Leões contra búfalos
Vocês precisam ver esse vídeo:
Foi feito no Kruger Park, na África do Sul, um dos mais populares lugares para fazer safári no continente. Eu, quando fui alguns anos atrás, consegui ver alguns pontinhos amarelos lá longe, que o guia jurava que eram leões.
Mas esses caras aqui ganharam na Mega-Sena. Não apenas viram leões de pertinho, como testemunharam uma incrível batalha com uma manada de búfalos, digna dos melhores momentos do Animal Planet. Repare no final o próprio guia dizendo que nunca viu nada parecido.
Isso não é um vídeo, é uma epopéia em quatro atos. Acompanhe:
1-) Leões adolescentes espreitam um filhote de búfalo que se aproxima;
2-) Eles atacam. O resto da manada foge;
3-) Do nada, um crocodilo aparece, tentando puxar um pedaço do pobre bufalozinho para si;
4-) Vem o contra-ataques dos búfalos.
Mais não conto para não estragar. Não deixe de ver.
Escrito por Fábio Zanini às 10h17
My friend!! Remember me?
Hassle. No dicionário, a tradução é “confusão”, mas na linguagem da mochilagem tem outro sentido, mais para “encheção de saco”.
Hassle é o termo em inglês para o assédio insistente de rua, às vezes agressivo, de vendedores de badulaques, supostos guias turísticos e comerciantes de pacotes ou tours (por não haver uma boa tradução em português, vou usar a palavra inglesa mesmo). Todos picaretas querendo arrancar o seu dinheiro.
Numa viagem, há sempre chateações, que divido entre grandes e pequenas. Das pequenas, hassle é uma das principais, talvez competindo pelo primeiro lugar com a disenteria (que, aliás, os americanos chamam pelo fantástico eufemismo de traveller’s disease, ou a doença do viajante). Obviamente, nada se compara às grandes chateações, como ser assaltado, perder o passaporte ou pegar malária...
Numa terra miserável, vender uma peça de artesanato para um turista estrangeiro pode fazer a diferença entre pôr ou não o almoço em casa. É normal que locais tentem abordar o viajante, e até insistir ao primeiro não. Um “obrigado” simpático costuma resolver.
Mas algumas pessoas (sempre homens, engraçado) não se satisfazem com o quinto, nem o sexto não, grudam que nem carrapato, e chegam a se irritar se você ignora. Às vezes te chamam de racista, como já aconteceu comigo. São em geral trambiqueiros e aproveitadores, que não têm nada a ver com os autênticos artesãos locais.
O hassle em geral é mais forte em locais turísticos. Em Zanzibar, por exemplo, é simplesmente infernal. Mas nem sempre é uma regra clara. Qual o motivo de que seja tão presente numa cidade com tão poucos atrativos (e isso é um eufemismo) como Dacar, no Senegal? E por que você quase nunca é importunado em Livingstone, na Zâmbia, porta de entrada das cataratas de Victoria? Mistérios...
Em alguns lugares onde ele é mais presente, algumas lojas já perceberam o nicho de mercado e chegam a colocar na porta um cartaz prometendo “no hassle”.
Mas o hassle também tem a sua beleza. Se livrar de um mala tem um quê de tourada. Depois que você domina a técnica, chega a ser interessante.
Há vários tipos de abordagem: uns começam com um assobio, seguido de um “hey, hey, excuse me, excuse me”. Outros vão enfiando o objeto na sua cara, repetindo “you know how much? you know how much?”.
Há os que fingem intimidade, como se fossem antigos amigos: “My friend! Remember me?”.
E há o clássico: “Where are you from?”. Se houver silêncio, começa uma chutação: “Italian? Spanish?
Responder que é brasileiro leva sempre a duas reações: a primeira é o cara recitar em cinco segundos uma dúzia de nomes de jogadores de futebol. A segunda é o mala dizer que o irmão dele, por uma incrível coincidência, acabou de voltar do Brasil. Tudo para construir cumplicidade com a vítima.
E como reagir? Com quilos de paciência, sorriso eterno no rosto, andar apressado para ver se o cara desgruda (parar é um grande erro) e, se você estiver de bom-humor, dá até para se divertir.
Se um dia você se vir nessa situação e te perguntarem de onde você vem, experimente responder “Finlândia” ou “Sri Lanka”. O cidadão costuma ficar desconcertado. Ou então, após ouvir o sétimo “where do you come from?”, diga “from my mother”. Funciona bem também.
Sempre sorrindo, claro. E, como diz a propaganda de uísque, continue andando.
Escrito por Fábio Zanini às 10h15
As melhores fotos-parte 2
A continuação da seleção de fotos
Pôr do sol na praia de Nungwi, Zanzibar (Tanzânia):

Catedral da Santa Família em Kigali (Ruanda):

Espanto do rei dos tabom, grupo de descendentes de ex-escravos brasileiros, durante conversa com Lula, em Acra (Gana):

Cena de comercial do chocolate Prestígio na praia de Nungwi, Zanzibar (Tanzânia):

Pausa para o descanso das agricultoras (e para observar o fotógrafo) em Kigali (Ruanda):

Coisinha fofa nas costas da mãe num supermercado da periferia de Harare, Zimbábue:

Jogo de vôlei num campo de refugiados em Goma (República Democrática do Congo):

Praia no lago Kivu, em Gisenyi (Ruanda):

Escrito por Fábio Zanini às 10h14
Como é bom ser turista brasileiro
“I’m from
Nunca repeti tanto isso nos últimos meses. O sorriso do entrevistado se abre, o guarda na fronteira subitamente fica mais gentil. As nuvens desaparecem, o céu fica azul, o sol brilha, os passarinhos cantam... Figurativamente, claro.
Sou um crítico da política externa historicamente tíbia do nosso glorioso Itamaraty, que tem medo até de chamar genocídio de genocídio (veja nossa posição vexaminosa para o Sudão, por exemplo).
Mas tenho de confessar que me beneficio indiretamente dela. Em qualquer canto da África, o Brasil é visto como:
a-) um país amigável e inofensivo;
b-) um país de gente boa, bem-humorada e feliz
c-) um país grande, rico e poderoso (alguns até acham que de Primeiro Mundo, e se assustam quando eu digo que não), mas que mesmo assim se coloca do mesmo lado que seus irmãos mais fracos e menores contra os inimigos comuns: EUA e europeus .
Isso sem falar, claro, no futebol, praias, mulheres etc. etc, que atiçam a imaginação de todos por aqui.
Ao longo desta viagem, eu, sempre que vou me apresentar numa situação mais delicada, solto que sou brasileiro no máximo na terceira frase (geralmente na primeira). Dependendo da circunstância, digo que sou três coisas: jornalista, estudante (tô meio velho para isso, mas ainda cola) ou turista. No Zimbábue, falei também que eu era observador da eleição (!) e diplomata (!!). Mas sempre, em qualquer caso, reforçando que sou brasileiro.
No próprio Zimbábue, em que passei 20 dias trabalhando sem visto de trabalho, confiei na minha condição inofensiva de brasileiro para não ser importunado. Se eu fosse americano ou inglês, provavelmente não teria a mesma coragem.
Por isso, se há um conselho que eu posso dar a quem for fazer uma viagem como essa (ou por qualquer outra parte do mundo, aliás), é: abuse de sua condição de brasileiro. Ok, você vai ter que pagar um pedágio, falar de futebol, vai ter que responder se conhece o Kaká e aquela chatice toda.
Mas vale a pena. O viajante brasileiro é sempre abençoado por Deus e bonito por natureza.
Escrito por Fábio Zanini às 10h12
As melhores fotos inéditas
Estou publicando aqui uma seleção das melhores fotos, todas inéditas, das várias cidades e países que percorri nos ultimos três meses. Depois publicarei mais:
Heroes Acre, o mausoléu dos heróis da independência do Zimbábue, em Harare (presente dos norte-coreanos, como dá para notar):

Jogo de damas com tampinhas no Lusaka City Market, na capital da Zâmbia:

Estátua decapitada de Kwame Nkrumah, pai da independência de Gana, no seu mausoléu em Acra (durante um golpe de Estado):

Banheiro exclusivo para Lula, na Brazil House, em Acra (Gana). Ele não usou:

“Patinete” improvisado em Goma (República Democrática do Congo):

Estação central de Harare, no Zimbábue, em estilo vitoriano:

Pebolim (em carioquês, totó) em homenagem ao Brasil numa favela de Acra (Gana):

