Lula cria nova forma de ganhar a África
Goste-se ou não, há que se reconhecer que a política do presidente Lula para a África é coisa séria.
A última do presidente é estreitar os laços com o continente pelo lado social. Se não pode competir com a China em investimentos em infra-estrutura ou com os norte-americanos na economia e no poder militar, o Brasil tenta manter seu pé na África (sem trocadilho) pela cooperação tecnológica, o intercâmbio cultural e agora também pela exportação de políticas sociais.
Nesta semana, Brasília recebeu a visita de delegações de seis países africanos (Angola, Gana, Moçambique, Namíbia, Quênia e Tanzânia), convidadas do governo brasileiro para conhecer alguns de seus programas sociais mais famosos. Entre eles, o Bolsa-Família, mas também a construção de cisternas no semi-árido e o incentivo a produtores locais por meio da compra de alimentos.
De segunda-feira até ontem os convidados ficaram na capital federal, ouvindo discursos. Hoje e amanhã estão em Pernambuco, conhecendo in loco os programas, com direito a almoço num restaurante popular.
É a continuação de um projeto antigo de Lula. Em abril desse ano, ele já esteve em Gana, inaugurando um escritório regional da Embrapa, a empresa brasileira de pesquisa agropecuária (veja foto do evento). Em Moçambique, está em construção uma unidade da Fiocruz, o centro de excelência do governo brasileiro na produção de remédios. Agora, o governo promete enviar técnicos para a África para ajudar países pobres a implementar versões locais do Bolsa-Família e dos outros.
“Existe uma decisão de governo de aproximar o Brasil da África. Essa é a perna social dessa estratégia”, diz Valdomiro Souza, chefe da assessoria internacional do Ministério do Desenvolvimento Social, que organiza a visita.
Segundo ele, os africanos já reconhecem os programas brasileiros como referências. “Há um interesse muito grande pelos nossos programas de segurança alimentar, por exemplo”, afirma Souza.
É uma estratégia relativamente barata e que dá retorno. Em Acra, capital de Gana, Lula recebeu elogios demorados do presidente local, John Kufuor, um sujeito grandalhão e com um sorriso permanente no rosto (e um dos poucos democratas de verdade daquele continente, aliás).
Na foto abaixo, que fiz na ocasião, nosso presidente discursa na abertura da Embrapa devidamente protegido do sol por um segurança do governo local (eu e meus colegas jornalistas, todos de terno, não tivemos o mesmo privilégio).
E é também um imperialismo “benigno”, digamos assim. Que mal pode existir em um país oferecer a outro de graça uma fábrica de remédios? Mesmo a China, quando constrói suas estradas na África, gera um certo ressentimento por importar toda a mão de obra, tirando empregos das populações locais.
O Brasil obviamente não faz tanta gentileza apenas por solidariedade internacional. Há um evidente desejo de fazer amigos e influenciar pessoas, e em construir uma rede terceiro-mundista de nações que vejam o Brasil como líder. Lula resgatou a máxima de que é melhor ser o líder dos pobres do que o lanterninha dos ricos.
Não que exista algo de condenável nisso, aliás. Vender solidariedade para ganhar prestígio faz parte do jogo. Melhor oferecer remédios aos moçambicanos do que armas ao ditador do Chade, como fazem os franceses.
Escrito por Fábio Zanini às 22h08
Na África, o irmão favelado de Obama
Esta é a semana de Barack Obama.
Ele sairá consagrado da convenção democrata em Denver, pronto para liderar a esquerda, os progressistas, liberais, internacionalistas e todas as pessoas que se consideram “do bem” numa luta feroz contra John Mc Cain, pertencente a um partido que não seria muito diferente da Legião do Mal.
Ou pelo menos é assim que os obamistas vêem a coisa.
As raízes africanas de Obama (seu pai, todos sabemos, era queniano) até agora foram uma bênção para sua espetacular escalada política. Dão charme a sua biografia e credibilidade a ele para se colocar como a antítese de George Bush na hora de olhar pelos pobres do planeta. Quem não se encantou com as imagens de um jovem Obama sorridente com sua avó (na verdade, avó adotiva) num fim de mundo no oeste do Quênia?
Mas a África não é conto de fadas, e nessa semana apareceu uma reportagem para lembrar o candidato disso.
Normalmente mais preocupada com Gisele Bundchen e Heidi Klum do que com celebridades políticas, a revista de moda Vanity Fair, ainda mais a sua edição italiana, foi ao Quênia e voltou com um grande furo de reportagem. Encontrou numa favela, em situação de miséria e abandono, um meio-irmão do glamouroso candidato americano.
Seu nome é George Hussein Onyango Obama, ele tem 26 anos e vive na periferia de Nairobi, a capital.
Aqui você pode ler um resumo da reportagem (em inglês) feita pelo Daily Telegraph, um jornal britânico.
Conta o jovem Obama que vive com menos de 1 dólar por dia (o texto fala em 1 dólar por mês, mas acredito que isso seja um erro), que é geralmente o patamar de pobreza definido pelas organizações internacionais. Seu lar é uma cabana de dois metros por três metros, decorada com cartazes do Milan, o clube de futebol italiano.
“Ninguém sabe quem eu sou”, disse ele à revista.
Os dois irmãos se encontraram brevemente há dois anos, durante a última visita de Obama pelo país (que foi fundamental para o crescimento de sua imagem política, aliás).
"Foi muito rápido, conversamos por apenas alguns minutos. Foi como encontrar um completo estranho”, declarou.
