmo.
Quero ver amanhã, quando Lula chega, e a vestimenta passará a ser terno e gravata...
Escrito por Fábio Zanini às 14h54
Em Gana, é Jesus por todo lado
ACRA (GANA) – Acabo de chegar a Gana e dou de cara com a sensacional manchete do “The Ghanaian Times”, um dos principais jornais do país: “Assaltantes congelam ao ouvir o nome de Jesus”.
Manchete principal, veja bem. Consta que um grupo de malfeitores tentou ontem assaltar um pastor e sua mulher e, ao ouvi-los gritando o nome do filho de Deus, ficou sem reação. E tudo acabou bem.
Bem que o Lonely Planet afirmou que os ganenses são ultra-religiosos, como grande parte dos povos da África sub-saariana, aliás. Mas aqui a coisa é bem forte. No caminho do aeroporto para o hotel, vi uns cinco empreendimentos comerciais com referências religiosas no nome. E meu hotel será palco de um mega-evento gospel no final de semana (espero que não de madrugada…)
Lula chega sábado de manhã para a reunião da Unctad, que estará coalhada de figuroes. Dizem que até o secretário-geral da ONU vem. O brasileiro terá uma programação mezzo política, mezzo cultural, incluindo uma visita à comunidade dos Tabom, descendentes de escravos brasileiros que retornaram ao continente africano com a mania de dizer “Tá bom?” para tudo, no século 19.
E vem vender biodiesel, evidentemente.
Depois de dias em países sem litoral, acabo de chegar numa cidade praiana, a capital de Gana, berço da independência africana (foi o primeiro país descolonizado, em 1957), e de um dos maiores nomes da história do continente, seu primeiro presidente, Kwame Nkrumah.
Amanhã conto as primeiras impressoes do lugar.
Escrito por Fábio Zanini às 21h23
Um “pulinho” em Gana para cobrir Lula
LUSAKA (ZÂMBIA) – Já que estou na África, darei um "pulinho" para cobrir, pela Folha de S. Paulo, o presidente Lula em Gana e sua participação na conferência da Unctad, órgão da ONU que lida com o mundo em desenvolvimento.
Quem tem o mapa da África na cabeça sabe que de “pulinho” isso não tem nada. Estou na Zâmbia, sudeste do continente:

Gana fica no outro extremo, o noroeste:

Em linha reta, são 7.000 km, mas, dadas as calamitosas rotas de vôo africanas, terei que fazer uma triangulação, trocando de avião na África do Sul, o que aumenta o percurso para 10.500 km, mais ou menos. Ainda assim, a idéia do desvio de rota me agradou, então viajo amanhã.
Fico uma semana por lá, depois volto para a Zâmbia, para continuar a viagem rumo ao norte (próxima parada: Tanzânia).
O encontro da Unctad promete: os debates seriam apenas sobre a crise financeira mundial, mas agora deve entrar também toda a discussão sobre a alta mundial no preço dos alimentos, que ameaça o combate à pobreza no Terceiro Mundo.
Lula terá que dançar miudinho para defender sua política de produção de biocombustíveis, cada vez mais sob bombardeio por supostamente tomar terras que seriam usadas por produtos alimentares.
Continuarei blogando de lá, contando os bastidores da visita de Lula e da conferência.
Escrito por Fábio Zanini às 15h22
Mugabe: o Mandela que não deu certo
LUSAKA (ZÂMBIA) – Está mais do que na hora de parar de fingir que nada está acontecendo no Zimbábue e de chamar as coisas pelo que elas realmente são. O que está em curso por Robert Mugabe é nada menos que um golpe de Estado.
A eleição presidencial foi no longínquo dia 29 de março. Hoje é 15 de abril, e nem uma parcial dos resultados foi divulgada. A comissão eleitoral está há 18 dias sentada em cima do nome do vencedor, que muito provavelmente foi o oposicionista Morgan Tsvangirai. Mas isso não será anunciado. Vai se dar um jeito.
Como eu já esperava, o Judiciário, que, assim como os burocratas eleitorais, é subserviente a Mugabe, rejeitou os apelos da oposição para que os resultados sejam conhecidos. Não se quer nada além disso: saber quem ganhou, quem perdeu, por quanto, se vai ter segundo turno...
No teatro do absurdo em que isso se transformou, o último argumento é de que nada será anunciado até uma recontagem ser feita, a pedido do governo (mais um sinal de que perdeu). Geralmente, recontagens acontecem após a divulgação da contagem. Quem perdeu e se achou roubado reclama. Mugabe acaba de inventar a recontagem prévia.
Uma vez ouvi uma analogia que acho perfeita, e que sempre repito. Mugabe é o Nelson Mandela que se perdeu pelo caminho. É quase inacreditável, mas nos anos 70, os dois eram “freedom fighters” com o mesmo status.
Mugabe, ao assumir em 1980, escolheu o caminho da magnanimidade, e foi capaz de atos memoráveis de reconciliação, como Mandela faria 15 anos mais tarde. Permitiu até que Ian Smith, o líder racista da antiga Rodésia (hoje Zimbábue), que o aprisionou por dez anos e matou milhares de seus camaradas, permanecesse no país, cuidando de sua fazenda, sem ser incomodado.
Mas Mugabe aos poucos foi se tornando o que é hoje. Um genocida em 1982, ao ordenar o massacre de 20 mil civis da etnia ndebele. Um ditador nos anos 90, ao suprimir a oposição, e um cleptocrata a partir de 2000, ao dar fazendas confiscadas para seus cupinchas.
Genocida, ditador, cleptocrata. E agora, também golpista. O círculo se fecha.
Escrito por Fábio Zanini às 17h16
E o Oscar da cascata vai para...
LIVINGSTONE (ZÂMBIA) – Sou um cascateiro assumido. Gosto de ver aquele monte de água caindo.Nos últimos dez anos, visitei as três mais famosas cascatas, ou cataratas, ou quedas, deste planeta: Niagara, na fronteira do Canadá com os EUA; a nossa Foz do Iguaçu, que dividimos com os hermanos paraguaios e argentinos; e, ontem, Victoria Falls, na fronteira de Zâmbia e Zimbábue (por que essas coisas estão sempre em fronteiras?).
E qual das três é a melhor? Hmm... vejamos. Aqui vão alguns quesitos, como se fosse um desfile de escola de samba, para ajudar a decidir.
Primeiro, um rápido perfil de nossas competidoras:
Niagara

