Bali 40 graus - Despachos da Conferência do Clima
 

Leões contra búfalos

Vocês precisam ver esse vídeo:

Foi feito no Kruger Park, na África do Sul, um dos mais populares lugares para fazer safári no continente. Eu, quando fui alguns anos atrás, consegui ver alguns pontinhos amarelos lá longe, que o guia jurava que eram leões.

 

Mas esses caras aqui ganharam na Mega-Sena. Não apenas viram leões de pertinho, como testemunharam uma incrível batalha com uma manada de búfalos, digna dos melhores momentos do Animal Planet. Repare no final o próprio guia dizendo que nunca viu nada parecido.

 

Isso não é um vídeo, é uma epopéia em quatro atos. Acompanhe:

 

1-) Leões adolescentes espreitam um filhote de búfalo que se aproxima;

2-) Eles atacam. O resto da manada foge;

3-) Do nada, um crocodilo aparece, tentando puxar um pedaço do pobre bufalozinho para si;

4-) Vem o contra-ataques dos búfalos.

 

Mais não conto para não estragar. Não deixe de ver.

Escrito por Fábio Zanini às 10h17

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My friend!! Remember me?

Hassle. No dicionário, a tradução é “confusão”, mas na linguagem da mochilagem tem outro sentido, mais para “encheção de saco”.

 

Hassle é o termo em inglês para o assédio insistente de rua, às vezes agressivo, de vendedores de badulaques, supostos guias turísticos e comerciantes de pacotes ou tours (por não haver uma boa tradução em português, vou usar a palavra inglesa mesmo). Todos picaretas querendo arrancar o seu dinheiro.

 

Numa viagem, há sempre chateações, que divido entre grandes e pequenas. Das pequenas, hassle é uma das principais, talvez competindo pelo primeiro lugar com a disenteria (que, aliás, os americanos chamam pelo fantástico eufemismo de traveller’s disease, ou a doença do viajante). Obviamente, nada se compara às grandes chateações, como ser assaltado, perder o passaporte ou pegar malária...

 

Numa terra miserável, vender uma peça de artesanato para um turista estrangeiro pode fazer a diferença entre pôr ou não o almoço em casa. É normal que locais tentem abordar o viajante, e até insistir ao primeiro não. Um “obrigado” simpático costuma resolver.

 

Mas algumas pessoas (sempre homens, engraçado) não se satisfazem com o quinto, nem o sexto não, grudam que nem carrapato, e chegam a se irritar se você ignora. Às vezes te chamam de racista, como já aconteceu comigo. São em geral trambiqueiros e aproveitadores, que não têm nada a ver com os autênticos artesãos locais.

 

O hassle em geral é mais forte em locais turísticos. Em Zanzibar, por exemplo, é simplesmente infernal. Mas nem sempre é uma regra clara. Qual o motivo de que seja tão presente numa cidade com tão poucos atrativos (e isso é um eufemismo) como Dacar, no Senegal? E por que você quase nunca é importunado em Livingstone, na Zâmbia, porta de entrada das cataratas de Victoria? Mistérios...

 

Em alguns lugares onde ele é mais presente, algumas lojas já perceberam o nicho de mercado e chegam a colocar na porta um cartaz prometendo “no hassle”.

 

Mas o hassle também tem a sua beleza. Se livrar de um mala tem um quê de tourada. Depois que você domina a técnica, chega a ser interessante.

 

Há vários tipos de abordagem: uns começam com um assobio, seguido de um “hey, hey, excuse me, excuse me”. Outros vão enfiando o objeto na sua cara, repetindo “you know how much? you know how much?”.

 

Há os que fingem intimidade, como se fossem antigos amigos: “My friend! Remember me?”.

 

E há o clássico: “Where are you from?”. Se houver silêncio, começa uma chutação: “Italian? Spanish? United States?”.

 

Responder que é brasileiro leva sempre a duas reações: a primeira é o cara recitar em cinco segundos uma dúzia de nomes de jogadores de futebol. A segunda é o mala dizer que o irmão dele, por uma incrível coincidência, acabou de voltar do Brasil. Tudo para construir cumplicidade com a vítima.

