Bali 40 graus - Despachos da Conferência do Clima
 

Vem aí a nota de 1 bilhão de dólares

KIGALI (RUANDA) – Leio que o governo do Zimbábue acaba de lançar a nota de 500 milhões de dólares (daquele país). Simplesmente inacreditável, mas parece que está havendo a hiperinflação da hiperinflação, ou seja, as coisas estão explodindo de preço a um ritmo cada vez mais explosivo. Deu para entender o que quero dizer?

 

Vejam só: alguns de vocês devem se lembrar de um post meu lá atrás, quando cheguei ao Zimbábue, em que eu relatava ter recebido meu primeiro bilhão de dólares. Isso foi há meros dois meses, quando isso valia US$ 40, e a nota mais alta era de 10 milhões de dólares zimbabuanos. Ela tinha validade até 30 de junho deste ano, mas parece que as autoridades monetárias foram otimistas demais. Virou pó antes.

 

Quando cheguei a Harare, em 23 de março, US$ 1 comprava 24 milhões de dólares do Zimbábue. Quando saí, 18 dias depois, a taxa já havia subido para US$ 1 para 40 milhões. Agora, pelo que andei lendo, está em US$ 1 para 250 milhões. O valor da moeda local ficou reduzido a um décimo em dois meses.

 

Aguardamos ansiosamente pelo dia histórico em que a nota de 1 bilhão de dólares zimbabuanos será lançada. Pelas minhas contas, será até o final do mês...

Escrito por Fábio Zanini às 03h33

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De motoca pelas avenidas de Kigali

KIGALI (RUANDA) – Há alguns dias eu estou devendo imagens de Kigali, a incrivelmente bela capital de Ruanda. Fiz um videozinho da garupa de uma das milhares de moto-táxi que cortam as colinas da cidade de cima para baixo. As imagens mostram o centro financeiro da capital, a Place de l’Unité National e um pouco da vista lá embaixo.

 

Essas motinhos são uma maneira rápida, barata e emocionante de se movimentar por Kigali. São insuperáveis para subir as acentuadas ladeiras, zigazeando pelo meio de carros que sofrem a 40 km/h. Como tudo nesse país, elas obedecem a uma hierarquia militar: as verdes servem o centro e norte da cidade, as azuis o sul, vermelhas o oeste etc. Custam geralmente 500 francos, pouco menos de US$ 1, para um trajeto de até 10 ou 15 minutos.

 

Também há um ritual a ser seguido pelo passageiro. Faço sinal e elas param. Falo o endereço, geralmente em meu francês macarrônico, o piloto pede um preço. Se aceito, ponho o capacete, sempre com dificuldade (sou cabeçudo). Monto na garupa e peço “doucement, s'il vous plait”. “Devagar, por favor”, pedido que é via de regra ignorado pelos dublês de Schumacher, que adoram descer as colinas em ritmo de foguete, comigo segurando firme no banco, os braços petrificados...

Escrito por Fábio Zanini às 03h31

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Eu, muzungu...

KIGALI (RUANDA) – Por onde ando sou alvo de curiosidade silenciosa de criancinhas africanas, mas aqui em Ruanda elas são desinibidas.

 

Estendem a mão para me cumprimentar, mesmo que seja um toquinho de gente com não mais que quatro anos de idade, e adoram dizer “Bonjour, monsieur. Ça va?” para mim. Outro dia um molequinho me avistou e correu em minha direção fazendo aviãozinho, como se fosse Ronaldo Fenômeno comemorando um gol, até me abraçar, enquanto os amiguinhos se divertiam com a palhaçada do colega.

 

Ontem, sentado no murinho de uma praça enquanto fazia anotações, fui cercado por umas dez criancinhas de uns seis ou sete anos de idade, que sem a menor cerimônia ficaram acompanhando meus rabiscos.

 

E é freqüente também estar andando distraído e começar a ouvir vozes de crianças gritando “muzungu!, muzungu!”, ou “branquelo” em kyniarwanda, e apontando para mim. Me fez lembrar de uma outra viagem à África que fiz, em que eu era “toubab”, “homem branco” em wolof, a língua do Senegal. Às vezes me sinto uma atração turística, uma Mona Lisa ambulante.

 

p.s.: algumas pessoas me pediram mais dicas de filmes e livros sobre Ruanda. Já falei de “Gostaria de informá-lo...”, de Philip Gourevitch, e há o óbvio “Hotel Ruanda”.

