40 horas (ou 50, ou 60...) num trem
LUSAKA (ZÂMBIA) – Cheguei hoje de meu “pulinho” em Gana, mais 10 mil km e mais uma triangulação por meio da África do Sul, mas dessa vez a mochila chegou junto.
Amanhã parto de novo, agora de trem. Vou enfrentar o que se poderia chamar de uma mini Trans-siberiana, a famosa viagem de sete dias entre Moscou e Pequim. O meu trem levará “apenas” 40 horas, mas dizem que isso pode facilmente virar 50 ou até 60 horas. São 18 paradas no caminho.
Irei da Zâmbia, onde estou agora, até a Tanzânia. A viagem começa de ônibus na verdade, três horas entre Lusaka e uma cidade no meio da Zâmbia, chamada Kapiri Moshi. Lá é que começa a maratona ferroviária, até Dar es Salaam, na Tanzânia, onde espero chegar no domingo à noite. Dizem que terei uma cabine com cama, mas o preço que paguei (US$ 30) está barato demais para confiar... Sobre banho, não tenho a menor idéia.
Aparentemente, é uma viagem agradável pelas savanas africanas. Encontrei um alemão que me disse que conseguiu ver até elefantes no trajeto. Vamos ver se terei essa sorte.
Só no Brasil mesmo é essa vergonha de não termos transporte de trem. O mundo inteiro utiliza. A rede ferroviária africana é bem razoável, cortesia dos colonizadores. No sul da África, era a melhor maneira de ligar as várias colônias britânicas. No oeste, os franceses fizeram uma estrada entrando quase que pelo deserto, ligando o Senegal a Mali.
Mas, sinal dos tempos, os vagões do trem que estou pegando são chineses. Os novos senhores da África.
Até a Tanzânia, então!
Escrito por Fábio Zanini às 15h10
O mercado das bruxas de Gana
(O blog Pé na África adverte: esse post contém fotos que podem ser chocantes, especialmente para os que acham cachorrinhos bichinhos fofinhos.)
ACRA (GANA) – O Timber Market é o centro da bruxaria em Gana. Fica no meio de uma quebrada, impossível de ser encontrado por alguém de fora, como eu. Para chegar lá, tive que “contratar” um morador local que a cada dois minutos repetia: “Este é o mercado secreto... Este é o mercado secreto...”
Anda daqui, anda de lá no terrível sol do meio-dia, chegamos a uma viela com umas 10 a 15 barracas, no meio de um favelão. “Este é o mercado secreto”, disse meu guia, mais uma vez, certamente para valorizar o passe dele e me pedir uma grana extra.
Não sei se é secreto, mas eu era o único estrangeiro ali, e chamava a atenção. O Timber Market, que tem esse nome por que é todo de madeira (“timber”), vende matéria prima para feitiçaria. Logo na primeira barraca, cabeças de cachorro ressecadas:
Em seguida, ratazanas, passarinhos, sapos, lagartos, camaleões, cabeças de cobra (na foto abaixo tem uma, bem no meio).
Enfim, uma espécie de supermercado da Maga Patalógica. Só não vi asa de morcego.
As donas das barracas não pareciam prestes a sacar sua vassoura e sair voando. Ali era uma feira como outra qualquer, apesar do toque mórbido do local. Pelo que meu guia me explicou, a matéria prima vem de Acra e do interior do país, trazida por mercadores, como se fosse um produto normal. Uma cabecinha de cachorro sai por uns 2 dólares.
Fiquei poucos minutos no tal “mercado secreto”, porque as pessoas não me pareciam muito felizes com minha presença. Para tirar essas fotos, só depois de muita negociação e de pagar 1 cedi (equivalente a 1 dólar) para a dona da barraca.
Bruxaria é parte da cultura africana, parecida com a nossa macumba. A bruxaria é 100% tradicional, baseada em elementos da natureza, e convive mais ou menos civilizadamente com as religiões estabelecidas. Se bem que costuma ser denunciada por igrejas evangélicas rotineiramente.
No oeste africano, a bruxaria e suas variações é ainda mais forte do que em outras partes do continente. O vudu, por exemplo, vem do Benin, um país vizinho a Gana. Na Nigéria, de onde vieram muitos de nossos escravos, a feitiçaria é praticada abertamente em algumas regiões.
Não perguntei para que servem as cabeças de cachorro. Melhor não saber.
