24 mil km depois...
SÃO PAULO - Bom, não tinha como durar para sempre.
Cheguei ontem à noite a São Paulo, depois de 11 horas de vôo pela South African Airways (que dessa vez não perdeu minha mala), uma rápida escala com a família antes do regresso ao batente, em Brasília. Agora é a hora de voltar a enfiar o pé na política, e botar dinheiro em casa.
Aliás, quase não embarco em Johannesburgo. O vôo estava com um baita overbooking, e o cidadão no check-in me pediu para esperar "alguns minutinhos" até saber se haveria lugar para mim. Quem já passou por isso sabe que esses minutinhos viram uma eternidade. Até parecia que a África não queria me largar. Mas no final embarquei para a última decolagem de minha jornada.
Como trabalho na Folha, um pouquinho de estatísticas. Foram 138 dias de viagem, por 13 países africanos: África do Sul, Zimbábue, Zâmbia, Gana (meu "pulinho ali" para cobrir o Lula em abril, lembra?), Tanzânia, Ruanda, Congo, Uganda, Quênia, Etiópia, Somália, Egito e Djibouti, mais duas semanas de "férias dentro das férias" na Turquia. Um total de 24 mil km percorridos em solo africano, em 29 cidades, sendo 69% dessa distância de avião, 24% de ônibus ou equivalente (lotação, pau-de-arara...), 6% de trem e 1% de barco ou navio.
Uma viagem pela África, com suas estradas dilapidadas, ônibus cancelados sem explicação e guardas de fronteiras que parecem viver em outro planeta nunca é fácil. Dito isso, dei muita sorte. A jornada foi muito menos problemática do que eu poderia esperar em meus desejos mais otimistas. Para começar, fora um resfriado aqui e uma disenteriazinha ali, nenhum problema de saúde. Os mosquitos que furaram o bloqueio do meu super-repelente inventado pelo Exército francês felizmente nâo carregavam doença nenhuma.
Também nenhum assalto, nenhum episódio explícito de violência, acidente, nada. E olha que me enfiei em favelas e campos de refugiados e entreguei minha vida nas mãos de motoristas e motoqueiros malucos.
Houve momentos de medo e risco intenso, sem dúvida. Arriscar o visto de turista para o Zimbábue e depois cobrir a eleição presidencial sem credenciamento; passear pelo Congo e pela Somália, dois dos países mais perigosos do mundo. E frustração também, de não conseguir o visto para o Sudão ou ter de desistir de ir para o segundo turno no Zimbábue na véspera do vôo, talvez por um excesso de precaução (ainda me pergunto se agi corretamente).
Espero que essa minha experiência possa servir de encorajamento para outras pessoas que querem conhecer esse continente, mas ficam com algum receio. Tomando cuidados básicos como não andar sozinho à noite, não dormir em hoteizinhos muito suspeitos e evitar zonas de conflito, a África é extremamente segura.
O que fica dessa viagem? As bizarras e divertidas aventuras nas fronteiras (onde estará o saco plástico ameaçador que tive de deixar em Ruanda?). Os gritos de "muzungu, muzungu" das criancinhas ruandesas ao me verem passando. As cruéis filas embaixo de sol a pino que os zimbabuanos têm de enfrentar para sacar bilhões de dólares de bancos -e depois comprar uma fatia de pão. As paisagens, as histórias, os personagens, os perrengues, os dias sem banho e as camisetas usadas três dias seguidos. A simpatia de pessoas que, antes de perguntarem as horas na calçada, perguntam "como vai, tudo bem?". A satisfação pessoal de ter colocado um pouco da África na mídia brasileira, e até em algumas salas de aula.
Levo ainda muitos amigos leitores que ganhei, alguns fiéis que comentaram praticamente todos os textos, e mandaram emails, e fizeram perguntas.
O que será de Pé na África? Ainda não sei. Aguardem notícias sobre isso em breve.
A todos vocês, muito obrigado por lerem meu blog.
Escrito por Fábio Zanini às 10h33
De volta ao início
JOHANNESBURGO (ÁFRICA DO SUL) – É sempre um choque chegar à África do Sul vindo de qualquer outro país africano. O aeroporto sofisticado de Johannesburgo. A moderna rodovia de pista dupla até a cidade. Os shopping centers de estilo americano, todos aceitando cartão de crédito. Os arranha-céus.
Johannesburgo foi onde comecei, há quatro meses e meio. Em Johannesburgo faço minha última parada antes da volta ao Brasil. Mais uma vez sou um hóspede de minha amiga Lílian Liang, cujo trabalho na ONU inclui abrigar esse refugiado aqui.
Não há solução para os problemas africanos sem a sua “superpotência”. A presença sul-africana foi difícil de ser ignorada durante minha viagem, das tropas de paz no Congo até a gigante da telefonia celular MTN e a rede fast-food Steers (tão poderosa que inibe a entrada do Mc Donald’s no continente). E a referência constante das pessoas a este país como a última esperança democrática africana.
E no entanto cheguei num momento de crise. Inflação em alta, apagões freqüentes, um presidente em fim de mandato, desmoralizado. No vizinho Zimbábue, há um país em caos, muito por culpa da omissão do governo sul-africano, cuja estratégia de diplomacia silenciosa é, apesar das atuais negociações entre Mugabe e a oposição, um retumbante fracasso.
E há a criminalidade que não dá trégua, a Aids galopante, e agora o fantasma da xenofobia, que ataca legiões de imigrantes de países vizinhos.
Há um ar pesado nas ruas de Johannesburgo, que, com alguma sorte, começará a ser levantado em breve com a chegada da Copa do Mundo. E dentro de dois anos uma eleição democrática deve arejar o ambiente político. Se bem que seu provável sucessor, Jacob Zuma, que já defendeu uma ducha morna após a relação sexual como forma de evitar a Aids, é de lascar.
Os problemas sul-africanos não tiram os méritos de uma sociedade que é um dos maiores sucessos do final do século 20. Nelson Mandela, aos 90 anos recém-completados, está em toda parte. Nos comerciais de TV, são negros que aparecem vendendo shampoo, carros zero ou contas bancárias. Há uma classe média negra forte e confiante como em nenhum outro lugar do mundo.
Uma democracia racial imperfeita sem dúvida, mas ainda um exemplo.
Escrito por Fábio Zanini às 10h38
A bordo do Expresso do Qat
TADJOURA (DJIBOUTI) – Normalmente, não importa o país, há dois tipos de transporte na África. Os que partem em horários determinados (8h, 9h etc) e os que partem quando lotam, o que às vezes significa ficar fritando dentro de um ônibus por horas esperando passageiros. Em Djibouti, há uma terceira modalidade: sai quando chega o qat.
Qat, como alguns devem se lembrar de um post há algumas semanas, é uma folha com propriedades narcóticas, altamente viciante, que é mascada por horas a fio em países do chamado Chifre da África, sobretudo (mas não apenas) por homens. É uma rotina diária para milhões de pessoas nessa região.
Em Djibouti é a mesma coisa. Mas há um complicador. O país é minúsculo, de solo rochoso e seco, pouco propício ao cultivo. O qat é 100% importado da Etiópia, chega ao país no começo de tarde num avião de carga e é redistribuído para todo o país. O custo é alto: um maço de qat sai por 500 francos de Djibouti, ou cerca de US$ 3, num país em que muita gente não ganha isso por dia.
Anteontem, eu e essa complexa rede de distribuição do qat cruzamos nossos caminhos. A

Há um barco por dia que faz o trajeto –o mesmo que leva o qat e, se sobrar espaço, também alguns passageiros.
O qat normalmente aterrissa no aeroporto de Djibouti às 13h, e uma hora depois uma parte do carregamento que abastecerá Tadjoura já está no barquinho. Mas dessa vez o qat, por algum motivo, atrasou. Uma, duas, três horas, nada do qat. Eu e mais sete passageiros aflitos, esperando no calor infernal do porto de Cidade Djibouti para finalmente partirmos. Conosco, dezenas de pessoas igualmente aflitas, ávidas pelo seu qatzinho diário.
Pouco antes das 17h, a seleção do Djibouti faz um gol aos 48 minutos do segundo tempo da final da Copa do Mundo. Ou pelo menos é o que parece. Carros buzinando anunciam: o qat chegou!
A multidão cabisbaixa se levanta e aplaude. Muitos dão literalmente pulos de alegria. “Chegou a nossa cocaína!”, grita um senhor, em inglês, tentando me explicar. Outro parece imitar uma metralhadora: “Qat-qat-qat-qat-qat-qat!”. Três carros descarregam sacos e mais sacos brancos cheios da folha, que são empilhados no nosso barquinho para a travessia do golfo.
Em dez minutos, nosso “Qatitanic” está pronto para partir. Eu e meus colegas passageiros nos acomodamos sentados em cima dos sacos, sem qualquer cerimônia.