altura: 52 metros
número de quedas: 3
volume: 5.720 metros cúbicos/segundo
Iguaçu

altura: de 64 a 82 metros
número de quedas: mais de 200
volume: 1.300 a 1.500 metros cúbicos/segundo
Victoria

altura: 100 metros
número de quedas: 1
volume: 1.100 metros cúbicos/segundo
Agora, os quesitos:
-visibilidade (maior ou menor facilidade para apreciação)
Niagara: muito boa
Iguaçu: boa
Victoria: média (a nuvem d’água não deixa)
-banho (quantidade de água que você vai levar na cabeça; quanto mais, mais divertido)
Niagara: médio
Iguaçu: bom
Victoria: excelente
-altura:
Niagara: média
Iguaçu: excelente
Victoria: muito boa
-volume d’água:
Niagara: muito bom
Iguaçu: bom
Victoria: bom
-estrutura para o visitante
Niagara: muito boa (estamos nos States, então é cheio de cassinos, museus de cera etc.
Iguaçu: excelente (o parque do Iguaçu é uma jóia)
Victoria: boa (decente, mas nada de mais)
Bom, fazendo as contas nesse Oscar da cascata, e assumindo o caráter absolutamente não-científico, anti-jornalístico, arbitrário e subjetivo dessa classificação, declaro vencedoras as cataratas do Iguaçu, seguidas de perto pelas de Victoria e em terceiro as de Niagara. (Acreditem, isso não tem nada a ver com ranço terceiro-mundista, anti-Bush, ou coisa parecida).
A parada foi dura, as Victoria Falls são sensacionais, mas o produto nacional é melhor ainda.
Brasil-sil-siiiil!!!
p.s.: coloquei dois vídeos no Youtube
1-) um raro momento em que consegui filmar as quedas, arriscando-me a estragar minha câmera.
http://www.youtube.com/watch?v=SpWdETvxc0k
2-) o Boiling Pot, de que eu falei no post passado, quando você vê o que acontece com a água que acaba de despencar.
http://www.youtube.com/watch?v=AoUQLxoNzDg
Escrito por Fábio Zanini às 18h23
Victoria Falls: as cataratas "fantasma"
LIVINGSTONE (ZÂMBIA) – Começa com um ruído baixinho, mas inconfundível, de milhões de litros de água se espatifando na rocha após uma queda de 100 metros. Depois vêm algumas gotinhas d’água, muito finas, que vão batendo de leve no rosto. Até este momento, não foi possível vê-las, as cataratas do Vitória, e não será possível até o ruído se transformar num estrondo e aquelas gotinhas terem virado uma tempestade.
É assim que funciona: as cataratas te recebem invisíveis, e continuam assim por grande parte da inesquecível experiência que tive hoje, quase um Playcenter aquático. Visitar as cataratas de Vitória é como um contato imediato de terceiro grau. Você sabe que elas estão lá, você chega a senti-las fisicamente, mas elas permanecem escondidas 90% do tempo.

Isso porque a nuvem d’água que se forma é uma cortina espessa. Somente em raros segundos em que os ventos mudam, levando uma parte da nuvem para lá e outra para cá, que se abre uma fresta e é possível observar a correnteza do rio Zambezi, que divide Zâmbia e Zimbábue, rumando para o precipício.

Ou então mais à distância, buscando um buraco no meio da vegetação.

Daí é possível perceber nitidamente várias faixas d’água correndo paralelas, umas brancas, outras verdes e outras amarronzadas, pelo efeito da luz sobre as pedras submersas.
Vim ver (ou tentar ver) as cataratas pelo lado da Zâmbia, em Livingstone, a 500 km da capital, Lusaka. As fotos deste post foram tentativas não muito bem-sucedidas de tentar captar algo delas.
Zâmbia e Zimbábue são unidos por uma ponte, a (claro) Victoria Bridge, de onde se pula de bungee jump, que, dependendo da animação do cara que tenta te convencer, é o segundo, terceiro ou quarto mais alto do mundo (por algum motivo, há algum pudor inexplicável em dizer que é o primeiro).
Eu, conservador, me contentei com as cataratas mesmo. Primeiro, a visão a uma distância de uns 2 km, quando você sente aqueles pinguinhos e male-male consegue identificar um rio por trás da nuvem d’água.
Depois, num lugar chamado "Boiling Pot", ou "pote fervendo", junto ao leito do rio, quando as quedas se tornam realmente fantasmagóricas. Você não as vê, apenas seus efeitos: franjas verticais de "fumaça" se deslocando pelo ar, e a água que acaba de se libertar da queda batendo e rebatendo num pequeno desfiladeiro, formando dezenas de redemoinhos.

E depois tem a parte Playcenter, como eu disse, que é a travessia da Knife’s Bridge, uma pontezinha para pedestres que fica na boca das quedas, quando o banho é total. Tanto que pode-se alugar capas de chuva, se bem que ir só de bermuda, sentindo o total efeito da "tempestade", é mil vezes melhor (experimentei dos dois jeitos).
De novo, é uma questão de fé. Você olha para a direita e para a esquerda e não vê nada, mas sabe que as incontáveis cachoeiras estão ali. E a cada passo fica incrivelmente mais molhado.
Mas se olhar para baixo, verá, a qualquer hora do dia (juram que à noite também...) o mais nítido arco-íris imaginável, com realmente sete cores. E na horizontal, lá embaixo no leito do rio, desafiando o que nos ensinam na escola, quase fazendo os 360 graus de uma circunferência...

