Fábio Zanini

Pé na África

 

Congo: “a situação é crítica”

Na última semana um conflito intermitente voltou ao noticiário. A guerra civil no leste do Congo, uma das mais complicadas hoje do continente, com uma infinidade de exércitos, grupos e bandidos comuns disputando controle sobre uma região rica em minerais, reacendeu-se.

 

Dessa vez, o estopim foi um general congolês de nome Laurent Nkunda, que abandonou o fraco e dividido exército do país para perseguir remanescentes do regime genocida de Ruanda que há 14 anos se refugiaram no Congo. Há o eterno componente tribal que assola a região: Nkunda é um tutsi, os genocidas são hutus.

 

Tudo muito nobre, se Nkunda não cometesse sua cota de atrocidades pelo caminho. Na semana passada, pelo menos 20 mil pessoas fugiram em pânico em direção à maior cidade da região, Goma. É lá que fica estacionada a maior, e talvez menos eficiente, força de paz da ONU do mundo, a Monuc, com 17 mil soldados.

 

Estive em Goma em maio, num raro intervalo de tranqüilidade, e lá conheci o vice-diretor do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), o moçambicano Antonio José Canhandula.

 

Na quarta-feira, entrevistei-o por telefone, desde Kinshasa, capital do Congo. Desde então, as tropas de Nkunda, que somam algo como 5.000 soldados, cercaram Goma, levando pânico à cidade de 600 mil habitantes, um lugar horroroso, imundo, calorento e fervendo com refugiados de outras ondas de violência (veja foto que fiz num campo de refugiados).

 

 

Nkunda, neste momento (noite de sexta-feira) permanece estacionado às portas da cidade, num ato explícito de chantagem política.

 

A seguir, a entrevista com Canhandula:

 

Pé na África - Qual a situação na região?

Antonio José Canhandula - É seriíssima. Nós temos um pequeno escritório em Rutshulu [cidade a 90 km de Goma, já invadida pelos rebeldes], nossos colegas estão escondidos na base da Monuc [força de paz da ONU]. Nós queríamos ter evacuado as pessoas, mas a população impediu.

 

Pé na África - Os rebeldes vão entrar em Goma?

Canhandula - Possivelmente já se infiltraram em Goma, junto com a população que fugiu. Mas não há muitos detalhes.

 

Pé na África - Quantos refugiados há hoje em Goma?

Canhandula - Não há uma contagem certa, porque a situação ainda é muito fluida. Pelo dizer do representante especial da ONU, pelo menos 20 mil pessoas estão a caminho de Goma.

 

Pé na África - Se os rebeldes invadirem Goma o que pode acontecer?

Canhandula - É um pouco de especulação. A informação que nós temos é que os rebeldes já se infiltraram em Goma, sob cobertura de populações deslocadas.

 

Pé na África - Qual a situação dos refugiados? Existe água, comida, proteção?

Canhandula - Nessa altura é um bocadinho difícil saber qual é a situação, porque mesmo o nosso pessoal está sendo evacuado, que é quem tinha a responsabilidade de visitar o campo. Não têm acesso. Estamos impossibilitados de sair de Goma para ajudar as pessoas que estão chegando. Nosso chefe do escritório conseguiu chegar até lá ontem, mas foi um esforço muito maior para sair da cidade.

 

Pé na África - Vocês temem um massacre se os rebeldes chegarem a Goma?

Canhandula - É um pouco difícil falar disso. A situação é crítica, é verdade, mas falar de massacre é um pouco arriscado.

 

Pé na África - O sr. confia que a Monuc vai proteger os refugiados?

Canhandula - Nessa altura, não se sabe muito bem qual a força da Monuc, na medida em que as Forças Armadas abandonaram as suas posições. Há muita preocupação do ponto de vista de assegurar acesso à cidade de Goma.

 

Pé na África - O sr. acha que a situação pode ainda ser controlada?

Canhandula - Há todo um balé de enviados especiais que estão a circular por aqui e por acolá, para ver se a situação pode se acalmar. Preferimos dar tempo às várias iniciativas diplomáticas daqui a alguns dias.

 

Pé na África - Quantas pessoas o Acnur tem na região?

Canhandula - Temos uma dezena de internacionais e uma vintena de nacionais. Trinta no total.

 

Pé na África - Essas pessoas estão protegidas?

Canhandula - Sim, estão, porque temos um sistema de segurança da ONU.

 

Pé na África - Deveria haver um aumento da Monuc para controlar a situação?

Canhandula - Sim, com certeza. O enviado especial da ONU já enviou um pedido ao Conselho de Segurança, mas me dá a impressão que a resposta ainda vai levar um tempinho para chegar.

 

Pé na África - Nesse intervalo, o general Nkunda continua a avançar?

Canhandula - Sim, continua a avançar, e dá-me a impressão de que ele quer exercer uma pressão política, mais ainda do que militar.

 

Pé na África - O sr. acha que ele está usando o combate aos hutus de Ruanda como pretexto?

Canhandula - Eu acho que sim. É uma espécie de chantagem militar para ver se ao nível político se chega a uma espécie de compromisso de negociação.

 

Pé na África - Tropas de Ruanda já estão no Congo?

Canhandula - Isso é uma especulação. As pessoas evitam responder essa pergunta para evitar o agravamento da situação. Não temos nenhuma prova disso. É uma situação muito complexa.

 

Pé na África - Vocês vão evacuar as pessoas do Acnur da região?

Canhandula - Por princípio, quando não podemos funcionar, temos de nos retirar. Não vale a pena ficar e arriscar a vida dos nossos colegas. É possível que se desloque o pessoal de Goma para ser utilizado em outras zonas.

 

Pé na África - Goma é uma cidade sem estrutura para abrigar tantas pessoas que chegam, não?

Canhandula - Sim, muito carente.

Escrito por Fábio Zanini às 22h15

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Conversa com Mia Couto

MAPUTO (MOÇAMBIQUE) - Mia Couto é um dos mais conhecidos escritores africanos da atualidade. Moçambicano de Beira, 53 anos, filho de portugueses (branco, portanto), já foi comparado a Guimarães Rosa e aparece frequentemente na lista de possíveis ganhadores do Nobel de literatura (provavelmente não para breve, no entanto, já que Mia ainda é relativamente jovem e a língua portuguesa ganhou recentemente o prêmio com José Saramago).