Escrito por Fábio Zanini às 10h11
Uma lista de livros sugeridos
Caros,
vou dar uma paradinha na minha viagem por duas semanas. Depois, volto aqui para Uganda.
Mas vou continuar atualizando o blog com várias coisas que eu queria mostrar, mas não tinha muita chance. Agora é a hora.
Começo atendendo a vários pedidos nas últimas semanas, dando aqui uma lista de livros recomendadíssimos sobre a África. São todos de história, política ou biografias, porque literatura africana não é meu forte, confesso. Mas garanto que você lê a todos aproveitando cada página.
Podem ser encomendados pelo site da Amazon em inglês. Não sei quais têm versão em português, mas devem ser poucos...
Sobre Ruanda, já mencionei dois:
“We wish to inform you that tomorrow we will be killed with our families”, de Phillip Gourevitch: o melhor relato do genocídio, apesar de o autor ser um pouco condescendente demais para o meu gosto com Paul Kagame, o general tutsi e atual presidente, cujo exército de rebeldes parou a mortandade
“Shake Hands with the Devil”, de Romeo Dallaire: memórias do general canadense que chefiava a missão da ONU
Destaco ainda:
“The State of Africa”, de Martin Meredith: dividindo os capítulos por países, dá um panorama muito bom dos primeiros 50 anos da independência africana (1957-2007).
“The Shackled Continent”, de Robert Guest: é uma leitura liberal dos problemas africanos. Afinal, o autor foi o correspondente da revista “The Economist” na África por muito tempo. Tem excelentes histórias. O capítulo em que ele acompanha o trajeto de um caminhão de entrega de bebidas pelo interior de Camarões é imperdível.
“Untapped: The Scramble for African Oil”, de John Ghazvinian: é sobre o petróleo na África, que alguns acham ser a grande maldição do continente. O autor visitou vários países produtores e conta suas experiências, em ritmo de diário de viagem, de forma didática e divertida.
“Thabo Mbeki, the Dream Deferred”, de Mark Gevisser: biografia do presidente sul-africano, um catatau de 800 páginas que mostra a trajetória de um dos grandes líderes anti-apartheid, que infelizmente manchou sua reputação com as bobagens que falou sobre a Aids. Esse livro foi lançado na África do Sul e ainda não entrou no catálogo da Amazon (espera-se que isso ocorra em breve).
“Long Walk to Freedom”, de Nelson Mandela: o já clássico relato autobiográfico do ícone (este deve ter em português).
“Dinner with Mugabe”, de Heidi Holland: recém-lançado na África do Sul, mostra as entrevistas da autora, uma jornalista sul-africana, com pessoas da intimidade do ditador do Zimbábue (como seu irmão, seu padre etc.). O estilo é às vezes meio piegas, as enveredadas dela pela psicologia chegam a ser meio constrangedoras, mas 90% do que está ali é precioso. Entra na Amazon somente em dezembro, infelizmente... Mas vale a pena esperar.
“In the Footsteps of Mr. Kurz”, de Michela Wrong: excelente relato da ascensão e queda de Mobutu Sese Seko, no ex-Zaire (hoje Congo).
“Chief of Station, Congo”, de Larry Devlin: na mitologia da Guerra Fria, sempre havia um sujeito malvado como Evlin _o superagente da CIA que acobertava tiranos de Terceiro Mundo. No caso, Devlin foi a mão da CIA na ascensão de Mobutu, nos anos 60. O mais incrível é que ele conta essa história (ok, não deve ser toda a história, mas é um livraço).
“I didn’t do it for you”, de Michela Wrong: esse é sobre...a Eritréia! Incrível, mas ela conseguiu transformar a história de um país periférico e pouco interessante numa bela narrativa.
“Emma’s War”, de Deborah Scroggins: esse estou lendo agora, sobre uma inglesa pertencente a uma ONG que se casa com um senhor da guerra no Sudão.
E, last but not least, há toda a obra do papa do jornalismo sobre a África, Ryszard Kapuscinski, da qual destaco três livros: “Ebano”, uma coleção de relatos sobre o continente; o superclássico “The Emperor”, sobre a corte do imperador Haile Selassie na Etiópia; e o meu preferido dele, “Another Day of Life”, um livrinho de 120 páginas que fala do início da guerra civil em Angola.
Bom, se alguém tiver mais dicas está convidado a incluir na seção de Comentários.
Escrito por Fábio Zanini às 09h50
Aids em Uganda: o moralismo funciona
KAMPALA (UGANDA) – Falei quase nada sobre Aids até agora, o que é uma falha, visto que a doença virou uma marca registrada desse continente.
Então é bastante apropriado que eu toque no assunto aqui, em Uganda. Aids é uma obsessão nesse país, quase uma mania nacional. Por onde você anda, vê centros clínicos, ONGs, igrejas, escolas, com aconselhamento de prevenção ou tratamento para HIV/Aids etc. etc. E placas, cartazes, faixas, tudo que se refere à doença.
De vez em quando é bom ver uma história de sucesso nesse continente, só para variar, e o combate à Aids em Uganda é um sucesso inquestionável. Há 15 anos, cerca de 30% da população tinham o vírus; hoje, são 6,5%.
Enquanto outros países perdiam tempo fingindo que nada acontecia, e até negando que HIV cause Aids (como na África do Sul, onde a taxa é de mais de 20%), os ugandenses agiam para conter a doença. Falar sobre o assunto, assumir o problema e discutir candidamente foi o primeiro passo. Mas teve mais.
Uganda trata a Aids de uma maneira como nós nunca faríamos no Brasil. Uma maneira inusitada, para dizer o mínimo. E assumidamente moralista.
Um exemplo do que acontece por aqui: imagine que você é um oficial do governo e precise traçar uma estratégia para reduzir a incidência de Aids junto a caminhoneiros. Em vários países, esse é um grupo delicado: estão sempre longe de casa, cruzam fronteiras, são cercados por prostitutas o tempo todo. São potencialmente um fator de disseminação da doença. E muitos chegam em casa e podem contaminar suas esposas.
A meu ver, a lógica mandaria que se propagandeasse o uso de camisinhas entre caminhoneiros. Mas veja como é o cartaz do governo de Uganda que vi na sede de uma ONG:

Diz o pôster: “um motorista responsável se importa com sua família; ele é fiel a sua mulher”. O foco não é tentar fazê-lo se proteger quando dormir com prostitutas. Mas tentar convencê-lo, antes de tudo, a não ter a relação sexual. Parece ingênuo, mas o governo acha que funciona. E talvez funcione mesmo.
No Brasil, a ênfase das campanhas contra Aids é no sexo seguro: use camisinha, em outras palavras. Em Uganda, a promoção dos preservativos é apenas a perna mais fraca de um tripé que conta também com a promoção de abstinência e a fidelidade.
O slogan do governo é ABC: A é a inicial de abstinência, B é de “be faithful”, ou seja fiel, e C é para condom, ou camisinha.
Uganda é um país com forte influência das igrejas católica e evangélicas. O presidente, Yoweri Museveni, é, a exemplo de George Bush, um “born again christian”, ou seja, um cristão renascido, que descobriu sua fé no meio da vida. A primeira-dama, Janeth, é ainda mais religiosa.
Não surpreende, então, que o governo coloque tanta ênfase nas letras A e B. Abstinência é direcionada aos jovens, principalmente de menos de 25 anos, idade média em que eles se casam, incentivando-os a se manter virgens até o altar.
O B é dedicado aos casais, pedindo que sejam fiéis. Só em último caso, se a pessoa não conseguir se abster ou for um pulador de cerca contumaz, vem o C: pelo menos use camisinha.
Percebeu a diferença? O enfoque tradicional em vários países, inclusive no Brasil, é centrar fogo na camisinha. Em Uganda, camisinha é um último caso, quase o recurso dos pecadores.
Hoje conversei com representantes de duas ONGs, esperando ouvir algumas críticas à política do ABC. Nada. Aprovam 100%. Há um consenso nacional em torno do tema. Sobra para organizações estrangeiras descerem o pau, dizendo que é irreal esperar que um jovem de 20 anos se mantenha virgem.
Mas os números estão aí, desafiando o que diz a lógica e a convicção de muitos (como eu). São um tapa na cara dos céticos.
Escrito por Fábio Zanini às 09h47
Brincando de Enduro em Uganda
KAMPALA (UGANDA) – Esqueça as fronteiras ou a polícia do Zimbábue.
Os momentos mais assustadores da minha viagem estou vivendo aqui em Kampala, capital de Uganda, onde cheguei anteontem, a bordo de um boda-boda.

É o nome que se dá às moto-táxis aqui (ignoro o motivo). É aterrorizante o que esses ases do asfalto fazem. Finas inacreditáveis no meio de caminhões, fechadas espetaculares em ônibus, piques de 80 km/h por centenas de metros na contramão, de noite, brincando de Enduro (o do Atari).
E eu na garupa, sem capacete. Perto disso, andar das moto-táxis de Ruanda é como passear em limusines com ar condicionado.
Mas aqui tem que ser assim. A alternativa é passar duas ou três horas numa minivan, especialmente na hora do rush. Ou andar uma hora a pé, o que é melhor não fazer à noite.
Ontem, o pára-choque de uma van chegou a encostar na minha mão, que segurava na garupa, tão fina foi a fina. Sorte que estava devagar.
E tem gente muito louca. No caminho para o albergue agora à noite, vi uma garupa tripla: um senhor idoso espremido entre o motoqueiro e uma outra passageira. Que segurava uma criança de colo!
E o motoqueiro tirando finas na escuridão de Kampala...
Escrito por Fábio Zanini às 07h53
Ntakibaro, o gorilinha acrobata
PARC NATIONAL DES VOLCANS
(RUANDA) – Antes de virar a página e deixar os gorilas em paz, um
videozinho que fiz.
Repare, logo no começo, na cambalhota de Ntakibaro, o gorilinha que depois veio querer brincar conosco. Olhando a travessura está Charles, o patriarca da gorilalândia.
Escrito por Fábio Zanini às 07h48
O harém de Charles, o gorila
PARC NATIONAL DES VOLCANS (RUANDA) – Chamar os grupos de gorilas de “famílias” é tecnicamente correto, mas o ideal seria chamar de harém.
A família que visitamos chama-se Umubano, que significa “Amizade” em kinyarwanda, o idioma local. Como acontece sempre, é controlada por um patriarca, chamado de “silverback”, porque com a idade os pelos das costas adquirem uma cor prateada.


Charles tem três fêmeas a seu dispor (cada gorila tem seu nome, e é possível identificá-los pelo formato do nariz, que nunca é igual de um para outro). Há ainda dois blackbacks, com os pelos ainda negros, gorilas adolescentes entre 8 e 15 anos. E por fim três filhotes, entre 2 e 5 anos, todos filhos do patriarca, obviamente.
Quando um adolescente cresce e está perto de se tornar um silverback, ele sai à procura de formar seu próprio harém. Nem sempre consegue: as montanhas são cheias de gorilas que ficaram para titios e vivem sozinhos.
O nosso silverback estava calmo. Passou o tempo todo sentado ou deitado, quase sempre se coçando e observando a movimentação. Nós ficamos num semi-círculo, a uns três metros de distância, sussurrando e proibidos de usar flash e de apontar. O silverback pode se irritar, levantar e vir para cima. Se isso acontecesse, a ordem é agachar em posição submissa e nunca, nunca dar as costas e tentar fugir. Charles atacaria. Felizmente, nada disso aconteceu.
Ao lado de Charles, uma de suas fêmeas e dois gorilinhas. Um estava dormindo.

O outro, mais desinibido, veio em nossa direção, batendo no peito feito um mini King-Kong, e levou pequenos chutes do guia para se afastar. Seu nome é Ntakibaro, tem dois anos e parecia muito fofinho e inofensivo. Até pegar um ramo razoavelmente grosso de bambu, uma das comidas preferidas deles e cortá-lo numa única dentada.