Escrito por Fábio Zanini às 14h41
A mordaça de Mugabe
LUSAKA (ZÂMBIA) – Hoje, Bob Mugabe anunciou a proibição de protestos de rua no Zimbábue. Está esperando ser desafiado e aposta que uma tragédia lhe ajude nesse momento.
Está tudo pronto para isso, aliás. Uma das minhas últimas imagens antes de sair de Harare, na quarta-feira passada, foi do cruzamento da First Street com a avenida Nelson Mandela, que é a Ipiranga com São João deles. Em cada um dos quatro cantos do cruzamento havia uma rodinha de uns 15 policiais da tropa de choque, com capacetes e cassetetes ameaçadores. A segurança está reforçada.
A oposição vem adotando uma tática arriscada. Conta com a pressão internacional para fazer Bob ceder e, pelo menos, autorizar a divulgação dos resultados da eleição presidencial, incríveis duas semanas após a votação.
(Já ouvi falar de tudo: morto votando, fraude na apuração, mas eleição sem resultado é certamente uma mui criativa maneira de roubar. Parabéns pela originalidade).
E, mais importante, a oposição evita protestos de rua, que poderiam descambar para a violência e dar o pretexto perfeito para Mugabe decretar estado de emergência.
Aqui em Lusaka não se fala de outra coisa. No final de semana líderes de países vizinhos se reúnem aqui para discutir a crise. Vamos ver se sai algum tipo de pressão maior sobre Bob.
É inevitável, aliás, comparar os dois países, que são quase irmãos, histórica e socialmente. Lusaka não tem filas, o abastecimento de produtos é normal, telefones e internet funcionam, ao contrário de Harare.
Mas Harare é uma cidade moderna, bem organizada, com prédios enormes, avenidas arborizadas, parques... Lusaka é poeirenta, quase provinciana, sufocante.
O que nos lembra, mais uma vez, como Mugabe está destruindo um país que já foi modelo para o continente.
Escrito por Fábio Zanini às 14h13
Nos mercados, o arroz-feijão dos africanos
Falo do mercado espaço físico mesmo, o que poderia ser chamado de uma feira. Mas na África é muito mais do que uma feira, apesar da confusão e dos odores serem os mesmos. Hoje fui ao Town Centre Market, o mercado central de Lusaka, também chamado de Chachacha Market, por causa da rua com este curioso nome em que fica a entrada.
São umas cinco ou seis “vielas”, cobertas por um teto precário, cada uma com uma especialidade. Havia as barracas de ferragens, cujo destaque, estranhamente, eram dezenas e dezenas de torneiras douradas à venda. Tem a ala dos DVDs piratas, com incontáveis diferentes versões de Harry Potter, a das roupas de segunda mão, a dos materiais elétricos e das frutas e verduras.
E tinha o que se poderia chamar de “praça de alimentação”, com barraca atrás de barraca preparando o almoço, embora ainda não fosse 10h da manhã. Mas a mulherada já fritava seu franguinho, que até parecia apetitoso, e socava o milho para fazer o nshima, uma espécie de purê.
Aqui um parênteses. Esse nshima é um fenômeno na África austral. É o que seria o nosso arroz com feijão. Dá “sustança”, é comido com vegetais pelos mais pobres, ou com frango ou peixe por quem pode. Em cada país tem um nome: no Zimbábue chama-se sadza, em Angola é funje, e por aí vai, mas é basicamente a mesma coisa. Já comi, e confesso que tive uma estranhíssima sensação de estar comendo algo sem gosto nenhum. Ainda preciso apurar o paladar.
Mas o pessoal aqui adora. Ontem, as mulheres socavam o purê em panelões (foto), sem a menor preocupação de que pudesse encalhar. “Socar” é a palavra certa, porque elas chegam a jogar o peso do corpo sobre o colherão de madeira, num grande esforço físico