 

E como reagir? Com quilos de paciência, sorriso eterno no rosto, andar apressado para ver se o cara desgruda (parar é um grande erro) e, se você estiver de bom-humor, dá até para se divertir.

 

Se um dia você se vir nessa situação e te perguntarem de onde você vem, experimente responder “Finlândia” ou “Sri Lanka”. O cidadão costuma ficar desconcertado. Ou então, após ouvir o sétimo “where do you come from?”, diga “from my mother”. Funciona bem também.

 

Sempre sorrindo, claro. E, como diz a propaganda de uísque, continue andando.

Escrito por Fábio Zanini às 10h15

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As melhores fotos-parte 2

A continuação da seleção de fotos

 

Pôr do sol na praia de Nungwi, Zanzibar (Tanzânia):

 

 

Catedral da Santa Família em Kigali (Ruanda):

 

 

 

Espanto do rei dos tabom, grupo de descendentes de ex-escravos brasileiros, durante conversa com Lula, em Acra (Gana):

 

 

 

 

Cena de comercial do chocolate Prestígio na praia de Nungwi, Zanzibar (Tanzânia):

 

 

 

Pausa para o descanso das agricultoras (e para observar o fotógrafo) em Kigali (Ruanda):

 

 

 

Coisinha fofa nas costas da mãe num supermercado da periferia de Harare, Zimbábue:

 

 

 

Jogo de vôlei num campo de refugiados em Goma (República Democrática do Congo):

 

 

 

Praia no lago Kivu, em Gisenyi (Ruanda):

 

Escrito por Fábio Zanini às 10h14

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Como é bom ser turista brasileiro

“I’m from Brazil!”. “Hi, I’m from Brazil!”. “My name is Fabio, I come from Brazil!”

 

Nunca repeti tanto isso nos últimos meses. O sorriso do entrevistado se abre, o guarda na fronteira subitamente fica mais gentil. As nuvens desaparecem, o céu fica azul, o sol brilha, os passarinhos cantam... Figurativamente, claro.

 

Sou um crítico da política externa historicamente tíbia do nosso glorioso Itamaraty, que tem medo até de chamar genocídio de genocídio (veja nossa posição vexaminosa para o Sudão, por exemplo).

 

Mas tenho de confessar que me beneficio indiretamente dela. Em qualquer canto da África, o Brasil é visto como:

 

a-) um país amigável e inofensivo;

b-) um país de gente boa, bem-humorada e feliz

c-) um país grande, rico e poderoso (alguns até acham que de Primeiro Mundo, e se assustam quando eu digo que não), mas que mesmo assim se coloca do mesmo lado que seus irmãos mais fracos e menores contra os inimigos comuns: EUA e europeus .

 

Isso sem falar, claro, no futebol, praias, mulheres etc. etc, que atiçam a imaginação de todos por aqui.

 

Ao longo desta viagem, eu, sempre que vou me apresentar numa situação mais delicada, solto que sou brasileiro no máximo na terceira frase (geralmente na primeira). Dependendo da circunstância, digo que sou três coisas: jornalista, estudante (tô meio velho para isso, mas ainda cola) ou turista. No Zimbábue, falei também que eu era observador da eleição (!) e diplomata (!!). Mas sempre, em qualquer caso, reforçando que sou brasileiro.

 

No próprio Zimbábue, em que passei 20 dias trabalhando sem visto de trabalho, confiei na minha condição inofensiva de brasileiro para não ser importunado. Se eu fosse americano ou inglês, provavelmente não teria a mesma coragem.

 

Por isso, se há um conselho que eu posso dar a quem for fazer uma viagem como essa (ou por qualquer outra parte do mundo, aliás), é: abuse de sua condição de brasileiro. Ok, você vai ter que pagar um pedágio, falar de futebol, vai ter que responder se conhece o Kaká e aquela chatice toda.

 

Mas vale a pena. O viajante brasileiro é sempre abençoado por Deus e bonito por natureza.