 

Ele me recebeu em seu escritório no centro de Maputo, há duas semanas. Na verdade, peguei uma carona com meu amigo Leonencio Nossa, repórter de O Estado de S. Paulo, que havia marcado a entrevista e me convidou para acompanhá-lo. Eu confesso que não conheço nada da obra desse sujeito baixinho e franzino, piadista e hiperativo, que já tem 20 livros publicados, todos tentando decifrar a alma moçambicana.

 

Deixei toda essa parte literária para o Leo perguntar. Mas esse escritor também é um analista muito interessante da sociedade e da política africanas, e suas opiniões eu resumo a seguir.

 

Logo no início, me estranhou o local onde nos encontramos. Que lugar era aquele?, perguntei. Era a sede de uma consultoria de projetos ambientais, da qual o biólogo Mia Couto é diretor. “Não sou apenas escritor, também faço coisas sérias”, afirmou, para quebrar o gelo.

 

Sentamos numa mesa de madeira enorme e nos pusemos a prosear.

 

 

De cara, deu para perceber que Mia é um intelectual que não se conforma com velhos estereótipos e idéias pré-concebidas sobre o continente em que vive. “A África ainda é vista pelo mundo como uma coisa exótica, de um velho contando histórias perto de uma fogueira, dos feiticeiros, dos curandeiros”, disse. Essa, segundo ele, é uma imagem que ignora 50 anos de independência africana, de urbanização dos países, industrialização e formação de algumas das mais barulhentas metrópoles desse planeta (tente contar histórias ao redor de uma fogueira em Lagos, na Nigéria, ou Kinshasa, no Congo, por exemplo...) . Muito pouco de bucólico, portanto.

 

O pior, diz Mia Couto, é que essa imagem é o pilar sobre o qual os africanos construíram suas sociedades. “É alguém que se olha para o espelho, mas esse espelho foi inventado por outro”.

 

Num continente em que se culpa até dor de dente na colonização, como faz Robert Mugabe no vizinho Zimbábue, o escritor moçambicano pede que sejam estabelecidos limites sobre o quanto pode ser debitado na conta da história. “Esse argumento do passado, essa posição vitimista de que a história é contra nós, está saturado. Não se pode pensar que é tudo derivado da herança colonial. Esse discurso tem de terminar”, diz ele.

 

Moçambique é um país considerado modelo de crescimento, democracia e estabilidade na África, mas Mia Couto é um intelectual inconformado. Reconhece os avanços, mas mostra uma certa melancolia.

 

“No fim da guerra, em 1992, tínhamos a crença de que éramos capazes de construir tudo. Fizemos paz, um sistema político aberto, multipardidário, e algumas coisas estão mudando. Temos liberdade de imprensa, de pensamento. Mas há outras coisas que são tristes. Nós pensávamos que iríamos inventar um país com um sistema próprio, fundamentado na cultura moçambicana. E agora percebemos que temos um país como outros. Só temos um nome diferente”, afirma ele.

 

É um paradoxo o que Mia Couto enxerga: para ser um modelo de estabilidade, foi preciso adotar modelos importados que tornam todos os países mais ou menos iguais (reformas macroeconômicas inspiradas pelo FMI, por exemplo). O que vale mais, as vantagens da previsibilidade ou a tristeza da padronização?

 

Mia Couto é também visto como um rebelde, mas, talvez pelo peso da idade, isso tem seus limites. Ele ameaçou se rebelar contra o acordo ortográfico que vai vigorar a partir do ano que vem e padronizará (mais uma padronização...) a língua portuguesa nos oito países que a adotam oficialmente. Mas desistiu: vai se submeter à regra, embora continue crítico dela. “O mais perigoso é que está se criando uma ilusão de que é por essa via que se cria proximidade entre as literaturas dos países lusófonos”.

 

E o Brasil? Mia é um adorador assumido do nosso país, e viaja para cá sempre que pode (virá de novo em dezembro para um seminário). Pergunto a ele se a presença crescente de empresas brasileiras em Moçambique não pode ser vista como uma nova forma de colonialismo. Ele responde de forma surpreendente.  “Nós adoraríamos ser colonizados pelo Brasil. A única maneira de ser independente é ser dependente de vários”.

 

Por ali, como em todos os cantos do mundo, também se vê muita novela da Globo. Ele não gosta, mas é voto vencido em casa. “No horário das novelas, eu tenho de ir para o computador, sou expulso da sala pelo resto da família”. Pior, diz ele, é a imagem distorcida do Brasil que é passada. “Muitos moçambicanos conhecem apenas o Brasil das novelas, esta máscara que se apresenta”.

 

A entrevista vai terminando e pergunto por que raios ele tem uma empresa de consultoria ambiental? Mesmo com todo seu renome não consegue viver só da literatura? Ele diz que conseguiria, mas que não quer.

 

“Eu posso confessar que hoje já conseguiria sobreviver razoavelmente como escritor. Mas não quero, por várias razões. A escrita é uma paixão total, quero manter com ela uma relação lúdica, em que não dependa dela para ganhar dinheiro”.

Escrito por Fábio Zanini às 21h14

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Um museu do comunismo africano

MAPUTO (MOÇAMBIQUE) – Não importa o quanto se entreguem ao livre mercado e aceitem a propriedade privada e a acumulação de capital, esquerdistas muitas vezes têm uma dificuldade enorme em abandonarem sua velha simbologia.

 

No Brasil é o PT que ainda insiste em se dizer socialista (e ai de quem tentar mexer nisso!). Na África, dezenas de países que se abrigaram na órbita soviética após a descolonização, entre as décadas de 50 e 70, hoje estão perfeitamente convertidos às teses de mercado, mas ainda vivem num mundo paralelo –pelo menos nas aparências.

 

Moçambique, então, é um caso extremo. É um dos primeiros da classe do FMI no que se refere à sua política econômica, aberta, desburocratizada (pelo menos para padrões africanos), ortodoxa e previsível. Cresce a taxas invejáveis há mais de uma década e atrai investimentos estrangeiros como ninguém.

 

Mas passear pelas ruas da capital, Maputo, é uma diversão. A nomenclatura das avenidas ainda é da Guerra Fria, de uma época em que os moçambicanos eram fiéis peões do comunismo internacional, adeptos do partido único e da socialização dos meios de produção.

 

Onde mais você encontraria o cruzamento de avenidas com os nomes do líder comunista chinês Mao Tse Tung e de seu colega norte-coreano Kim il Sung ?