Na hora de comer, o freguês ganha uma espécie de cuia e vai lá ele mesmo na panela pegar sua porção. O prato de nshima com frango saía por 12 mil kwachas, uns R$ 6.
A senhora da foto, muito simpática, queria porque queria que eu experimentasse. Até que o cheiro estava bom, e meu estômago é famoso por não temer novas experiências, mas ficou para outro dia...
Escrito por Fábio Zanini às 12h06
Babuínos e lerdeza na chegada à Zâmbia
LUSAKA (ZÂMBIA) - Foi quase um cara ou coroa. Cheguei ontem à rodoviária de Harare com duas possibilidades em mente: seguir para Bulawayo, ainda território zimbabuano, ou cruzar a fronteira para a Zâmbia. O ônibus para Lusaka partia dali a algumas horas, e o para Bulawayo só na sexta-feira, então aqui estou, após 15 horas tortuosas de viagem.
Desta vez não houve a tensão de minha entrada no Zimbábue. Mas estes menos de 400 km que separam as duas cidades-irmãs da antiga colônia britânica da Rodésia, Harare e Lusaka, são uma aula sobre burocracia, desperdício de tempo e energia, e uma prova de que o tal do “African time”, em que tudo é beeeem mais lento, existe mesmo.
Como já disse, foram 15 horas para vencer essa relativamente pequena distância. Saí às 20h de Harare para chegar às 11h em Lusaka. À 1h, quando o ônibus alcança a fronteira, tudo é desligado e o motorista começa a puxar um ronco. É que o controle de imigração não funciona entre meia-noite e 6h. Então todo dia é assim: o ônibus chega, pára, e todo mundo fica lá dentro, por cinco horas, esperando. Não ocorreu a alguém mudar o horário da viagem, para evitar perda de tempo.
De manhã, quatro filas para os pobres passageiros-zumbis: primeiro para o carimbo de saída do Zimbábue, cerca de 45 minutos. Depois, mais meia hora para a revista das malas pelas autoridades zimbabuanas, como se alguém estivesse levando embora do país coisa “valiosa”, como seu dinheiro hiperinflacionado, talvez...
Depois, mais meia hora para entrar na Zâmbia e outra meia hora para nova revista de malas, agora pelas autoridades do novo país.
(Pelo menos havia um bando de babuínos a nos distrair, em plena zona da alfândega. Esse aí levantou a galera ao fazer número 1 e número 2 simultaneamente, na frente de todos, inclusive de umas freiras que quase se acabaram de rir).
Fico imaginando quantos negócios, empregos, compromissos são perdidos diariamente num continente desesperado por negócios, empregos, compromissos... Lembro de uma vez na Gâmbia, em que fiquei quatro horas na fila da balsa porque ninguém, governo local ou doadores internacionais, quis investir alguns milhões de dólares numa ponte sobre um rio que não tinha sequer 1km de extensão.
Estou há poucas horas em Lusaka e ainda não deu para sentir muito bem o novo país e suas pessoas. Mas há uma maravilhosa sensação de voltar a uma democracia (sim, elas existem na África), depois de 20 dias debaixo de um regime repressor. É bom passar meia hora sem ver um policial ameaçador.
E os carros aqui respeitam faixa de pedestre, o que me deu uma certa nostalgia de Brasília...
Escrito por Fábio Zanini às 13h35
Adeus, Harare
HARARE (ZIMBÁBUE) – Decidi ir embora hoje. Não faz mais sentido ficar aqui esperando, os dólares se esvaindo e o tempo se esgotando, rezando por uma luz no fim do túnel no lamaçal jurídico das eleições presidenciais. Espero estar errado, mas acho que a indefinição ainda vai longe, e quero conhecer outros lugares.
Hoje é meu décimo oitavo dia em Harare. É improvável que eu venha a passar tanto tempo numa mesma cidade até o final da minha viagem, em julho.
Guardo muitas lembranças. As ruas arborizadas, o centro da cidade facílimo de navegar, a arquitetura maluca dos edifícios, o punho fechado de Mugabe nos cartazes, as horas de plantão em saguões de hotel, a cara gorda de Morgan Tsvangirai em duas coletivas, os colegas jornalistas, os incríveis recepcionistas de hotel, porteiros, atendentes de internet cafés e seus nomes mais incríveis ainda (Marvelous, Rejoice, Trymore, Lookout, Innocent...).
Em Harare, vi a cordialidade do povo zimbabuano, que, estou convencido, é sua maior qualidade, mas também parte de seu calvário. Conheci filas indescritíveis e me perguntei dezenas de vezes: como podem suportar isso tudo calados?
Aqui vi uma das cenas mais fortes da minha vida, quando o moleque que insistia em me pedir trocados, e que eu insistia em ignorar, abaixou-se na calçada, abriu a tampa do bueiro e começou a beber água do esgoto.
Jamais esquecerei os tragicômicos rituais de contar 75 notas para pagar uma conta de restaurante (vocês não imaginam como é demorado pagar qualquer coisa aqui), o sofrimento até encontrar uma conexão de internet apenas razoável, a cara feia dos policiais, o medo na hora de entrar no país e o frio na espinha que me deu quando soube que começaram a prender jornalistas.
Ainda não decidi se vou para Bulawayo, segunda cidade deste país e capital da região de Matabeleland, ou se sigo direto para Lusaka, na Zambia. Vai depender de achar passagem.
Mesmo de longe, continuarei acompanhando a novela da eleição presidencial.
Adeus, Harare. Um dia ainda volto.
Escrito por Fábio Zanini às 04h00
Um brasileiro para salvar o futebol do Zimbábue
HARARE (ZIMBÁBUE) – Nas ruas de Harare, ele é “Valínous”, reconhecido e cumprimentado a cada esquina. José Claudinei Georgini, natural de Valinhos (SP), de onde vem seu apelido desde os tempos de jogador, chegou ao Zimbábue no início do ano como a salvação da lavoura.