Escrito por Fábio Zanini às 11h33
Parreira desiste da vida na África do Sul
ACRA (GANA) – Estava ficando claro que a situação de Carlos Alberto Parreira na África do Sul era insustentável. Na semana em que passei por lá, em março, vi a imprensa local malhando o treinador, principalmente depois do fiasco que foi a participação da anfitriã da Copa do Mundo na Copa Africana de seleções.
Parreira alegou razões pessoais para voltar ao Brasil. Sua mulher estaria com problemas de saúde. Provavelmente a vida que ele leva em Johannesburgo contribuiu para sua decisão.
Ele mora num hotel cinco estrelas em Sandton, distrito chique da cidade. Na verdade, ao invés de um distrito, é uma coleção de shopping centers e protegidíssimos condomínios residenciais.
Em Sandton as pessoas não andam nas ruas. Saem de casa e, ainda dentro do seu condomínio fechado, entram em seus carros. As janelas vão fechadas até o local de trabalho, que ficam em torres de escritórios acopladas aos tais shopping centers. Trabalha-se, come-se e vive-se dentro de enormes complexos de lojas e escritórios.
O motivo é a violência. Respira-se medo na África do Sul, e especialmente
Quem acha que São Paulo é violenta deveria dar uma voltinha
Escrito por Fábio Zanini às 09h41
Lula pintado para a guerra
ACRA (GANA) – Desde 2000 que cubro com maior ou menor regularidade o presidente Lula. Poucas vezes o vi tão agressivo como nesta viagem a Gana (ele foi embora ontem de manhã). Não digo agressivo no sentido de raivoso, arrogante, mal-humorado. Pelo contrário, ele estava uma flor de pessoa.
Mas agressivo no que disse, nos petardos que soltou e nas críticas pesadas que fez contra os países ricos. Lula, nas 48 horas que passou em Gana, mostrou-se um perseguidor implacável e só faltou jogar a pia do banheiro em europeus e norte-americanos.
Ele está acuado com as críticas a uma política estratégica de seu governo, a dos biocombustíveis. Eles eram, até pouco tempo atrás, uma unanimidade mundial: mais baratos que o petróleo, mais limpos, mais efetivos como fator de distribuição de renda. E, para Lula, o que é muito importante: um veículo para projetar sua influência sobre o Terceiro Mundo.
Mas os biocombustíveis vêm sendo vilanizados, e não apenas no mundo rico, porque estariam tirando terra da produção de alimentos e assim causando inflação de produtos agrícolas.
A diplomacia brasileira foi claramente pega de surpresa e sentiu o baque. Sem saber como reagir, decidiu reagir esperneando contra tudo. Em Gana, Lula chamou os subsídios agrícolas dos ricos de “droga”, insinuou que europeus são hipócritas, que norte-americanos não cumprem suas promessas e que todos são desastrados em suas políticas econômicas.
É uma tática deliberada, que ele pretende usar em todos os fóruns de que for capaz. Não foi à toa que Lula foi um dos pouquíssimos chefes de Estado a prestigiarem a reunião da Unctad, aqui em Acra, um dos mais desprestigiados órgãos da ONU (na foto, ele está ao lado do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, na abertura do evento).

Espere, portanto, um Lula cada vez mais com toques de Chávez ao longo desse ano, pelo menos no cenário internacional: terceiro-mundista, agressivo contra os ricos, quem sabe até usando algum tipo de jargão “imperialista”. O risco é virar um cão raivoso. Parecer Chávez pode render amigos entre os pobres, mas ao preço da falta de credibilidade internacional.
Como Lula mesmo disse aqui em Acra, a batalha ainda nem começou.
Escrito por Fábio Zanini às 09h55
Lula reclama do pescoço
ACRA (GANA) – O segundo dia da viagem de Lula foi corrido. Entra de um evento, sai para outro evento, corre para um lado, corre para o outro, na melhor tradição de viagens presidenciais.
Cobrir um evento desses transforma você numa espécie de parasita presidencial. Você busca o presidente no aeroporto, segue o homem por toda parte, aproveita para almoçar quando ele está almoçando, para jantar quando ele está jantando, vai levá-lo embora para o aeroporto. Só não bota o cara para dormir. Não dá para descuidar um minuto, correr o risco de perder uma frase, ou uma resposta. E Lula é muito imprevisível, como já falei anteriormente.