 

 

Em que cidade do mundo algumas das vias mais importantes do centro da capital têm nomes como Vladimir Lênin (Lenine, no português deles), Salvador Allende (presidente socialista do Chile) e a dupla de fundadores do socialismo científico, Karl Marx e Friedrich Engels?

 

Não é só.

 

Em Moçambique, os líderes do partido no poder, a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), ainda se chamam de “camaradas” (em Angola, os membros do MPLA também, por sinal). A bandeira tem a imagem de um AK-47, em homenagem à luta pela independência.

 

 

O hino nacional, até seis anos atrás, dizia que “nossa pátria será túmulo do capitalismo e exploração”. Só foi mudado porque a oposição reclamou do fato de também dizer “Viva, viva a Frelimo, guia do povo moçambicano!” (imagine se por aqui o nosso dissesse “dos filhos do PT és mãe gentil, pátria amada Brasil”....).

 

Tudo resquício de um tempo em que o partido era o Estado, o Estado era o partido. Para os moçambicanos, esse período durou da independência, nos anos 70, até pouco depois da queda do Muro de Berlim, em 1992. Hoje há democracia e multipartidarismo, mas a máquina do partido continua tão dominante sobre as instituições que dificilmente a Frelimo será apeada do poder.

 

Caricaturas à parte, o senso de orgulho histórico do moçambicano é forte. Como é, aliás, em toda a África. Na principal praça da cidade, um belo mural retrata de maneira simbólica a luta de independência (a foto abaixo foi tirada no dia da visita do presidente Lula, com centenas de pessoas esperando por ele).

 

 

Por uma questão de praticidade, os nomes das ruas não devem mudar jamais, dizem as autoridades moçambicanas. Fica uma coisa anacrônica, sem dúvida. Mas bem divertida também.

Escrito por Fábio Zanini às 20h30

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Moçambique em transformação

MAPUTO (MOÇAMBIQUE) – Este é um país que vai para a frente.

 

O slogan ficou famoso na boca dos militares brasileiros nos anos 70, e traduz também um pouco do que o governo de Moçambique tenta passar para o mundo hoje.

 

Os números macroeconômicos realmente são positivos. Nesse ano, o país deve crescer 6,5%, e no ano que vem, apesar da crise internacional, pode chegar a 7%, nas estimativas do FMI. Há quase 20 anos Moçambique cresce sem parar, embora, obviamente, tenha partido de uma base muito baixa. Já era um país paupérrimo antes da independência, e enfrentou 15 anos de uma guerra civil das mais ferozes que o continente africano teve no século passado.

 

E continua sendo um país miserável. Ainda morrem por lá 107 crianças por mil nascidas antes de completar um ano de idade, o que é um número escandaloso. A expectativa de vida ainda é de meros 41 anos de idade, o analfabetismo de 52% (incríveis 68% entre as mulheres...) A Aids afeta 12% da população.

 

Segundo o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, Moçambique é o sexto país mais pobre do mundo.

 

Mas há sinais claros de mudança para melhor, principalmente em Maputo, a capital. Colada na África do Sul, beneficia-se economicamente como um corredor de exportação da região de Johannesburgo e Pretoria. Com um litoral imenso e praias fantásticas, é um destino turístico da moda na Europa.

 

Há cinco anos estive no país, e tudo que registrei na cachola foram avenidas com calçadas esburacadas, pontuadas por cortiços. Que continuam lá, com certeza.

 

 

Mas não são a única coisa. Maputo agora tem um moderno shopping center.

 

 

Também um esboço de distrito financeiro, com prédios sendo erguidos ou reformados (veja abaixo o prédio do Barclays, um gigante bancário britânico).

 

 

E uma dezena de hotéis cinco estrelas, excelentes restaurantes e bons bares e cafés. No domingo passado,o Costa do Sol, na beira da praia, estava lotado de carros estacionados na porta.

 

 

Eu sei o que vocês vão dizer, e com razão. A prosperidade só beneficia uma minoria, uma elite predatória. É verdade, pelo menos por enquanto, é assim.

 

Mas, de novo, como já fiz num texto anterior, vou recorrer à comparação com o outro baluarte luso na África, Angola. É inegável que Moçambique cresce de maneira mais racional, mais pensada, sem a enxurrada de petrodólares que transforma Luanda numa cidade violenta, suja e congestionada.

 

O capitalismo moçambicano parece ser mais promissor, embora ainda seja cedo para julgar.

 

O mais curioso, que contarei num próximo texto, é que tudo isso se desenrola enquanto símbolos de uma outra era, a de antes da queda do Muro de Berlim, ainda definem essa cidade. Quem se distrair pensará que está numa Coréia do Norte de língua portuguesa...

Escrito por Fábio Zanini às 20h51

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Lula mata de rir os africanos

MAPUTO (MOÇAMBIQUE) – “Ô, Guebuza...”.

 

A meu lado a rodinha de jornalistas moçambicanos soltou uma gargalhada. Era Lula num discurso no palácio presidencial em Maputo, na última quinta-feira, conversando com o presidente daquele país, Armando Guebuza, na frente de praticamente todo o seu ministério (na foto, os dois chefes de Estado).

 

 

Alguns minutos depois: “O meu companheiro Guebuza...” Novas risadas dos representantes da mídia moçambicana.

 

“Aqui nós nunca falamos assim. É sempre sua excelência, o presidente Armando Guebuza”, explicou-me um repórter, quando perguntei o motivo de tanta diversão.

 

Os africanos têm uma maneira cerimoniosa ao extremo com seus chefes de Estado. Ainda há uma dificuldade grande em aceitar que presidentes e primeiros-ministros são meros servidores públicos que devem prestar contas à população. A noção predominante, ao contrário, é de que estão acima do bem e do mal. Em regimes fechados, de homens fortes e ditadores, é uma questão de sobrevivência guardar uma distância respeitosa do líder, por mais prosaica que seja a situação.

 

Não é por outro motivo que no Zimbábue não se pode nem passar na frente, ainda que do outro lado calçada, da residência ultra-protegida do ditador Robert Mugabe. Não é por acaso que na Gâmbia existe uma avenida inteira no centro da capital, Banjul, permanentemente fechada para o trânsito, e aberta apenas para o comboio presidencial.