A imagem de um Barack Obama insensível ao sofrimento de um irmão distante evidentemente não o ajuda em nada. É injusto culpar Barack pela situação de George, mas campanhas eleitorais são cruéis, e você pode apostar que a imagem do irmão favelado voltará para assombrar o candidato.
A África ressurgiu para o candidato americano, mas dessa vez de uma maneira que ele não pode controlar.
Escrito por Fábio Zanini às 20h14
Em Pequim, a África valeu 1,5 Phelps
Terminada a Olimpíada, como se saiu a África?
Dos 54 países do continente, 13 ganharam medalha: Quênia, Etiópia, Zimbábue, Camarões, Tunísia, Nigéria, Argélia, Marrocos, África do Sul, Sudão, Egito, Ilhas Maurício e Togo.
Somados, conquistaram 12 medalhas de ouro, ou um Michael Phelps e meio (o que dá uma nova e excelente perspectiva sobre a distribuição mundial de renda). Foram mais 14 de prata e 14 de bronze, num total de 40 medalhas para o continente.
A África tem hoje mais ou menos 900 milhões de habitantes, ou 13% da população mundial. Tem um PIB conjunto de cerca de US$ 3 trilhões, equivalente a 5,5% do PIB mundial.
Durante os jogos, foram distribuídas 958 medalhas no total, das quais 302 de ouro. Os africanos receberam 3,9% de todos os ouros e 4,1% de todas as medalhas da competição. Em outras palavras, ficaram abaixo do que, teoricamente, sua presença no planeta possibilitaria.
Evidentemente, estou aqui fazendo um mero exercício estatístico. O número de medalhas que um país conquista não se mede pela quantidade de seres humanos que habitam suas fronteiras. Medalhas têm relação com desenvolvimento social, educação e investimentos feitos por um país.
Somos constantemente informados de que a África é um continente pobre e atrasado, mas é só quando há algum flagrante concreto, como o desempenho num evento como as Olimpíadas, ou a quantidade de computadores conectados à internet, ou a quilometragem de estradas asfaltadas, que percebemos a real situação das pessoas que vivem lá. Não há como discutir com números.
O total de 12 medalhas de ouro na verdade é um pouco enganador, já que nove delas estão concentradas em apenas dois países, Etiópia e Quênia, e apenas um esporte, o atletismo. Não fosse o fenômeno dos supercorredores do leste africano, o desempenho teria sido muito pior.
Houve, claro, os heróis e os papelões continentais. O maior destaque veio nas últimas horas dos jogos, o maratonista queniano Samuel Wansiru. Quem viu a corrida pela TV se espantou com o sprint do garoto de 21 anos nos quilômetros finais, deixando os adversários para trás como se eles estivessem caminhando em marcha lenta.

Ficou na história também o desempenho da zimbabuana Kirsty Coventry, que deu a seu país nada menos do que quatro medalhas na natação, uma de ouro e três de prata.

Nos esportes coletivos o continente passou em branco, com a brava exceção da Nigéria, medalha de prata no futebol masculino. Se não foi brilhante, teve alguns momentos que resgataram parte do prestígio do continente no esporte, como a vitória sobre a Bélgica na semifinal.

E as decepções? Sem dúvida esperava-se mais da África do Sul. A maior potência econômica, militar e política do continente ficou com uma solitária medalha de prata no salto em distância masculino, apesar de ter chegado a Pequim com muitas esperanças na natação e atletismo.
E o que dizer do Egito, a segunda maior potência continental? Foi pior ainda, com um bronze no judô e só.
Temos agora quatro anos até Londres, mas por um bom tempo ainda a participação olímpica africana continuará a ser sinônimo de um punhado de corredores altos e magrelos fazendo os adversários comerem poeira.
Escrito por Fábio Zanini às 16h41
Petróleo: o (mau) exemplo africano
Lula está encantado com o pré-sal. Na reunião com seus aliados no Congresso, anteontem, passou quase todo o tempo com a boca cheia d’água, fazendo planos para o uso da enorme reserva petrolífera que acaba de ser descoberta em águas ultra-profundas numa faixa que vai do litoral de São Paulo ao do Espírito Santo.
O petróleo vai ajudar o Brasil a eliminar a miséria, diz o nosso presidente. O discurso parece novo, mas não é. Lula poderia dar uma olhadinha no que aconteceu (e ainda acontece) do outro lado do Atlântico.
A África oferece vários excelentes exemplos do que não fazer com a riqueza gerada por descobertas inesperadas de petróleo. Por lá, petróleo é uma maldição. Uma vez perguntei a um empresário em Hargeisa, a capital da região autônoma de Somaliland, na Somália, o que ele achava que iria acontecer se um dia começarem a extrair o petróleo que se suspeita exista por lá. “Espero que esse dia nunca chegue”, disse ele.
Veja alguns bons (na verdade, maus) exemplos do que aconteceu no continente.
Angola

É o novo Xangri-lá do petróleo internacional. Nos últimos cinco anos, o país transformou-se na segunda maior potência petrolífera africana, atrás apenas da Nigéria. Já é o maior fornecedor para a China, por exemplo. Por isso, desde 2004 o país cresce a uma média de 15% ao ano. Mas, num país de instituições fracas e com um mesmo grupelho dominando a política há três décadas, pouco disso chegou à população. Mais de 70% dos angolanos vivem abaixo da linha de pobreza. Pior ainda, o influxo de petrodólares fez os preços dispararem no país. Por enquanto, o petróleo serve apenas para dar mais caviar, queijos franceses e Land Rovers a uma elite minúscula. E para fomentar ainda mais uma gigantesca cultura de corrupção.