Charles, o líder do harém, eventualmente perdia a paciência com os moleques e conosco e soltava uns grunhidos ameaçadores. Os guias respondiam fazendo grunhidos também, que tinham a função de acalmar a fera.
Uma hora de brincadeira, dezenas de fotos tiradas, todos felizes, guia aliviado por não correr o risco de ser vítima de turistas enfurecidos, é hora de ir. O tempo é contado no relógio.
O dinheiro dos turistas, aparentemente, vai para a infra-estrutura de proteção dos próprios gorilas e também para as comunidades locais.
A conta? 500 dólares pela permissão, mais 20 por usar cartão de crédito, mais 70 pelo carro que me levou até o parque, mais gorjetas. Torrados em uma hora inesquecível.
Pelas próximas semanas, os moquifos em que eu dormir terão de ser mais moquifentos, os hambúrgueres mais freqüentes, os táxis mais raros. A vida é feita de escolhas...
Escrito por Fábio Zanini às 07h21
Em busca dos gorilas das montanhas
PARC NATIONAL DES VOLCANS (RUANDA) – Procurar gorilas nas montanhas é um pouco como chegar na casa de um desconhecido sem avisar, bater na porta, torcer para ele estar lá e ser convidado para entrar, tomar um café, assistir televisão...
Tive essa experiência no domingo, no norte de Ruanda, no ponto em que faz fronteira com o Congo e Uganda. Nestes três países vivem os últimos gorilas das montanhas, uma espécie altamente ameaçada. Existem hoje apenas 380, o que na verdade é uma ótima notícia, porque há 20 anos eram menos de 300.
É uma brincadeira cara e arriscada. Não porque os gorilas sejam violentos: estão habituadíssimos aos turistas que aparecem diariamente. O risco é pagar uma grana e não ver. As chances de avistá-los são excelentes, dizem os guias, mas nunca é 100%. E se eles não aparecerem, babau, você assume o risco. E nada de reembolso.
Por isso foi tão tensa minha expedição. Às 7h eu já estava na entrada do parque, próximo da cidadezinha de Kinigi, em Ruanda. Eu e mais os 39 outros turistas que receberam permissão para visitar os gorilas naquele dia.
Há cinco famílias de gorilas que podem ser visitadas por cinco grupos, cada um com oito pessoas no máximo. Como é baixa temporada, consegui comprar a permissão em Kigali relativamente fácil. Mas para visitar no período de junho a agosto, é preciso reservar com meses de antecedência.
Caí de penetra num grupo de sete pessoas que estão viajando juntas desde novembro, num mega-tour por 25 países: três ingleses, dois australianos, uma americana e um holandês. O guia local, um senhor já dos seus 60 anos, disse que o dia estava bom e que esperava uma caminhada de apenas 20 minutos antes de chegarmos à família Sabyinyo, que recebe esse nome por viver na montanha de mesmo nome.
Na África, quando falam que vai demorar 20 minutos, pode acreditar que vai demorar pelo menos uma hora. Então já saí preparado para uma longa caminhada. Alguns minutos na nossa frente, um grupo de rastreadores profissionais ia procurando e informando nosso guia por rádio. Dois soldados armados nos dão escolta, para nos proteger de búfalos ou elefantes que podem aparecer.
Saímos exatamente às 8h. Passa uma hora de caminhada e os únicos animais “exóticos” que havíamos avistado eram bois, cabras e cachorros. Nada muito emocionante, portanto. Pelo menos a caminhada é bonita, atravessando vilazinhas de cabanas de palha, campos floridos, plantações de batata e topando com ruandeses plantando ou cuidando de rebanhos.

O grupo começa a ficar nervoso. A americana, uma senhora já de mais de 50 anos vira para o guia e implora: “se precisarmos subir montanhas, não se preocupe. Queremos ver os gorilas!”.
Mas nada. Começo a me perguntar porque eles não colocam nos gorilas aquelas pulseiras de metal com localizadores via rádio, que nem as ararinhas azuis do Globo Repórter. Gorilas, explica o guia, tentando desanuviar o ambiente, movimentam-se: não ficam estacionados, esperando turistas.
Às 9h30, uma hora e meia de caminhada portanto, paramos num descampado. Uma inglesa gordinha está furiosa, ofegante e comendo furiosamente um pacote de bolachas. O guia, depois do que pareceu uma eternidade falando com os rastreadores no rádio, faz uma reunião. Esperamos pelo pior, mas ele sugere uma mudança de tática. Vamos voltar para nossos carros e tentar uma outra montanha, onde vivem duas famílias. É o monte Visoke, famoso por ter servido de base para as pesquisas da primatóloga Dian Fossey, a autora de “Gorillas in the Mist”, que virou filme estrelado por Sigourney Weaver (Fossey foi morta por caçadores nos anos 80).
E vai demorar?, perguntamos. Uns 20 minutos, ele responde. Sentindo a nossa ansiedade, tenta tranqüilizar. “Eu faço isso há 28 anos”. Mas ninguém tem coragem de perguntar quantas vezes nesse período ele fracassou.
Voltamos para os carros, fazemos um longo desvio de uns 45 minutos por uma estrada pedregosa e saltamos de novo. Desta vez a paisagem é realmente montanhosa, não apenas de campos e plantações. Bom sinal, penso.

Andamos mais meia hora e o rádio do guia toca. Finalmente os rastreadores parecem ter visto alguma coisa. “Parece que acharam”, diz o guia. O problema é o verbo “parecer”.
Às 11h05, fazemos um desvio e começamos a subir a montanha, que até então estávamos apenas margeando. O chão é de uma folhagem instável, os troncos estão escorregadios, e algumas plantas “picam” como formigas. No alto, só neblina.
São 11h15 e uma forma negra aparece numa árvore lá longe.

Estamos todos paralisados. O guia, sussurrando, manda que olhemos para a esquerda. A cinco metros, dois gorilas nos observam.
Amanhã conto o resto.
Escrito por Fábio Zanini às 07h13
Um gay africano
GISENYI (RUANDA) – Alguns dias atrás eu vi algo que me chamou muito a atenção. Vi pela primeira vez nessa viagem um gay africano.
Eu chegava de manhãzinha ao hotel em Gisenyi e, após o check-in, fui levado ao meu quarto. Mas a camareira ainda o arrumava, e tive que esperar alguns minutos no corredor. Foi quando um funcionário do hotel que passava me abordou. Me deu as boas vindas, perguntou se estava tudo bem, se eu precisava de alguma coisa.
Agradeci, disse que estava tudo bem, e na hora, mesmo após apenas alguns segundos de conversa, me pareceu que ele tinha trejeitos de um homossexual. Para não deixar dúvida quanto à impressão, duas camareiras que viram a cena imediatamente olharam uma para outra e começaram a rir, balançar a cabeça e a falar em kinyarwanda, o idioma local, como se dissessem: “esse aí não tem jeito mesmo”. Como se o cara fosse um tipo de aberração.
E por que estou surpreso? Porque aquilo que disse o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, há alguns meses, de que no seu país “não existem homossexuais”, se aplica perfeitamente à África.
“Não existem”, com todas as aspas que puderem ser colocadas, porque não aparecem. Se aparecerem, são ridicularizados, perseguidos, estigmatizados, levam porrada, vão para a cadeia ou pior. Evidentemente, não tenho elementos para dizer que as pessoas comuns em geral sejam hostis. Acho até que não: o africano médio é bastante tolerante. Mas existe um ambiente político muito nocivo aos homossexuais.
Em muitos países, homossexualismo é crime. Na semana passada, o presidente da Gambia, no oeste africano, Yahya Jammeh, deu 24 horas para os gays deixarem seu país. Caso contrário, teriam a cabeça cortada.
Mas é óbvio que os gays existem. Neste continente, talvez a África do Sul possa ser considerada uma exceção na tolerância à homossexualidade, ainda assim apenas em alguns redutos, como a Cidade do Cabo.
Cada vez me convenço mais de que na África faltam acontecer duas revoluções essenciais.
A primeira é a revolução capitalista. Praticamente todos esses países saíram de séculos do colonialismo mais perverso e caíram direto em economias socialistas utópicas, matando qualquer espírito empreendedor.
E a segunda é a revolução sexual, que traz na sua esteira a emancipação feminina (a condição da mulher na sociedade africana em geral é subalterna, para dizer o mínimo), o planejamento familiar, a discussão sobre doenças sexualmente transmissíveis e a tolerância a outras orientações sexuais.
Não é por acaso que os mais altos níveis de contaminação da Aids do mundo estão aqui. Perdeu-se muito tempo até que se começasse a falar sobre sexo seguro, camisinha... Os exemplos mais bem sucedidos de combate à Aids na África, como em Uganda, foram na verdade à base da promoção da abstinência.
Na África, sexo é tabu. Não se vêem casais (heterossexuais mesmo) de mãos dadas passeando pelas ruas. Beijos públicos, nem pensar. Não se mostra o corpo. Pode estar 40 graus à sombra, mas é todo mundo de calça comprida, muitas vezes também de camisa de manga comprida. Mulheres, de vestido até o pé.
Sobre isso, tive uma experiência cultural emblemática há algumas semanas.
Eu viajava de ônibus na Tanzânia e comecei a acompanhar o filme que colocaram no vídeo a bordo. Era falado em swahili, mas o enredo era tão simplório que eu consegui entender o básico. E a viagem era longa, então...
Um casal vivia feliz, até que a mulher teve um acidente de carro e ficou paralítica. O marido começa a perder o interesse nela por causa disso, e a melhor amiga da acidentada se aproveita da situação e começa a seduzir o cara.
A cena clímax da “sedução”, quando o homem finalmente entrega os pontos, é fantástica. Os dois sozinhos numa sala, a mulher se aproxima, põe os braços em volta do pescoço dele e dá...um abraço. E corta a cena. Nenhum beijo, muito menos uma cena de cama, só um abraço. Na próxima cena, é de manhã e os dois estão tomando café. Você então deduz que eles passaram a noite juntos.
Esse é o máximo a que se pode chegar. Nesse ambiente, a atitude do funcionário do hotel de Gisenyi é quase revolucionária...
Escrito por Fábio Zanini às 13h04
O saco plástico ameaçador
GISENYI (RUANDA) – Esta vai para a crônica dos momentos mais inacreditáveis da minha viagem. Esqueci de contar no post anterior.
Geralmente passo batido pelas alfândegas. Meu aspecto simplório e minha mochila inofensiva nunca despertam curiosidade dos oficiais.
Mas ontem, na entrada em Ruanda, fui parado e levado para uma sala. A mulher da alfândega ruandesa apontou para uma mesa de madeira e me pediu para esvaziar a mochila. Péssima notícia, porque fazer e desfazer a mochila é uma trabalheira.
E lá fui eu, tirando cuecas e meias sujas, camisas amassadas, um horror. Terminada a operação, ela deu uma olhada e apontou para o saco plástico, desses de supermercado mesmo, em que eu levo um par de sapatos.
“Isso não pode”.
E eu: “Não pode levar o sapato?!”
Então a mulher explicou. Pode levar os sapatos, não pode é levar o saco plástico.
Eu, incrédulo: “Não pode levar o saco plástico?”
“Não pode”.
Em fronteiras, a regra de ouro é nunca discutir, aceitar passivamente o que diz a “otoridade”. Mas dessa vez não me contive.
“Mas não pode por quê?”
E ela então congelou. Na sua cabecinha de burocrata, ela provavelmente nunca parou para se perguntar isso. Lá estava eu, um muzungu (branquelo) insolente, querendo saber: “Mas vem cá, não pode por quê?”.
Após alguns segundos de silêncio, ela apenas murmurou:
“Não pode. O saco plástico não pode”.
E o saco ficou. E lá fui eu enfiar um par de sapatos sujos de três dias no Congo no meio das roupas, colaborando para piorar um pouco mais a salubridade da minha mochila.
Burocratas...