Escrito por Fábio Zanini às 10h12

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As melhores fotos inéditas

Estou publicando aqui uma seleção das melhores fotos, todas inéditas, das várias cidades e países que percorri nos ultimos três meses. Depois publicarei mais:

 

Heroes Acre, o mausoléu dos heróis da independência do Zimbábue, em Harare (presente dos norte-coreanos, como dá para notar):

 

 

 

Jogo de damas com tampinhas no Lusaka City Market, na capital da Zâmbia:

 

 

 

Estátua decapitada de Kwame Nkrumah, pai da independência de Gana, no seu mausoléu em Acra (durante um golpe de Estado):

 

 

 

Banheiro exclusivo para Lula, na Brazil House, em Acra (Gana). Ele não usou:

 

 

 

“Patinete” improvisado em Goma (República Democrática do Congo):

 

 

 

Estação central de Harare, no Zimbábue, em estilo vitoriano:

 

 

Pebolim (em carioquês, totó) em homenagem ao Brasil numa favela de Acra (Gana):

 

 

Escrito por Fábio Zanini às 10h11

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Uma lista de livros sugeridos

Caros,

 

vou dar uma paradinha na minha viagem por duas semanas. Depois, volto aqui para Uganda.

 

Mas vou continuar atualizando o blog com várias coisas que eu queria mostrar, mas não tinha muita chance. Agora é a hora.

 

Começo atendendo a vários pedidos nas últimas semanas, dando aqui uma lista de livros recomendadíssimos sobre a África. São todos de história, política ou biografias, porque literatura africana não é meu forte, confesso. Mas garanto que você lê a todos aproveitando cada página.

 

Podem ser encomendados pelo site da Amazon em inglês. Não sei quais têm versão em português, mas devem ser poucos...

 

Sobre Ruanda, já mencionei dois:

 

“We wish to inform you that tomorrow we will be killed with our families”, de Phillip Gourevitch: o melhor relato do genocídio, apesar de o autor ser um pouco condescendente demais para o meu gosto com Paul Kagame, o general tutsi e atual presidente, cujo exército de rebeldes parou a mortandade

 

“Shake Hands with the Devil”, de Romeo Dallaire: memórias do general canadense que chefiava a missão da ONU

 

Destaco ainda:

 

“The State of Africa”, de Martin Meredith: dividindo os capítulos por países, dá um panorama muito bom dos primeiros 50 anos da independência africana (1957-2007).

 

“The Shackled Continent”, de Robert Guest: é uma leitura liberal dos problemas africanos. Afinal, o autor foi o correspondente da revista “The Economist” na África por muito tempo. Tem excelentes histórias. O capítulo em que ele acompanha o trajeto de um caminhão de entrega de bebidas pelo interior de Camarões é imperdível.

 

“Untapped: The Scramble for African Oil”, de John Ghazvinian: é sobre o petróleo na África, que alguns acham ser a grande maldição do continente. O autor visitou vários países produtores e conta suas experiências, em ritmo de diário de viagem, de forma didática e divertida.

 

“Thabo Mbeki, the Dream Deferred”, de Mark Gevisser: biografia do presidente sul-africano, um catatau de 800 páginas que mostra a trajetória de um dos grandes líderes anti-apartheid, que infelizmente manchou sua reputação com as bobagens que falou sobre a Aids. Esse livro foi lançado na África do Sul e ainda não entrou no catálogo da Amazon (espera-se que isso ocorra em breve).

 

“Long Walk to Freedom”, de Nelson Mandela: o já clássico relato autobiográfico do ícone (este deve ter em português).

 

“Dinner with Mugabe”, de Heidi Holland: recém-lançado na África do Sul, mostra as entrevistas da autora, uma jornalista sul-africana, com pessoas da intimidade do ditador do Zimbábue (como seu irmão, seu padre etc.). O estilo é às vezes meio piegas, as enveredadas dela pela psicologia chegam a ser meio constrangedoras, mas 90% do que está ali é precioso. Entra na Amazon somente em dezembro, infelizmente... Mas vale a pena esperar.