Presidente: José Eduardo dos Santos
Há quanto tempo no poder: 29 anos
Produção diária de petróleo: 1,26 milhão de barris
População abaixo da linha de pobreza: 70%
Chade

O país no centro da África, um dos mais isolados e pobres do mundo, teve a oportunidade de sua vida no início dos anos 90. Sem acesso ao mar, o Chade precisava de um oleoduto para escoar sua produção petrolífera, e o Banco Mundial resolveu bancar o projeto... contanto que o dinheiro fosse usado para investimentos sociais e investindo num fundo para assegurar parte da riqueza às novas gerações. Mas na primeira oportunidade o ditador Idriss Deby rasgou o contrato. Hoje, gasta a maior parte das reservas em armas.
Presidente: Idriss Deby
Há quanto tempo no poder: 18 anos
Produção diária de petróleo: 176 mil barris
População abaixo da linha de pobreza: 80%
Nigéria

O maior produtor de petróleo da África, o país mais populoso, um dos mais miseráveis, corruptos e instáveis. Concidência? Provavelmente não. Apesar das reservas gigantescas, falta energia e combustível no país. Mais um exemplo de país em que o petróleo abastece o luxo de uma elite. Em reação a isso, grupos guerrilheiros infestam a região do delta do rio Niger, a maior área produtora, exigindo que uma parcela maior do dinheiro gerado seja investido localmente.
Presidente: Umaru Yar’Adua
Há quanto tempo no poder: 1 ano
Produção diária de petróleo: 2,44 milhões de barris
População abaixo da linha de pobreza: 70%
Guiné Equatorial

Um país minúsculo, formado por uma ilhazinha e um pedaço continental. E um dos regimes mais repressivos do continente africano (e olha que a disputa por esse título é dura). A ilha fica bem no meio do Golfo da Guiné, considerado uma das novas fronteiras de exploração do petróleo. Os EUA já estão crescendo o olho para lá, e por isso ajudam a manter no poder o ditador local.
Presidente: Teodoro Obiang Nguema
Há quanto tempo no poder: 29 anos
Produção diária de petróleo: 396 mil barris
População abaixo da linha de pobreza: 80%
Perceba a relação entre riqueza do petróleo e longevidade do presidente no poder (a Nigéria é a exceção que confirma a regra).
Poderia citar outros exemplos: o Sudão, onde árabes do norte e negros do sul duelam sobre a riqueza subterrânea; São Tomé e Príncipe, que ainda nem começou a explorar o petróleo e já sofreu tentativa de golpe por uma parte da elite local; ou o Gabão, um país em que os petrodólares destruíram a economia local.
O Brasil tem instituições, imprensa livre e um presidente eleito democraticamente, o que fará muita diferença na hora de aplicar os recursos do petróleo. Mas não custava o presidente Lula baixar um pouco o tom ufanista com o pré-sal e dar uma olhadinha no mau exemplo africano.
Escrito por Fábio Zanini às 20h26
Agora, somos todos Nigéria
Enquanto passamos vergonha (de novo) nas Olimpíadas, os nigerianos festejam. Estão em êxtase com a vitória de sua seleção sobre a Bélgica por
Este é a página do Kick Off, um site especializado em esportes:
http://www.kickoffnigeria.com/static/news/article.php?id=2461
Numa entrevista, o técnico Samson Siasia manda a cautela para as favas: “Chegamos tão perto do ouro. Nada mais será suficiente. Não podemos ir para casa sem”.
Já o Daily Triumph chama a seleção de “show de quatro estrelas” (referência ao número de gols, penso eu).
http://www.triumphnewspapers.com/nig2082008.html
O destaque dos nigerianos é Chinedu Obasi, de 22 anos, que joga na Alemanha e marcou duas vezes contra a Bélgica. Tem ainda um atacante chamado Obinna, nome de craque, como sabem os flamenguistas (apesar de a fase do brasileiro não andar muito boa...).
A Nigéria está pior do que nós no quadro de medalhas. Não ganhou nenhuma ainda, apesar de ser o país mais populoso da África (140 milhões) e uma potência regional.
Merece, portanto, ganhar o ouro dessa vez. Sem falar que joga contra a Argentina. Alguma dúvida para quem torcer?
Escrito por Fábio Zanini às 20h53
Mais um recorde mundial para o Zimbábue
Chegou a 11 milhões por cento a inflação anual do Zimbábue. Como calculam isso? Não tenho a menor idéia. Chega uma hora em que é impossível qualquer cálculo estatístico sério numa situação dessas.
Somente no último mês, a inflação subiu 9 milhões por cento. A moeda já é uma irrelevância, e as pessoas têm preferido o escambo de produtos. A roda da história anda para trás na terra de Robert Mugabe.
Não é a mediação sul-africana, não é a pressão internacional, não é a oposição, não são os sindicatos, não são os países ricos.
O que pode mudar o regime e derrubar o ditador é a hiperinflação. Uma hora a coisa explode.
Escrito por Fábio Zanini às 20h52
Por que os africanos correm tanto?
A Olimpíada de Pequim vem reforçando um dos maiores mistérios do esporte mundial. Por que raios os países do leste da África, sobretudo Quênia e Etiópia, têm tantos campeões e recordistas nas provas de longa distância do atletismo?