Escrito por Fábio Zanini às 03h39
Da África para a “Suíça”
GOMA (REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO) E GISENYI (RUANDA) – Às 7h30 eu acordei na África mais arrebentada e às 8h30 eu parecia estar nos Alpes suíços.
Essa é a sensação que se tem ao cruzar a fronteira de Goma, no Congo, para sua cidade-irmã Gisenyi,

O lado congolês é uma miséria que não tem fim, e a margem do lago, com exceção de uma ou duas mansões de ricaços, não tem o menor sex appeal turístico. Já o lado ruandês (na foto abaixo) é uma cidade-resort, com pobreza, obviamente (estamos na África), mas cheio de pequenas praias de areia, parques bem-cuidados, grandes hotéis etc.

Vale um parêntese para falar dessa fronteira, aliás. Sair do Congo foi tranqüilo, mas entrar em Ruanda foi um parto. Já disse antes que Ruanda não é apenas um país, é um enorme colégio militar. Militares gostam de regras, burocracia, ordem e não são adeptos da flexibilidade nem do jeitinho.
Para entrar em Ruanda, você precisa antes preencher um formulário na internet, enviar e aguardar o ok das autoridades três dias úteis depois. Só que o site (www.migration.gov.rw) funciona mal e porcamente, e só consegui mandar o tal formulário na terça-feira. Quando cheguei na fronteira, não tinha recebido a resposta ainda.
E a mulher não queria me deixar entrar, deixando-me um pouco na situação de Tom Hanks no filme “O Terminal”: eu já havia saído do Congo, mas não podia entrar
Meu destino era ficar naqueles cerca de 100 metros de terra de ninguém que separam as duas fronteiras, contemplando o lago (pelo menos isso). Foi assim durante uns 45 minutos, eu ali, fazendo aquela carinha do Gato de Botas em Shrek 2 (sabe qual?), vendo se alguém se apiedava de mim. Geralmente funciona.
Eventualmente a mulher da imigração se encheu de mim, viu que eu era apenas um mochileiro latino-americano sem dinheiro no bolso e me deixou entrar.
Fronteiras... Odeio fronteiras...
Escrito por Fábio Zanini às 08h20
A violência na África do Sul
GOMA (REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO) – A onda de violência na África do Sul contra estrangeiros já havia matado 26 pessoas até a última contagem. É chocante, mesmo sabendo dos padrões de violência daquele país, porque agora são negros matando negros, africanos matando africanos. Não o resultado de uma obscena desigualdade de renda, como acontece quando as vítimas são os brancos ou mesmo negros que se enriqueceram recentemente, mas o cru retrato da xenofobia.
A África do Sul muitas vezes aparenta um enclave de Primeiro Mundo num continente turbulento e miserável, com suas autovias modernas, telefonia cinco estrelas, lindas cidades e sofisticados shopping centers. Isso tem muito de propaganda governamental, ainda mais agora, que o país sediará a Copa do Mundo em 2010.
Mas os recentes ataques contra imigrantes trazem de volta a terra firme que essa é uma sociedade em transição, com profundos bolsões de pobreza, desemprego e violência. O fato de ser um magneto para milhões de zimbabuanos, moçambicanos, congoleses e nigerianos desesperados acaba jogando mais combustível nessa fogueira. A comunidade de cerca de 3 milhões de imigrantes do Zimbábue, por exemplo, é alvo do mais nítido preconceito. Nos bairros pobres de Johannesburgo, como Hillbrow, eles se acotovelam com os negros locais para raspar as migalhas deixadas pela economia sul-africana.
Até onde vai a onda de violência é difícil prever. É provável que a fogueira baixe nas próximas horas, com uma firme (ou até violenta...) ação do governo, preocupado com sua imagem internacional.
Mais grave deve ser o efeito para uma sociedade que tenta se vender como tolerante e aberta ao novo, a “nação arco-íris”.Fronteiras fechadas no mais rico dos seus países é a última coisa de que a África precisa.
Escrito por Fábio Zanini às 03h31
A Pompéia africana
GOMA (REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO) – Nas calçadas, em alguns jardins e principalmente no aeroporto de Goma é possível ver montes e montes de uma rocha preta, com aspecto de carvão, apesar de muito mais dura.
É lava solidificada, que desceu do Monte Nyiragongo em 2002, data da última grande erupção. O vulcão fica a 10 km do centro e pode ser visto de qualquer ponto da cidade. Ele é uma ameaça constante a essa região do Congo, por ser um dos mais ativos da África, soltando gases o tempo todo e eventualmente explodindo.

A comparação com Pompéia, destruida em 79 D.C. pelo Vesúvio, é uma licença poética, claro, porque aqui ninguém morreu, nem há corpos petrificados por cinzas que podem ser visitados por turistas, como na antiga cidade italiana. Mas, como numa imagem bíblica, um rio de fogo invadiu a avenida principal da cidade, que até hoje esta sendo reconstruída. A lava mudou a topografia de Goma para sempre, encobrindo algumas casas e destruindo ruas. Milhares tiveram de deixar a cidade.
Como no Congo desgraça nunca vem sozinha, a erupção ocorreu justo num momento em que campos de refugiados ruandeses estavam estabelecidos na região, apresentando mais um problema para as organizações internacionais (a maioria já foi desmantelada desde então, e os hutus foram repatriados).
Em nenhum lugar o impacto da erupção é tão evidente como na pista do aeroporto de Goma. Ali, uma montanha de rocha preta se formou, inclusive reduzindo o tamanho da pista de pouso. Em abril passado, isso atrapalhou a decolagem de um avião, que se espatifou. Morreram 80 pessoas.
O aeroporto serve ao enorme contingente da força de paz das Nações Unidas, a Monuc, e embora tenha também vôos civis, é área proibida para turistas. Mas na África tudo se resolve. Principalmente com alguns dólares.
Ontem eu me contentava em ver a lava à distância, do precários terminal de passageiros, quando um funcionário do aeroporto me perguntou se eu queria dar um passeio na pista. Claro que sim. E ele, na maior cara de pau, falou que não haveria problema se eu pagasse 5 dólares de uma tal “taxa de visitação da lava solidificada do aeroporto de Goma”. Tudo legal, nos conformes etc. etc.
Sei...
Paguei a “taxa” e fomos lá passear pela lava, ao lado de um avião abandonado aparentemente há vários anos (na foto abaixo) e no meio de dezenas de helicópteros e aviões da ONU, todos propriedade militar que não poderia ser fotografada. Mas minha “taxa” aparentemente incluía permissão para fotos e lá fui eu, pá, pá, pá, fazendo a festa, dezenas de imagens de tudo.
Andar pela enorme plataforma de lava, que calculo ter uns 500 metros de extensão, não é fácil. É escorregadia e irregular, o que demanda concentração.