São
Pouco antes das 19h, com o dia já escurecendo, avistamos o porto da vilazinha. São pelo menos 100 pessoas apinhadas ali. Imagine alcoólatras esperando um carregamento de Pirassununga 51.

O barco encosta e há um problema: nós, passageiros inconvenientes, temos primeiro que sair para que os preciosíssimos sacos sejam descarregados. Mas as pessoas avançam em direção ao barco, e seguem-se segundos tumultuados. Um homem quase me derruba na água, e isso só não acontece porque eu o empurro de volta.
Já em terra firme, caminho tranqüilamente em direção ao hotel, sem ninguém me olhando, oferecendo para ser meu guia ou coisa parecida, como sempre acontece. Tudo que importa é o qat-qat-qat-qat-qat.
Escrito por Fábio Zanini às 06h22
A presença militar de Tio Sam na África
CAMP LEMONIER (DJIBOUTI) – O nome é de resort caribenho, mas Camp Lemonier é na verdade um pedaço da máquina militar norte-americana em plena África.

É, por enquanto, a única base dos EUA no continente, uma área cercada e desértica de 385 mil metros quadrados a

Em tempos ecologicamente corretos, há ainda uma estação de tratamento de esgoto, outra para purificação de água e um incinerador de lixo.
Camp Lemonier funciona há apenas seis anos. O império militar norte-americano tem bases em todos os continentes, e a África foi o último a sentir o bafo quente de Tio Sam. Mas este é um dos continentes que mais crescem no planeta, e que rapidamente se consolida como uma fonte de energia para o Ocidente. A previsão é de que em 2020, 25% do petróleo consumido pelos norte-americanos venha da África.
Mais do que isso, é um continente que foi arrastado para a “guerra ao terror” de George Bush. Suspeita-se que parte da Al Qaeda tenha se abrigado no leste da África, principalmente na Somália, depois da queda do Taleban no Afeganistão.
Foi nessa região que Osama Bin Laden apresentou seu cartão de visitas, com um duplo ataque às embaixadas americanas no Quênia e Tanzânia, há dez anos. Com tantos motivos, o incrível na verdade é ter demorado tanto para os EUA se interessarem por ter um pé militar na África.
Os americanos gostam de retratar Camp Lemonier como uma base “do bem”, com o foco em trabalho de prevenção do terrorismo. Eles têm um trabalho muito intenso de relações públicas, então, para minha surpresa, meu pedido para visitar o local foi aceito rapidamente.
Meu guia foi o major Paul Villagran, um californiano todo sorrisos. “Pode me chamar de Paul”, foi logo me dizendo. Paul me levou para passear na base, que está sendo expandida (por trabalhadores locais contratados) e deve quadruplicar sua área nos próximos dois anos. Os cerca de 2.000 soldados devem passar para 5.000.

O Djibouti foi escolhido por estar localizado numa região estratégica, bem no meio de uma das mais importantes rotas comerciais do mundo, e bem perto de vários pontos quentes do continente africano (Sudão e Somália estão logo ali). Do outro lado do golfo de Aden está a Península Arábica, e não muito longe, o Iraque.
Além disso, o regime do Djibouti é fervorosamente pró-Ocidente, uma raridade nessa região hostil, e aceitou alugar a área bem baratinho (Paul não disse quanto). A base americana não é a única no país. Há também uma base francesa ali.
Camp Lemonier, me disse meu novo amigo Paul, não é uma base para lançar milhares de soldados armados até os dentes atrás de células da Al Qaeda em um local como a Somália, um país sem governo que é apontado como bastante propício a abrigar terroristas. O foco, pelo menos por enquanto, é treinar soldados de países da região, construir hospitais, poços artesianos etc. “Melhorar a vida das pessoas é a maneira mais efetiva de prevenir o surgimento de terroristas”, disse ele.
Se no Iraque e Afeganistão os americanos mostram força avassaladora no combate ao terrorismo, Camp Lemonier tenta ser o rosto amigável e simpático dessa mesma guerra global. E funciona?, pergunto. “Por enquanto, sim”, diz meu guia.
Ao contrário do que se esperaria numa base, não há dezenas de tanques ou soldados treinando operações de combate. Há apenas alguns helicópteros de transporte, dois aviões de carga e alguns caminhões.

E a segurança é forte, com barreiras de concreto na entrada da base e Marines armados controlando o acesso, mas já vi muito lugar bem mais protegido. De noite, soldados americanos à paisana passeiam por Djibouti City despreocupadamente, lotando restaurantes, bares e lojas, alguns contribuindo para o lucrativo negócio dos prostíbulos. Na base, os soldados podem fumar e até beber, desde que seja cerveja ou vinho. É uma base relax, ou pelo menos tenta ser.
Paul garante que não há operações de inteligência conduzidas ali, o que é difícil de acreditar. Grande parte do contingente da base fica estacionada durante semanas em países como Etiópia, Quênia, Iêmen e Uganda. Certamente não estão lá apenas construindo poços artesianos. Mas Paul desconversava toda vez que eu entrava nesse tema. Depois de alguma insistência, ele admitiu que os americanos ofereceram treinamento para o contingente da Etiópia que invadiu a Somália no ano passado para depor um regime fundamentalista islâmico.
Em compensação, Paul me levou para todos os cantos possíveis da base, para mostrar como tudo é bem-feito e funciona bem. Me mostrou a capela, o cinema e o restaurante, onde os soldados americanos podem escolher entre saladas, massas, carnes e o obrigatório cheeseburguer. Tudo de graça.

E também há muitas e muitas barras de chocolates Mars, que Paul, sempre simpático, me ofereceu. Minha vontade era dizer “ta doido, sô, ta quarenta graus lá fora”, mas eu, menino bem-criado, recusei polidamente.
Mas aceitei uma lata de Coca-Cola geladinha, cortesia de Tio Sam. Que
Escrito por Fábio Zanini às 04h32
A supersiesta em Djibouti
DJIBOUTI CITY (DJIBOUTI) – Aeroportos na África geralmente são movimentados, caóticos até, com dezenas de pessoas tentando carregar sua mala e taxistas disputando no grito a corrida que vai te levar para a cidade.
Aqui em Djibouti, nada poderia ser mais diferente, pelo menos para os aviões que chegam no início da tarde. O meu aterrissou exatamente às 13h, e o saguão estava vazio. Todas as lojas fechadas, e um solitário taxista me esperando.
Nos
E para comer? “Tudo fechado. Espere até as 4 horas”.
Djibouti funciona num fuso horário próprio, ditado pelo calor. Para quem chega de fora, leva um tempo para planejar o seu dia. Aqui não tem essa de pegar no batente às 8h e largar às 17h, com uma horinha para o almoço.
Às 7h30 da manhã, a cidade já está agitada, os escritórios funcionando, as pessoas nas ruas, lojas abertas. Em outras cidades africanas, nada acontece antes das 9h ou 10h.
Por volta das 11h30, as pessoas já estão almoçando. Os restaurantes enchem, e as barracas nas ruas vendendo shawarma (uma espécie de sanduíche árabe, com carne de carneiro) têm longas filas.
Isso porque às 12h30, a cidade vai hibernar, numa longuíssima siesta. Essa é a praça 27 de Junho, a principal da cidade, normalmente movimentada, mas praticamente vazia nesse horário.