 

Entre os livros, há outro fundamental, que se chama “Shake Hands with the Devil”, as memórias do general canadense Romeo Dallaire (procure na Amazon). Dallaire comandava as forças da ONU em Ruanda antes do genocídio, e alertou seus superiores com três meses de antecedência que uma onda de violência estava sendo arquitetada. Foi ignorado. Ele também se manteve heroicamente no país mesmo quando a comunidade internacional debandava. No filme “Hotel Ruanda”, é o personagem de Nick Nolte.

 

E no cinema há um filme que ainda não vi, mas quem viu diz que é ótimo (pareci o Silvio Santos agora?). Chama-se “Shooting Dogs”, uma referência ao fato de que, após consumado o massacre, as tropas da ONU que chegaram ao país receberam ordens para matar cachorros que se empanturravam de corpos apodrecendo nas ruas. 

Escrito por Fábio Zanini às 16h16

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Os massacres nas igrejas de Ruanda

KIGALI (RUANDA) – Esse texto começa com um pedido de compreensão. Data máxima vênia, como dizem os advogados. Não quero transformar esse blog num poço de depressão, e acho que já falei bastante sobre os horrores do genocídio de Ruanda, mas não seria honesto deixar de relatar mais uma história macabra.

 

Setores da igreja, como eu já disse antes, se comportaram como cúmplices dos massacres de 1994. Em várias delas, em que milhares de tutsis e hutus moderados foram mortos, hoje há memoriais. São dezenas e dezenas pelo país. Dois dos mais conhecidos estão a cerca de 30 km de Kigali, as igrejas de Ntarama e Nyamata, ambas católicas.

 

Num dia é possível visitar os dois locais. Primeiro fui a Ntarama. Da estrada que sai da capital, pega-se uma estradinha de terra entre plantações de banana e 4 ou 5 km depois chega-se à igreja. É uma típica paróquia de vilazinha de interior, com paredes de tijolo, coberta por telhas e bancos de madeira com altura de menos de 30 cm. Normalmente, comportaria no máximo 200 pessoas.

 

Em abril de 1994, 5.000 almas se espremeram dentro da igreja. Milicianos hutus cercaram o prédio, primeiro cortaram a água e, após três dias, atacaram. As roupas usadas pelas vítimas do banho de sangue hoje estão expostas nas paredes. No fundo da igreja, quatro prateleiras guardam ossos e crânios, a maioria com sinais de rachaduras. O mais impressionante deles ainda tem espetada uma ponta de ferro.

 

Eu, um perfeito idiota, fui achar de relar na tal ponta, que imediatamente se moveu ao mais leve toque. A mulher que toma conta do local obviamente me fuzilou com o olhar de reprovação. Um vexame.

 

Nos bancos, há manchas endurecidas. É sangue. Num canto, alguns cadernos escolares, de crianças que ali se refugiaram. E que também acabaram mortas.

 

A 5 km, Nyamata é ainda mais impressionante. Primeiro porque é maior, fica no centro da cidadezinha. Os mortos ali foram o dobro do que em Ntarama: 10 mil. As roupas estão espalhadas nos bancos.

 

O pano que cobre o altar está todo manchado de sangue. Em cima dele, um facão usado na matança.

 

 

Para completar o ar tragicamente surrealista, uma imagem de Nossa Senhora na parede olha diretamente para baixo observando tudo.

 

 

No fundo da igreja, uma escadinha leva a uma câmara em que dezenas de crânios estão expostos.

 

 

E há um único caixão também. A administradora do memorial explica que é de uma das raras vítimas cujo corpo não foi retalhado por machadinhas. Ela morreu com uma lança que entrou pela vagina e saiu pelo crânio. Tinha 9 anos de idade.

 

Do lado de fora, mais uma escadinha leva a mais um porão, de uns três metros de profundidade. Ali os crânios não são dezenas, são literalmente milhares...

Escrito por Fábio Zanini às 16h16

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No “Hotel Ruanda”, o marketing do genocídio

KIGALI (RUANDA) – Desde que Hollywood descobriu o genocídio, o Hotel des Milles Colines, bem no centro de Kigali, vive seus 15 minutos de fama. É o local, todos sabemos, do filme “Hotel Ruanda”, que conta a história do gerente, Paul Rusesabagina, e sua odisséia para ali esconder tutsis ameaçados de morte.