 

“In the Footsteps of Mr. Kurz”, de Michela Wrong: excelente relato da ascensão e queda de Mobutu Sese Seko, no ex-Zaire (hoje Congo).

 

“Chief of Station, Congo”, de Larry Devlin: na mitologia da Guerra Fria, sempre havia um sujeito malvado como Evlin _o superagente da CIA que acobertava tiranos de Terceiro Mundo. No caso, Devlin foi a mão da CIA na ascensão de Mobutu, nos anos 60. O mais incrível é que ele conta essa história (ok, não deve ser toda a história, mas é um livraço).

 

“I didn’t do it for you”, de Michela Wrong: esse é sobre...a Eritréia! Incrível, mas ela conseguiu transformar a história de um país periférico e pouco interessante numa bela narrativa.

 

“Emma’s War”, de Deborah Scroggins: esse estou lendo agora, sobre uma inglesa pertencente a uma ONG que se casa com um senhor da guerra no Sudão.

 

E, last but not least, há toda a obra do papa do jornalismo sobre a África, Ryszard Kapuscinski, da qual destaco três livros: “Ebano”, uma coleção de relatos sobre o continente; o superclássico “The Emperor”, sobre a corte do imperador Haile Selassie na Etiópia; e o meu preferido dele, “Another Day of Life”, um livrinho de 120 páginas que fala do início da guerra civil em Angola.

 

Bom, se alguém tiver mais dicas está convidado a incluir na seção de Comentários.

Escrito por Fábio Zanini às 09h50

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Aids em Uganda: o moralismo funciona

KAMPALA (UGANDA) – Falei quase nada sobre Aids até agora, o que é uma falha, visto que a doença virou uma marca registrada desse continente.

 

Então é bastante apropriado que eu toque no assunto aqui, em Uganda. Aids é uma obsessão nesse país, quase uma mania nacional. Por onde você anda, vê centros clínicos, ONGs, igrejas, escolas, com aconselhamento de prevenção ou tratamento para HIV/Aids etc. etc. E placas, cartazes, faixas, tudo que se refere à doença.

 

De vez em quando é bom ver uma história de sucesso nesse continente, só para variar, e o combate à Aids em Uganda é um sucesso inquestionável. Há 15 anos, cerca de 30% da população tinham o vírus; hoje, são 6,5%.

 

Enquanto outros países perdiam tempo fingindo que nada acontecia, e até negando que HIV cause Aids (como na África do Sul, onde a taxa é de mais de 20%), os ugandenses agiam para conter a doença. Falar sobre o assunto, assumir o problema e discutir candidamente foi o primeiro passo. Mas teve mais.

 

Uganda trata a Aids de uma maneira como nós nunca faríamos no Brasil. Uma maneira inusitada, para dizer o mínimo. E assumidamente moralista.

 

Um exemplo do que acontece por aqui: imagine que você é um oficial do governo e precise traçar uma estratégia para reduzir a incidência de Aids junto a caminhoneiros. Em vários países, esse é um grupo delicado: estão sempre longe de casa, cruzam fronteiras, são cercados por prostitutas o tempo todo. São potencialmente um fator de disseminação da doença. E muitos chegam em casa e podem contaminar suas esposas.

 

A meu ver, a lógica mandaria que se propagandeasse o uso de camisinhas entre caminhoneiros. Mas veja como é o cartaz do governo de Uganda que vi na sede de uma ONG:

 

 

Diz o pôster: “um motorista responsável se importa com sua família; ele é fiel a sua mulher”. O foco não é tentar fazê-lo se proteger quando dormir com prostitutas. Mas tentar convencê-lo, antes de tudo, a não ter a relação sexual. Parece ingênuo, mas o governo acha que funciona. E talvez funcione mesmo.

 

No Brasil, a ênfase das campanhas contra Aids é no sexo seguro: use camisinha, em outras palavras. Em Uganda, a promoção dos preservativos é apenas a perna mais fraca de um tripé que conta também com a promoção de abstinência e a fidelidade.

 

O slogan do governo é ABC: A é a inicial de abstinência, B é de “be faithful”, ou seja fiel, e C é para condom, ou camisinha.