 

Esse é um dos motivos pelos quais o Lula (e não sua excelência, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva...) é um sucesso de público quando ele viaja à África. A seu jeito informal e a seu talento de showman (quando está inspirado), soma-se a reduzidíssima reverência com governantes própria dos brasileiros.

 

Em Moçambique, Lula estava visivelmente cansado após ter passado por Espanha e Índia, mas não menos bem-humorado. No mesmo evento com “o Guebuza”, brincou com Franklin Martins (Comunicação Social) quando ele foi assinar um protocolo de intenções com seu contraparte local. “Finalmente arrumaram um papel pro Franklin assinar!”. Virando-se para Jair Meneguelli, diretor do Sesi: “Vem aqui, Meneguelli, ser testemunha...”.

 

Depois ajeitou a cadeira torta em que iria se sentar o chanceler Celso Amorim. E era ele a puxar as palmas, feito um adolescente quando quer aparecer na hora de cantar um parabéns a você.

 

No dia seguinte, num encontro com empresários, num discurso cheio de piadas, reclamou do microfone de pedestal que ia se inclinando para baixo enquanto falava. “Ou alguém aperta esse microfone ou daqui a pouco ele vai estar no meu umbigo”. Os moçambicanos se acabaram de rir.

 

A popularidade do nosso presidente é altíssima em toda a África, isso não se discute. Sua mensagem messiânica cai bem num continente cheio de falsas promessas. Os presentes que ele traz (uma fábrica aqui, um escritório acolá) são muito bem recebidos, obrigado.

 

Mas às vezes parece que, mais do que a substância, o que agrada mesmo aos africanos é o jeito despachado de um presidente que felizmente não tem muita paciência para salamaleques. A partir de 2011, com José Serra ou Dilma Rousseff, o sucesso será o mesmo?

Escrito por Fábio Zanini às 08h53

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Dois minutos com Nelson Mandela

MAPUTO (MOÇAMBIQUE) - Em geral mitos se formam ao longo de décadas, e santos são canonizados após a morte. Nelson Mandela é um caso raríssimo na história, e certamente único nos dias de hoje, de uma pessoa mitificada ainda em vida, “santificada” ainda entre nós.

 

Luiz Inácio Lula da Silva tinha um objetivo especial em sua visita a Moçambique: tomar um cafezinho com o mito sul-africano, ainda que fossem dez minutinhos. Após uma demorada negociação do Itamaraty com sua mulher, a moçambicana Graça Machel, conseguiu-se encaixar uma visita do nosso presidente ao ícone sul-africano para ontem à tarde (Mandela mora em Johannesburgo , na África do Sul, mas vem muito a Maputo, onde fica hospedado na casa de Graça).

 

Quando saiu a programação oficial da viagem de Lula a Moçambique, no início da semana, nós jornalistas enchemos a boca d’água. Instantaneamente fui atraído, e sei que meus colegas também foram, para um item perdido no meio da tarde: visita a Nelson Mandela. Está aí um evento histórico, pensei, a chance de um respiro no árduo roteiro de discursos aborrecidos e reuniões intermináveis que é cobrir uma viagem presidencial ao exterior.

 

Havia um problema, no entanto, que se manifesta em cinco palavrinhas que fazem tremer qualquer jornalista: evento fechado para a imprensa. Numa reunião aqui em Maputo na quarta-feira à noite, o Itamaraty nos alertou que não havia chance de entrarmos na casa de Mandela para acompanhar o encontro. O sul-africano está com 90 anos, tem saúde frágil e um histórico de doenças. É, na verdade, um milagre que um homem que passou 27 anos de sofrimento na prisão ainda esteja vivo. Sua mulher estava irredutível quanto à privacidade do encontro, e ameaçava até mesmo cancelá-lo se houvesse insistência demais de nossa parte. Seria uma reunião rápida, de Lula e seu tradutor com Graça e Mandela. Nem o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, poderia ver Mandela, quanto mais nós jornalistas.

 

Na reunião com o Itamaraty, argumentamos que mesmo assim valia a pena acompanhar, nem que fosse do lado de fora, na calçada, separados de Mandela por um altíssimo muro da mansão de Graça Machel. Nessas horas, usa-se um argumento impecável: o “não” eu já tenho. Portanto, levar um “não” no dia da visita não seria grande prejuízo. Prejuízo seria se por acaso Mandela aparecesse na sacada para um tchauzinho e nós não estamos lá. Após muita relutância, o Itamaraty concordou em nos levar para o plantãozinho na calçada.

 

Nosso microônibus, carregando, além de mim, colegas de o Globo, o Estadão, TV Globo, BBC e TV Brasil, chegou junto com a comitiva de Lula pontualmente às 15h na casa de número 1960 da rua João de Barros, no centro de Maputo. Um muro alto e dois seguranças ali estavam. Um portão de correr abria eventualmente para entrada ou saída de algum carro e nos dava preciosos segundos para espiar o jardim interno da monumental casa dos Mandela.

 

 

 

O sol ia forte, os jornalistas reclamávamos do cansaço, da conexão lenta de internet no hotel, do fato de Lula não ter nos dado entrevista ainda (três clássicos da reclamação jornalística) e tudo se encaminhava para mais um plantão frustrado numa calçada qualquer. Não havia qualquer expectativa de ver Mandela. Mas aí uns 15 minutos depois um senhor moçambicano saiu de dentro da casa e nos avisou que iríamos entrar e esperar no jardim interno. Um passo importante havia sido dado.

 

Entramos, após enfrentarmos detector de metal. A casa, como já disse, é monumental. Um gramado espetacular, paredes envidraçadas e uma marquise branca na entrada.

 

 

 

Mandela, após 27 anos vivendo num cubículo, tirava o atraso em seus anos finais.

 

Mais 15 minutos e um senhor branco e careca, um sul-africano, aproxima-se da rodinha de jornalistas e pergunta se alguém fala inglês. Todos falamos. E ele explica que o inacreditável acontecerá: Mandela vai sair com Lula, para dar uma rápida saudação. Nós iremos nos aproximar até alguns metros da porta quando o momento chegar. A empolgação é geral.

 

O moçambicano que nos botou para dentro reaparece: “Sem flash, estamos entendido?”. Anos de trabalho numa pedreira em Robben Island, a ilha-prisão na Cidade do Cabo, com o sol refletindo no chão e atingindo em cheio as pupilas de Mandela, tornaram muito sensível sua visão.