 

O Milles Colines agora é atração indispensável no roteiro turístico de Ruanda.

 

 

E pode ser também uma forma de render uns trocados a mais com uma espécie de “marketing do genocídio”, como descobri na minha visita.

 

Meu primeiro passo foi procurar a recepção, apresentar-me e perguntar se havia algum porta-voz ou assessor de imprensa que pudesse me falar sobre o hotel. O recepcionista sorri e diz que sim. “Vou chamar nosso único funcionário que trabalha aqui desde o genocídio”. (Rusesabagina hoje mora na Bélgica). Em seguida, quase sussurrando para mim, aponta uma injustiça: “Ele era o braço direito de Rusesabagina, mas não apareceu no filme...”

 

Aparece um sujeito baixinho, de terno azul-marinho impecável, sorridente. Explico quem sou e digo que gostaria de entrevistá-lo por alguns minutos.

 

“Mas você tem que me pagar”, ele responde, ainda sorridente.

“Pagar?”, respondo, espantado.

“Sim. Já contei essa história de graça muitas vezes. Agora, tem que pagar”

 

Apelo para a solidariedade terceiro-mundista, que às vezes funciona. Mas não agora.

“Posso lhe pagar um xícara de café... Sou do Brasil, país pobre...”

 

Meu interlocutor insiste. Tem que pagar.

 

Por curiosidade, pergunto: “Quanto? 20 dólares?”

Ele ri. “20 dólares é pouco! 100 dólares!”

 

“100 dólares?”

“100 dólares”.

 

Seguem-se segundos de silêncio e sorrisos tensos meu e dele. Tento uma última cartada:

 

“Se o sr. me der entrevista, vai tornar o hotel famoso no Brasil...”

 

Um americano que ouvia a conversa interfere, tentando me ajudar:

“Quem sabe até fazem Hotel Ruanda 2, o Retorno, com o sr. como protagonista”.

 

Todos rimos. Mas o baixinho está irredutível. Me pede para esperar, e diz que voltará em 15 minutos. Espero no sofá da recepção, achando que ele pode mudar de idéia. Mas nada disso. Ele volta, senta do meu lado e faz uma cara de “e aí, vai pagar ou não?”. Sempre sorrindo.

 

Explico em inglês que não posso, acima de tudo porque meu jornal não permite que se pague por entrevistas, e reforço o convite para pagar uma xícara de café. Ele finge não entender. Repito com meu francês claudicante. Ele agradece, levanta-se e sai.

 

Resta-me dar uma perambulada pelo hotel, que, aliás, foi muito pouco usado na filmagem. O Milles Collines é um quatro estrelas, com diária a 115 euros, que há muito perdeu a condição de principal hotel do país. É um tanto decadente, com quartos antigos e elevadores que não funcionam. Se alguém de Brasília estiver lendo, imagine o Hotel Nacional.

 

Mas ainda há resquícios da grandeza de outrora. A famosa piscina que foi “bebida” pelos refugiados ainda está lá. Os jardins são bem cuidados, o serviço é impecável e o menu requintado. Se bem que as lagostas de Rusesabagina, mostradas no filme, já não aparecem no cardápio.

 

 

Na saida, encontro um grupo de turistas norte-americanos da terceira idade, liderados por um guia. Entram, fazem foto. E se dirigem para a lojinha do hotel.

Escrito por Fábio Zanini às 14h49

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Ordem e progresso

KIGALI (RUANDA) – Curioso esse país para sempre marcado pelo genocídio. Ruanda me parece, após alguns dias aqui, ser um grande colégio militar. Cheguei há pouquíssimo tempo para um juízo profundo, admito. Mas algumas coisas nesse pequeno país são chamativas demais e permitem algumas conclusões imediatas.

 

Nunca estudei em colégio militar, mas estudei em colégio de padres, que tem algumas semelhanças. Os estudantes devem trajar uniforme impecavelmente, ter o cabelo bem cortado e nunca se atrasar. A punição é severa.

 

Em Ruanda, as praças são incrivelmente bem cuidadas. Os jardins públicos, impecáveis. Motoristas de táxi te chamam a atenção se você não põe o cinto de segurança, num continente em que 99% dos táxis nem cinto tem. Motoqueiros andam de capacete! Ontem levei uma reprimenda de um garoto porque atravessava uma avenida fora da faixa de pedestre. As avenidas e estradas são bem pavimentadas, as calçadas não têm buracos. Na imortal frase de Lula, nem parece a África.