É a hora do calor máximo, 40 graus no “inverno”, quase 50 no verão (hoje até que não está mau, 41 graus apenas). Calor que vem acompanhado de umidade extrema, perto de 90%, e de um vento quente que dá a sensação de estar permanentemente atrás de uma fornalha. Uma caminhada de 15 minutos pela rua é simplesmente intolerável.
Nesse horário, não adianta tentar fazer nada. Tudo fecha, as pessoas vão para suas casas.

É também a hora em que chega o qat da Etiópia, aquela folhinha narcótica que dá uma sensação de moleza quando mascada. Muitos aproveitam essa hora para dar a sua mastigadinha.
A cidade começa a ressuscitar por volta das 16h, quando as primeiras lojas reabrem. Em outras palavras, são três horas e meia de siesta. No “inverno” (entre novembro e março), ela encurta um pouco, para umas duas horas e meia.
No final da tarde, as pessoas começam a sair de casa, enchem os cafés, passeiam ou pegam uma praia.

E o movimento vai até tarde, com todos aparentemente tentando compensar o tempo perdido na supersiesta...
Escrito por Fábio Zanini às 10h11
Destino: Djibouti
CAIRO (EGITO) – Pois é. Vim parar no Cairo. Não tinha a menor intenção de passar pela capital egípcia, não por não gostar da cidade, mas porque o Cairo, apesar do que diz o Atlas, não é exatamente uma cidade africana. Culturalmente, está bem mais para Oriente Médio.
Vim para o Cairo para fazer uma aposta, que, digo desde já, perdi. Vim atrás do visto para o Sudão. Não consegui.
O Sudão é daqueles países fechados, autoritários e “deliciosamente” burocráticos. Embora tenha embaixadas por toda a África, a única chance de conseguir um visto de entrada é na embaixada do Cairo. Por quê? Sei lá. Porque sim.
Nas últimas semanas tenho acompanhado fóruns de discussão de mochileiros pela internet, pesquisando aqui, pesquisando ali, e a informação era sempre a mesma. No Cairo, é “quase certo” que você consiga o visto, talvez até no mesmo dia.
Então peguei um avião de Addis Ababa para o Cairo, só para tentar o visto (já estive no Cairo antes, e não estou muito a fim de fazer programas turísticos). Só tentei porque é o Sudão, um país interessantíssimo, uma mistureba da cultura árabe no norte com a cultura sub-saariana no sul, e um local que não se cansa de gerar notícias, a maioria negativas, infelizmente.
Na semana passada, por exemplo, seu presidente foi indiciado por crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional, pelo conflito em Darfur.
Em resumo, valia a pena tentar.
Mas as regras acabam de mudar, aparentemente em razão desse indiciamento. Cheguei na embaixada sudanesa no Egito, preenchi os formulários, entreguei uma foto e uma carta de apresentação da embaixada brasileira em Addis (conforme requerido) e esperei uma hora, esperançoso. Quando fui chamado, achei que era para pagar os 100 dólares, pegar o passaporte e sair com o visto na mão, mas foi uma ducha de água fria.
“Seu requerimento de visto será enviado por fax para o Sudão”, disse o oficial. Na prática, ele estava dizendo: “Esquece, meu filho, dançou”. Quando o formulário é enviado para o Sudão, costuma não voltar.
Só para constar, ainda perguntei quando eu deveria voltar. “Daqui a uma semana, talvez dez dias, quem sabe um mês”, foi a resposta. Assim mesmo: “uma semana, talvez dez dias, quem sabe um mês”.
Mudaram os procedimentos?, insisti. “Os procedimentos sempre mudam”, disse o cidadão, já se impacientando com minha curiosidade.
Suspeito que o governo esteja querendo se precaver, agora que a coisa ficou mais tensa, contra jornalistas que entram no país disfarçados de turistas (meu caso, basicamente). Conseguir visto de jornalista é ainda mais difícil.
O Sudão não deu certo, paciência. Poderia ter dado, e teria sido sensacional.
Parti para o plano B, então, viajar para a Eritréia. É uma ex-colônia italiana e uma ex-província da Etiópia, que conquistou sua independência em 1993. Desde então, no entanto, o país se fechou, virou uma ditadura e censura jornalistas pesadamente, o que lhe valeu o simpático apelido de Coréia do Norte da África. E além disso, tem os melhores cafés do continente. Quero ir para lá então!
Mas o plano B também não funcionou, porque a Eritréia, que adora declarar guerra a seus vizinhos, é um país de difícil acesso. Há apenas um vôo desde o Cairo, e está lotado até setembro.
Restou-me abrir o mapa e ver onde eu teria uma chance de entrar. Meu plano C é Djibouti. Estou indo pra lá.
Não sei quase nada sobre esse lugar, além do fato de que é uma ex-colônia francesa, é um dos menores países da África e é um dos lugares mais quentes do mundo (temperaturas de 50 graus no verão são freqüentes). É formado por duas etnias, os afar, e os issa.
Ah, e é cheio de bases militares também, com uma dos americanos e outra da Legião Estrangeira francesa.
Ir para um lugar quente como o inferno, sobre o qual não sei nada, que praticamente ninguém visita. Acho que vou gostar.
Escrito por Fábio Zanini às 06h11
A igreja mais bonita do mundo*
LALIBELA (ETIÓPIA)
– Se não estivesse numa vila perdida no meio do nada, no norte de um
país periférico e pouco divulgado como a Etiópia, a igreja de São Jorge (Bet
Giyorgis, no original) certamente teria sido incluída naquela lista recente das
Sete Maravilhas do Mundo moderno. E teria mais turistas do que muito museu por
aí.
Méritos não faltam. Para começar,
ao contrário do que dita a lógica das construções, ela não foi feita “para
cima”, sobre o solo rochoso, mas “para baixo”, cavada e esculpida no chão de
granito.

São 15 metros de profundidade, uma
cruz perfeita formada a partir de uma única rocha, completa com janelas, frisos,
pilastras, porta e altar.
.
E é um monumento que não se limita
a ser uma atração turística, mas é usada para missas e peregrinações de fiéis da
igreja cristã ortodoxa etíope.
Como é difícil capturar numa única foto toda a igreja, aqui vai um pequeno vídeo que ajuda a ter uma idéia do que estou falando.
Bet Giyorgis tem cerca de 800 anos
de idade e é considerada a obra-prima da cristandade etíope. Foi construída por
ordem do rei Lalibela, que governou em algum momento entre os séculos 12 e 13
(não se sabe ao certo) e depois deu nome à cidade.
Cidade que na verdade está mais
para uma vila de 8.000 habitantes, no meio das montanhas, a dois dias de ônibus
desde Addis Ababa (ou apenas 2 horas de vôo até o aeroporto mais próximo,
felizmente).
A primeira pergunta ao observar
aquela igreja literalmente dentro de um buraco é óbvia: como, por quem e durante
quanto tempo ela foi feita?

Não há resposta definitiva para
isso, apenas hipóteses. Alguns estudos acreditam que um exército de 40.000
trabalhadores e escravos passou décadas num movimento constante de escavar com
pás, picaretas e martelos, cuidadosamente ganhando metro após metro de rocha até
chegar à profundidade desejada.
Mas em Lalibela há quem credite a
obra aos anjos, e ponto final. De tão isolada, Lalibela só foi descoberta no
século 16, 300 ou 400 anos depois de concluída.
O acesso à igreja também é
singular. Ela é primeiro avistada olhando para baixo, para o fundo do buraco.
Depois, por meio de uma rampa estreita e íngreme, chega-se ao fundo da cratera,
e ela pode ser vista de baixo.

Há um paralelo que se faz
normalmente com o bem mais famoso complexo de construções escavadas na rocha em
Petra, na Jordânia, essas sim parte da lista das Maravilhas do Mundo.
A diferença é que em Petra somente
a fachada dos monumentos foi esculpida, como se fosse um cenário de novela. Bet
Giyorgis é um prédio inteiro feito de rocha, onde se pode entrar, sentar e
rezar.
Antes que eu me esqueça, Lalibela
tem na verdade outras dez igrejas escavadas na rocha, todas formidáveis, sem
dúvida. Janelas em forma de cruz são uma característica de quase todas
elas.