 

Às 15h35, a porta se abre e somos chamados a nos aproximar. A primeira a aparecer é Graça Machel, simpaticíssima, diferente da figura da bruxa dominadora que havia sido pintada para nós. “Ainda não é comigo”, diz em português para os fotógrafos, com largo sorriso.

 

Mandela vem alguns segundos atrás, com andar extremamente lento, apoiado numa bengala na mão direita e em Lula no braço esquerdo. Veste uma de suas tradicionais camisas coloridas e estampadas, que na África do Sul são chamadas de “Mandela shirts”. Sua dentição é perfeita, e ele usa um aparelho para surdez.

 

 

 

Seguem-se segundos de silêncio –na verdade, de barulhos de câmeras fotográficas trabalhando nervosamente. Lula brinca com os jornalistas: “Sem perguntas aqui”.

 

Até que o presidente pede para seu tradutor, Sergio Ferreira, perguntar a Mandela se ele gostaria de dizer alguma coisa.

 

“É uma honra muito grande para mim receber o presidente Lula”, começa ele, na sua famosa voz rouca. “Até porque, na minha idade, eu deveria estar cavando uma cova para mim”. A frase em inglês é “In my age, I should be digging a grave for myself”, mas o tradutor de Lula entende “credit” no lugar de “grave”, e traduz errado, como “Na minha idade, eu deveria estar pegando todo o crédito para mim”.

 

É imediatamente corrigido por Graça, que traduz corretamente. Aquele era Mandela exercitando mais uma de suas famosas habilidades: a da auto-ironia.

 

Mais algumas fotos, e Mandela faz nova piadinha para os fotógrafos. “Se quiserem, eu posso me sentar no chão”.

 

Dois minutos contados no relógio, e a aparição se encerra. Graça agradece a Lula efusivamente: “Muitíssimo obrigada”. Lula responde com um “te espero no Brasil”. Abraça Mandela antes de o velho homem se virar e, novamente a passos lentíssimos, retornar para dentro.

 

 

 

São segundos incríveis estes finais, com Mandela já de costas, sumindo de nossas vistas. Ali ao nosso lado, Lula acompanha, paralisado como nós, a saída de cena do grande homem. Quieto, disponível por preciosos segundos, ele que é caçado por repórteres noite e dia. Mas dessa vez ninguém se interessa em estender um gravador e perguntar sobre as dificuldades de Marta Suplicy, ou a crise financeira. A poucos metros estava Nelson Mandela.

Escrito por Fábio Zanini às 02h08

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Lula popstar

MAPUTO (MOÇAMBIQUE) – Lula chega hoje para uma visita de dois dias, mas parece que é a Madonna para dois megaconcertos. Várias pessoas com quem conversei, e que me identificam imediatamente como brasileiro pelo sotaque, perguntam sobre a vinda do presidente.

 

Ontem à noite tive de voltar ao aeroporto para pegar minha mala, que havia ficado para trás na conexão em Johannesburgo (não há limites para meu azar com malas em viagens) e o carrega-mala, um senhor chamado Rui, me perguntou se era verdade que Lula ficaria para um terceiro mandato (ele já sabia que nosso presidente havia sido eleito e reeleito). Respondi que o rumor existe, mas que é negado pelo governo e que me parece pouco provável. Ele ficou inconsolável:

 

“Mas por que não? Seria muito bom para o Brasil e para o mundo”.

 

E emendou num discurso de fazer inveja aos lulistas mais roxos. “O Lula é um grande presidente, ele abriu o país, conseguiu colocar o Brasil no mundo”.

 

E ainda: “Ele é de esquerda, não é”? Respondi que sim, teoricamente pelo menos. “Pois se ele ficasse mostraria que a esquerda é que está com a razão!”, disse o comentarista político aeroportuário.

 

A seu lado, uma senhora que fez a alfândega da minha mala dava sorrisos de aprovação, lamentando apenas que teria que ficar trabalhando até as 4h da manhã, o horário marcado da chegada do avião presidencial, vindo da Índia.

 

Antônio, um dos taxistas que me carregaram para cima e para baixo ontem, sabia que Lula chegaria pela manhã, que passaria 36 horas no país e que entregaria uma fábrica de remédios anti-retrovirais (na verdade, um escritório da Fiocruz). Nosso presidente emplacou a manchete de ontem de um dos principais jornais moçambicanos, “O País”.

 

 

Por que tanta expectativa com nosso presidente? Primeiro porque ele sempre traz um pacote de bondades (além da Fiocruz, inaugura um projeto do Sesi). Segundo, porque sua figura barbuda realmente hoje é conhecida na África (pelo menos a de língua portuguesa). E terceiro, creio, porque é da cultura política do africano agarrar-se a um líder forte e protetor. Vem daí o espanto do senhor do aeroporto: se ele é tão bom para nós, porque não fica mais um mandato? É a lógica peculiar de um continente em que é comum um presidente passar 20 anos no poder.

Escrito por Fábio Zanini às 03h26

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Maputo: brisa, silêncio e pastéis

MAPUTO (MOÇAMBIQUE) – É a segunda vez que venho a Maputo (a primeira foi há cinco anos), e embora a capital moçambicana esteja muito mais movimentada agora, com o som de britadeiras provando que esta é uma economia em expansão rápida, a cidade continua intrigantemente pacata.

 

Ontem à tarde fui dar uma volta pelo centro e a pergunta que me fiz foi: isso aqui é mesmo o centro? O estereótipo da capital africana, congestionada, barulhenta, feia e suja, aqui não se aplica. Não se trata de repetir a máxima consagrada pelo presidente Lula, de que “é tão limpinho que nem parece a África”. Maputo é uma cidade decididamente africana, com suas minivans atropelando quem bobear no meio da rua, camelôs vendendo DVDs piratas e máscaras artesanais, e os inevitáveis anúncios de feitiçaria.

 

 

Mas tem um toque meio caribenho, avenidas largas, o oceano Índico na paisagem, e mais árvores do que você jamais verá no centro de São Paulo.

 

 

Quando os portugueses decidiram controlar o sul da África, lá pelo século 15, adotaram a estratégia irretocável de controlar suas duas pontas, a do Atlântico e a do Índico, e o resto viria como conseqüência. Não foi bem assim que funcionou, mas isso é outra história. As duas cidades que viraram cabeça de ponte do projeto, Luanda de um lado e Lourenço Marques (hoje Maputo) de outro, não poderiam ser mais diferentes.