 

 

Minha hipótese para tamanha ordem tem nome e sobrenome: Paul Kagame, o presidente desde 1994.

 

 

Kagame simboliza como poucos as profundas ambigüidades dos líderes africanos. Por um lado, ele merece estar na galeria dos grandes heróis da humanidade no século 20.  Foi ele quem parou o genocídio em maio de 1994, quando seu exército de rebeldes baseado em Uganda invadiu o país e desalojou os homicidas. Naquele momento, 1 milhão de tutsi já haviam sido massacrados por radicais hutus, mas sem Kagame poderiam ter sido 2 ou 3 milhões. Os EUA lavaram as mãos, os belgas bateram em retirada, os franceses fizeram pior: armaram os genocidas, protegeram seus líderes e abriram uma rota de fuga para eles, rumo ao então Zaire. Kagame foi a salvação.

 

Ele é um general, com treinamento nos EUA, e tem sérios instintos autoritários. Não permite oposição livre, persegue a mídia e ONGs. Tudo em nome de evitar a repetição do genocídio, o que é um pretexto eficiente. Mais ou menos como George Bush pisa nas liberdades civis em nome da “guerra ao terror”. Ruanda, aliás, deve ser um dos únicos lugares do planeta em que Bush tem popularidade alta, cortesia de seu amigo Kagame.

 

O presidente de Ruanda me parece genuinamente bem-visto por seus compatriotas. Ele botou ordem no caos, em resumo, ordem militar. “Ordem e progresso” deveria estar na bandeira deles, não na nossa.

 

Mas há um preço por isso...

Escrito por Fábio Zanini às 14h25

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Museu do genocídio: proibido pisar nos mortos

KIGALI (RUANDA) – Fica numa colina (claro...) afastada do centro de Kigali o tributo dos ruandenses ao episódio que botou seu país no mapa múndi, da pior maneira possível. O Kigali Memorial Centre é um misto de memorial e mausoléu do genocídio capaz de derreter o mais gelado dos corações de gelo.

 

Nem sempre, na verdade. Foi lá que, no dia 10 de abril passado, perto do aniversário do genocídio, uma granada lançada da rua matou um guarda na entrada principal, o que mostra que a reconciliação pregada dentro do prédio ainda está longe. No portão, agora é feita uma revista em todos os visitantes.

 

O memorial é simples, modesto até, sem a grandiosidade, por exemplo, do Museu do Holocausto em Jerusalém, mas extremamente bem organizado, e mostrando tudo sem eufemismos. Salas se sucedem com painéis e vídeos contando as origens do massacre, como ele aconteceu e quais as conseqüências para o pequeno país.

 

Há um certo ranço anticolonialista, especialmente contra belgas e franceses, o que é até certo ponto perdoável, visto que a comunidade internacional não deu nada além das costas naqueles meses de 1994.

 

Um dos painéis reproduz, por exemplo, uma carteira de identidade dos anos 30, feita pelo governo belga, em que o cidadão era identificado como hutu, tutsi ou twa (uma etnia com apenas 1% da população). Isso décadas antes de os sul-africanos fazerem o mesmo no regime do apartheid.

 

Sem conseguir categorizar direito os grupos étnicos, os colonizadores criaram sua própria e incrível definição: quem tem mais de dez vacas é tutsi; quem tem menos é hutu. Tudo para criar uma elite colonial tutsi, de 15% da população, que controlaria o resto do país em nome dos belgas. O pavio do genocídio estava aceso.

 

Sobra também para a Igreja Católica, que, como já falei antes, teve sua parcela de culpa. “A ideologia racista pró-tutsi era ensinada nas escolas católicas”, diz um painel.

 

A exibição mostra como o genocídio foi sendo premeditado nos anos anteriores ao seu estouro. Em janeiro de 1990, um jornal publicou os dez mandamentos do “poder hutu”, pregando, entre outras coisas, que tutsi eram traidores da nação. No começo de 1994, listas de vítimas começaram a ser preparadas, e carregamentos de armas francesas compradas pelo regime passaram a chegar com freqüência a Kigali.