Mas a de São Jorge é tão perfeita,
e ofusca de tal maneira todas as outras, que só ela já vale a viagem para essa
cidadezinha.
Aliás, só ela já vale a viagem para a Etiópia.
*acabo de decretar, mesmo sem conhecer todas as igrejas do mundo, num ato assumidamente arbitrário. Reclamações na seção comentários, por favor.
Escrito por Fábio Zanini às 12h49
Procura aqui, Indiana Jones!
AKSUM (ETIÓPIA) – Durante milênios a Humanidade procura pela arca que guardou as tábuas com os Dez Mandamentos entregues por Deus a Moisés no Monte Sinai. Filmes, livros, teses, pesquisas tentam desvendar o mistério. Indiana Jones, obviamente, é o mais famoso dos caçadores da Arca Perdida.
Os etíopes garantem que essa busca é perda de tempo. A Arca está bem aqui, em Aksum.
Ela fica numa capelinha ao lado da igreja de Santa Maria de Zion, que é uma espécie de Vaticano da Igreja Ortodoxa Etíope, construída pela primeira vez no século 4 (e depois refeita no século 17).

Diz a lenda (lenda, não, verdade, para os moradores daqui) que a Arca foi trazida de Jerusalém no século 1 A.C. pelo imperador Menelik, filho da união do rei judeu Salomão com a rainha etíope Sabá. Mas não há confirmação histórica disso.
O que existe com certeza é uma arca parecida com aquela descrita na Bíblia, que fica dentro da capela _e que ninguém, a não ser um monge da igreja etíope, pode ver. Nem o presidente da República, nem o patriarca (equivalente ao papa) da igreja etíope, ninguém. Só o monge misterioso.
E cadê o monge que eu quero uma foto dele, perguntei ao administrador da igreja, um baixinho gente fina chamada Johannes. Afinal, esse cara conseguiu o que nem Indiana Jones conseguiu e merece os parabéns!
O monge, me explicou Johannes num tom também misterioso, quase nunca sai da capela e não gosta de fotos. Dorme ao lado da arca e passa os dias rezando. Só sai para comer no refeitório da igreja e usar o banheiro.
Nem o nome dele eu consegui. Só pude saber que o tal monge tem por volta de 65 anos e é o guardião da Arca há mais ou menos 20. Quando morrer, a cúpula da Igreja Ortodoxa escolherá o novo responsável pela relíquia, como é feito há séculos.
E tem um último detalhe. Simples mortais têm que manter uma distância de pelo menos uns 20 metros da porta da capela, para não sofrer os efeitos da “energia” ali concentrada. Dizem que um homem pode ser queimado vivo só de tocar o objeto (menos o monge, claro). Quando tentei me aproximar mais para uma foto, Johannes me puxou para trás. “A Arca é muito poderosa...”, disse ele.
Escrito por Fábio Zanini às 09h05
A guerra pelos tesouros antigos
AKSUM (ETIÓPIA) – Há três anos, a cidade de Aksum, no norte da Etiópia, recebeu um presente inusitado: um obelisco de 1.600 anos de idade. Mais inusitadas ainda foram as circunstâncias: não era exatamente um presente ganho, mas recuperado. E o mais incrível de tudo foi quem cedeu o obelisco aos etíopes: a Itália.
Essa é uma história inédita na interminável, e bastante agressiva, batalha por tesouros da Antiguidade. Quem já visitou museus como o British Museum, de Londres, o Louvre, em Paris, ou Pergammon, em Berlim, sai embasbacado com a quantidade de objetos preciosos de várias partes do mundo ali expostos. Só quem não gosta nenhum pouco, obviamente, são os países de onde esses objetos foram levados, como Grécia, Egito, Etiópia, Turquia etc.
O obelisco de Aksum (ou Axum, segundo uma grafia alternativa) fazia parte, desde o século 4, de um conjunto de monumentos deixados por um dos maiores impérios que a África sub-saariana já viu. O império de Aksum viveu seu apogeu entre os séculos 3 e 6, controlando rotas de comércio desde o atual Egito e a Península Arábica até o centro da África.
Suas centenas de obeliscos de granito, alguns de não mais um metro de altura, outros enormes, são dedicados à glória dos antigos governantes.

Até que em 1937, durante a breve invasão italiana à Etiópia, o ditador fascista Benito Mussolini chegou à conclusão de que um dos maiores obeliscos do conjunto, medindo 25 metros, ficaria melhor em Roma. E para lá ele foi transportado, em quatro enormes pedaços que foram remontados numa praça na capital italiana.
A Segunda Guerra terminou, Mussolini acabou pendurado num poste e o monumento continuou na Itália, apesar dos veementes protestos da Etiópia. Em 2005, depois de décadas de uma bem-feita campanha internacional, a Itália aceitou devolver o objeto a seus donos. A chegada do monumento, naquele ano, foi objeto de grande festa na Etiópia (ainda hoje, nos aeroportos do país, há enormes painéis celebrando a façanha).
Ele agora está sendo cuidadosamente remontado, sob supervisão da Unesco (veja um pedaço na foto).

Quando ficar de pé, provavelmente no ano que vem, haverá mais festa. A estrutura de metal que você vê na foto abaixo é o local reservado para ele.

Mas essa história é uma exceção. Certamente o fato de seu roubo (sim, a palavra é essa) ter sido tão recente, e a mando de uma pessoa tão execrada como Mussolini, pesou na consciência dos italianos. Mas incontáveis outros objetos levados por franceses, ingleses e outros, principalmente nos séculos 18 e 19, são objeto de disputa feroz.
Um dos casos mais polêmicos é o dos chamados Mármores de Elgin, cerca de 80 blocos de esculturas levados do Parthenon em Atenas pelos britânicos entre 1799 e 1802, e hoje propriedade do British Museum (Elgin era o diplomata britânico que promoveu a remoção dos objetos). Em Paris, um dos obeliscos do templo de Luxor, o principal da era faraônica, hoje adorna a Place de la Concorde. E por aí vai com dezenas de outros casos na Nigéria, Índia, Oriente Médio, Américas etc.
Existem campanhas e mais campanhas, envolvendo governos e historiadores, para devolver os objetos a seus lugares de origem. Mas os museus, de olho na sua própria sobrevivência, não aceitam.
Eles usam quatro argumentos, basicamente: primeiro, os objetos são mais acessíveis ao grande público em Londres ou Paris do que em um ponto perdido da África; segundo, estão mais bem protegidos sob sua guarda do que em países de Terceiro Mundo; terceiro, eles não foram roubados, mas comprados ou negociados em tratados legítimos; por último, datam de muitos anos, antes do surgimento dos atuais países em que foram encontrados, e por isso não pertencem a eles.
O primeiro ponto me parece o único com alguma consistência, apesar de ser um tanto presunçoso assegurar que as pessoas não vão visitar tesouros só porque não estão hospedados num moderno museu europeu. Além disso, países pobres podem muito bem cuidar de seu patrimônio histórico, como mostra o exemplo da Grécia, que até pouco tempo atrás não era considerada “confiável”. O Egito também não faz feio, e a Etiópia, pelo que pude perceber aqui, tampouco.
E é simplesmente mentira dizer que nenhum objeto foi roubado. Mesmo as supostamente “compras” ou “negociações” ocorreram em geral sob intensa pressão das potências européias, militarmente e financeiramente muito superiores, sobre suas colônias.
O último argumento, então, para mim é simplesmente ridículo. O petróleo do Texas ou do Mar do Norte também se formou há muito mais tempo do que existem os EUA ou a Inglaterra e ninguém discute quem é o dono.
Uma alternativa que alguns sugerem é dividir a propriedade dos objetos. Assim, os grandes museus não perderiam sua função e cederiam aos países de origem, por alguns períodos pré-determinados, a posse de parte dos tesouros.
Obviamente, isso não funcionaria para algo tão grande como um obelisco. Por isso, é provável que o monumento de Aksum continue sendo uma exceção ainda por um bom tempo.
Escrito por Fábio Zanini às 09h00
Fasil e Anwar
HARAR (ETIÓPIA) – Fasil, à esquerda na foto abaixo, tem 15 anos, mas aparenta 12 e parece que nunca vai parar de sorrir. Seu irmão Anwar tem 17 e um semblante mais fechado.