Até o momento em que escrevo (13h de segunda-feira), o Quênia já ganhou duas medalhas de ouro (
Na foto está o queniano Brimin Kiprop Kipruto, medalha de ouro nos 3.000 com obstáculo masculino.

Analisando a história de medalhas desses países, o quadro é ainda mais impressionante. A Etiópia já ganhou 31 medalhas olímpicas (das quais 14 de ouro) e todas, absolutamente todas, vieram do atletismo de longa distância. Pelas ruas de Addis Ababa, a capital do país, outdoors e cartazes celebram os grandes heróis do país, como Abebe Bikila, campeão da maratona nos anos 60, e mais recentemente, outro maratonista, Haile Gebreselassie. Este, um verdadeiro popstar em seu país.
O Quênia já conquistou 61 medalhas, das quais 17 de ouro. Com exceção de seis no boxe, todas foram no atletismo.
Como pode? Muito já se especulou sobre isso. Há uma teoria que responsabiliza a composição genética e anatômica dos habitantes do leste africano (eles são magros e de pernas longas). Outros atribuem o sucesso ao ambiente montanhoso daquela região: treinados desde pequenos a conviver com menos oxigênio no ar, os corredores teriam mais facilidade ao competir em longas distâncias. E há os engraçadinhos que juram que os africanos são treinados desde crianças a fugir dos leões.
É um pouco de tudo, segundo professor-titular da Escola de Educação Física da Universidade de São Paulo Antônio Carlos Simões. “Eu diria que há três fatores: o cultural, o biológico e o de treinamento”, diz.
Para Simões, que já foi treinador da seleção brasileira de handebol, o fator cultural tem um pouco a ver com a piada de fugir dos leões. “É uma teoria aceita pela comunidade científica que o fato de essas pessoas andarem
No quesito biológico, os quenianos e etíopes têm no organismo uma maior quantidade de fibras musculares de contração rápida. São essas fibras que concentram a energia do corpo e dão aos africanos uma vantagem natural.
É para arrancar o máximo de energia delas, aliás, que os corredores usam macacões apertados, como se estivessem espremendo o suco de uma laranja.
Por fim, segundo o professor, há uma verdadeira indústria de corredores de longa distância no Quênia e na Etiópia. “É o diferencial deles. Desde pequena, a criança que mostra algum talento é treinada para ser um campeão em modalidades mais longas. Eles não perdem tempo com provas mais curtas, porque sabem que não é o seu forte”.
O fato é que em poucas modalidades esportivas há um domínio tão claro de atletas de uma região específica. Pode esperar mais medalhas para estes dois países viciados em atletismo.
p.s.: para quem se interessar, há um artigo na revista Time sobre a rivalidade etíope-queniana.
http://www.time.com/time/magazine/article/0,9171,901040816-678578,00.html
Escrito por Fábio Zanini às 12h49
A síndrome do carro branco
Imagine que você é um refugiado de guerra. Sua pequena roça no meio da selva foi invadida por algum grupo revolucionário que usa slogans nobres de justiça e desenvolvimento social como fachada para o mais puro banditismo.
Você foge no meio da noite, possivelmente após ver membros de sua família serem mortos ou estuprados. Caminha por dias sem água nem comida até chegar a um acampamento para refugiados. Olha para o lado, vê milhares de soldados de forças de paz da ONU defendendo o local e pensa que sua tragédia pessoal está chegando ao fim.
Quando na verdade ela vai ficar pior, justamente por culpa de quem deveria estar ali para oferecer proteção.
É mais ou menos isso o que acontece no leste do Congo, mais especificamente em Goma, a maior cidade da região. Na foto, você vê um campo de refugiados que visitei por lá.
Goma é a capital das forças de paz da ONU no centro da África, uma cidade miserável, quente, sem ruas asfaltadas e abarrotada de refugiados. No aeroporto, ficam as bases de vários países que ofereceram tropas para a maior força de paz do mundo, com cerca de 20 mil homens, que tenta aos trancos e barrancos dar alguma estabilidade a uma região muito volátil.
Acontece que as tropas de paz aprontam das suas e se aproveitam de populações traumatizadas, inclusive sexualmente.
Há alguns anos estourou um escândalo de que soldados das forças de paz estariam mantendo relações sexuais com congolesas menores de idade. Os soldados seduziriam meninas de até 12 anos com notas de 1, 5, ou 10 dólares. É um dinheiro que acaba ajudando a pôr comida na casa de muitas famílias do local. A prostituição muitas vezes é encorajada pela própria família da jovem.
A ONU primeiro fingiu que não escutou, depois abriu uma investigação. Acaba de sair o primeiro relatório, referente a um dos maiores contingentes da força de paz, o da Índia. Ele constata oficialmente o que já se sabia: houve abuso sexual de meninas por soldados.
“O relatório reitera, da maneira mais forte possível, que esse comportamento é totalmente inaceitável”, disse o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.
Tropas de paz podem ser necessárias em muitos casos, mas não saem de graça. Elas causam efeitos colaterais nos locais onde atuam, que alguns chamam de “síndrome do carro branco”. É a cor dos veículos da ONU.
Do dia para a noite, milhares de soldados e uma burocracia infernal, com seus salários em dólar, chegam a lugares paupérrimos. O resultado você pode imaginar: preços de produtos e serviços explodem, doenças e alcoolismo aumentam, além da prostituição.
Quando eu estive em Goma, em maio, a economia estava toda dolarizada. Um croissant saía por 1 dólar, quase nada para o pessoal da ONU, mas uma fortuna para os moradores do local.