 

Uganda é um país com forte influência das igrejas católica e evangélicas. O presidente, Yoweri Museveni, é, a exemplo de George Bush, um “born again christian”, ou seja, um cristão renascido, que descobriu sua fé no meio da vida. A primeira-dama, Janeth, é ainda mais religiosa.

 

Não surpreende, então, que o governo coloque tanta ênfase nas letras A e B. Abstinência é direcionada aos jovens, principalmente de menos de 25 anos, idade média em que eles se casam, incentivando-os a se manter virgens até o altar.

 

O B é dedicado aos casais, pedindo que sejam fiéis. Só em último caso, se a pessoa não conseguir se abster ou for um pulador de cerca contumaz, vem o C: pelo menos use camisinha.

 

Percebeu a diferença? O enfoque tradicional em vários países, inclusive no Brasil, é centrar fogo na camisinha. Em Uganda, camisinha é um último caso, quase o recurso dos pecadores.

 

Hoje conversei com representantes de duas ONGs, esperando ouvir algumas críticas à política do ABC. Nada. Aprovam 100%. Há um consenso nacional em torno do tema. Sobra para organizações estrangeiras descerem o pau, dizendo que é irreal esperar que um jovem de 20 anos se mantenha virgem.

 

Mas os números estão aí, desafiando o que diz a lógica e a convicção de muitos (como eu). São um tapa na cara dos céticos.

 

Escrito por Fábio Zanini às 09h47

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Brincando de Enduro em Uganda

KAMPALA (UGANDA) – Esqueça as fronteiras ou a polícia do Zimbábue.

 

Os momentos mais assustadores da minha viagem estou vivendo aqui em Kampala, capital de Uganda, onde cheguei anteontem, a bordo de um boda-boda.

 

 

É o nome que se dá às moto-táxis aqui (ignoro o motivo). É aterrorizante o que esses ases do asfalto fazem. Finas inacreditáveis no meio de caminhões, fechadas espetaculares em ônibus, piques de 80 km/h por centenas de metros na contramão, de noite, brincando de Enduro (o do Atari).

 

E eu na garupa, sem capacete. Perto disso, andar das moto-táxis de Ruanda é como passear em limusines com ar condicionado.

 

Mas aqui tem que ser assim. A alternativa é passar duas ou três horas numa minivan, especialmente na hora do rush. Ou andar uma hora a pé, o que é melhor não fazer à noite.

 

Ontem, o pára-choque de uma van chegou a encostar na minha mão, que segurava na garupa, tão fina foi a fina. Sorte que estava devagar.

 

E tem gente muito louca. No caminho para o albergue agora à noite, vi uma garupa tripla: um senhor idoso espremido entre o motoqueiro e uma outra passageira. Que segurava uma criança de colo!

 

E o motoqueiro tirando finas na escuridão de Kampala...

 

Escrito por Fábio Zanini às 07h53

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Ntakibaro, o gorilinha acrobata

PARC NATIONAL DES VOLCANS (RUANDA) – Antes de virar a página e deixar os gorilas em paz, um videozinho que fiz.

 

Repare, logo no começo, na cambalhota de Ntakibaro, o gorilinha que depois veio querer brincar conosco. Olhando a travessura está Charles, o patriarca da gorilalândia.

 

Escrito por Fábio Zanini às 07h48

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O harém de Charles, o gorila

PARC NATIONAL DES VOLCANS (RUANDA) – Chamar os grupos de gorilas de “famílias” é tecnicamente correto, mas o ideal seria chamar de harém.

 

A família que visitamos chama-se Umubano, que significa “Amizade” em kinyarwanda, o idioma local. Como acontece sempre, é controlada por um patriarca, chamado de “silverback”, porque com a idade os pelos das costas adquirem uma cor prateada.

 

 

Nosso silverback é Charles, 25 anos de idade e 200 kg. Está na metade da vida, portanto.

 

 

Charles tem três fêmeas a seu dispor (cada gorila tem seu nome, e é possível identificá-los pelo formato do nariz, que nunca é igual de um para outro). Há ainda dois blackbacks, com os pelos ainda negros, gorilas adolescentes entre 8 e 15 anos. E por fim três filhotes, entre 2 e 5 anos, todos filhos do patriarca, obviamente.