Foram eles meus guias em Harar, mostrando lugares escondidos e evitando que eu me perdesse no cipoal de ruas e becos que compõem a cidade histórica. E contando a história dos principais lugares de interesse, num inglês surpreendentemente fluente.
Fasil está no ramo há dois anos, Anwar há cinco. Anwar, aliás, diz que os turistas podem chamá-lo de David se acharem seu nome muito complicado.
Aprenderam inglês na prática, apenas com os turistas, sem jamais terem ido a uma aula. Falam ainda amárico, a língua nacional da Etiópia, oromo (principal língua da região leste do país) e harari, a língua própria da cidade em que moram. Arranham também um pouco de somali. Ou seja, cinco línguas, o que é mais do que eu, provavelmente você e 99% das pessoas que lêem esse blog.
A capacidade dos africanos de falarem diferentes línguas é uma coisa impressionante, em todo o continente. Praticamente todo mundo fala ao menos duas línguas, uma nacional, geralmente importada do colonizador, e outra tradicional. Muitos falam mais, como meus guias. Não é raro as pessoas mudarem de língua no meio da frase, saindo do inglês para o swahili e voltando para o inglês, ou do francês para o kyniarwanda, por exemplo. Uma conseqüência da riqueza histórica e cultural desse continente.
Harar tem dezenas de guias-mirins, ainda mais nessa época do ano, de férias escolares. Os irmãos dizem que levam escola a sério. Anwar quer estudar Direito. Fasil quer continuar no ramo do turismo. “É o que eu gosto de fazer”, diz, sempre sorrindo.
Escrito por Fábio Zanini às 08h18
Os “homens-hiena” de Harar
HARAR (ETIÓPIA) – Harar, no leste da Etiópia, é um dos mais importantes centros do islamismo no país, uma interessante cidade com centenas de vielas e incontáveis mesquitas protegidas por uma muralha datando do século 16.
Tamanha era a importância de Harar como um centro comercial e religioso na segunda metade do século 19 que atraiu o famoso explorador britânico Richard Burton, primeiro não-muçulmano a entrar na cidade, em 1854, e o poeta francês Rimbaud, morador entre 1885 e 1891.

Com tamanha história, é até um pouco injusto que Harar seja mais conhecida hoje por um evento relativamente moderno, de não mais de 50 anos, e que é uma clássica “armadilha de pegar turistas”: o ritual diário dos homens que alimentam hienas selvagens, numa colina do lado de fora da cidade murada.
Todas os finais de tarde, ali por volta das 18h30, elas começam a aparecer lentamente, ansiosas pelo banquete, depois de passarem o dia em matagais nos arredores da cidade. O ritual ocorre sempre à noite, na escuridão total, o que torna as hienas mais assustadoras do que são. Sim, porque ao contrário do que sugere o personagem Hardy Har Har, hienas são animais agressivos, com dentes afiados e uma cara feiosa, de dar medo. Podem matar um homem facilmente.
Mas as hienas de Harar são, os moradores garantem, acostumadas à presença humana e, portanto, inofensivas. “São como cachorros”, diz Fasil, meu jovem guia de 15 anos.
Os turistas esperam o início do show a cinco metros de distância, sentados numa calçada. Cada um paga 70 birr para assistir, o equivalente a US$ 7. Por volta das 19h, já há dez hienas presentes, e o espetáculo começa. Algumas hienas atrasadinhas chegam um pouco mais tarde.
O “homem-hiena”, como ele é chamado, senta no chão com dois cestos a seu lado, um contendo carne de camelo, o outro com pele de camelo.

Os turistas chegam mais perto, a 2 metros de distância no máximo. Primeiro, ele espeta pedaços de carne numa vareta de metal e dá na boca das hienas.

Incrivelmente, ele as chama pelo nome, já que cada uma foi “batizada”, antes de alimentá-las. Depois, segura os pedaços na boca, e as hienas vão lá e nhac!

Por fim, joga alguns pedaços de carne e pele de camelo para o alto, e seguem-se ganidos e grunhidos de hienas brigando por comida. O barulho é assustador.
O show dura cerca de 15 minutos, apenas. É para turistas, certamente, mas há algo de autêntico também. Mesmo quando não há turistas na cidade, as hienas são alimentadas religiosamente, apesar de sem a mesma fanfarra.
E, se as hienas servem para atrair turistas para conhecer a parte histórica da cidade, com seus muros e telhados verdes, a cor do Islã, tanto melhor.

Cada um usa as armas que tem.
Escrito por Fábio Zanini às 04h34
Sahal, meu guarda-costas
SOMALILAND (SOMÁLIA) – O sujeito na foto abaixo (que fiz sem ele perceber, aliás) é Sahal. Meu guarda-costas aqui em Somaliland.

Sahal é um soldado do Exército de Somaliland, membro de um setor das Forças Armadas chamada Unidade de Proteção Especial. O nome é pomposo, mas nada mais é do que um grupo responsável por escoltar turistas pelo país afora.
Sahal foi minha sombra durante um dia inteiro, na viagem de Hargeisa, a capital, passando pelas cavernas de Las Geel e chegando a Berbera, o principal porto do país, a 150 km de distância. Sujeito caladão, que não fala uma palavra de inglês e com quem eu me comunicava por mímica. É um tiozinho dos seus 40 e poucos anos, que, sinceramente, estava ali mais para constar. Duvido que ele e seu AK-47 caindo aos pedaços fizessem muita diferença no caso de uma emboscada por fundamentalistas, terroristas, bandidos ou outros malfeitores.
A coisa toda é meio uma piada, na verdade. O governo de Somaliland insiste em colocar escolta armada para turistas e outros visitantes do local, apesar de há anos não haver mais nenhum tipo de problema nessa região. Mas sem escolta, você é parado na primeira barreira policial na estrada.
É um pouco por medo de que um problema qualquer com um estrangeiro arruíne as chances de o país um dia ter a independência reconhecida pela comunidade internacional.
Mais provável, desconfio, é uma forma de ajudar a financiar as Forças Armadas, muito carentes de recursos e equipamentos. A escolta armada custa US$ 20 por dia ao visitante. Funciona assim: você reserva um carro com motorista para uma viagem, geralmente via recepção do hotel, e o motorista se encarrega de ir ao quartel mais próximo e solicitar a escolta antes do passeio começar. No meu caso, era Sahal no banco do passageiro. Se o grupo de turistas for maior, aí é preciso pagar por um segundo carro com escolta para ir acompanhando a viagem.
As ONGs que operam nessa área também preferem não arriscar, e gastam uma fortuna mantendo uma equipe própria de seguranças, que trabalha de forma autônoma ao Exército. Também só ficam em um dos dois hotéis do país que têm um muro de proteção, o chamado perímetro de segurança, contra ataques suicidas.
Já os pobres dos moradores de Somaliland, esses têm que se virar sem escolta, sem muro, sem nada. Tratamento vip, só para quem é estrangeiro (branco, na verdade).
Minha viagem, por uma estrada esburacada, foi absolutamente tranqüila, com Sahal puxando um ronco grande parte do caminho.
Escrito por Fábio Zanini às 04h21
Férias em Somaliland?
SOMALILAND (SOMÁLIA) – “Turismo??!! Nesse país!!??”. Essa foi a reação de um velhinho num café em Berbera, no litoral de Somaliland, quando eu respondi o que estava fazendo ali. E ele caiu na gargalhada.
Bem, vai levar algum tempo até esse país entrar no roteiro da CVC, certamente, mas para quem gosta de um turismo mais, digamos, exótico, Somaliland é uma boa opção. E segura, aliás, apesar de o governo ainda botar escolta armada para turistas brancos que viajam pelo país (falarei disso num post mais adiante).
As cidades têm uma decadência interessante. Alguns lugares parecem que acabaram de sofrer um bombardeio nuclear, com prédios destruídos e ninguém nas ruas, mas se você encarar como parte do charme do lugar, começa a gostar.
Hargeisa, a capital, tem um interessantíssimo mercado de camelos. Centenas deles, marcados em tinta verde por seus donos, ficam ali parados, esperando comprador. Cada um sai por 500 dólares. Quem não tem essa grana tem a opção mais econômica de comprar um cabrito, por 30 dólares.