 

Luanda é um inferno de congestionamentos, gente gritando, arranha-céus e favelas monumentais. Maputo não adquire um ar metropolitano nem na hora do rush. Ontem levei exatos 15 minutos às 18h30 do centro da cidade até o aeroporto, distante 10 km. De noite, voltando para o hotel, notei um casal correndo de maneira estranha pelas calçadas. Depois outro, depois um grupinho, depois dezenas e dezenas, inclusive um branco gordo que se matava para subir uma ladeira. Eram pessoas fazendo cooper em pleno centro da capital do país, como se Maputo fosse um grande Central Park.

 

Luanda torna-se uma zona proibida após certa hora da noite. Em Maputo, caminhar pelo centro de madrugada, como fiz ontem ao sair de um restaurante, é uma delícia. Luanda é feia, perigosa, Maputo tem alamedas e tiozinhos sentados nas dezenas de pastelarias da cidade, tomando seu cafezinho da tarde.

 

 

O angolano fala rápido, sorri pouco, às vezes parece agressivo a quem não está acostumado. O moçambicano é todo simpatia, e assumidamente opera em marcha lenta.

 

Por outro lado, é Angola hoje quem dita o ritmo cultural da África lusófona, e de grande parte da África, aliás, com suas jazidas de petróleo gigantescas, uma economia vibrante e as mais interessantes expressões culturais dessas bandas, do kuduru (uma espécie de funk local) ao rap à crescente paixão deste continente pelo basquete.

 

Se você quer estar onde as coisas acontecem na África, é para Angola que deve ir. Mas se quer viver bem, comer um bacalhau e um pastel de Belém e aproveitar a brisa oceânica, sua opção é Maputo.

Escrito por Fábio Zanini às 03h25

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As muitas promessas de Lula para a África

Lula fará na quinta e sexta-feira dessa semana mais uma viagem à África, sua nona, dessa vez para Moçambique. Estarei in loco cobrindo para a Folha de S. Paulo e blogando para Pé na África.

 

Como sempre, ele vai com mais um pacote de bondades, como tem sido sua especialidade. Dessa vez, é dos grandes, com coisas bem concretas: a inauguração de um escritório da Fundação Oswaldo Cruz, especializado na fabricação de remédios anti-retrovirais, e de uma unidade do Sesi, para dar qualificação profissional aos moçambicanos.

 

Nem sempre é assim: Lula muitas vezes promete, promete, promete, mas não entrega. Muitas vezes nem é culpa sua, mas dos processos burocráticos que atrasam em muito a concretização dos protocolos de intenção. Vira e mexe ele cita o exemplo de um avião da FAB para jogar spray em pragas de gafanhotos, que ele prometeu para o presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, em 2003. Lula só não sabia que isso dependia de autorização do Congresso Nacional. Quando a autorização saiu, os gafanhotos já tinham feito a festa.

 

Meus colegas da Sucursal de Brasília da Folha Iuri Dantas e Simone Iglesias fizeram um levantamento impressionante das várias promessas feitas por nosso presidente aos africanos em diversas viagens. Veja só algumas:

 

Em São Tomé e Príncipe:

Ajudar a formar técnicos na área de petróleo, enviando ao país funcionários da Petrobras;
Dar bolsas de estudo nos níveis de graduação e pós-graduação, em universidades brasileiras;

Ajuda no combate a Aids e à malária e capacitação e o treinamento de pessoal;

Parceria de longo prazo na reestruturação das Forças Armadas;

 

Em Angola:

Cooperar nas imunizações e combate à malária;

Apoio no combate à epidemia da Aids;

Apoio à reestruturação do programa de ensino básico e médio em Angola;

 

Em Moçambique:

Perdoar grande parcela da dívida;

Ajudar na capacitação técnica no setor do agronegócio;

Implementar projeto de monitoramento hidrológico e ambiental, usando satélites brasileiros;

 

Na Namíbia:

Intercâmbio acadêmico;

Oferecer bolsas de graduação e pós-graduação a estudantes;

Treinamento e cessão de tecnologias de cultivo;

 

Na África do Sul:

Comercialização de máquinas e equipamentos, e até mesmo aeronaves;

 

No Gabão:

Ajudar com conhecimento científico e tecnológico, formação de empreendedores, e na formação de universitários;

Parcerias na construção de laboratórios para a produção de remédios para combater a AIDS e financiamento de obras de infra-estrutura;

 

Em Cabo Verde:

Colaborar em tecnologia para desenvolvimento sustentável da agricultura e pecuária;

Formação de empreendedores por meio da Embrapa;


Em Camarões:

Programa de cooperação técnica sobre o cacau;

Implementar o Programa Executivo em Educação Superior para favorecer o intercâmbio de professores universitários;

Retomada na atuação de empresas de engenharia brasileiras na construção da infra-estrutura de energia e transportes;

 

Na Nigéria:

Transferência de tecnologia brasileira na produção de medicamentos anti-retrovirais;

Cooperação na área energética.

 

Em Gana:

Cooperação na produção de sal;

Concessão de bolsas de estudos para  universitários;

Intercâmbio de professores em nível de pós-graduação;

 

No Senegal:

Ações conjuntas nos domínios da agricultura, da saúde e da educação;

Ajudar na superação da exclusão digital.

 

Em Burkina Faso:

Cooperar por meio de investimentos e transferência de tecnologia nas áreas de café, soja, açúcar e carne.

Compartilhar experiência brasileira na produção, escoamento e comercialização do algodão.

 

Na República do Congo:
Transformar a dívida bilateral do Congo em linhas de financiamento para a compra de bens e serviços brasileiros;

 

A maioria dessas ações são de longo prazo, e portanto é difícil medir seu progresso. Às vezes parece que Lula, na ânsia de inserir politicamente o Brasil na África, sai prometendo a torto e a direito acima da sua capacidade de entregar a mercadoria.

 

Mas num ponto nosso presidente tem razão. É melhor oferecer bolsas universitárias do que armas e munição a governos corruptos, como fazem França, Rússia, Reino Unido, EUA...

Escrito por Fábio Zanini às 21h04

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231 milhões por cento!

Esta é uma contribuição do colega da Sucursal de Brasília da Folha de S. Paulo Gustavo Patú.