Aqui vão algumas pílulas de seu segundo dia em Gana:
Incomodado – Lula continua reclamando do torcicolo no pescoço. Dá para perceber, de vez em quando, ele levando a mão ao local, fazendo cara de desconforto, virando para um lado e para o outro. No começo de seu governo, era a bursite, no ombro, que não o deixava em paz, mas isso foi mais ou menos resolvido com acupuntura. Agora, o inferno é o pescoço.
***
Empapado – Lula sua, e sua muito. E não suporta ficar com camisa suada. Às vezes troca de camisa quatro vezes durante o dia. Ontem, no sol escaldante de Gana, foram três. Primeiro de manhã, na visita aos tabom, uma camisa com motivos tradicionais africanos. Depois, na sede regional da Embrapa, já era outra camisa. E à tarde, naabertura da conferência da Unctad, mais uma, dessa vez com terno.
***
Com que roupa? – As camisas leves geraram um curto-circuito com o presidente de Gana, John Kufuor, aliás. Na cerimônia na Embrapa, o ganense apareceu de terno e gravata, enquanto a delegação brasileira estava toda casual. Lula olhou para Kufuor e brincou: “Mas que terno é esse?” Depois, ao microfone, avisou que “o presidente brasileiro não usa terno de domingo”. Kufuor respondeu que, em Gana, o protocolo requer que as pessoas “sofram”.
***
Íntimo – Ao ler seu discurso na abertura da reunião da Unctad, Lula preferiu não arriscar. Desistiu de ler o complicadíssimo nome completo do secretário-geral da organização, Supachai Panitchpakdi. Trocou para "Dr. Supachai".
Escrito por Fábio Zanini às 04h27
Chegou!
ACRA (GANA) – Foi só um susto. A mochila já tinha chegado na sexta-feira, mas as inteligências da South African Airways aqui em Gana me diziam o contrário. Precisou minha mãe e minha namorada acionarem a companhia no Brasil para localizaram a bendita...
Ontem fui pegá-la. Talvez eu sinta mais felicidade do que tive ao vê-la, perto da meia-noite, intacta, quando eu tiver um filho. Talvez.
A todos os que torceram por mim, muito obrigado.
Escrito por Fábio Zanini às 04h25
Lula e o Carnaval africano
ACRA (GANA) – Pode
ter certeza. Viagem de dignatário à África tem overdose de batucada e danças
típicas. Ontem, Lula teve uma dose cavalar disso.
Mas teve também carnaval e até uma
mini-escola de samba, comandada por um baiano que mora em Londres e, claro, é
praticamente um clone do Carlinhos Brown.
Lula passou a manhã na corte do rei
Nii Azumah V, numa favela de Acra. Por toda a África há chefes tradicionais,
chamados de reis, que não têm pode legal, mas representam uma fonte de
autoridade moral junto a determinado grupo. Muitos são consultados pelos governo
democraticamente eleitos na hora de tomar decisões. O rei dos zulus, na África
do Sul, por exemplo, é poderosíssimo.
Azumah é o rei dos tabom, um povo
que descende de um grupo de escravos baianos que, no século 19, comprou sua
liberdade e decidiu retornar à terra de seus ancestrais, a África. O nome vem do
fato de que trouxeram o costume bem brasileiro de terminar frases com “ta
bom?”.
Azumah chegou ladeado por súditos
protegendo-o do sol forte com uma sombrinha. Atrás vinha um senhor soprando de
uma concha marítima, como se fosse uma corneta. Eles usam o nome “concha”,
aliás, em português mesmo, para descrever o instrumento.
A visita foi a uma casa que serve
de “palácio” dos tabom, numa favela de Acra e foi restaurada com apoio do
governo brasileiro. Lula chegou com uma camisa estampada com motivos africanos,
discursou, posou ao lado do trono de Azumah e, quando ia saindo, ouviu o batuque
da escola de samba local. Primeiro olhou pela janela, do segundo andar da casa,
e depois desceu e foi cumprimentar o povo.
A escola de cem pessoas mais ou menos tinha pandeiro, bumbo, chocalho, agogô, cornetas, uma mini ala das baianas com mulheres carregando vasos de flores e uma comissão de frente com bandeiras de Gana e do Brasil. E uma suspeita marchinha que reproduzia a melodia do grito de guerra eternizado pelas campanhas presidenciais do petista: “olê, olé, olé, olá...Lula, Lula...”.
Escrito por Fábio Zanini às 18h38

Fábio Zanini