O escândalo sexual no Congo foi devastador para a credibilidade das tropas internacionais. Tanto que em Goma, a cada esquina, há cartazes lembrando os soldados de que é ilegal envolver-se em prostituição infantil.
Mas é o máximo a que se pode chegar. Se alguém achar que os soldados indianos (uma minoria, certamente) será punido, esqueça. A Índia é um país muito grande e muito poderoso dentro da estrutura das Nações Unidas para se preocupar com qualquer represália.
Escrito por Fábio Zanini às 21h44
Um brasileiro na campanha de Angola
Durante as últimas três décadas, o jornalista Carlos Monforte foi um dos rostos mais conhecidos da Rede Globo.

Ele agora está licenciado da emissora para um período em Angola, onde é o coordenador da campanha do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), o partido que liderou a independência do país e se mantém no poder há 33 anos. É sua primeira experiência em campanhas eleitorais.
No dia 5 de setembro, pela primeira vez desde 1992, os angolanos vão às urnas, para elegerem seus representantes no Congresso (a eleição presidencial está marcada para o ano que vem).
O partido para o qual Monforte trabalha é franco favorito, e se beneficia de um espetacular crescimento econômico, de cerca de 30% do PIB anualmente, ou três vezes o que cresce a China. O motivo é o aumento na exploração e nas exportações de petróleo.
Mas muito pouco até agora chegou ao bolso dos angolanos mais pobres. O país ainda é um oceano de favelas e miséria com algumas ilhas de luxo e riqueza. O crescimento pode estar tendo até um efeito colateral perverso: a enxurrada de petrodólares fez de Luanda, a capital do país, uma das cidades mais caras do mundo. O aluguel de um apartamento médio pode custar incríveis 10 mil dólares.
Direto da capital, Monforte deu uma entrevista por email ao blog e conta um pouco de sua vida e de como é fazer uma campanha em Angola, segundo ele ainda muito amadora.
Monforte lidera uma equipe com 58 brasileiros e 61 angolanos, e trabalha para a Propeg, uma agência baiana que já fez campanhas no país no passado.
Pé na África - Quantos brasileiros hoje trabalham com você na campanha do MPLA?
Monforte - Somos 119 profissionais aqui em Angola, dos quais 58 brasileiros e 61 angolanos.
Pé na África - São todos ligados à Propeg?
Monforte - O critério foi escolher bons profissionais de cada área. Nem todos pertencem ou pertenciam à Propeg.
Pé na África - Como surgiu o convite para o trabalho? Você tem experiência com campanhas políticas no Brasil?
Monforte - Eu já conhecia o presidente da Propeg, Fernando Barros, que me fez o convite, apostando apenas na minha experiência profissional: é a primeira campanha eleitoral em que eu trabalho.
Pé na África - Você sabe se há brasileiros também na campanha da Unita e de outros partidos de oposição?
Monforte - Não sei se há brasileiros em outras campanhas. O que sabemos, sem confirmação, é que existe uma empresa portuguesa trabalhando para a Unita.
Pé na África - Por que você acha que os angolanos gostam tanto de contratar brasileiros para fazer campanhas? Que eu me lembre, antes de você, trabalharam em Angola o jornalista Ricardo Noblat e o publicitário Edson Barbosa, que hoje faz o marketing do PSB...
Monforte - Há vários motivos. O primeiro é que os brasileiros são bons nisso. Segundo é o fator língua. E a Propeg já havia trabalhado na campanha das primeiras eleições angolanas da história, em 92. Nela, trabalhou pela Propeg o Noblat, como coordenador, cargo que eu ocupo agora.
Pé na África - Quais são os principais temas da campanha por aí?
Monforte - Os principais temas são fome, pobreza, geração de empregos -claro que o MPLA, dono do poder, que detém há mais de 30 anos, procura mostrar suas realizações. Os demais batem, criticam.
Pé na África - Como o crescimento espantoso do país, de quase 30% ao ano (três Chinas) está presente na campanha?
Monforte - O MPLA faz uma campanha otimista, dizendo que já fez muito nesses seis anos de paz e, modestamente, diz que ainda falta muito por fazer. A verdade é desses 30 anos de poder, a maior parte do tempo foi gasta
Pé na África - Há horário gratuito de TV por aí? Ou a campanha é toda paga com anúncios?
Monforte - Há debates, principalmente entre técnicos dos partidos e geralmente nas rádios que, aliás, não são obrigadas a veicular o chamado "tempo de antena", o nosso horário eleitoral.
Pé na África - Há debates entre os principais candidatos?
Monforte - Como disse, o tempo de antena é veiculado pelas emissoras estatais - rádio (Rádio Nacional) e televisão (a TPA - televisão pública de Angola).
Pé na África - Que diferenças de formato você identifica entre as campanhas no Brasil e em Angola? Existem jingles, vinhetas, participação de artistas?
Monforte - A campanha do MPLA, por ser feita por agência brasileira, claro, tem jeito brasileiro. Tem jingle, vinhetas, e pode ter artistas, se eles quiserem. Nada contra. Mas a maior parte da propaganda dos partidos (são 10 partidos e 4 coligações em disputa) é muito fraca, pobre em efeito e realizada de maneira amadora. Mas isso é compreensível: é a segunda eleição em Angola desde a independência. E essa é uma eleição apenas legislativa, em lista fechada. Não há candidatos, apenas partidos.