 

Quando um adolescente cresce e está perto de se tornar um silverback, ele sai à procura de formar seu próprio harém. Nem sempre consegue: as montanhas são cheias de gorilas que ficaram para titios e vivem sozinhos.

 

O nosso silverback estava calmo. Passou o tempo todo sentado ou deitado, quase sempre se coçando e observando a movimentação. Nós ficamos num semi-círculo, a uns três metros de distância, sussurrando e proibidos de usar flash e de apontar. O silverback pode se irritar, levantar e vir para cima. Se isso acontecesse, a ordem é agachar em posição submissa e nunca, nunca dar as costas e tentar fugir. Charles atacaria. Felizmente, nada disso aconteceu.

 

Ao lado de Charles, uma de suas fêmeas e dois gorilinhas. Um estava dormindo.

 

 

O outro, mais desinibido, veio em nossa direção, batendo no peito feito um mini King-Kong, e levou pequenos chutes do guia para se afastar. Seu nome é Ntakibaro, tem dois anos e parecia muito fofinho e inofensivo. Até pegar um ramo razoavelmente grosso de bambu, uma das comidas preferidas deles e cortá-lo numa única dentada.

 

 

Depois ficou brincando de dar cambalhotas e “luta livre” com o irmãozinho que acabara de acordar.

 

 

Charles, o líder do harém, eventualmente perdia a paciência com os moleques e conosco e soltava uns grunhidos ameaçadores. Os guias respondiam fazendo grunhidos também, que tinham a função de acalmar a fera.

 

Uma hora de brincadeira, dezenas de fotos tiradas, todos felizes, guia aliviado por não correr o risco de ser vítima de turistas enfurecidos, é hora de ir. O tempo é contado no relógio.

 

O dinheiro dos turistas, aparentemente, vai para a infra-estrutura de proteção dos próprios gorilas e também para as comunidades locais.

 

A conta? 500 dólares pela permissão, mais 20 por usar cartão de crédito, mais 70 pelo carro que me levou até o parque, mais gorjetas. Torrados em uma hora inesquecível.

 

Pelas próximas semanas, os moquifos em que eu dormir terão de ser mais moquifentos, os hambúrgueres mais freqüentes, os táxis mais raros. A vida é feita de escolhas...

 

Escrito por Fábio Zanini às 07h21

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Em busca dos gorilas das montanhas

PARC NATIONAL DES VOLCANS (RUANDA) – Procurar gorilas nas montanhas é um pouco como chegar na casa de um desconhecido sem avisar, bater na porta, torcer para ele estar lá e ser convidado para entrar, tomar um café, assistir televisão...

 

Tive essa experiência no domingo, no norte de Ruanda, no ponto em que faz fronteira com o Congo e Uganda. Nestes três países vivem os últimos gorilas das montanhas, uma espécie altamente ameaçada. Existem hoje apenas 380, o que na verdade é uma ótima notícia, porque há 20 anos eram menos de 300.

 

É uma brincadeira cara e arriscada. Não porque os gorilas sejam violentos: estão habituadíssimos aos turistas que aparecem diariamente. O risco é pagar uma grana e não ver. As chances de avistá-los são excelentes, dizem os guias, mas nunca é 100%. E se eles não aparecerem, babau, você assume o risco. E nada de reembolso.

 

Por isso foi tão tensa minha expedição. Às 7h eu já estava na entrada do parque, próximo da cidadezinha de Kinigi, em Ruanda. Eu e mais os 39 outros turistas que receberam permissão para visitar os gorilas naquele dia.

 

Há cinco famílias de gorilas que podem ser visitadas por cinco grupos, cada um com oito pessoas no máximo. Como é baixa temporada, consegui comprar a permissão em Kigali relativamente fácil. Mas para visitar no período de junho a agosto, é preciso reservar com meses de antecedência.