A 65 km de Hargeisa, fica a atração turística mais bacana do país, as cavernas de Las Geel. Na verdade, não são as cavernas exatamente, mas as pinturas pré-históricas ali, do período Neolítico. Centenas delas, a maioria representando bovinos, inclusive um boi e uma vaca copulando, como na foto abaixo (tirem as crianças da sala), mas também cachorros, girafas e seres humanos.

De tão nítidas, parecem feitas na semana passada, não há milhares de anos. Elas foram reveladas por pesquisadores franceses apenas em 2003, uma conseqüência do isolamento internacional do país. E o melhor de tudo, você paga 10 dólares e tem o local todinho para explorar, sem hordas de turistas (sem ninguém, aliás).
E há a já citada Berbera, onde ficam as melhores praias do país. A cidadezinha é completamente despreparada para o turismo, com apenas um hotel mais ou menos, e quilômetros e quilômetros de areia branquinha e água morna.

Mais incrível ainda, Berbera é talvez o lugar que melhor se enquadre na analogia da explosão nuclear que mencionei. Casas e armazéns destruídos na guerra civil de 1988 ocupam o centro. No porto, uma dezena de navios afundados, enferrujando, semi-destruídos, são como fantasmas. Um museu a céu aberto.

Você, que planeja sua lua-de-mel, esqueça o Caribe. Venha para Somaliland!
(Ok, estou brincando...)
Escrito por Fábio Zanini às 03h22
Vai um passaporte aí, freguesa?
HARGEISA (SOMALILAND, SOMÁLIA) – Cansado das filas para conseguir um passaporte? Frustrado com a burocracia da Polícia Federal?
Seus problemas acabaram!
Basta dar uma passadinha no mercado central de Hargeisa e comprar seu próprio passaporte de um dos intrépidos vendedores locais!

Ok, é um passaporte da Somália, o que pode dar alguma dor de cabeça viajando para os EUA ou para a Europa, mas é um passaporte bonitinho, bem feitinho, você nem notaria a diferença.
A falsificação de passaportes é um grande negócio em Hargeisa. São cópias feitas na Índia e contrabandeadas para Somaliland e outras partes da região do Chifre da África. Ficam expostos sem o menor constrangimento nas ruas da capital. O vendedor me pediu 100 dólares, mas o gerente do meu hotel me disse que, se eu quiser um como souvenir, ele pode conseguir por 60 dólares. Uma pechincha.
Existe um passaporte de Somaliland, mas que não é aceito em praticamente lugar nenhum, já que é um país não reconhecido internacionalmente. Como viajar a Mogadíscio, a capital somáli, para conseguir um passaporte da Somália, não é uma opção segura, o jeito é comprar falsificado mesmo. Garanto que poucas pessoas perceberiam a diferença.
É o que fazem muitos moradores daqui. E também todo tipo de bandido ou malfeitor que quer cruzar fronteiras, o que representa um enorme problema de segurança internacional. Mas o governo de Somaliland faz vista grossa.
Aliás, faz vista grossa a vários artigos contrabandeados de uma forma geral. Somaliland é um paraíso do contrabando. O governo adota como política ter uma economia aberta, sem taxas de importação ou grandes inspeções alfandegárias, até porque não tem estrutura para controlar o que cruza suas fronteiras.
Carros, por exemplo, são importados de Dubai sem o menor controle. A cidade está cheia de automóveis japoneses usados, que podem ser adquiridos em Hargeisa por apenas 3.000 dólares. Muitos etíopes e quenianos importam seus carros pelo porto de Berbera, o principal do país, registram o carro com placa de Somaliland e revendem em seus países de origem, com grande lucro.
Cigarros, bens de consumo, roupas, tudo é importado a preços baixíssimos. Na ausência de indústria, agricultura ou serviços dignos do nome, o governo conta com o contrabando como uma forma conveniente de estimular a economia..
O limbo jurídico em que vive essa parte do mundo contribui para isso. Será interessante ver o que vai acontecer se um dia Somaliland virar um país de verdade, já que isso implica em uma série de obrigações internacionais.
Não vai ser fácil para o governo, após décadas tolerando o contrabando, tentar proibir essa prática.
Escrito por Fábio Zanini às 10h31
Um país movido a qat
HARGEISA (SOMALILAND, SOMÁLIA) – Qat é uma planta de aparência inofensiva, cultivada no leste da África e consumida por milhões de pessoas nessa região há séculos.
Na maior parte do planeta, a venda e uso de qat são reprimidos. Mas em Somaliland, assim como nas outras partes da Somália, na Etiópia, Eritréia, Djibouti e Península Arábica, qat é praticamente parte da dieta diária.
Qat é uma planta com propriedades narcóticas. Suas folhas, mascadas por cerca de uma hora e misturadas à saliva, dão uma sensação de torpor. Um barato leve, digamos assim.
Em Hargeisa, o consumo dessa planta é uma mania nacional. Praticamente todos os adultos, e também algumas crianças, usam qat. Nas ruas, dezenas de barracas vendem “ramalhetes” inteiros, a céu aberto, sem problema nenhum.

Há também tendas armadas nas calçadas, com colchões, em que o freguês pode mascar tranqüilamente, e ficar de banzo o tempo que quiser. Como se fosse um “qat café”.
Nas ruas, centenas de homens e mulheres caminham com ramos da planta, abocanhando as folhas e mascando, mascando... Alguns engolem, outros cospem e pegam novas folhas, para manter a sensação entorpecente. Uma porção típica de qat, como a da foto abaixo, chega a proporcionar o efeito desejado durante quatro ou cinco horas.

As reações das pessoas são diversas. Alguns estão claramente sob o efeito, com olhar perdido, falando lentamente, outros mais excitados e agitados... Mas geralmente sem agressividade. Outras ficam (ou pelo menos parecem) absolutamente normais, como se estivessem fumando um cigarrinho.
Em Hargeisa, o melhor qat é o importado da Etiópia (onde é chamado de chat). As folhas são menores e mais potentes, me explica um vendedor. Cada “ramalhete” sai por 8.000 shillings, pouco mais de US$ 1. O carregamento chega por volta das 8h, todas as manhãs, e num dia típico ele vende 40 ou 50.
O produto nacional, made in Somaliland, tem folhas maiores e é mais fraco. Custa cerca de 3.000 shillings.
O consumo é maior depois do almoço. Por volta das 14h, 15h, a cidade inteira dá uma esvaziada, como numa siesta local, até porque é o pico do calor. Há estudos que dizem que o qat traz prejuízos grandes para economia dos países da região, pelo efeito na população economicamente ativa.
Isso significa que Somaliland é um país de viciados? Bem, sim e não. Eles consomem qat como quem toma água, claro, mas é praticamente só. Não bebem (é um país muçulmano), praticamente não usam drogas mais pesadas, fumam pouquíssimo (cigarros são caros) e nem café é muito popular aqui (preferem o chá).
Somando tudo, quem tem mais vícios, eles ou nós?
p.s.: antes que me perguntem se eu experimentei, digamos que eu tentei experimentar. A sensação é de comer folhas de agrião sem tempero e sem lavar, e eu odeio agrião, para começo de conversa. Cuspi as primeiras folhas após menos de dois minutos, mas a sensação amarga na boca ficou por um bom tempo. Meu qat foi doado para o recepcionista do hotel.
Escrito por Fábio Zanini às 11h23
Somaliland: que país é esse?
HARGEISA (SOMALILAND, SOMÁLIA) – Em qualquer lugar da África um sujeito branco, com mochila e câmera na mão vagando pelas ruas chama a atenção, mas em Somaliland parece que tenho a cidade inteira olhando para mim, o tempo todo.
Não é para menos. É muito raro um branco aparecer por aqui. Meu visto, orgulhosamente emitido pela auto-declarada (e não reconhecida) República de Somaliland, tem o número 283. Como me explicou o oficial de fronteira, isso significa que até agora, desde o começo do ano, apenas 282 pessoas antes de mim visitaram o país _média de 1,5 por dia, nem todos brancos.
Aqui, além das costumeiras perguntas sobre de onde vim, o que faço etc., invariavelmente vem mais uma. Por que a comunidade internacional não reconhece esse país?
Os moradores de Somaliland, 4 milhões no total, têm uma necessidade permanente de reforçar sua independência, que declararam em 1991. A principal via comercial de Hargeisa, um misto de areia e um pouquinho de asfalto entre dezenas de crateras, chama-se, claro, avenida da Independência.