Dez minutos de brincadeira e fomos embora, porque meu guia começava a ficar um pouco inquieto. Claro que no final teve que ter uma gorjeta, mais 2 dólares para ele, 1 dólar para o policial que abriu o portão para mim e mais 1 dólar para um mala que grudou em mim durante o passeio e não parava de encher o saco pedindo dinheiro.
Saí do aeroporto e ainda tive uma excelente vista do vulcão, de graça, dominando a cidade...
Escrito por Fábio Zanini às 11h42
Comendo poeira no Congo
GOMA (REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO) – Algumas cidades te recebem com visões de favelas, do mar, de prédios ou do trânsito. Em Goma, quem te recebe é a poeira.
Cheguei aqui hoje de manhã, vindo de Ruanda, depois de cruzar o que deve ser um dos postos de fronteira mais bonitos do mundo, às margens do lago Kivu, de águas azuis e cercado por montanhas, que não faria feio no meio dos Alpes. O Kivu divide os dois países em permanente estado de tensão, e Goma, do lado congolês, tem uma bem justificada fama de ser uma cidade sem lei.
Nos últimos 15 anos, esta cidade sempre esteve no epicentro de algumas das mais horrendas crises que este continente já viveu. Na verdade, muito antes disso, quando Che Guevara esteve por aqui, nos anos 60, tentando arregimentar rebeldes para uma de suas muitas aventuras.
Mas a coisa esquentou mesmo em 1994, quando Goma serviu de refúgio para milhões de hutus que fugiam do avanço dos rebeldes tutsis que pararam o genocídio (vários destes “refugiados” na verdade eram genocidários, alguns deles ainda devem estar por aqui).
Depois, a cidade serviu de base para o ataque que Ruanda lançou ao regime do antigo Zaire (hoje Congo) de Mobutu Sese Seko, em 1997, que acabou por derrubá-lo. Dois anos depois, Goma de novo foi ponta de lança para o início de uma guerra pelas riquezas do país que acabou atraindo dez nações africanas, a famosa “Primeira Guerra Mundial Africana”.
Por fim, há cerca de três anos, é aqui que se desenrola uma batalha entre o general renegado congolês Nkunda, auto-proclamado defensor da minoria tutsi, e forças leais ao governo central do Congo. Nos últimos meses a situação sossegou, o clima está relativamente tranqüilo, então vim dar uma olhada e ficar alguns dias. Aqui por onde você olha vê agências da ONU, ONGs etc.
Em Goma, comer poeira é muito mais do que uma metáfora. Acabo de voltar de um rolê na garupa de um moto-táxi (sem capacete), e a poeira da rua impregna meus dentes. Poeira com asfalto, sujeira, e até um pouco de lava e cinza, já que esta região é cercada por vulcões.
Uma região belíssima, que teria tudo para ser um magneto para turistas. E que já foi, aliás. Meu hotel, o Grands Lacs, tem na parede da recepção um certificado de 1995 do Ministério do Turismo, classificando-o como um quatro estrelas. Hoje ele é um moquifo, ainda imponente na arquitetura, mas caindo aos pedaços, sem água quente e sem papel higiênico (ainda bem que eu tenho o meu). O gerente me pediu 40 dólares a noite. Falei que pagaria no máximo 30. Ele topou na hora.
O Grands Lacs é um belo emblema da decadência do Congo, um dos mais desgraçados países africanos.
Escrito por Fábio Zanini às 07h57
Vem aí a nota de 1 bilhão de dólares
KIGALI (RUANDA) – Leio que o governo do Zimbábue acaba de lançar a nota de 500 milhões de dólares (daquele país). Simplesmente inacreditável, mas parece que está havendo a hiperinflação da hiperinflação, ou seja, as coisas estão explodindo de preço a um ritmo cada vez mais explosivo. Deu para entender o que quero dizer?
Vejam só: alguns de vocês devem se lembrar de um post meu lá atrás, quando cheguei ao Zimbábue, em que eu relatava ter recebido meu primeiro bilhão de dólares. Isso foi há meros dois meses, quando isso valia US$ 40, e a nota mais alta era de 10 milhões de dólares zimbabuanos. Ela tinha validade até 30 de junho deste ano, mas parece que as autoridades monetárias foram otimistas demais. Virou pó antes.
Quando cheguei a Harare, em 23 de março, US$ 1 comprava 24 milhões de dólares do Zimbábue. Quando saí, 18 dias depois, a taxa já havia subido para US$ 1 para 40 milhões. Agora, pelo que andei lendo, está em US$ 1 para 250 milhões. O valor da moeda local ficou reduzido a um décimo em dois meses.
Aguardamos ansiosamente pelo dia histórico em que a nota de 1 bilhão de dólares zimbabuanos será lançada. Pelas minhas contas, será até o final do mês...
Escrito por Fábio Zanini às 03h33
De motoca pelas avenidas de Kigali
KIGALI (RUANDA) –
Há alguns dias eu estou devendo imagens de Kigali, a incrivelmente bela capital
de Ruanda. Fiz um videozinho da garupa de uma das milhares de moto-táxi que
cortam as colinas da cidade de cima para baixo. As imagens mostram o centro
financeiro da capital, a Place de l’Unité National e um pouco da vista lá
embaixo.
Essas motinhos são uma maneira
rápida, barata e emocionante de se movimentar por Kigali. São insuperáveis para
subir as acentuadas ladeiras, zigazeando pelo meio de carros que sofrem a
Também há um ritual a ser seguido pelo passageiro. Faço sinal e elas param. Falo o endereço, geralmente em meu francês macarrônico, o piloto pede um preço. Se aceito, ponho o capacete, sempre com dificuldade (sou cabeçudo). Monto na garupa e peço “doucement, s'il vous plait”. “Devagar, por favor”, pedido que é via de regra ignorado pelos dublês de Schumacher, que adoram descer as colinas em ritmo de foguete, comigo segurando firme no banco, os braços petrificados...
Escrito por Fábio Zanini às 03h31
Eu, muzungu...
KIGALI (RUANDA) – Por onde ando sou alvo de curiosidade silenciosa de criancinhas africanas, mas aqui em Ruanda elas são desinibidas.
Estendem a mão para me cumprimentar, mesmo que seja um toquinho de gente com não mais que quatro anos de idade, e adoram dizer “Bonjour, monsieur. Ça va?” para mim. Outro dia um molequinho me avistou e correu em minha direção fazendo aviãozinho, como se fosse Ronaldo Fenômeno comemorando um gol, até me abraçar, enquanto os amiguinhos se divertiam com a palhaçada do colega.
Ontem, sentado no murinho de uma praça enquanto fazia anotações, fui cercado por umas dez criancinhas de uns seis ou sete anos de idade, que sem a menor cerimônia ficaram acompanhando meus rabiscos.
E é freqüente também estar andando distraído e começar a ouvir vozes de crianças gritando “muzungu!, muzungu!”, ou “branquelo” em kyniarwanda, e apontando para mim. Me fez lembrar de uma outra viagem à África que fiz, em que eu era “toubab”, “homem branco” em wolof, a língua do Senegal. Às vezes me sinto uma atração turística, uma Mona Lisa ambulante.
p.s.: algumas pessoas me pediram mais dicas de filmes e livros sobre Ruanda. Já falei de “Gostaria de informá-lo...”, de Philip Gourevitch, e há o óbvio “Hotel Ruanda”.
Entre os livros, há outro fundamental, que se chama “Shake Hands with the Devil”, as memórias do general canadense Romeo Dallaire (procure na Amazon). Dallaire comandava as forças da ONU em Ruanda antes do genocídio, e alertou seus superiores com três meses de antecedência que uma onda de violência estava sendo arquitetada. Foi ignorado. Ele também se manteve heroicamente no país mesmo quando a comunidade internacional debandava. No filme “Hotel Ruanda”, é o personagem de Nick Nolte.
E no cinema há um filme que ainda não vi, mas quem viu diz que é ótimo (pareci o Silvio Santos agora?). Chama-se “Shooting Dogs”, uma referência ao fato de que, após consumado o massacre, as tropas da ONU que chegaram ao país receberam ordens para matar cachorros que se empanturravam de corpos apodrecendo nas ruas.
Escrito por Fábio Zanini às 16h16
Os massacres nas igrejas de Ruanda
KIGALI (RUANDA) – Esse texto começa com um pedido de compreensão. Data máxima vênia, como dizem os advogados. Não quero transformar esse blog num poço de depressão, e acho que já falei bastante sobre os horrores do genocídio de Ruanda, mas não seria honesto deixar de relatar mais uma história macabra.
Setores da igreja, como eu já disse antes, se comportaram como cúmplices dos massacres de 1994. Em várias delas, em que milhares de tutsis e hutus moderados foram mortos, hoje há memoriais. São dezenas e dezenas pelo país. Dois dos mais conhecidos estão a cerca de
Num dia é possível visitar os dois locais. Primeiro fui a Ntarama. Da estrada que sai da capital, pega-se uma estradinha de terra entre plantações de banana e 4 ou
Em abril de 1994, 5.000 almas se espremeram dentro da igreja. Milicianos hutus cercaram o prédio, primeiro cortaram a água e, após três dias, atacaram. As roupas usadas pelas vítimas do banho de sangue hoje estão expostas nas paredes. No fundo da igreja, quatro prateleiras guardam ossos e crânios, a maioria com sinais de rachaduras. O mais impressionante deles ainda tem espetada uma ponta de ferro.
Eu, um perfeito idiota, fui achar de relar na tal ponta, que imediatamente se moveu ao mais leve toque. A mulher que toma conta do local obviamente me fuzilou com o olhar de reprovação. Um vexame.
Nos bancos, há manchas endurecidas. É sangue. Num canto, alguns cadernos escolares, de crianças que ali se refugiaram. E que também acabaram mortas.
A
O pano que cobre o altar está todo manchado de sangue. Em cima dele, um facão usado na matança.

Para completar o ar tragicamente surrealista, uma imagem de Nossa Senhora na parede olha diretamente para baixo observando tudo.

No fundo da igreja, uma escadinha leva a uma câmara em que dezenas de crânios estão expostos.

E há um único caixão também. A administradora do memorial explica que é de uma das raras vítimas cujo corpo não foi retalhado por machadinhas. Ela morreu com uma lança que entrou pela vagina e saiu pelo crânio. Tinha 9 anos de idade.
Do lado de fora, mais uma escadinha leva a mais um porão, de uns três metros de profundidade. Ali os crânios não são dezenas, são literalmente milhares...
Escrito por Fábio Zanini às 16h16
No “Hotel Ruanda”, o marketing do genocídio
KIGALI (RUANDA) – Desde que Hollywood descobriu o genocídio, o Hotel des Milles Colines, bem no centro de Kigali, vive seus 15 minutos de fama. É o local, todos sabemos, do filme “Hotel Ruanda”, que conta a história do gerente, Paul Rusesabagina, e sua odisséia para ali esconder tutsis ameaçados de morte.

E pode ser também uma forma de render uns trocados a mais com uma espécie de “marketing do genocídio”, como descobri na minha visita.
Meu primeiro passo foi procurar a recepção, apresentar-me e perguntar se havia algum porta-voz ou assessor de imprensa que pudesse me falar sobre o hotel. O recepcionista sorri e diz que sim. “Vou chamar nosso único funcionário que trabalha aqui desde o genocídio”. (Rusesabagina hoje mora na Bélgica). Em seguida, quase sussurrando para mim, aponta uma injustiça: “Ele era o braço direito de Rusesabagina, mas não apareceu no filme...”
Aparece um sujeito baixinho, de terno azul-marinho impecável, sorridente. Explico quem sou e digo que gostaria de entrevistá-lo por alguns minutos.
“Mas você tem que me pagar”, ele responde, ainda sorridente.
“Pagar?”, respondo, espantado.
“Sim. Já contei essa história de graça muitas vezes. Agora, tem que pagar”
Apelo para a solidariedade terceiro-mundista, que às vezes funciona. Mas não agora.
“Posso lhe pagar um xícara de café... Sou do Brasil, país pobre...”
Meu interlocutor insiste. Tem que pagar.
Por curiosidade, pergunto: “Quanto? 20 dólares?”
Ele ri. “20 dólares é pouco! 100 dólares!”
“100 dólares?”
“100 dólares”.
Seguem-se segundos de silêncio e sorrisos tensos meu e dele. Tento uma última cartada:
“Se o sr. me der entrevista, vai tornar o hotel famoso no Brasil...”
Um americano que ouvia a conversa interfere, tentando me ajudar:
“Quem sabe até fazem Hotel Ruanda 2, o Retorno, com o sr. como protagonista”.
Todos rimos. Mas o baixinho está irredutível. Me pede para esperar, e diz que voltará em 15 minutos. Espero no sofá da recepção, achando que ele pode mudar de idéia. Mas nada disso. Ele volta, senta do meu lado e faz uma cara de “e aí, vai pagar ou não?”. Sempre sorrindo.
Explico em inglês que não posso, acima de tudo porque meu jornal não permite que se pague por entrevistas, e reforço o convite para pagar uma xícara de café. Ele finge não entender. Repito com meu francês claudicante. Ele agradece, levanta-se e sai.
Resta-me dar uma perambulada pelo hotel, que, aliás, foi muito pouco usado na filmagem. O Milles Collines é um quatro estrelas, com diária a 115 euros, que há muito perdeu a condição de principal hotel do país. É um tanto decadente, com quartos antigos e elevadores que não funcionam. Se alguém de Brasília estiver lendo, imagine o Hotel Nacional.
Mas ainda há resquícios da grandeza de outrora. A famosa piscina que foi “bebida” pelos refugiados ainda está lá. Os jardins são bem cuidados, o serviço é impecável e o menu requintado. Se bem que as lagostas de Rusesabagina, mostradas no filme, já não aparecem no cardápio.