Sua missão é “apenas” classificar a desmoralizada seleção local para a Copa do Mundo de 2010, na vizinha África do Sul. Se conseguir, pode se candidatar a presidente da República tranqüilamente. Mas ele mesmo reconhece que é uma parada duríssima.
Experiência em lugares exóticos ele tem. Aos 60 anos de idade, teve uma carreira mediana como meio-campo do Vasco, Goiás, Olaria, Volta Redonda e Bonsucesso, entre 1968 e 1979. Se deu melhor como treinador. Passou quatro anos na Arábia Saudita, dois nos Emirados Árabes Unidos, além de Kuait, Barein e Marrocos. Treinou a seleção brasileira sub-20 no Pan de Santo Domingo (República Dominicana), em 2003.
“O Zimbábue até agora é certamente o maior de todos os desafios, tanto pelo país em si como pela estrutura profissional do esporte”, diz ele, um sujeito calmíssimo, tímido, que se irrita apenas quando o motorista designado pela Zifa, a Federação Zimbabuana de Futebol, atrasa para pegá-lo em seu hotel pela enésima vez.
Até agora foram dois jogos no comando da seleção, ambos fora de casa. Derrota de 2 a 1 para a África do Sul, de Carlos Alberto Parreira, e vitória de 1 a 0 sobre Botsuana. “O jogo contra os sul-africanos foi um baita azar. Nosso zagueiro fez gol contra aos 47 do segundo tempo”, explica.
A seleção zimbabuana é conhecida como “Warriors”, os guerreiros, seguindo a inusitada tradição do continente de dar apelidos a cada time nacional (os sul-africanos são os Bafanas, os botsuanos são os Zebras, os angolanos são os Palancas Negras, e por aí vai). “São habilidosos tecnicamente, mas não têm disciplina tática”, diz o treinador.
Valinhos tem contrato de um ano apenas, que se encerrará em dezembro. Está, assim, em uma espécie de período de testes. Se a experiência funcionar, ele fica mais. A lista de problemas que ele está tendo de superar é enorme, mas o maior tem sido reunir o time para treinar, algo que seus colegas que dirigem a seleção brasileira conhecem muito bem. “90% da seleção está fora do país”, diz ele.
O craque do time, Benjani, joga no Manchester City, da Inglaterra. Três jogadores estão na Bélgica, três em Chipre, um na França, um na Polônia e dez na África do Sul. Sem conseguir trazê-los com freqüência ao país, Valinhos pretende fazer o caminho oposto: um giro europeu ainda no primeiro semestre, para avaliar suas estrelas in loco.
Outro problema grande é a deficiência na formação dos jogadores. “Aqui não tem divisões de base. O jogador se forma com 23 anos de idade, que, no futebol de hoje, já é uma idade avançada”, diz.
Seu inglês é muito limitado, e o intérprete que ele pediu para a Zifa ainda não chegou. “Mas tudo bem, eu me comunico com os jogadores pela linguagem do futebol”, diz. Assim como também não chegou o carro que lhe prometeram, nem foi alugada a casa que ele espera. Valinhos é hóspede do hotel Crowne Plaza, no centro de Harare, e costuma atender sem cerimônia quem interfona da recepção. Sua mulher oferece Coca-Cola aos visitantes.
Mas o grande trunfo do brasileiro é mesmo o fanatismo da torcida. O futebol é, de longe, o esporte das massas no Zimbábue, bem à frente do segundo colocado, o críquete, que, como eu já disse num post há alguns dias, ficou caracterizado como reduto da comunidade branca.
Ele foi parar lá quase que por acaso. Um dia, numa recepção oficial em que estavam autoridades da Zifa, o embaixador brasileiro no Zimbábue, Raul de Taunay, foi abordado por um cartola local, que queria nada menos que ele ajudasse a levar a seleção brasileira para jogar em Harare. Taunay disse que milagre ele não fazia, mas, sabendo que os Warriors estavam sem técnico, se dispôs a arrumar um. Contatou um amigo na Federação Carioca de Futebol, que fez o meio-de-campo com Valinhos.
A chegada do treinador ao país teve requintes de recepção a uma estrela internacional, com coquetel e a presença do vice-presidente da República. No Zimbábue, a Zifa é um órgão estatal. Talvez por isso, Valinhos desconverse quando pergunto o que acha da situação política do país.
“Não acho nada. Só que a eleição cancelou duas rodadas do campeonato zimbabuano, que eu ia usar para observar jogadores”, diz ele.
Dia 4 de maio, em casa, contra a Namíbia, Valinhos colocará os Warriors pela primeira vez para jogar perante seu público. “Temos que ganhar”, diz ele.
Escrito por Fábio Zanini às 04h33
Eleição está virando um pântano judicial
HARARE (ZIMBÁBUE) – Vocês certamente se lembram da eleição norte-americana de 2000. O Zimbábue de agora começa a parecer a Flórida de oito anos atrás. O processo está virando um pântano de ações judiciais, recursos, audiências, sem desfecho à vista.
O MDC (oposição) entrou ontem na Justiça para forçar a divulgação dos resultados. A Justiça ainda não se pronunciou. Incrivelmente, o Zanu-PF, partido de Robert Mugabe, agora ameaça fazer o mesmo, alegando que foi prejudicado na apuração para 16 vagas no Parlamento, e pedindo que os resultados presidenciais não saiam enquanto não houver uma recontagem.
É evidente que se trata de uma cortina de fumaça. Alguém acha mesmo que a comissão eleitoral, toda nomeada pelo presidente Robert Mugabe, ia roubar votos para a oposição, contra o governo, em plena ditadura? Convenhamos...
Tudo se resolveria facilmente se a ridícula comissão eleitoral simplesmente divulgasse os resultados da eleição, coisa que inexplicavelmente não faz, capacho que é do governo.
Vocês precisam ver o naipe dos burocratas dessa comissão. Têm a expressividade de robôs. Seus pronunciamentos na TV parecem não ter vírgula, ponto de exclamação ou reticências. O presidente usa bigodinho ralo, óculos fundo de garrafa quase quadrados e camisas pólo azul-marinho com listas brancas horizontais.
Precisa dizer mais?
Escrito por Fábio Zanini às 05h12
As incríveis igrejas do meio do mato
HARARE (ZIMBÁBUE) – Todos os domingos, por volta das 9h da manhã, os subúrbios pobres de Harare começam a ser tomados por uma procissão de pessoas de branco, algumas com cajados, outras com grandes cruzes vermelhas estampadas em suas longas túnicas. Mulheres usam véus e carregam crianças no colo ou presas nas costas, amarradas com lenços.

Rumam não para catedrais ou templos, mas para campos abertos e matagais. São fiéis das dezenas de “bush churches”, as igrejas do meio do mato, que se congregam ali mesmo, ao ar livre, embaixo de árvores ou no mais escaldante sol.
É um espetáculo imperdível e uma característica própria do Zimbábue. A cada 100 ou 200 metros você consegue ver grupos de 10 pessoas, 50 pessoas, 100 pessoas, 200 pessoas, mas não mais do que isso, rezando, cantando, ajoelhando. Cada rodinha é uma igreja diferente. Ontem, fui visitar algumas.
O zimbabuano é extremamente religioso. Não sou sociólogo, mas imagino que seja em parte uma válvula de escape para a situação econômica dramática. Quase toda a população é cristã. Há as igrejas bem estabelecidas, como a católica, a anglicana e a nossa Universal do Reino de Deus, que levam multidões a suas catedrais aos domingos.
Mas uma massa não se identifica com essas grandes estruturas e pertence a incontáveis instituições menores, minúsculas, que surgem em todo lugar e, sem dinheiro para construir templos ou igrejas, mantêm a tradição de rezar a céu aberto mesmo.
Algumas igrejas prezam sua privacidade. Num descampado no bairro de Sunningdale, os fiéis da igreja Johane Masowe, que venera o apóstolo João, não queriam conversa nem me permitiram tirar fotos.
Alguns quilômetros depois, dois grupinhos que rezavam na sombra de duas árvores, lado a lado, foram mais receptivos. Me aproximei de um deles, uma rodinha com 11 pessoas e duas crianças, da igreja Zvikomborero, que significa “bênção”, na língua shona. Cantavam, batiam palmas e me deixaram olhar e fotografar:

Com um manto azul sobre a túnica branca de detalhes azuis e vermelhos, puxando a cantoria com um chocalho, estava o fundador da religião, Lewis Kariwo, 32 anos, que trabalha numa fábrica de plástico durante a semana. É ele na foto abaixo:

“Somos 70 fiéis, mas transporte é um problema em Harare aos domingos, então só vieram 11 hoje”, explicou-me Kariwo. Isso mesmo: uma igreja que tem apenas 70 fiéis, com seus próprios ritos, vestimentas e costumes.
Eles começam às 10 da manhã e fazem seu culto até por volta das 2 da tarde. Kariwo pertencia a uma outra igreja, mas decidiu fundar a sua própria em 2000. “Deus me encorajou a abrir minha própria”, diz ele. Sem dinheiro para construir um templo, rezam ali mesmo.
Pergunto porque há duas rodinhas a poucos metros de distância e não uma só, e Kariwo me explica que as outras cerca de 20 pessoas na verdade pertencem a uma outra igreja. “Temos uma boa convivência. No fundo, amamos o mesmo Deus.”
Há algo que lembra o nosso candomblé nesses cultos, e muito da exuberância das igrejas pentecostais. Eles dançam e cantam por horas, sem parar. Falam em shona, mas de vez em quando é possível identificar um “aleluia!”.
Fundamentalmente, são pessoas que se acostumaram em ser fiéis sem-teto e que adotaram o mato como catedral. Pareciam genuinamente felizes e donas de uma fé ainda não atingida pelo fenômeno das religiões de massa.
Escrito por Fábio Zanini às 05h12
Cacoetes zimbabuanos
HARARE (ZIMBÁBUE) – Um de meus passatempos favoritos quando viajo é perceber os maneirismos e cacoetes das línguas locais. O Zimbábue, que fala inglês, é um prato cheio.
Praticamente toda frase começa com um “Áaaaaaaaaaaaa...”, bem aberto e que dura cerca de um segundo, para organizar as idéias.
Exemplos:
-Está com fome?
- Áaaaaaaaaaaaa..., sim, um pouco.
-O que você acha de Mugabe?
- Áaaaaaaaaaaaa..., não gosto dele.
Tem ainda um Iiiiiiiiii agudo, mas bem agudo, que expressa surpresa/indignação, em várias frases.
Depois vem o boss, que eles falam com o “o” fechado. É um cruel resquício do colonialismo, quando os negros eram obrigados a chamar os brancos de boss (chefe). Sempre que um garçom ou taxista se dirige a mim é dizendo boss. Os meninos que pedem esmola também... Fico até meio constrangido.
E ainda há o impagável “ôráite”, corruptela de all right (tudo bem). Se o “Áaaaaaaaaaaaa...” inicia as frases, o “ôráite” termina. É como se fosse um “tá”.
O sotaque também é difícil. Outro dia perguntei o que tinha pra comer e o cara falou: “bâga”. Perguntei o que era isso e ele, certamente achando que eu fosse louco, começou, pacientemente: “é um tipo de sanduíche, com carne no meio...” “Bâga” era como ele pronunciava o inglês burguer, o nosso hambúrguer...
Escrito por Fábio Zanini às 06h20
A oposição finalmente reage
HARARE (ZIMBÁBUE) – É inacreditável o que está acontecendo nesse país. Por lei, a comissão eleitoral tinha até a meia-noite de ontem para divulgar o resultado da eleição presidencial. O prazo se esgotou, não saiu resultado nenhum, a comissão não deu nenhuma explicação e ficou por isso mesmo.
A oposição finalmente tomou uma atitude e está entrando na Justiça para obrigar a divulgação. Escrevo esse post no sábado de manhã, exatamente uma semana após a votação e nenhuma parcial da eleição presidencial saiu.
A imprensa internacional praticamente toda já foi embora. Se Mugabe roubar o jogo, será um crime quase sem testemunhas.
Eu vou ficando, esperando, esperando, esperando, na companhia das centenas de policiais que agora patrulham ostensivamente Harare. Ontem vi pela primeira vez dois blindados passeando pelo centro da cidade.
A polícia aqui é assustadora, com a pior das caras de mau que você pode imaginar. Ontem dobrei uma esquina e dei de cara com quatro policiais caminhando, com capacete e tudo. Cruzei com eles, virei e tive uma tentação quase irresistível de tirar uma foto deles de costas, se afastando. Vocês iam adorar... Felizmente, tive juízo e desisti. Se me pegam fazendo isso, vou pra cadeia, como aconteceu com uma repórter da TV canadense, a CBC.
E às vezes parece que eles não largam do meu pé. Ontem à noite eu assistia, de pé, ao noticiário local, na TV colocada no lobby do hotel Sheraton, quando dei uma olhada à minha volta e tinha a companhia de uns 15 policiais, vidrados da tela. Ô, gente chata...
Escrito por Fábio Zanini às 06h10
Noite tensa em Harare
HARARE (ZIMBÁBUE) – Ontem à noite acabou a tranqüilidade nórdica dessa eleição e fomos lembrados de que isso aqui é, afinal, um Estado policial.
Por volta das 20h30, depois de um dia intenso de trabalho, íamos saindo do Hotel Sheraton, onde fica o centro de imprensa, para finalmente termos um jantar decente (traduzindo: que não seja hambúrguer da horrorosa lanchonete do hotel). Estávamos eu, Andréa Murta, da Folha de S. Paulo, Sergio Kalili, da Caros Amigos, e Antônio Pina, um português que vive na África do Sul e trabalha para a Agência Lusa.
O plano foi interrompido com a notícia que logo começou a se espalhar: o regime de Robert Mugabe acabara de começar uma caça a jornalistas estrangeiros e a molestar dirigentes do partido de oposição, o MDC. Parece que, na véspera da divulgação do resultado presidencial, Bob avisa: não vou cair sem brigar.
As notícias vinham truncadas. Um tal de York Lodge, num bairro afastado e escuro da capital, tinha sido cercado pela polícia, porque ali havia jornalistas norte-americanos. Pegamos um táxi para lá, uma rua deserta. Nenhuma alma viva.
Andrea e Sergio descem do carro e interfonam: “Houve prisão de jornalistas aí?”
Resposta do outro lado: “Sem comentários”
Insistem: “Mas está tudo bem?”
A voz, agora quase sussurrando: “Sem comentários. A polícia ainda está aqui”.
Achamos melhor ir embora.
Fomos depois para outro hotel, onde há muitos jornalistas. Um italiano nos diz que revistaram seu quarto e o de um espanhol.
Antônio recebe um chamado no telefone: são dois jornalistas, um do “The New York Times”, outro não se sabe de onde.
Nos últimos dias, gradativamente a presença da tropa de choque nas ruas foi ficando mais evidente. O que você via uma vez por dia agora é freqüente. Hoje vi vários policiais de choque, com seus capacetes azuis, viseira protetora, cassetetes. Fala-se muito que há agentes secretos do governo infiltrados em lobbys de hotel, onde jornalistas passam muito tempo fofocando.
Há uma clara, claríssima tentativa de intimidação. Mas algo indica que são os últimos espasmos de autoridade de um regime moribundo. O clima no país é de mostrar a porta da rua para o velho presidente.
Hoje de manhã, Mugabe reúne seu politburo, no que deverá ser um dos encontros mais importantes da história desse país. Pode aceitar os resultados ou dar um golpe. De noite deve ser divulgado, finalmente, o vencedor da eleição. O Zimbábue prende o fôlego...
p.s.: escrevo às 23h de ontem (18h no Brasil). O plano de ir para o restaurante há muito foi abandonado. Estamos de volta ao Sheraton, e a nossos laptops. Acabo de pedir meu hambúrguer.
Escrito por Fábio Zanini às 03h20
Quatro dias de espera
HARARE (ZIMBÁBUE) – Ontem a oposição anunciou novamente que ganhou no primeiro turno. Mas que aguarda os resultados. E que aceita se houver segundo turno. Entendeu?
Está ficando monótono isso. Quatro dias de apuração e nada de resultados da eleição presidencial. Quem sabe hoje?
O Zanu-PF, partido do governo, perdeu a maioria da Câmara dos Deputados. É um terremoto político isso. A África tem uma certa dificuldade de separar partido de Estado. O padrão sempre foi: o partido que liderou a luta pela independência se instala no poder e de lá não sai mais. É assim em Angola, Moçambique, Tanzânia, Namíbia e era no Zimbábue.
Mas ainda não saiu o resultado das presidenciais.
Ontem cansei de esquentar o sofá do saguão dos hotéis Sheraton (centro de apuração) e Meikles (base da oposição), de beber Coca-Colas e cafés em seqüência, e fui falar com pessoas.
Achei um taxista revoltado, que promete botar pra quebrar se houver roubo. Conheci um garçom figuraça, que só faltou me beijar quando eu disse que achava que a oposição ganharia. Mas o melhor foi o culto da Igreja Universal do Reino de Deus, no centro da cidade.
Lá pelas tantas, o pastor, um brasileiro, soltou o gogó, entre uma passagem bíblica e outra, para uma platéia de 200 pessoas: “Obrigado, senhor, pelos resultados da eleição! Esse povo está sofrendo! Deus abençoe o Zimbábue! Deus abençoe o novo presidente!”. E a galera aplaudiu, orou, levou as mãos ao alto.
Grande parte da população já vê Mugabe como história. Se o resultado oficial trouxer decepção, não sei não... As autoridades eleitorais estão brincando com fogo.
Escrito por Fábio Zanini às 04h38
Críquete: o reduto dos brancos
HARARE (ZIMBÁBUE) - No Harare Cricket Club, bem ao lado da fortaleza ultra-protegida que serve de residência para Tio Bob Mugabe, um sistema de irrigação artificial trabalha sem descanso para manter a grama verdinha.
Com vista privilegiada para o campo, no Keg and Powder, um pub classudo com tapete verde, mesas de madeira e cerveja quente da melhor qualidade, senhores de meia idade passam o dia acompanhando canais britânicos na TV e remoendo-se de nostalgia.
Bem-vindo ao gueto branco de Harare.