 

A inflação no Zimbábue bateu agora em 231 milhões por cento nos primeiros sete meses de 2008. A cada dia, segundo os cálculos de Patú, que entende dessas coisas, a inflação é de 7% (cumulativamente, chega-se ao número astronômico). Ou seja, o que acontece com a inflação em pouco menos de um ano no Brasil acontece em um dia no Zimbábue.

 

Só para você ter uma idéia do que isso significa, mesmo no auge da inflação do governo Sarney, em 1989, o índice acumulado em sete meses nunca passou de 2.200%.

 

E quer uma informação impressionante? No mês passado, a inflação era de “apenas” 11 milhões por cento. Em um mês, saltou de 11 milhões para 231 milhões por cento!

 

Esse tipo de dado vale mais como piada. Eu realmente gostaria muito de conhecer e entrevistar o sujeito que calcula esse índice, prancheta na mão, pesquisando preços em supermercados. Como será que ele trabalha? Como é possível chegar a um índice tão preciso de inflação? Por que 231 milhões e não 232 milhões, por exemplo?

 

Um dia eu gostaria de entender...

Escrito por Fábio Zanini às 21h59

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Uma esperança para a democracia sul-africana

O terremoto político que foi a renúncia do presidente sul-africano Thabo Mbeki, no mês passado, continua tendo efeitos.

 

Agora, surgiu uma boa notícia.

 

Um dos mais fiéis aliados de Mbeki, o ex-ministro da Defesa Mosiuoa Lekota, deu uma entrevista nessa semana lançando a idéia de um novo partido na África do Sul, a partir de uma dissidência do partido do governo, o Congresso Nacional Africano.

 

Apenas para recapitular: Mbeki foi forçado a renunciar ao cargo de presidente da República pelos apoiadores de uma facção oposta à sua dentro do CNA, comandada por Jacob Zuma, favoritíssimo para vencer a eleição presidencial no ano que vem. Os dois, ex-aliados, romperam feio há quatro anos. Mbeki foi obrigado a renunciar após uma decisão não do Legislativo ou do Judiciário, como acontece numa democracia madura, mas da direção do partido, o poderoso CNA. Imagine se Lula tivesse que renunciar à Presidência só porque o PT quisesse!

 

Mas na África do Sul é assim. O CNA é um monstro político onipotente, sem oposição digna de nome, ainda surfando nas glórias de ter sido o partido que derrotou o regime do apartheid. É um partido com uma história nobre, prestes a completar 100 anos, que já deu ao mundo dois prêmios Nobel da Paz, um deles, claro, Nelson Mandela (o outro foi Albert Luthuli, seu presidente entre as décadas de 40 e 60).

 

 

Mas o CNA cresceu, confundiu-se com o Estado e tornou-se incontrolável. Por isso, a notícia, na verdade ainda um balão de ensaio da turma de Mbeki, de que parte desse monstro poderia dar origem a outra agremiação, é positiva.

 

Um novo partido certamente teria dificuldades para suplantar o que restar da máquina do velho CNA no início, uma vez que os eleitores, sobretudo os mais pobres, vão continuar se identificando com a marca já conhecida. E as fortes máquinas eleitorais do CNA  no interior do país dificilmente mudarão de mãos imediatamente.

 

Mas com o tempo um novo partido poderia se tornar uma real alternativa de poder, o que é fundamental numa democracia. Os atuais partidos de oposição são muito fracos, têm no máximo 10% de apoio popular e uma dificuldade insuperável de penetrar no eleitorado negro, amplamente majoritário.

 

Um paralelo interessante com o Brasil é a dissidência do PMDB que deu origem ao PSDB, nos anos 80. Os tucanos patinaram no começo e quase acabaram extintos. Depois, engrenaram.

 

Ainda é preciso esperar um pouco para saber no que essa história vai dar. O mais irônico disso tudo é que, se o CNA se dividir, Mbeki, ao renunciar, terá dado uma contribuição à democracia sul-africana muito maior do que qualquer coisa que tenha feito no governo.

 

p.s.: foto do Christian Science Monitor

Escrito por Fábio Zanini às 21h59

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Um polêmico museu do genocídio

Se há um país que sabe preservar sua história é Ruanda.

Há dezenas de museus, memoriais, cemitérios e demais monumentos lembrando que há meros 14 anos uma das maiores matanças do século 20 ocorreu. Em apenas três meses, 1 milhão de membros da etnia tutsi foram mortos por radicais pertencentes a seus rivais históricos, os hutus (moderados hutus também acabaram massacrados). Foi uma incrível média de mais de 300 mil mortes por mês.

Somente como base de comparação, o Holocausto nazista deixou 6 milhões de judeus mortos em seis anos, ou média de 83 mil mortos por mês. Em outras palavras, o genocídio de Ruanda foi 3,5 vezes mais intenso do que aquele que é considerado o maior crime da história da humanidade.

Não espanta, portanto, que o país se recuse a se esquecer. Em Kigali, a capital, há um memorial muito bem montado, moderno e com uma narrativa histórica bastante condizente com o que aconteceu. Uma tarefa louvável, tendo em vista que o responsável pela concepção do museu é o atual governo de Ruanda, que derrotou o regime genocida.

Quando os vencedores é quem contam a história, tendem a exagerar seus feitos e carregar na demonização dos derrotados. Mas ali a coisa está equilibrada. (Veja na foto armas que foram usadas no genocídio expostas no museu).

Também há um sem-número de igrejas em que foram construídos memoriais, marcando os locais em que tutsi foram massacrados sem dó, ingenuamente achando que dentro de solo sagrado estariam a salvo. Visitei dois desses memoriais, todos repletos de ossos e caveiras (foto abaixo), com bancos ensaguentados e as roupas das vítimas ainda ali preservadas.

Agora, o governo de Ruanda anuncia planos para mais um museu do genocídio. Mas dessa vez há um cheiro estranho no ar.

O novo memorial, segundo planos tornados públicos ontem pelo ministro da Cultura de Ruanda, funcionaria no imóvel que foi a mansão do ex-presidente Juvenal Habyarimana.

Habyarimana foi o ditador de Ruanda entre o início dos anos 70 e abril de 1994. Era um hutu sem muitos pruridos em demonstrar seu desprezo pela minoria tutsi, que reúne 10% da população. Sob seu regime, floresceu uma ideologia, o “poder hutu”, pelo qual a etnia majoritária denunciava a opressão histórica de que teria sido vítima pelos tutsi. Foi em sua ditadura que se organizou o genocídio. Habyarimana era uma figura detestável, sob qualquer ponto de vista.