Pé na África - Foi difícil se adaptar à vida aí? Luanda é uma das cidades mais caras do mundo. Você já se acostumou aos preços e aos valores de aluguéis?
Monforte - Até que vivo uma situação cômoda por aqui. Estou instalado em hotel, com meia pensão, portanto, não tenho de gastar muito dinheiro
Pé na África - Essa é a primeira eleição em Angola em 16 anos. Qual o interesse que isso está despertando na população angolana? Há confiança de que a eleição será transparente?
Monforte - A população, no começo, ficou meio temerosa, afinal no meio da última eleição recomeçou uma guerra cruel. Mas agora parece que as coisas estão mais tranqüilas. E a democracia está sendo levada a sério. Vários observadores internacionais já chegaram por aqui, para fiscalizar o processo.
Pé na África - Vocês importaram para a campanha alguma idéia, formato ou programa de governo do Brasil?
Monforte - Claro, alguma coisa é sempre importada, mas são realidades diferentes.
Pé na África - Qual a participação do presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, no dia a dia da campanha do MPLA?
Monforte - O presidente José Eduardo, por enquanto, tem uma atitude de estadista: abriu a campanha e não se envolveu. Mas como ele é o presidente do MPLA, a qualquer momento é possível que ele entre na campanha. Vamos ver.
Escrito por Fábio Zanini às 11h22
Para o Zimbábue, a primeira medalha africana
A única medalha olímpica para a África negra até o momento que escrevo, 20h30 de segunda-feira, foi ganha por uma branca (a Argélia levou um bronze, mas faz parte do mundo árabe).
Kirsty Coventry, como se a ironia não fosse suficiente, é do Zimbábue.

A medalha veio nos
Kirsty é uma mocinha de 24 anos que treina em Alabama, nos EUA, e conseguiu a façanha de momentaneamente suspender as tensões latentes entre a minoria branca do Zimbábue e os brucutus que circundam o governo de Robert Mugabe. Tio Bob mesmo já se derreteu por ela, chamando-a de “nossa garota de ouro”. Em 2004, na Olimpíada de Atenas, ela ganhou três medalhas.
À primeira vista, o triunfo da zimbabuana branca pode parecer um retrocesso, a prova definitiva de que apenas os descendentes da elite colonial britânica têm condições decentes de vida por lá. Há um pouco de verdade nisso. Os brancos hoje são apenas 25 mil no Zimbábue, e vivem em seus guetos. Em Harare, a capital, reúnem-se no clube de críquete, um esporte que dominam, que tem um pub bonitinho com mesas charmosas de madeira, carpete verde e grama cortadinha no campo, de estilo bem inglês.
Quando eu visitei o local, lá pelo final de março, encontrei uma meia dúzia de senhores de meia idade melancólicos, tomando sua cervejinha ao meio-dia e fumando incessantemente. Nostálgicos por um tempo em que podiam andar despreocupados pelas ruas, não por medo da maioria dos negros do Zimbábue, mas de um punhado de radicais que sustentam o governo.
Há 30 anos, os brancos eram 10 vezes mais numerosos. Mas começaram a sair do país quando Mugabe engatou uma reforma agrária na marra, distorcendo o argumento (real) de que eles controlavam uma fatia desproporcional das terras mais férteis. Bob mandou capangas prender e arrebentar fazendeiros e expulsou-os sem compensação financeira, destruindo vidas inteiras de trabalho.
Preferiu o caminho do confronto, no que foi ajudado também, diga-se, pela falta de sensibilidade do governo britânico de Tony Blair, que suspendeu sem mais nem menos a ajuda financeira que dava para a reforma agrária no Zimbábue. A produção despencou, e foi a gênese de um processo de desastre econômico num país eminentemente agrícola.
Kirsty, talvez por isso, costuma desconversar quando questionada sobre política. Seus pais, que têm uma indústria química funcionando no Zimbábue (outra façanha, aliás), também se mantêm discretos.
Mas a medalha de prata na verdade é um lembrete de que às vezes o país ainda se une e conserva resquícios de orgulho nacional. E que na piscina e nas quadras, negros e brancos são apenas zimbabuanos.
Ontem, mesmo o Herald, o jornal que serve de porta-voz do governo e que costuma colocar brancos apenas na condição de vilões de todos os problemas do país, não resistiu a abrir sua edição com um “sensacional!”, e derramou-se em elogios.
Fora a medalha de Kirsty (possivelmente medalhas, já que ela ainda tem bastante chance na natação), o que resta para a África? Os sul-africanos têm chances também na natação, e é claro, os etíopes e quenianos nas provas de longa distância do atletismo.
Muito pouco para um continente inteiro, obviamente.
Escrito por Fábio Zanini às 20h43
Vem aí o ensino de História da África
Como sabemos, algumas leis no Brasil pegam e outras não. A Secretaria de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República está fazendo um esforço para que a lei 10.639, aprovada pelo Congresso Nacional há distantes cinco anos, finalmente saia do papel.
É a lei que institui a disciplina de História da África no currículo do ensino básico nas escolas públicas e privadas. Por enquanto, a lei está sendo solenemente ignorada por virtualmente todas as instituições de ensino. Segundo a própria secretaria, as poucas escolas que adotam a disciplina fazem de forma improvisada, sem saber direito o que está sendo ensinado.
O governo promete agora endurecer no cumprimento da legislação. Para isso, elaborou um “plano de implementação” já a partir do ano que vem.