 

Caí de penetra num grupo de sete pessoas que estão viajando juntas desde novembro, num mega-tour por 25 países: três ingleses, dois australianos, uma americana e um holandês. O guia local, um senhor já dos seus 60 anos, disse que o dia estava bom e que esperava uma caminhada de apenas 20 minutos antes de chegarmos à família Sabyinyo, que recebe esse nome por viver na montanha de mesmo nome.

 

Na África, quando falam que vai demorar 20 minutos, pode acreditar que vai demorar pelo menos uma hora. Então já saí preparado para uma longa caminhada. Alguns minutos na nossa frente, um grupo de rastreadores profissionais ia procurando e informando nosso guia por rádio. Dois soldados armados nos dão escolta, para nos proteger de búfalos ou elefantes que podem aparecer.

 

Saímos exatamente às 8h. Passa uma hora de caminhada e os únicos animais “exóticos” que havíamos avistado eram bois, cabras e cachorros. Nada muito emocionante, portanto. Pelo menos a caminhada é bonita, atravessando vilazinhas de cabanas de palha, campos floridos, plantações de batata e topando com ruandeses plantando ou cuidando de rebanhos.

 

 

O grupo começa a ficar nervoso. A americana, uma senhora já de mais de 50 anos vira para o guia e implora: “se precisarmos subir montanhas, não se preocupe. Queremos ver os gorilas!”.

 

Mas nada. Começo a me perguntar porque eles não colocam nos gorilas aquelas pulseiras de metal com localizadores via rádio, que nem as ararinhas azuis do Globo Repórter. Gorilas, explica o guia, tentando desanuviar o ambiente, movimentam-se: não ficam estacionados, esperando turistas.

 

Às 9h30, uma hora e meia de caminhada portanto, paramos num descampado. Uma inglesa gordinha está furiosa, ofegante e comendo furiosamente um pacote de bolachas. O guia, depois do que pareceu uma eternidade falando com os rastreadores no rádio, faz uma reunião. Esperamos pelo pior, mas ele sugere uma mudança de tática. Vamos voltar para nossos carros e tentar uma outra montanha, onde vivem duas famílias. É o monte Visoke, famoso por ter servido de base para as pesquisas da primatóloga Dian Fossey, a autora de “Gorillas in the Mist”, que virou filme estrelado por Sigourney Weaver (Fossey foi morta por caçadores nos anos 80).

 

E vai demorar?, perguntamos. Uns 20 minutos, ele responde. Sentindo a nossa ansiedade, tenta tranqüilizar. “Eu faço isso há 28 anos”. Mas ninguém tem coragem de perguntar quantas vezes nesse período ele fracassou.

 

Voltamos para os carros, fazemos um longo desvio de uns 45 minutos por uma estrada pedregosa e saltamos de novo. Desta vez a paisagem é realmente montanhosa, não apenas de campos e plantações. Bom sinal, penso.

 

 

Andamos mais meia hora e o rádio do guia toca. Finalmente os rastreadores parecem ter visto alguma coisa. “Parece que acharam”, diz o guia. O problema é o verbo “parecer”.

 

Às 11h05, fazemos um desvio e começamos a subir a montanha, que até então estávamos apenas margeando. O chão é de uma folhagem instável, os troncos estão escorregadios, e algumas plantas “picam” como formigas. No alto, só neblina.

 

São 11h15 e uma forma negra aparece numa árvore lá longe.

 

 

Estamos todos paralisados. O guia, sussurrando, manda que olhemos para a esquerda. A cinco metros, dois gorilas nos observam.

 

Amanhã conto o resto.

 

Escrito por Fábio Zanini às 07h13

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Um gay africano

GISENYI (RUANDA) – Alguns dias atrás eu vi algo que me chamou muito a atenção. Vi pela primeira vez nessa viagem um gay africano.

 

Eu chegava de manhãzinha ao hotel em Gisenyi e, após o check-in, fui levado ao meu quarto. Mas a camareira ainda o arrumava, e tive que esperar alguns minutos no corredor. Foi quando um funcionário do hotel que passava me abordou. Me deu as boas vindas, perguntou se estava tudo bem, se eu precisava de alguma coisa.