Na parede, uma foto da seleção nacional de críquete de 1999 não deixa dúvidas sobre quem domina esse esporte, introduzido pelo colonizador britânico: são 13 brancos e 2 negros na equipe. Os negros preferem futebol.

O críquete é parte da identidade nacional zimbabuana. Para quem não sabe, é uma modalidade que guarda semelhanças com o beisebol, só que mais longa, mais chata e mais complicada, se é que isso é possível. Mas muitos ingleses, australianos, indianos, paquistaneses, sul-africanos e zimbabuanos adoram.
Há duas variantes: partidas que duram cinco dias, mais importantes e que são chamadas de “tests” e jogos mais simples, que demoram um dia. Não peçam para eu entrar em detalhes, por favor. Não consigo entender as regras desse troço.
O êxodo dos brancos do país em razão da crise econômica pegou em cheio o críquete. Já foram 250 mil, hoje são 10% disso. A convivencia entre brancos e negros é civilizada por aqui, mas já foi pior, principalmente no começo da década, quando Mugabe fez uma reforma agrária que tirou terras de brancos e passou para negros.
Tomando sua cervejinha do meio-dia, o médico Peter me explica que o Zimbábue sempre foi uma potência média do esporte: o que seria o México no futebol, digamos. Hoje é um nanico, uma Ilhas Faroe.
Tanto que o país vem sendo excluído por deficiência técnica dos “tests” e, suprema humilhação, disputa o campeonato nacional da África do Sul. “Viramos uma província sul-africana, e ainda assim estamos entre os piores do torneio”, suspira Peter. Poderia ficar ainda pior: o governo britânico vira e mexe ameaça pedir o banimento da seleção do Zimbábue de eventos internacionais, como forma de pressão contra Mugabe.
O clube de Harare é o principal centro do críquete no país. As arquibancadas têm lugar para 8.000 pessoas, mas há muito não vêem casa cheia. O clube já teve 500 sócios, hoje tem 100. Nas paredes, fotos de ídolos do passado e um ar pesado de melancolia.
A esperança reside na renovação, e na tarefa de incluir mais negros no esporte. No dia que visitei, três garotos negros brincavam no campo impecável, dois lançando bolas e um rebatendo.