Na saida, encontro um grupo de turistas norte-americanos da terceira idade, liderados por um guia. Entram, fazem foto. E se dirigem para a lojinha do hotel.
Escrito por Fábio Zanini às 14h49
Ordem e progresso
KIGALI (RUANDA) – Curioso esse país para sempre marcado pelo genocídio. Ruanda me parece, após alguns dias aqui, ser um grande colégio militar. Cheguei há pouquíssimo tempo para um juízo profundo, admito. Mas algumas coisas nesse pequeno país são chamativas demais e permitem algumas conclusões imediatas.
Nunca estudei em colégio militar, mas estudei em colégio de padres, que tem algumas semelhanças. Os estudantes devem trajar uniforme impecavelmente, ter o cabelo bem cortado e nunca se atrasar. A punição é severa.
Em Ruanda, as praças são incrivelmente bem cuidadas. Os jardins públicos, impecáveis. Motoristas de táxi te chamam a atenção se você não põe o cinto de segurança, num continente em que 99% dos táxis nem cinto tem. Motoqueiros andam de capacete! Ontem levei uma reprimenda de um garoto porque atravessava uma avenida fora da faixa de pedestre. As avenidas e estradas são bem pavimentadas, as calçadas não têm buracos. Na imortal frase de Lula, nem parece a África.

Minha hipótese para tamanha ordem tem nome e sobrenome: Paul Kagame, o presidente desde 1994.

Kagame simboliza como poucos as profundas ambigüidades dos líderes africanos. Por um lado, ele merece estar na galeria dos grandes heróis da humanidade no século 20. Foi ele quem parou o genocídio em maio de 1994, quando seu exército de rebeldes baseado em Uganda invadiu o país e desalojou os homicidas. Naquele momento, 1 milhão de tutsi já haviam sido massacrados por radicais hutus, mas sem Kagame poderiam ter sido 2 ou 3 milhões. Os EUA lavaram as mãos, os belgas bateram em retirada, os franceses fizeram pior: armaram os genocidas, protegeram seus líderes e abriram uma rota de fuga para eles, rumo ao então Zaire. Kagame foi a salvação.
Ele é um general, com treinamento nos EUA, e tem sérios instintos autoritários. Não permite oposição livre, persegue a mídia e ONGs. Tudo em nome de evitar a repetição do genocídio, o que é um pretexto eficiente. Mais ou menos como George Bush pisa nas liberdades civis em nome da “guerra ao terror”. Ruanda, aliás, deve ser um dos únicos lugares do planeta
O presidente de Ruanda me parece genuinamente bem-visto por seus compatriotas. Ele botou ordem no caos, em resumo, ordem militar. “Ordem e progresso” deveria estar na bandeira deles, não na nossa.
Mas há um preço por isso...
Escrito por Fábio Zanini às 14h25
Museu do genocídio: proibido pisar nos mortos
KIGALI (RUANDA) – Fica numa colina (claro...) afastada do centro de Kigali o tributo dos ruandenses ao episódio que botou seu país no mapa múndi, da pior maneira possível. O Kigali Memorial Centre é um misto de memorial e mausoléu do genocídio capaz de derreter o mais gelado dos corações de gelo.
Nem sempre, na verdade. Foi lá que, no dia 10 de abril passado, perto do aniversário do genocídio, uma granada lançada da rua matou um guarda na entrada principal, o que mostra que a reconciliação pregada dentro do prédio ainda está longe. No portão, agora é feita uma revista em todos os visitantes.
O memorial é simples, modesto até, sem a grandiosidade, por exemplo, do Museu do Holocausto em Jerusalém, mas extremamente bem organizado, e mostrando tudo sem eufemismos. Salas se sucedem com painéis e vídeos contando as origens do massacre, como ele aconteceu e quais as conseqüências para o pequeno país.
Há um certo ranço anticolonialista, especialmente contra belgas e franceses, o que é até certo ponto perdoável, visto que a comunidade internacional não deu nada além das costas naqueles meses de 1994.
Um dos painéis reproduz, por exemplo, uma carteira de identidade dos anos 30, feita pelo governo belga, em que o cidadão era identificado como hutu, tutsi ou twa (uma etnia com apenas 1% da população). Isso décadas antes de os sul-africanos fazerem o mesmo no regime do apartheid.
Sem conseguir categorizar direito os grupos étnicos, os colonizadores criaram sua própria e incrível definição: quem tem mais de dez vacas é tutsi; quem tem menos é hutu. Tudo para criar uma elite colonial tutsi, de 15% da população, que controlaria o resto do país em nome dos belgas. O pavio do genocídio estava aceso.
Sobra também para a Igreja Católica, que, como já falei antes, teve sua parcela de culpa. “A ideologia racista pró-tutsi era ensinada nas escolas católicas”, diz um painel.
A exibição mostra como o genocídio foi sendo premeditado nos anos anteriores ao seu estouro. Em janeiro de 1990, um jornal publicou os dez mandamentos do “poder hutu”, pregando, entre outras coisas, que tutsi eram traidores da nação. No começo de 1994, listas de vítimas começaram a ser preparadas, e carregamentos de armas francesas compradas pelo regime passaram a chegar com freqüência a Kigali.
Mas os momentos mais perturbadores do memorial ficam para o final. Numa sala, armas usadas na matança estão expostas. Há uma corrente com cadeado usada para prender um casal que foi enterrado vivo. Facões, machadinhas, lanças e até pás estão à mostra (a foto foi tirada de trás de um vidro, por isso não é das melhores).

“Vizinhos matavam vizinhos, amigos matavam amigos, parentes matavam parentes. Ruanda se transformou numa nação de assassinos brutais, sádicos, impiedosos e de vítimas inocentes da noite para o dia”, diz a exibição.
Numa sala escura e silenciosa, um vídeo mostra imagens que se sucedem de corpos e de feridos. Um crânio aparece descolado do corpo de uma criança. Um garoto sobrevivente vira sua cabeça, revelando um rasgo no crânio, preto. Ele tenta afastar algumas moscas que se empanturram de sua massa encefálica podre. Outro garoto levanta o braço lentamente e revela sua mão com os cinco dedos decepados.
Outra sala exibe numa caixa protegida por um vidro várias fileiras de crânios, muitos com cicatrizes de machadadas, e dezenas de ossos de vítimas.
E, na improvável hipótese de alguém não ter ficado profundamente incomodado com tudo, o último trecho do memorial é a pá de cal. É a sala das crianças, com enormes fotos de vítimas e uma breve biografia delas.

Assim, ficamos sabendo que Francine Igabire, morta aos 12 anos com machadadas, gostava de nadar, de comer ovos e batata frita e de beber leite e Fanta Tropical. Ariane Umutoni, esfaqueada nos olhos e na cabeça aos 4 anos de idade, preferia bolo e leite. Aurore Kirezi, fotografada sorridente e de vestidinho, foi queimada viva aos 2 anos. Fidele Igabue, na imagem sentado numa cadeirinha, recebeu uma bala na cabeça. Tinha 9 anos.
Apelativo, certamente, mas uma opção coerente e assumida dos exibidores de não usar meias palavras para contar a história.
A visita termina com um passeio no jardim do memorial, em que restos de milhares de vítimas foram enterrados. Há um aviso final aos visitantes, em três línguas (inglês, francês e kinyarwanda, o idioma local). “Por favor, não pise nas sepulturas em massa”.

Como se fosse um "proibido pisar na grama" adaptado a essas circunstâncias...
Escrito por Fábio Zanini às 10h29
Ruanda, um desafio para sedentários
KIGALI (RUANDA) – Bastam 15 minutos em Ruanda para perceber que o slogan “país das mil colinas” é merecidíssimo. Kigali, a capital, não deve ter uma única rua plana.
São ladeiras e ladeiras, algumas um pouquinho inclinadas, a maioria bem acentuada. Caminhar é um exercício lento, esforçado. Passagens aéreas para Ruanda deveriam vir com um alerta: “antes de viajar, faça um mês de esteira”.
Em compensação, a cada esquina há uma visão espetacular das colinas ao lado. Cada bar, restaurante ou hotel compete pela melhor vista panorâmica da cidade. Motocas fazem a festa, cortando os morros para cima e para baixo, ultrapassando carros obrigados a subir no máximo em segunda marcha. São elas que servem de “táxi”, aliás.
Cheguei anteontem da Tanzânia. Dessa vez, me permiti um pequeno luxo, em nome da economia de tempo. De ônibus, seriam três dias, desde Arusha. De avião, duas horas, e a passagem não é das mais caras (US$ 200). E viajando pela gloriosa Rwandair Express, o que me permitirá contar vantagem em conversas de bar sobre as linhas aéreas mais bizarras do planeta (“E eu, que já voei de Rwandair...”).
Numa rápida primeira olhada, encontrei uma cidade organizada, com um centro moderno, longe do estereótipo deixado pelo genocídio. Engraçado, foi a mesma sensação que tive em Harare, no Zimbábue, o que para mim suscita uma questão perturbadora: países com regimes autoritários tendem a ser mais organizados, ao menos nas aparências? Ruanda, presidida por um general (eleito, é verdade) que persegue jornalistas, está longe de ser uma democracia...
Escrito por Fábio Zanini às 10h18
Quando uma sociedade enlouquece
ARUSHA (TANZÂNIA) - Num dos corredores do tribunal internacional sobre o genocídio de Ruanda, um mapa do país indica os locais onde ocorreram massacres entre abril e maio de 1994. São 98 no total, mas 34 deles chamam a atenção por serem identificados com uma cruzinha. São igrejas.
Representantes do clero, católico principalmente, mas também de outras denominações, estiveram envolvidos de forma cruel na matança. Suas igrejas serviam de refúgio para civis desesperados, que imaginavam que ali teriam proteção, dada a alta autoridade moral de que líderes religiosos sempre desfrutam. Mas muitas vezes acabaram traídos, não raro com a cumplicidade dos que viam como seus protetores.
Há o exemplo famoso que dá título ao livro (altamente recomendado...) “Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias”, do jornalista norte-americano Philip Gourevitch, de refugiados numa igreja de Mugonero que enviaram uma carta com a dramática frase acima para o líder religioso da comunidade, suplicando por ajuda. A resposta foi uma carta em que o tal líder lavava as mãos, e o massacre foi inevitável.
No total, seis líderes religiosos de Ruanda foram indiciados pelo tribunal da ONU, três católicos, dois adventistas e um bispo anglicano. Fora missionários franceses, espanhóis e de outros nacionalidades, que fugiram para seus países e até hoje são fonte de atrito diplomático.
E por que fizeram isso? Basicamente porque o genocídio envolveu toda a elite hutu de Ruanda, e o clero tem cadeira cativa nesse grupo. A lista de indiciados pelo tribunal da ONU tem não apenas o então primeiro-ministro e 15 ministros, mas também prefeitos, empresários, líderes militares, jornalistas que incitaram os massacres no rádio ou em jornais e até o músico mais popular do país na época, Simon Bikindi, que compôs canções exaltando o “hutu power”, a ideologia usada para justificar a morte dos tutsis.
Mais de 90 processados, no total, e esses são apenas os considerados “líderes” do genocídio, fora os milhares de peixes pequenos e médios.
Um momento de histeria e irracionalidade de uma sociedade inteira, em resumo, o que revela paralelos evidentes com a Alemanha nazista.
Escrito por Fábio Zanini às 11h28
Bastidores do tribunal da ONU
ARUSHA (TANZÂNIA) – Como julgar acusados por um dos grandes crimes do século 20? Com uma obsessiva, e quase caricatural, preocupação com segurança.
Assim é o tribunal criminal para o genocídio de Ruanda, em Arusha, cheio de idiossincrasias próprias do monstro burocrático que é a ONU, acrescido de uma boa dose de paranóia.
Começa com o acesso às galerias para acompanhar as sessões. Estamos, público e imprensa, separados por uma espessa parede de vidro da sala onde se desenrolam os debates. O áudio é por fones de ouvido, já que o isolamento acústico é total. Nada de câmeras, celulares, bolsas ou mochilas.
Para fazer a foto abaixo, tive que pedir permissão especial com um dia de antecedência, separado da meu credenciamento. Tive menos de dois minutos.