 

Agradeci, disse que estava tudo bem, e na hora, mesmo após apenas alguns segundos de conversa, me pareceu que ele tinha trejeitos de um homossexual. Para não deixar dúvida quanto à impressão, duas camareiras que viram a cena imediatamente olharam uma para outra e começaram a rir, balançar a cabeça e a falar em kinyarwanda, o idioma local, como se dissessem: “esse aí não tem jeito mesmo”. Como se o cara fosse um tipo de aberração.

 

E por que estou surpreso? Porque aquilo que disse o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, há alguns meses, de que no seu país “não existem homossexuais”, se aplica perfeitamente à África.

 

“Não existem”, com todas as aspas que puderem ser colocadas, porque não aparecem. Se aparecerem, são ridicularizados, perseguidos, estigmatizados, levam porrada, vão para a cadeia ou pior. Evidentemente, não tenho elementos para dizer que as pessoas comuns em geral sejam hostis. Acho até que não: o africano médio é bastante tolerante. Mas existe um ambiente político muito nocivo aos homossexuais.

 

Em muitos países, homossexualismo é crime. Na semana passada, o presidente da Gambia, no oeste africano, Yahya Jammeh, deu 24 horas para os gays deixarem seu país. Caso contrário, teriam a cabeça cortada.

 

Mas é óbvio que os gays existem. Neste continente, talvez a África do Sul possa ser considerada uma exceção na tolerância à homossexualidade, ainda assim apenas em alguns redutos, como a Cidade do Cabo.

 

Cada vez me convenço mais de que na África faltam acontecer duas revoluções essenciais.

 

A primeira é a revolução capitalista. Praticamente todos esses países saíram de séculos do colonialismo mais perverso e caíram direto em economias socialistas utópicas, matando qualquer espírito empreendedor.

 

E a segunda é a revolução sexual, que traz na sua esteira a emancipação feminina (a condição da mulher na sociedade africana em geral é subalterna, para dizer o mínimo), o planejamento familiar, a discussão sobre doenças sexualmente transmissíveis e a tolerância a outras orientações sexuais.

 

Não é por acaso que os mais altos níveis de contaminação da Aids do mundo estão aqui. Perdeu-se muito tempo até que se começasse a falar sobre sexo seguro, camisinha... Os exemplos mais bem sucedidos de combate à Aids na África, como em Uganda, foram na verdade à base da promoção da abstinência.

 

Na África, sexo é tabu. Não se vêem casais (heterossexuais mesmo) de mãos dadas passeando pelas ruas. Beijos públicos, nem pensar. Não se mostra o corpo. Pode estar 40 graus à sombra, mas é todo mundo de calça comprida, muitas vezes também de camisa de manga comprida. Mulheres, de vestido até o pé.

 

Sobre isso, tive uma experiência cultural emblemática há algumas semanas.

 

Eu viajava de ônibus na Tanzânia e comecei a acompanhar o filme que colocaram no vídeo a bordo. Era falado em swahili, mas o enredo era tão simplório que eu consegui entender o básico. E a viagem era longa, então...

 

Um casal vivia feliz, até que a mulher teve um acidente de carro e ficou paralítica. O marido começa a perder o interesse nela por causa disso, e a melhor amiga da acidentada se aproveita da situação e começa a seduzir o cara.

 

A cena clímax da “sedução”, quando o homem finalmente entrega os pontos, é fantástica. Os dois sozinhos numa sala, a mulher se aproxima, põe os braços em volta do pescoço dele e dá...um abraço. E corta a cena. Nenhum beijo, muito menos uma cena de cama, só um abraço. Na próxima cena, é de manhã e os dois estão tomando café. Você então deduz que eles passaram a noite juntos.

 

Esse é o máximo a que se pode chegar. Nesse ambiente, a atitude do funcionário do hotel de Gisenyi é quase revolucionária...

Escrito por Fábio Zanini às 13h04

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Fábio Zanini Fábio Zanini, 33, é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), com mestrado em relações internacionais pela School of Oriental and African Studies (Soas), da Universidade de Londres.

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