Era o críquete na sua versão peladeira.
Escrito por Fábio Zanini às 04h28
O novo presidente?
HARARE (ZIMBÁBUE) – A cidade amanheceu calma. Hoje, Morgan Tsvangirai promete apresentar as provas de que venceu a eleição presidencial: o número final de votos, que sua campanha totalizou em todas as seções eleitorais. Forma sutil de mandar um recado à comissão eleitoral, que é um poço de letargia e está sentada em cima dos resultados.
Ontem, Tsvangirai deu as caras pela primeira vez desde a eleição, numa entrevista coletiva. Fui lá ver. Impecável num terno escuro, ele finalmente parece ter contratado um Duda Mendonça. Já não era sem tempo: durante a campanha, usava um ridículo chapéu de cowboy.

Leu um comunicado, respondeu atravessado para vários jornalistas, fez uma ou outra gracinha sem graça e vazou.
Tsvangirai (pronuncia-se Tchanguirái) tem muitos paralelos com o nosso Lula, aliás. Surgiu como um líder sindical, com greves gigantescas contra a situação econômica. Tomou gosto pela coisa e começou a pedir liberdade política. Fundou seu partido, o MDC, e agora está a um passo da Presidência.
Também suavizou o discurso, como o nosso petista, mas bem mais rápido. Passou a campanha eleitoral insinuando que mandaria Robert Mugabe para o Tribunal Penal Internacional, em Haia, por crimes contra a humanidade, mas ontem chegou a dizer que acreditava na honestidade do presidente. Prometeu um governo sem vinganças contra ninguém.
Ele é parrudão, meio troncho, dizem que autoritário, e tem carisma abaixo de zero. Mas é admirado pela coragem. Quase morreu espancado pela polícia no ano passado, mas voltou. E, claro, é o candidato queridinho dos países poderosos, coisa que ele não esconde.
Veja essa foto, que tirei ao final da entrevista: à esquerda, o braço direito de Tsvangirai, Tendai Biti (à esquerda), cercado por embaixadores, num sinal inequívoco de apoio. O negro à direita é o dos EUA.

Quem sabe hoje finalmente sai a fumaça branca dos burocratas eleitorais?
Escrito por Fábio Zanini às 04h59
Harare ferve
HARARE (ZIMBÁBUE) – A capital está tensa como eu até agora não havia visto. Passou-se mais um dia sem uma só palavra das autoridades eleitorais sobre a eleição presidencial de sábado.
Por onde ando ouço cobranças de eleitores. Cadê os resultados?, perguntam a moça do internet café, que a essa altura já é minha amiga, todos os taxistas que você puder imaginar, o sorveteiro do parque, os engravatados das filas.
Mas a ZBC (Zimbabwe Broadcasting Corporation), a TV estatal, só quer saber de anunciar resultados das “constituencies”, os distritos do Parlamento. A cada hora, mais ou menos, uma dupla de burocratas, dos mais cinzentos que já vi, anuncia, de maneira tediosa, 10 ou 15 resultados de deputados eleitos, sempre alternando um governista e um oposicionista. São 210 no total para serem anunciados, e ontem não foi nem a metade.
A TV, aliás, não dá a mínima para o que país pensa. Agora de manhã, com todos esperando, mostrava um documentário sobre babuínos.
Ontem à noite vi soldados da tropa de choque pela primeira vez nas ruas. A oposição canta vitória, e as ONGs que fiscalizam o processo (e que são financiadas por governos europeus) anunciam que Robert Mugabe perdeu.
Há boatos de que haverá toque de recolher, de que massas de deliquentes mugabistas chegarão de madrugada para tomar a cidade. Até de que o presidente fugiu para a Malásia se fala.
Se Mugabe perder, aceitará pacificamente? E, se ele for anunciado vencedor, como é que a oposição, que já se sente vitoriosa, se comportará? Harare ferve...
Escrito por Fábio Zanini às 04h07
Live and let die
HARARE (ZIMBÁBUE) – Das muitas bizarrices que este país reserva, trocar dinheiro é das maiores. Eu me sinto num filme de James Bond, às vezes.
Outro dia eu precisava trocar 500 rands sul-africanos (uns US$ 70). No câmbio oficial é loucura, porque é ridiculamente baixo. O jeito é o negro, mas que é ilegal. Então, você precisa ter contatos.
Fui num hotel e me disseram que Martin, um congolês, era o cara. Encontrei-o em frente a outro hotel, ao lado de mais três sujeitos. Pergunto se ele é o Martin, e ele, certamente imaginando do que se tratava, responde que sim. Seguem-se segundos de um silêncio ridículo, em que fiquei abanando a cabeça pra ele e ele pra mim. Até que solto:
“Sabe onde posso trocar dinheiro?
Martin: “Você acha por aí”
Eu: “Me disseram que você tem contatos”
Ele, em voz baixa: “Quanto?”
Eu: “500 rands”
Ele vai num canto, pega um telefone e liga pra alguém. E volta: “Alguém virá vê-lo”
Não dá cinco minutos aparece um Nissan branco com um casal. Martin entra no banco de trás e me chama. Entro também. A transação se dá em dez segundos: dou os rands, recebo os dólares zimbabuanos.
De longe, um policial olha. Pergunto a Martin se não há problema: “É meu amigo”, responde.
Mas eis que um Mistubishi preto com dois homens estaciona emparelhado com nosso carro. O motorista se assusta e, sem me dizer nada, liga o carro e sai rapidamente, comigo ainda dentro. Nem preciso perguntar o que está acontecendo: os dois homens podem ser policiais, então...
O sujeito dobra duas esquinas e me libera. Vou embora, olhando por cima do meu ombro, para ver se estou sendo seguido.
Isso acontece umas duas vezes por semana. Você recebe maços e mais maços, mas que acabam rápido. Cada conta paga é meio maço que se vai. A da foto abaixo é de um restaurante português, que tinha um karaokê medonho no meio.

Escrito por Fábio Zanini às 04h02

Fábio Zanini