O principal monumento, digamos assim, do país, é um avião MIG, pertencente à antiga Força Aérea da Somália, abatido em 1988 pelos rebeldes daqui quando se preparava para bombardear Hargeisa, durante a guerra civil. Fica exposto desafiadoramente num pedestal, bem no centro da cidade.

A moeda é o Somaliland shilling, outro motivo de orgulho nacional. Vale quase nada, mas ainda assim é mais forte que a moeda da Somália. Pelas ruas e mercados do centro de Hargeisa, dezenas de trocadores de dinheiro expõem pilhas e pilhas de cédulas no chão mesmo, esperando trocadores. Cada pilha tem 100 notas de 500 shillings, menos de 10 dólares.

Uma das maiores fontes de renda desse país são as transferências em dólar que a enorme diáspora de Somaliland nos EUA, Europa, África e Oriente Médio manda para seus parentes. Trabalho, portanto, não falta para os trocadores. E o incrível é que nesse país miserável, com enorme desemprego e milhares de refugiados, as notas fiquem expostas sem problema nenhum. Prova da cultura de paz desse país, dizem satisfeitos os moradores de Hargeisa.
O sentimento nacional tem de ser reforçado a todo momento em parte porque étnica e culturalmente não há muito que diferencia a Somaliland da Somália. Pelas ruas de Hargeisa, mulheres desfilam com o corpo todo coberto, em trajes coloridos, como é típico do chamado Chifre da África.

E por que ninguém reconhece Somaliland, se o país tem um argumento jurídico bastante sólido (foi colonizado de forma separada da outra Somália) e é relativamente estável e democrático? Basicamente, porque o Ocidente e os países africanos temem abrir um caixa de Pandora, criando um precedente para dezenas de movimentos separatistas pelo planeta.
Somaliland tem uma carta na manga, no entanto: vastas reservas de petróleo ainda inexploradas, já que ninguém é louco de investir num território ainda formalmente associado ao caos da Somália. Mas se esse país for reconhecido como independente, a coisa muda de figura, e o petróleo pode jorrar.
Como sempre acontece na diplomacia, tudo é uma questão de ponto de vista...
Escrito por Fábio Zanini às 13h27
Na Somália... Somália?
HARGEISA (???) – Onde estou? Boa pergunta.
Formalmente, segundo todos os mapas e todas as convenções internacionais, no país mais perigoso do mundo, a Somália. Perto disso aqui, Iraque, Afeganistão e a Faixa de Gaza são colônias de férias.
Mas claro que não é bem assim. Sou tudo, menos louco.
Estou em Hargeisa (ou Hargeysa, as duas formas são usadas), capital de Somaliland, a parte noroeste da Somália, que declarou independência em 1991 e que é, de fato, independente.

Só que ninguém reconhece, nenhum país, com medo de causar mais instabilidade, mais uma guerra, mais turbulência nessa região, o chamado Chifre da África.
E o irônico e injusto disso tudo é que a Somaliland é, quase milagrosamente, tudo que as outras partes da Somália não são: pacífica, segura, moderada e, olha só, quase democrática. Digo quase porque há liberdade de manifestação e de organização política, mas o governo de vez em quando persegue um opositor aqui, outro ali... Ah, e que acaba de, sem mais nem menos, ampliar seu mandato em mais um ano.
Mas voltemos a Somaliland. Sua origem é uma daquelas “maravilhas” do colonialismo. Era uma vez, no pitoresco mundo da dominação européia sobre a África, três colônias chamadas Somaliland, que tinham vastas populações da etnia somali.
No início da década de 60, veio a independência. A Somaliland francesa virou o atual Djibouti. E as Somalilands inglesa e italiana se uniram para virar um único país, a atual Somália, com capital em Mogadíscio _essa sim a cidade mais perigosa do mundo. (Só para complicar mais um pouco, há ainda uma quarta Somália, que hoje é uma província da Etiópia, mas isso é para outro dia...)
A parte inglesa nunca se conformou com a união, que ela sempre viu mais com uma conquista por parte de sua irmã italiana. Em 1991, o então ditador da Somália, Siad Barre, foi deposto num golpe, e a União Soviética, que apoiava seu regime, acabou. A parte inglesa então sentiu-se confiante o suficiente para declarar independência. Et voilá: nascia a República de Somaliland.
Hoje esse país de 4 milhões de pessoas, praticamente todo desértico, tem sua bandeira, sua moeda, seu hino, sua polícia, suas placas de automóveis. E implora por reconhecimento internacional.
Cheguei ontem, depois de uma maratona de três dias, desde a Etiópia. De Addis Ababa para Dire Dawa, de Dire Dawa para Harar, de Harar para Jijiga, de Jijiga para Wajaale (onde cruzei a fronteira), e depois para Hargeisa. A capital da Somaliland já é, por si só, um milagre da natureza, uma cidade de 1 milhão de habitantes no meio do deserto.
Viagem tranqüila, apesar dos sacolejos, mas supervigiada pelo Exército, como você pode imaginar. Afinal, teoricamente, a Somaliland ainda está na luta pela independência, embora há anos não haja mais conflitos armados com a Somália nem com Puntland, uma outra região autônoma.
Foram cinco barreiras do Exército em apenas 90 km da fronteira até Hargeisa, para checar documentos, essas coisas. Tudo é meio improvisado: as “barreiras” na verdade eram cordas esticadas no meio da estrada. E numa delas, o soldado, em vez da farda, vestia uma camisa do Real Madrid.
De dar medo mesmo, só o motorista que me trouxe, dirigindo em alta velocidade enquanto mascava qat, uma folha que é um vício coletivo por essas bandas e que dá uma forte sensação de sonolência e torpor...
Escrito por Fábio Zanini às 02h10
Tá dominado. Pelos chineses
ADDIS ABABA (ETIÓPIA) – Há meses procuro um “gancho”, como dizemos no jornalismo, para falar sobre a presença chinesa na África. Presença talvez seja na verdade um termo muito tímido. Domínio seria melhor.
Eles estão em toda parte, construindo ferrovias em Angola (praticamente tudo em Angola, na verdade), o Parlamento em Guiné-Bissau, ministérios em Moçambique, estradas no Congo, administrando minas de cobre na Zâmbia, oleodutos no Sudão. E sem constranger os aliados com perguntas desagradáveis sobre direitos humanos e democracia, até porque convenhamos que os chineses não têm essa moral toda para tratar desses assuntos.
Eles querem é matéria-prima, minerais, petróleo, para abastecer sua economia pujante.
Mas aqui em Addis Ababa encontrei o gancho, o símbolo perfeito do controle chinês. Eles estão construindo nada menos que a nova sede da União Africana, a organização regional que reúne 54 países do continente.
Addis sempre foi a sede desse organismo, desde os tempos de sua antecessora, a Organização da Unidade Africana, fundada nos anos 60 (e que era conhecida como “clube dos ditadores”). A sede até que não é tão caída assim, e não me pareceu que precise de ampliação.
Ela fica perto do centro da cidade e é um complexo com três prédios dos anos 60, mais um prédio moderno inaugurado em 2003 (na foto).