 

Mas os momentos mais perturbadores do memorial ficam para o final. Numa sala, armas usadas na matança estão expostas. Há uma corrente com cadeado usada para prender um casal que foi enterrado vivo. Facões, machadinhas, lanças e até pás estão à mostra (a foto foi tirada de trás de um vidro, por isso não é das melhores).

 

 

 “Vizinhos matavam vizinhos, amigos matavam amigos, parentes matavam parentes. Ruanda se transformou numa nação de assassinos brutais, sádicos, impiedosos e de vítimas inocentes da noite para o dia”, diz a exibição.

 

Numa sala escura e silenciosa, um vídeo mostra imagens que se sucedem de corpos e de feridos. Um crânio aparece descolado do corpo de uma criança. Um garoto sobrevivente vira sua cabeça, revelando um rasgo no crânio, preto. Ele tenta afastar algumas moscas que se empanturram de sua massa encefálica podre. Outro garoto levanta o braço lentamente e revela sua mão com os cinco dedos decepados.

 

Outra sala exibe numa caixa protegida por um vidro várias fileiras de crânios, muitos com cicatrizes de machadadas, e dezenas de ossos de vítimas.

 

E, na improvável hipótese de alguém não ter ficado profundamente incomodado com tudo, o último trecho do memorial é a pá de cal. É a sala das crianças, com enormes fotos de vítimas e uma breve biografia delas.

 

 

Assim, ficamos sabendo que Francine Igabire, morta aos 12 anos com machadadas, gostava de nadar, de comer ovos e batata frita e de beber leite e Fanta Tropical. Ariane Umutoni, esfaqueada nos olhos e na cabeça aos 4 anos de idade, preferia bolo e leite. Aurore Kirezi, fotografada sorridente e de vestidinho, foi queimada viva aos 2 anos. Fidele Igabue, na imagem sentado numa cadeirinha, recebeu uma bala na cabeça. Tinha 9 anos.

 

Apelativo, certamente, mas uma opção coerente e assumida dos exibidores de não usar meias palavras para contar a história.

 

A visita termina com um passeio no jardim do memorial, em que restos de milhares de vítimas foram enterrados. Há um aviso final aos visitantes, em três línguas (inglês, francês e kinyarwanda, o idioma local). “Por favor, não pise nas sepulturas em massa”.

 

 

Como se fosse um "proibido pisar na grama" adaptado a essas circunstâncias...

Escrito por Fábio Zanini às 10h29

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Ruanda, um desafio para sedentários

KIGALI (RUANDA) – Bastam 15 minutos em Ruanda para perceber que o slogan “país das mil colinas” é merecidíssimo. Kigali, a capital, não deve ter uma única rua plana.

 

São ladeiras e ladeiras, algumas um pouquinho inclinadas, a maioria bem acentuada. Caminhar é um exercício lento, esforçado. Passagens aéreas para Ruanda deveriam vir com um alerta: “antes de viajar, faça um mês de esteira”.

 

 

Em compensação, a cada esquina há uma visão espetacular das colinas ao lado. Cada bar, restaurante ou hotel compete pela melhor vista panorâmica da cidade. Motocas fazem a festa, cortando os morros para cima e para baixo, ultrapassando carros obrigados a subir no máximo em segunda marcha. São elas que servem de “táxi”, aliás.

 

Cheguei anteontem da Tanzânia. Dessa vez, me permiti um pequeno luxo, em nome da economia de tempo. De ônibus, seriam três dias, desde Arusha. De avião, duas horas, e a passagem não é das mais caras (US$ 200). E viajando pela gloriosa Rwandair Express, o que me permitirá contar vantagem em conversas de bar sobre as linhas aéreas mais bizarras do planeta (“E eu, que já voei de Rwandair...”).

 

Numa rápida primeira olhada, encontrei uma cidade organizada, com um centro moderno, longe do estereótipo deixado pelo genocídio. Engraçado, foi a mesma sensação que tive em Harare, no Zimbábue, o que para mim suscita uma questão perturbadora: países com regimes autoritários tendem a ser mais organizados, ao menos nas aparências? Ruanda, presidida por um general (eleito, é verdade) que persegue jornalistas, está longe de ser uma democracia...

Escrito por Fábio Zanini às 10h18

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PERFIL

Fábio Zanini Fábio Zanini, 32, é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), com mestrado em relações internacionais pela School of Oriental and African Studies (Soas), da Universidade de Londres.

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