E nada de comida nem bebidas, ainda que uma inocente garrafa de água mineral. Pode ter líquido explosivo. Do lado de fora, ao menos um policial com sua metralhadora a tiracolo e uma incrível cara de tédio, nunca uma boa combinação.
Praticamente todas as testemunhas são secretas, identificadas por uma sigla. Nos últimos dias acompanhei os depoimentos de CWL, RWB e XQL. Elas ficam dentro de uma cabine, visíveis aos juízes (sempre três, impecáveis em túnicas vermelhas), aos advogados (de túnica preta) e à promotoria (com aquela impagável peruquinha branca com rabinho). Mas o público não sabe quem é. Na hora da entrada e saída da testemunha oculta, uma cortina bloqueia a visão da parede de vidro.
A necessidade de tradução simultânea e a falta de pressa das autoridades (o tribunal funciona há 14 anos) muitas vezes tornam tudo um tanto sonolento. Mesmo os juízes se rendem a alguns bocejos. Há sensacionais discussões sobre o nada: ontem um advogado levou cinco minutos para pedir que uma testemunha lesse um documento de um parágrafo.
Advogado: “O trecho está na página 5, parágrafo 2”
Juíza, distraída: “Qual página?”
Advogado: “O trecho em questão, que peço que a testemunha leia, é de fundamental importância para esse julgamento”
Juíza: “Página 2?”
Advogado: “Qual página que eu falei mesmo? [longa pausa]. É o documento que tem o número 321 no alto da página.”
Membro da promotoria: “Senhora juíza, não recebi o documento”
Juíza, para o advogado: “Ele não recebeu o documento”
Advogado: “Recebeu sim. É o que tem o número 321 no alto da página”
Juíza, para o membro da promotoria: “Recebeu?”
Membro da promotoria: “Recebi. Qual a página mesmo?”
Juíza: “Qual a página?”
Advogado: “Vejamos...Página 5, parágrafo 2”
Tradutor (na cabine de som): “Sra. juíza, não recebi o documento”
Juíza, para o advogado: “O tradutor não recebeu o documento...”
E por aí vai...Mas, justiça seja feita, todo julgamento é um pouco assim.
Também é curioso como as pessoas se referem ao objeto de debate, o genocídio, que às vezes parece ser uma pessoa, um pouco como “mercado”.
A promotoria, claro, não tem problema algum em mencioná-lo pelo nome, mas a defesa é cheia de dedos. Genocídio, afinal de contas, tem uma enorme carga política e emocional.
Anteontem ,um advogado de defesa quase escorregou. “Refiro-me aos fatos que ocorreram durante o..., o..., período de que estamos tratando aqui”, disse, sorrindo amarelo. Outros defensores são mais práticos: chamam o genocídio simplesmente de “os eventos”.
Escrito por Fábio Zanini às 02h03
“Não saia de casa. Para o seu próprio bem”
ARUSHA (TANZÂNIA) – A parcela de responsabilidade, ou culpa, das antigas potências européias sobre as calamidades em suas antigas colônias é daquelas discussões intermináveis. As ferrovias, o cristianismo e as (poucas) universidades que os europeus deram à África compensam a opressão e o subdesenvolvimento?
Claramente há casos e casos, e o da Bélgica é dos mais comprometedores. Além de terem governado o Congo como uma fazenda, os belgas são responsabilizados por terem explorado a divisão latente entre hutus e tutsi em Ruanda e no Burundi. Por isso, rotineiramente são acusados de terem estocado ressentimento mútuo que desaguou no genocídio de 1994.
Daí porque o depoimento de ontem do ex-embaixador belga em Ruanda na época da matança, Johan Swinnen, ao tribunal internacional de Arusha é tão revelador. Swinnen, um sujeito na casa dos 50 anos com uma certa semelhança com o ator Ian McKellen (o Magneto de X-Men), era uma espécie de vice-rei em Kigali, a capital de Ruanda, nos anos 90. A Bélgica, embora não mais colonizadora, ainda se comportava como tal, treinando o exército, dando assistência humanitária e operando grandes empresas. E seu embaixador acabou pagando um preço por isso.
Swinnen falou ontem por quase quatro horas, como testemunha. Seu relato é aterrorizante sobre aqueles dias. Na noite de 6 de abril, ele estava em sua casa quando ouviu no rádio a notícia que serviu de pretexto para o genocídio: o avião carregando o presidente de Ruanda, Juvenal Habyarimana, acabara de ser derrubado quando se preparava para pousar em Kigali.
O presidente era um hutu, provavelmente morto por membros linha-dura de sua própria etnia contrariados por ele ter negociado um acordo de paz com rebeldes tutsi. Mas a culpa recaiu sobre os tutsi, e os massacres começaram.
“Imediatamente senti a gravidade do momento e me preocupei em primeiro lugar com a minha família”, disse o embaixador no depoimento. Seus dois filhos adolescentes estavam num restaurante jantando, e ele entrou em pânico. Foi buscá-los de carro, enquanto sua mulher se desesperava. “Cheguei ao restaurante gritando para todos que ali estavam que deveriam ir para casa.”
Naquela mesma noite, um coronel do Exército de Ruanda que ele conhecia apareceu em sua casa com um recado ameaçador. “Tome cuidado e não saia daqui, para o seu bem”. Logo em seguida, a Rádio des Milles Collines dava o primeiro de seus boletins, que ficariam conhecidos por incitar o genocídio. Pedia, entre outras coisas, o extermínio dos belgas.
“Até aquele momento as relações do meu país com o povo de Ruanda tinham sido serenas. Aquilo era realmente muito preocupante”, relembrou o embaixador. Já no dia seguinte Swinnen teve uma notícia trágica: dez soldados belgas que participavam de uma força de paz da ONU e dez civis do país, moradores de Ruanda, haviam sido mortos, na primeira leva da matança.
De imediato, ele telefonou para a primeira-ministra, Agathe Uwilingiyimana, que prometeu a ele ir ao rádio pedir calma e condenar os massacres. Mas ela nunca cumpriu a promessa. Foi assassinada algumas horas depois, provavelmente mais uma vítima dos linha-dura.
Ainda naquele dia, 9 de abril, o embaixador conta que recebeu em sua casa a visita de três ministros do governo genocida: da Saúde, das Relações Exteriores e do Planejamento. “Foi um encontro tenso. Não havia mais protocolo entre nós. Percebi naquele momento que era hora de uma retirada”.
O pesadelo do embaixador terminou apenas em 12 de abril, quando uma equipe de militares belgas chegou a Kigali para retirar os cidadãos do país. Naqueles dias, praticamente todos os estrangeiros, inclusive os militares, foram evacuados, deixando os civis completamente desprotegidos. O episódio, bem retratado no filme “Hotel Ruanda”, acabou sendo uma espécie de sinal verde para os genocidas agirem sem restrições.
Em Arusha, a culpa coletiva por gestos como esse tenta ser ao menos parcialmente expiada, antes tarde do que nunca.
Escrito por Fábio Zanini às 02h00
Cara a cara com genocidas
ARUSHA (TANZÂNIA) – Muito se fala sobre a famosa banalidade do mal, mas só é possível entender o que é isso exatamente quando o mal está ali, a poucos metros, de terno bem passado cinza, camisa cor de rosa, ou fazendo gracejos.
Ontem tive dois momentos desses, no meu primeiro dia visitando o Tribunal Internacional Criminal para Ruanda, instalado de maneira bastante improvisada em um punhado de salas numa espécie de centro de convenções de Arusha, norte da Tanzânia.