Tem ainda um restaurante, uma clínica médica própria e, veja você, quadra de tênis e campo de futebol (será por isso a referência a “clube”?).
Mas os chineses ofereceram-se para aumentar ainda mais o elefante branco, e os africanos adoraram. Num enorme terreno ao lado do atual complexo, que antes abrigava uma favela devidamente removida, mais prédios serão erguidos. O trabalho começa até o final do ano e deve demorar dois anos. O espaço vai dobrar.
Hoje trabalham na sede da União Africana 800 pessoas. O problema maior, me explicou um segurança muito simpático que me levou para um rápido tour, é o tamanho do auditório. Cabem ali “apenas” 450 pessoas. O novo, feito pelos chineses, terá lugar para 2.500.
É, claro, um golpe de marketing magistral dos chineses, fazer uma gentileza, numa tacada só, a todos os chefes de Estado do continente. Claro que na hora de fechar um contratinho aqui e outro ali, tudo fica mais fácil, não é mesmo? E pensar que há meros dez anos o investimento chinês na África era negligenciável.
Agora, só falta a União Africana dizer a que veio. Talvez agora que terão um novo auditório ultra-moderno eles decidam fazer alguma coisa de verdade em Darfur, Somália, Zimbábue...
Escrito por Fábio Zanini às 04h39
A fé na igreja cristã etíope
ADDIS ABABA (ETIÓPIA) – A Catedral da Santa Trindade, no centro de Addis Ababa, ainda está fechada, mas dezenas de pessoas já estão esperando as portas abrirem. Algumas rezam ajoelhadas, de olhos fechados, por longos minutos, tocando a testa nos degraus da igreja.

Outras rezam de pé, beijando as paredes ou as portas.
Pouco antes das 16h, um padre com uma longa túnica negra aparece, com a chave da igreja e uma cruz de madeira na mão. É seguido por fiéis que querem beijar a cruz ou tocá-la com a testa.
Algumas horas passadas na catedral, o centro mais importante do cristianismo ortodoxo etíope, impressionam. Não exatamente pela imponência do prédio ou os murais pintados do lado de dentro, mas pela imensa devoção das pessoas.
A igreja ortodoxa etíope é única, e é parte da identidade nacional do país. O cristianismo foi adotado aqui por volta do século 4, o que faz da Etiópia um dos mais antigos países cristãos do mundo. Ao longo dos séculos, os sucessivos imperadores etíopes espertamente difundiram a imagem de que eram baluartes da cristandade numa região “infestada” por muçulmanos, o que deu a eles considerável popularidade na Europa cristã e ajudou a Etiópia a manter-se independente.
Mas a imagem da Etiópia como um país cristão “puro” simplesmente não corresponde aos fatos. Até porque o islamismo é a religião de cerca de um terço da população, e mais 20% seguem religiões tradicionais africanas (há ainda uma minúscula comunidade de judeus, que seguem seu rito particular, no norte do país).
O mais interessante na ortodoxia cristã etíope é justamente a influência que ela absorveu de várias fés diferentes. O chão da igreja, por exemplo, é todo forrado de tapetes, e só se entra sem os sapatos, igual ao que ocorre numa mesquita. Os fiéis ajoelham e beijam o chão, levantam-se e repetem o gesto, num movimento muito parecido com o dos muçulmanos rezando em direção a Meca.
Do Judaísmo vêm o ritual da circuncisão masculina e a adoração às tabuas com os Dez Mandamentos, que Moisés recebeu do Monte Sinai. Cada igreja tem uma réplica no seu altar.
Diz a lenda, inclusive, que a famosa Arca Perdida que guardou as tábuas está na igreja de Santa Maria de Zion, na cidade de Aksum, no norte do país. Indiana Jones não procurou direito.
Durante a missa, a iluminação da igreja é reduzida a uma penumbra, e a leitura da Bíblia é feita à luz de velas. Ajudantes do padre passam várias vezes pelos corredores espalhando incenso, que as pessoas recebem abaixando a cabeça. Dei a sorte de acompanhar a missa quando caía uma tempestade do lado de fora, o que só contribuiu para escurecer ainda mais o ambiente interno.
Há também um lado político muito forte na igreja cristã ortodoxa. Até 1974, quando o regime marxista assumiu o poder e destronou o imperador Haile Selassie, ela era a religião oficial do Estado, e mesmo hoje continua sendo a fé da elite política e econômica, e a que predomina entre os moradores de Addis Ababa e das regiões centrais. O islamismo é mais forte nos cantos mais afastados do país.
Dentro da igreja da Santa Trindade, ao lado do altar, ainda estão os tronos que eram usados pelo imperador e sua mulher. Ficam escondidos da nave principal, atrás de uma parede. E, na cúpula da igreja, em vez dos tradicionais murais com motivos religiosos, há murais com cenas políticas. Lá está, por exemplo, Selassie fazendo seu famoso discurso à Liga das Nações (antecessora da ONU), nos anos 30, protestando contra a invasão italiana.
Do lado de fora, as cruzes estão cobertas com as cores nacionais da Etiópia.

Selassie hoje está enterrado na igreja, a monarquia caiu e a igreja cristã etíope não tem a mesma força que tinha no passado. Mas o fervor religioso do etíope continua inabalável.
Escrito por Fábio Zanini às 04h25
Starbucks vs. Etiópia
ADDIS ABABA (ETIÓPIA) – Dê uma olhada na fachada da loja abaixo:

Lembra alguma coisa?
A foto é da rede de cafés Kaldi’s, que tem sete filiais em Addis Ababa. E que é uma cópia assumida (e orgulhosa!) da gigante norte-americana Starbucks. Tanto que por aqui ninguém fala “vamos tomar um café no Kaldi’s?”, mas simplesmente “vamos ao Starbucks?”.
Starbucks, a maior rede de cafés do mundo, e a Etiópia, de onde o café é originário, têm um passado turbulento. Tudo começou em 2005, quando os etíopes entraram com um pedido no escritório norte-americano de marcas e patentes para registrar três das melhores variedades cultivadas no país: sidamo, harar e yirgacheffe, todas do leste do país.
É um pouco o que os italianos fazem com o presunto parma e os franceses com o champanhe. Só eles podem usar o nome, e se alguém quiser usar, tem que pagar.
A Starbucks, que importa café etíope e usava as denominações em suas especialidades “gourmet” de café, claro que não gostou. E o escritório de patentes norte-americano acabou dando razão à multinacional americana.
Mas aí, um desastre de relações públicas começou a se formar. Principalmente quando a britânica Oxfam, uma das maiores (e mais lúcidas) ONGs deste planeta, tomou as dores dos cafeicultores etíopes. Primeiro acusou a Starbucks de fazer lobby junto às autoridades norte-americanas, o que a empresa nega ter ocorrido.
Mais importante, começou a detalhar alguns fatos, como o de que o lucro da Starbucks com uma saca de café etíope que ela transforma em “café gourmet” era 25 vezes maior do que o que recebiam os produtores de café etíopes.
O café é um patrimônio nacional na Etiópia. Diz a lenda que lá pelo ano 500 da nossa era um agricultor chamado Kaldi (veja que a Starbucks etíope escolheu a dedo seu nome), ao perceber que suas cabras ficavam excitadas ao comer aquela frutinha, resolveu misturá-la a água fervente. A bebida depois foi descoberta pelos árabes e ganhou o mundo.
Na Etiópia, 25% dos agricultores dependem em alguma medida da planta. Com a diferença de que os etíopes escolheram o caminho de marquetear o café deles como tendo qualidade e sabor diferenciados. Experimentei e é bom realmente, mas não achei muito diferente do nosso (claro que sou leigo no assunto...).
Mas imagine o desespero dos executivos da Starbucks com o risco de sua empresa começar a ser acusada de lucrar horrores à custa da miséria de cafeicultores de um país de Terceiro Mundo.
No ano passado, após dois anos de briga, os dois lados fecharam um acordo. A Etiópia desistiu de patentear as marcas, mas a Starbucks passou a pagar um licenciamento sobre elas, além de ajudar a promover o café etíope pelo mundo.
E o Kaldi’s, onde entra nisso? Bem, digamos que é uma pequena vingancinha dos etíopes contra a gigante dos EUA. Algo como dizendo que, se a Starbucks usa o café etíope, então nós vamos imitar a marca deles.
E eles não fazem questão de disfarçar. O garçom da filial que visitei, com o mesmo avental verde da multinacional, me recebeu falando que tinha “capuccino, frapuccino, igualzinho ao Starbucks...”
Há diferenças entre as duas cadeias de cafés, claro. Aqui, por exemplo, eles são econômicos nos famosos sofás (havia apenas um na filial que eu visitei).
E o preço, bem... Enquanto você paga até US$ 4 por um latte no original, aqui sai por 667 birr, ou US$ 0,60.
Talvez por tudo isso, a Starbucks original ainda não tenha chegado aqui....
Escrito por Fábio Zanini às 04h27

Fábio Zanini