Bali 40 graus - Despachos da Conferência do Clima
 

24 mil km depois...

SÃO PAULO - Bom, não tinha como durar para sempre.

Cheguei ontem à noite a São Paulo, depois de 11 horas de vôo pela South African Airways (que dessa vez não perdeu minha mala), uma rápida escala com a família antes do regresso ao batente, em Brasília. Agora é a hora de voltar a enfiar o pé na política, e botar dinheiro em casa.

Aliás, quase não embarco em Johannesburgo. O vôo estava com um baita overbooking, e o cidadão no check-in me pediu para esperar "alguns minutinhos" até saber se haveria lugar para mim. Quem já passou por isso sabe que esses minutinhos viram uma eternidade. Até parecia que a África não queria me largar. Mas no final embarquei para a última decolagem de minha jornada.

Como trabalho na Folha, um pouquinho de estatísticas. Foram 138 dias de viagem, por 13 países africanos: África do Sul, Zimbábue, Zâmbia, Gana (meu "pulinho ali" para cobrir o Lula em abril, lembra?), Tanzânia, Ruanda, Congo, Uganda, Quênia, Etiópia, Somália, Egito e Djibouti, mais duas semanas de "férias dentro das férias" na Turquia. Um total de 24 mil km percorridos em solo africano, em 29 cidades, sendo 69% dessa distância de avião, 24% de ônibus ou equivalente (lotação, pau-de-arara...), 6% de trem e 1% de barco ou navio.

Uma viagem pela África, com suas estradas dilapidadas, ônibus cancelados sem explicação e guardas de fronteiras que parecem viver em outro planeta nunca é fácil. Dito isso, dei muita sorte. A jornada foi muito menos problemática do que eu poderia esperar em meus desejos mais otimistas. Para começar, fora um resfriado aqui e uma disenteriazinha ali, nenhum problema de saúde. Os mosquitos que furaram o bloqueio do meu super-repelente inventado pelo Exército francês felizmente nâo carregavam doença nenhuma.

Também nenhum assalto, nenhum episódio explícito de violência, acidente, nada. E olha que me enfiei em favelas e campos de refugiados e entreguei minha vida nas mãos de motoristas e motoqueiros malucos.

Houve momentos de medo e risco intenso, sem dúvida. Arriscar o visto de turista para o Zimbábue e depois cobrir a eleição presidencial sem credenciamento; passear pelo Congo e pela Somália, dois dos países mais perigosos do mundo. E frustração também, de não conseguir o visto para o Sudão ou ter de desistir de ir para o segundo turno no Zimbábue na véspera do vôo, talvez por um excesso de precaução (ainda me pergunto se agi corretamente).

Espero que essa minha experiência possa servir de encorajamento para outras pessoas que querem conhecer esse continente, mas ficam com algum receio. Tomando cuidados básicos como não andar sozinho à noite, não dormir em hoteizinhos muito suspeitos e evitar zonas de conflito, a África é extremamente segura.

O que fica dessa viagem? As bizarras e divertidas aventuras nas fronteiras (onde estará o saco plástico ameaçador que tive de deixar em Ruanda?). Os gritos de "muzungu, muzungu" das criancinhas ruandesas ao me verem passando. As cruéis filas embaixo de sol a pino que os zimbabuanos têm de enfrentar para sacar bilhões de dólares de bancos -e depois comprar uma fatia de pão. As paisagens, as histórias, os personagens, os perrengues, os dias sem banho e as camisetas usadas três dias seguidos. A simpatia de pessoas que, antes de perguntarem as horas na calçada, perguntam "como vai, tudo bem?". A satisfação pessoal de ter colocado um pouco da África na mídia brasileira, e até em algumas salas de aula.

Levo ainda muitos amigos leitores que ganhei, alguns fiéis que comentaram praticamente todos os textos, e mandaram emails, e fizeram perguntas.

O que será de Pé na África? Ainda não sei. Aguardem notícias sobre isso em breve.

A todos vocês, muito obrigado por lerem meu blog.

Escrito por Fábio Zanini às 10h33

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

De volta ao início

JOHANNESBURGO (ÁFRICA DO SUL) – É sempre um choque chegar à África do Sul vindo de qualquer outro país africano. O aeroporto sofisticado de Johannesburgo. A moderna rodovia de pista dupla até a cidade. Os shopping centers de estilo americano, todos aceitando cartão de crédito. Os arranha-céus.

 

Johannesburgo foi onde comecei, há quatro meses e meio. Em Johannesburgo faço minha última parada antes da volta ao Brasil. Mais uma vez sou um hóspede de minha amiga Lílian Liang, cujo trabalho na ONU inclui abrigar esse refugiado aqui.

 

Não há solução para os problemas africanos sem a sua “superpotência”. A presença sul-africana foi difícil de ser ignorada durante minha viagem, das tropas de paz no Congo até a gigante da telefonia celular MTN e a rede fast-food Steers (tão poderosa que inibe a entrada do Mc Donald’s no continente). E a referência constante das pessoas a este país como a última esperança democrática africana.

 

E no entanto cheguei num momento de crise. Inflação em alta, apagões freqüentes, um presidente em fim de mandato, desmoralizado. No vizinho Zimbábue, há um país em caos, muito por culpa da omissão do governo sul-africano, cuja estratégia de diplomacia silenciosa é, apesar das atuais negociações entre Mugabe e a oposição, um retumbante fracasso.

 

E há a criminalidade que não dá trégua, a Aids galopante, e agora o fantasma da xenofobia, que ataca legiões de imigrantes de países vizinhos.

 

Há um ar pesado nas ruas de Johannesburgo, que, com alguma sorte, começará a ser levantado em breve com a chegada da Copa do Mundo. E dentro de dois anos uma eleição democrática deve arejar o ambiente político. Se bem que seu provável sucessor, Jacob Zuma, que já defendeu uma ducha morna após a relação sexual como forma de evitar a Aids, é de lascar.

 

Os problemas sul-africanos não tiram os méritos de uma sociedade que é um dos maiores sucessos do final do século 20. Nelson Mandela, aos 90 anos recém-completados, está em toda parte. Nos comerciais de TV, são negros que aparecem vendendo shampoo, carros zero ou contas bancárias. Há uma classe média negra forte e confiante como em nenhum outro lugar do mundo.

 

Uma democracia racial imperfeita sem dúvida, mas ainda um exemplo.

Escrito por Fábio Zanini às 10h38

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Fábio Zanini Fábio Zanini, 33, é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), com mestrado em relações internacionais pela School of Oriental and African Studies (Soas), da Universidade de Londres.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.