Parte da dificuldade em implantar a lei é conseqüência de um velho costume brasileiro. Aprova-se a medida, fazem-se discursos, os deputados e senadores posam para fotos e vão felizes para casa. Mas aí entra o mundo real, sobre o qual ninguém havia pensado antes.
Não havia professores capacitados para dar as aulas, não havia uma bibliografia, não havia conteúdo pronto e não havia nem livros para os alunos usarem. Em resumo, a lei foi aprovada e ninguém tinha a menor noção do que ocorreria a seguir.
O plano traçado pelo governo começa pelo básico: formar professores. Uma primeira turma de 3.000 passou por um processo de treinamento, tendo aulas sobre história da África e noções de como ensinar o tema aos alunos. Mais 3.000 serão treinados até o final do ano. O total de 6.000 professores é suficiente para começar a tocar o barco, diz o governo.
Além disso, livros didáticos, sob a supervisão do Ministério da Educação, estão sendo feitos. Quatro estarão prontos em dezembro, segundo a previsão do governo, e mais quatro no ano que vem.
No ano que vem, lentamente, em algumas escolas das redes públicas e privadas, crianças da primeira série começarão a ter essas aulas. Em alguns anos, a disciplina chegará a todos os cantos do país.
O enfoque será na relação da África com o Brasil, dos navios negreiros à escravidão nos engenhos, passando pelos quilombos e a luta pela abolição. E também mencionando a influência africana na cultura, na religião, alimentação etc.
A idéia é boa? Sem dúvida. O Brasil tem o mau hábito de ignorar a contribuição que africanos, asiáticos e latino-americanos deram a sua história e se concentrar apenas no papel que as potências européias tiveram.
Mas é preciso esperar para ver que disciplina é essa para uma avaliação mais completa. Em especial, o que dirão os livros e qual será o conteúdo. O ensino de história não é neutro, e o risco de uma boa iniciativa ser usada de forma distorcida, como instrumento de revanchismo, existe.
Pior ainda seria fazer do ensino de História da África um trampolim para uma agenda política controversa que inclui, por exemplo, criação de cotas em universidades, propagandas e programas de TV, além de indenizações milionárias para descendentes de escravos.
Seria um triste fim para uma bela idéia.
Escrito por Fábio Zanini às 19h21
Meu comercial
Fiquem de olho na página principal do UOL hoje. Participo de um bate-papo às 15h.
Escrito por Fábio Zanini às 19h57
Defendendo ditadores
Ditadores africanos são seres vaidosos. Prendem e arrebentam em casa, mas costumam se preocupar com sua imagem no exterior.
Um pouco é uma questão de sobrevivência. Ditadores precisam de investimentos estrangeiros para manter seu regime minimamente funcionando e de apoio militar para repelir um ou outro golpezinho de Estado eventual.
Uma coisa que eles adoram é contratar a preço de ouro lobistas, assessores de imprensa e consultores de imagem nos EUA e na Europa para mostrar uma imagem benévola que jornalistas estraga-prazeres insistem em ignorar. Ás vezes o resultado é cômico, como mostra uma reportagem da revista norte-americana New Republic, que você pode conferir nesse link (em inglês):
http://www.tnr.com/story_print.html?id=0b37d029-cdc6-4ad3-9ab8-6bf386bb5469
O autor entrevistou uma série de lobistas para as figuras mais bizarras da África. Entre eles um sujeito que tentava a missão impossível de promover o rei da Suazilândia, um micropaís espremido entre a África do Sul e Moçambique que tem a duvidosa honra de ser o campeão mundial de incidência de AIDS. Mais de 40% da população têm o vírus.
É hilário o trecho em que o rei suazi, Mswati III, joga anos de um trabalho de relações públicas pela janela quando se recusa a abolir o ritual tradicional de escolha de mais uma esposa...
Escrito por Fábio Zanini às 19h56
A culpa pelo genocídio de Ruanda
Mais um capítulo de uma história muito mal resolvida.
O governo de Ruanda ontem divulgou um relatório em que acusa formalmente a França de ser conivente com o genocídio de 1994. Como se fosse pouco, pede nada menos do que a punição a três ex-primeiros-ministros (Edouard Balladur, Alain Juppé e Dominique de Villepin) e aponta o dedo para um totem da política francesa, o falecido presidente François Mitterrand.
As acusações são de que os franceses financiaram e forneceram apoio político e logístico para que o então regime hutu organizasse e executasse o mais rápido genocídio da história moderna. Em menos de três meses, mais de 1 milhão de cidadãos da etnia tutsi, rival histórica dos hutus, foram massacrados.
Não é a primeira vez que Ruanda aponta o dedo para os franceses, mas nunca as acusações haviam sido tão fortes. Segundo o relatório, soldados franceses participaram ativamente da matança ao lado dos extremistas de Ruanda.
Há um dedo de exagero e de disputa política nesse relatório, mas o papel vergonhoso dos franceses no genocídio é difícil de negar. Sempre preocupada em proteger sua esfera de influência na África,
No caso de Ruanda, os franceses apoiavam os hutus desde os anos 70, e inundaram o país de armas de fogo e mesmo facões e machados nos meses anteriores ao começo do genocídio. E no final, quando rebeldes tutsis comandados pelo atual presidente, Paul Kagame, invadiram o país, soldados franceses protegeram os genocidários e ofereceram a eles uma rota de fuga para o Congo. Muitos estão ali escondidos até hoje.