Primeiro de manhã, quando acompanhei das galerias de imprensa o testemunho do referido sujeito bem vestido, um tal Paul Mujyambere. (Infelizmente, não tive autorização para fazer fotos.) Sorridente, elegante, de uns 35 anos de idade, foi chamado pela defesa de um dos réus no tribunal, um ex-ministro no governo genocida de Ruanda. E seguiu o script que a defesa esperava, testemunhando que não, o tal ministro não teve participação alguma na matança.
Mas Mujyambere, separado de mim por um vidro, não é um qualquer. Foi condenado a dez anos de prisão, já cumpridos, por ter participado do ataque a uma igreja na cidade de Rukara, em 9 de abril de 1994, em que morreram dezenas de civis tutsi, a etnia perseguida pelos hutus, que controlavam o governo. Em resumo, o sujeito bem-apessoado ali na minha frente era um genocida, apesar de ele protestar inocência dizendo que foi forçado a se juntar ao bando de facínoras naquela noite.
Lembro-me de uma reportagem que um amigo meu, Marcelo Starobinas, fez quando trabalhava na Folha de S. Paulo, ali por 2001, e foi cobrir em Haia, na Holanda, a primeira aparição de Slobodan Milosevic em público. Sua matéria descrevia, ali, pertinho do lugar em que ele estava, o carniceiro iugoslavo sentado calmamente, tamborilando na mesa enquanto não começava o interrogatório.
Da mesma forma como Charles Taylor, ex-presidente da Libéria, aparece sereno e bem penteado a cada aparição no tribunal internacional para Serra Leoa, acusado que é de ter financiado rebeldes que brincavam de adivinhar o sexo de bebês não nascidos cortando as barrigas das mães grávidas.
Mas voltando a Ruanda, depois foi a vez de RWB, uma testemunha que depôs de forma confidencial, por trás de uma cortina, identificada apenas por esse código. Por isso, eu só ouvia sua voz, também muito gentil, agradecendo a cada pergunta que lhe era feita.
Esse RWB, pelo que entendi, é um dos “peixes grandes” do genocídio, condenado à prisão perpétua por coordenar vários massacres. Uma das acusações contra ele foi de que um conhecido seu tutsi lhe visitou um dia para implorar sua proteção, mas ouviu como resposta que isso custaria 9.000 francos de Ruanda, um fortuna na época. Não pagou e acabou morto, segundo lembrou ontem a promotoria.
E ele achou um jeito de, no final da audiência, fazer um pedido inusitado. Queria dar um abraço no réu para o qual ele testemunhava, o mesmo ex-ministro que o sujeito de terno defendia, e que está preso. “Não o vejo há muito tempo”, disse RWB. A juíza, uma paquistanesa, ficou perplexa por alguns segundos, mas autorizou o abraço, seduzida pelo cavalheiresco genocida.
Escrito por Fábio Zanini às 12h33
Em Arusha, mundo tenta entender o genocídio
ARUSHA (TANZÂNIA) – Num centro de convenções convertido em tribunal improvisado, no centro de uma cidade agradável, cercada por grandes montanhas, o mundo tenta se redimir de um de seus maiores vexames.
Arusha, no norte da Tanzânia, é mais conhecida por ser base para a escalada do Kilimanjaro, o mais famoso pico do continente africano, mas o que me traz aqui é a corte das Nações Unidas para o genocídio de Ruanda.

A história é conhecida. Em abril e maio de 1994, enquanto os franceses silenciosamente davam cobertura política, os norte-americanos olhavam para outro lado e as Nações Unidas, catatônicas, fingiam que nada acontecia, radicais hutus massacraram entre 800 mil e 1 milhão de tutsis ou moderados hutus, um ritmo para matar Hitler de inveja.
Tragédia consumada, as consciências mundiais pesaram e resultaram numa corte estabelecida em Arusha, lá se vão longos 14 anos. Desde então, 32 pessoas foram julgadas, 27 estão em julgamento, 9 aguardam presas o início do julgamento e 18 indiciados continuam foragidos. A elite do antigo regime foi às barras da Justiça, incluindo o então primeiro-ministro, praticamente todo o gabinete, além de prefeitos, oficiais militares e jornalistas que incitaram a matança. Houve apenas três absolvições.
Os julgamentos continuam, e têm de acabar, por determinação da ONU, até 2010. Ontem começou mais um, que espero acompanhar a partir de hoje.
Escrito por Fábio Zanini às 02h15
Na terra de hakuna matata
ZANZIBAR (TANZÂNIA)
– Se há uma cultura que faz jus ao clichê de que todas as culturas são
interdependentes, resultado de um caldeirão de influências etc. e etc., é a
swahili.
Não é exatamente africana, apesar
de estar localizada geograficamente no leste do continente. Tem um quê muito
forte do oriente, na atitude meio mística de seus adeptos, na predileção por
temperos de todos os tipos, na forte influência do islamismo e de ritos antigos
persas. Lembra um pouco o rastafarianismo, aquele jeito tranquilão dos adeptos
de Bob Marley.
Aqui é a terra de “hakuna matata”, ou “tudo bem”, “tudo beleza”, expressão fantasticamente sonora que a Disney pegou emprestado alguns anos atrás para seu desenho “Rei Leão”.

É o que mais se ouve, ao lado de
“jambo”, que significa simplesmente “olá”, e que as criancinhas adoram repetir
para branquelos como eu.
O swahili prosperou quando Zanzibar
se abriu para o mundo, no século 19, e sua língua, também chamada de kiswahili,
é de longe o idioma africano mais influente dos milhares que existem. Geralmente
esses idiomas nativos (idiomas, e não dialetos, como corretamente já me puxaram
a orelha) dizem respeito a uma tribo ou região apenas, mas o swahili domina o
norte de Moçambique, toda a Tanzânia, o Quênia, partes de Uganda, do Congo e da
Somália. Não é uma “língua franca”, como são chamadas as línguas simplesmente
faladas, com escrita imitando o som das palavras e gramática sem regras claras.
O swahili aqui subjugou o inglês e se tornou a verdadeira língua nacional da
Tanzânia, com grande literatura.
Certamente o fato de ser uma
cultura aberta e flexível a todo tipo de influência ajudou a popularizá-la.
Também do português há traços, cerca de 60 palavras que ficaram do domínio
lusitano por 200 anos, entre os séculos 15 e 17. Bandeira é “bendera”, caixa é
“kasha”, copo é “kopo”, mesa é “meza”, vinho é “mvinyo”. As mulheres vestem
“khanga”, e por aí vai.
E o tempo deles não é apenas
psicologicamente outro, é literal também, com outra forma de contar as horas. A
zero hora é o amanhecer do sol, geralmente 6h. Assim, o nosso 7h vira 2h, 8h é
3h etc. Isso às vezes é problemático. Quando perguntei ao barqueiro que me levou
a um passeio a que horas voltaríamos, ele respondeu na lata: às nove horas, que
imaginei seriam da noite. Vendo meu espanto, franziu a testa, subtraiu
mentalmente seis de nove e traduziu: às três, ou 15h. Hakuna matata?, perguntou.
Hakuna matata, respondi.
p.s.: coloquei um videozinho das tartarugas obesas de que falei no post anterior.
Escrito por Fábio Zanini às 05h16
Finalmente, os resultados no Zimbábue
ZANZIBAR (TANZANIA) – Demorou "somente" 35 dias, o que deve ser um novo recorde mundial, mas ontem a comissão eleitoral Tabajara do Zimbábue anunciou o resultado da eleição presidencial. Morgan Tsvangirai ganhou, mas não levou. Ficou com 47,9%, contra 43,2% de tio Bob.
Não deixa de ser histórico, Mugabe acaba de perder uma eleição, muito embora esse resultado tenha sido provavelmente fraudado.
A oposição agora debate o que fazer. O segundo turno não será bonito. Pode-se esperar muita violência de um regime desesperado. Decisão difícil, a de participar ou não participar.
Mas eu espero que Morgan participe. Primeiro porque, violência ou não, a chance de ele ganhar ainda é muito grande. E, mesmo que perca roubado, sairá como vencedor moral. Pior seria correr da disputa e dar mais cinco anos de mão beijada para Mugabe.
Aguardemos. Sua decisão deve sair em breve.
Escrito por Fábio Zanini às 07h05
Na capital da pesca (e das tartarugas) de Zanzibar
ZANZIBAR (TANZÂNIA) – A vila de Nungwi fica no norte da ilha de Zanzibar, a uma hora e meia de Stone Town, que seria a “capital”daqui. Além das praias saídas de comercial de Prestígio, que trouxeram a inevitável praga dos resorts, é um dos maiores centros produtores de dhows da Tanzânia.
Dhow (pronuncia-se como Homer Simpson faz quando bate a cabeça) é um barco feito artesanalmente, 20 tábuas formando o casco, um mastro e uma vela, às vezes uma cobertura também. É utilizado, claro, na pesca artesanal, a base da economia local.
Diariamente, por volta das 4 ou 5 da tarde, uma procissão de 40 ou 50 dhows, com suas velas brancas, deixa a praia e vai se dirigindo lentamente até a linha do horizonte, que, aqui, aliás, é curva, talvez pela proximidade com o Equador. Duas horas depois os pontinhos brancos começam a sumir, lá longe, e só voltarão às 6 da manhã do dia seguinte, cheios de peixes, lulas, polvos, lagostas e camarões.
Num trecho da praia fica o estaleiro. Meia dúzia de barcos sendo construídos simultaneamente, cada um levando em média dois meses para ficar pronto. Os instrumentos de trabalho são o bom e velho serrote, martelo e pregos de ferro e uma engenhoca curiosíssima, que faz as vezes furadeira. Só que em vez de estar ligada na tomada, funciona “unplugged”, com uma haste de madeira fazendo a broca girar, como se o sujeito tocasse um violino.
Nungwi é um local que conseguiu ainda preservar muito da vida tradicional das comunidades de Zanzibar, apesar de ser uma vila com toda a infra-estrutura para turistas, com restaurantes, pousadas e bares. Lembra um pouco Trancoso.
E é um lugar para ver fauna marítima, especialmente suas famosas tartarugas. Há vários aquários naturais, ligados ao mar, frequentados por esses monstrengos, que, aliás, são uma simpatia. Podem viver 100 anos. Essa da foto era a mais velha, com apenas 27 de idade e mais de um metro de tamanho.
Elas são mansas como cachorrinhos, e gordas também, porque recebem de mão beijada comida (algas) o tempo todo. Mas têm que agüentar os malas dos turistas (eu incluído) e nossa compulsão por pegar na cabeça, virar de barriga pra cima, surfar no casco. Afinal, não existe almoço grátis...
Escrito por Fábio Zanini às 04h36
Jogar ou não jogar o pacote de pão?
ZANZIBAR (TANZÂNIA) - Algumas pessoas me mandaram emails perguntando como reagi ao dilema do viajante que relatei num post anterior. Jogar ou não o pacote de pão pela janela do trem, para a aglomeração de africanos que mendigavam?
Não tenho o hábito de dar esmolas, mas sim, joguei. A cena que se viu em seguida não foi nem um pouco bonita: crianças se estapeando para pegar o alimento.
Fiz certo? Não sei. Há excelentes razões para aplaudir ou condenar o meu ato. Certamente encorajei a mendicância, e certamente garanti o jantar de alguém.
O que é mais humilhante? A fome ou a luta por um pacote caindo de um vagão, jogado por um turista que, como eu disse, tem no bolso o PIB daquela vila (e isso não é exagero)?
O que você faria?
Escrito por Fábio Zanini às 04h24

Fábio Zanini