Há alguns anos, os franceses iniciaram uma investigação contra Kagame, acusando-o de ter ordenado a derrubada do avião que carregava o presidente de Ruanda em abril de 1994, que foi o estopim do genocídio. Os dois países chegaram a romper relações. Em Kigali, a capital de Ruanda, há uma comissão permanente do governo simplesmente dedicada a investigar o papel francês no genocídio.
Recentemente, a coisa havia melhorado um pouco, com os dois países reatando seus laços diplomáticos. O atual chanceler francês, Bernard Kouchner, tem uma relação antiga com Kagame, de desde a época do genocídio, quando trabalhava numa organização humanitária, a Médicos sem Fronteiras.
Agora, a coisa deve azedar de novo. A França já respondeu ao que considera “acusações inaceitáveis”. Os pedidos de indiciamento dos figurões franceses certamente serão ignorados (Ruanda não tem como invadir a França como os EUA fizeram no Iraque, evidentemente).
Nada que ofereça algum tipo de conforto para os milhares de órfãos e viúvas cujo único consolo é visitar os incontáveis memoriais pelo país, abarrotados de crânios...

Escrito por Fábio Zanini às 12h47
Finalmente, eleições em Angola
Veja como são as coisas na África.
José Eduardo dos Santos (na foto, com George Bush), presidente de Angola, acaba de criar uma sensação no país. Primeiro, porque fez um pronunciamento no rádio, coisa que deveria ser normal, mas que é considerada excepcional num país desacostumado à democracia.

E segundo porque declarou que haverá eleições parlamentares de quatro em quatro anos! Revolucionário!
É incrível como algo que deveria ser trivial, a realização de eleições periódicas, vira algo extraordinário. Mas Angola é assim. A última eleição ocorreu no distante ano de 1992. O presidente está no poder desde 1979 –completa 30 anos de mandato no ano que vem.
Claro que uma guerra civil brutal, das maiores que esse continente já viu, e que deixou 2 milhões de mortos segundo algumas contagens, contribuiu para o longo período sem eleições.
Mas Angola já está em paz há seis anos, e a guerra civil continuou sendo usada pelo presidente e seu partido, o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), como um pretexto para adiar sucessivamente as votações. Nesse período, mesmo países muito mais instáveis, como Iraque e Afeganistão, realizaram eleições.
Agora, aparentemente, vai. Em 5 de setembro acontecem as eleições legislativas, as primeiras em 16 anos. As presidenciais,
E será que alguma coisa vai mudar? Eleições são saudáveis, evidentemente, desde que realizadas de forma minimamente livre e transparente. Mas é mais fácil o papa se casar com a Xuxa que o MPLA sair derrotado.
A Unita, o tradicional partido de oposição, ainda carrega o estigma de ter sido apoiado pelo regime racista sul-africano durante a guerra, e não tem muita moral com grande parte da população, especialmente nas áreas costeiras.
Mais importante ainda, partido nenhum que está no poder vai concedê-lo de mão beijada para a oposição num momento em que a economia cresce a 30% ao ano, em que o petróleo jorra nos bolsos da elite angolana. E se jorra na elite, jorra na dos políticos também.
Escrito por Fábio Zanini às 11h51
Minha entrevista ao UOL
Resisti bravamente, apesar de apelos, a colocar minha cara no blog (era sobre a África, não sobre mim), mas agora não deu. Dei uma entrevista ao jornalista Diogo Pinheiro, do UOL, que vocês podem conferir abaixo. Ok, admito que deveria ter feito a barba...
Escrito por Fábio Zanini às 16h18
O futuro da África do Sul
Passa por Pietermaritzburg, essa cidade de nome quase impronunciável, o futuro da África do Sul. Consequentemente, do continente como um todo.
Começou hoje o julgamento de Jacob Zuma (foto), favorito absoluto para ser o próximo presidente sul-africano, a partir do ano que vem. Zuma, um ex-vice-presidente do país, é um populista que faz o marketing de ‘homem do povo‘ e tem o apoio maciço de sindicalistas e movimentos sociais que compõem o partido governista, que ele preside.

É uma figura muito polêmica. Num país com o maior número de infectados por Aids do mundo, ele conseguiu dizer, certa vez, que se previne contra a Aids tomando uma ducha logo após o ato sexual. Ainda mais grave, é acusado de corrupção, tráfico de influência e lavagem de dinheiro. Em 2005, um ex-assessor seu foi condenado por cobrar propina de uma empresa de armas, mas Zuma incrivelmente escapou. Agora, há novas acusações de que ele pessoalmente recebeu propinas de uma empresa francesa de armas, a Thint.
O julgamento já virou um espetáculo político. Apoiadores de Jacob Zuma, uma turma famosa pela truculência, cercam o prédio em que o julgamento acontece e prometem confusão se seu ídolo for condenado -o que o deixaria de fora da corrida presidencial.
Zuma é um quadro antigo do Congresso Nacional Africano, o movimento histórico que assumiu a dianteira na luta contra o apartheid, e que há duas décadas colhe os frutos políticos por isso. Nos anos 70, fez treinamento de guerrilha na Suazilândia sob o comando do atual presidente, Thabo Mbeki, que hoje, ironicamente, é seu maior adversário.
E o que esperar de um governo Zuma? Ele pode surpreender positivamente, como nas suas bem-vindas críticas ao ditador do Zimbábue, Robert Mugabe, mas o receio de que a superpotência africana acabe nas mãos de alguém com fama de picareta é palpável.
Para um país que já teve Nelson Mandela como presidente, chega a ser deprimente.
Escrito por Fábio Zanini às 12h10

Fábio Zanini