Em 6 de abril de 1994, seu avião foi abatido por um míssil quando se preparava para pousar no aeroporto de Kigali. A morte do presidente foi instantânea, e deflagrou, naquela noite mesmo, o início da matança.

Até hoje não se sabe exatamente quem derrubou o avião. Provavelmente, foram integrantes linha-dura de seu governo, procurando um pretexto para o genocídio. Mas imediatamente ao atentado, criou-se uma corrente, com a ajuda de emissoras de rádio comprometidas com o “poder hutu”, culpando os tutsi e exigindo vingança. O resto é história.

Demorou três meses até que rebeldes tutsi, que estavam em Uganda, liderados pelo major Paul Kagame, derrubassem os genocidas e assumissem o poder. Kagame é hoje o presidente.

O que terá o novo museu? Serão exibidos objetos relacionados ao genocídio nos oito quartos da mansão. Um dos pontos altos será parte da fuselagem do avião que carregava o então presidente. Um primor de mau gosto.

Kagame é uma personalidade complexa. É um herói por ter parado o genocídio, e um administrador competente que transformou Ruanda num dos países mais promissores da África. Mas tem seu lado sinistro. Sob o pretexto de proibir que o genocídio se repita, ele tem uma licença especial para prender, censurar e perseguir vozes independentes.

Fazer um museu no palácio de seu antigo opositor político parece ter sido uma idéia sob medida para Kagame novamente mandar um recado bastante político. Uma lembrança de quem está no poder.

De quebra, um recado também aos franceses, que ajudaram o regime de Habyarimana, protegeram seus seguidores quando os rebeldes tutsi avançavam e que chegaram a acusar Kagame de ter sido o responsável por derrubar o avião. As relações entre França e Ruanda hoje na prática estão rompidas.

Memoriais lembrando tragédias passadas são em regra essenciais para que uma sociedade siga em frente. Mas o risco de serem capturados para fins políticos existe. Parece ser o caso agora.

Escrito por Fábio Zanini às 22h52

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Como a crise afeta as Bolsas da África

A África tem hoje 22 Bolsas de Valores, pertencentes a 26 países (algumas são regionais, listando ações de grupos de países). Mas me diga a última vez que você ouviu algo sobre quanto caiu ou subiu a Bolsa de um determinado país africano.

Em momentos como o atual, de tensão extrema no mercado financeiro, o isolamento econômico africano do resto do planeta fica ainda mais evidente. Os mercados operam num ciclo permanente: abrem as Bolsas da Ásia e da Austrália, vêm as européias confirmarem ou negarem uma tendência mundial e encerramos com Wall Street, dando a palavra final sobre o que está acontecendo no mundo.

De vez em quando sobra algum espaço para nossa Bovespa no noticiário internacional, já que está na moda colocar um ou outro emergente no cenário global (eu mesmo já vi os índices da nossa bolsa na CNN, por exemplo). Mas a África é sempre deixada de lado, como se não existisse.

A formação de um sistema financeiro complexo é um fenômeno recente na África, que segue em linha com a recente diversificação da economia do continente. Há indústrias, setor de serviços, bancos, empresas de telefonia e uma nascente classe média consumidora em praticamente todos os 54 países, com as exceções de praxe. É um cenário incomparavelmente mais sofisticado do que há dez anos, embora, eu repito, os africanos estão ainda tão distantes que parecem habitar outro sistema solar.

Mas veja que interessante: até 1989, havia oito bolsas de valores no continente, sendo que apenas 5 na África sub-saariana. Agora, como eu já mencionei, são 22. Inclusive uma no Zimbábue, que eu sinceramente não sei como consegue funcionar. Os bravos sujeitos que conseguem operar com ações numa inflação de sei lá quantos milhões por cento ao ano merecem toda a nossa consideração.

O valor total da capitalização desses bolsas em 2005 era de US$ 569 bilhões, ainda uma ninharia em termos globais, mas somente a de Johannesburgo, na África do Sul, a maior delas todas, foi de US$ 886 bilhões no último quadrimestre do ano passado.  Existem cerca de 2.000 empresas relacionadas nas bolsas do continente.

Quem se interessar mais pelo assunto pode ler um artigo interessante no link http://www.americanchronicle.com/articles/75505.

Ter uma bolsa de valores é um pouco como ter uma bandeira, um hino ou uma seleção de futebol. Dá respeitabilidade a um país, um atestado de maturidade.

Na África, elas continuam pipocando. Ruanda, por exemplo, acaba de abrir uma, modesta ainda, mas importantíssima para sinalizar que o país traumatizado pelo genocídio de 1994 está movendo adiante. E que está aberto para investimentos externos, coisa que, aliás, já vem acontecendo. Na foto, o "centro financeiro" de Kigali, a capital ruandesa.

As bolsas são também um importante instrumento de cooperação regional. Talvez isso surpreenda muitos, mas a África tem alguns dos mais sólidos blocos internacionais regionais do planeta, além de uma ambiciosa estrutura continental, a União Africana, com 54 nações. Há duas zonas com moeda única no oeste do continente e planos para uma federação de Estados reunindo Tanzânia, Quênia, Uganda, Ruanda e Burundi no leste, dentro de dez anos. Coisa para fazer inveja aos entusiastas da União Européia.

A integração do sistema financeiros de países próximos é vista como um primeiro passo para saltos maiores.  Em Abidjan, na Costa do Marfim, há uma bolsa reunindo oito países. Há planos para outra instituição supranacional baseada em Nairobi, no Quênia.

Mas que não se pense que o fato de a África ser economicamente isolada a torna imune ao que está acontecendo. Desde o início do ano, a Bolsa de Johannesburgo já caiu  40%, e a de Nairobi, 20%.

Pensando bem, nesse caso ficar isolado do mundo não teria sido má idéia.

Escrito por Fábio Zanini às 00h31

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Piratas na Somália

O país mais perigoso do mundo, há mais de uma década sem governo e tão turbulento que quase não recebe ajuda humanitária, viveu hoje mais um capítulo extraordinário em sua história.

Estou falando da Somália, algo como 10 milhões de pessoas, PIB per capita de 600 dólares e nível de desenvolvimento humano medido pela ONU desconhecido –não há muito como coletar estatísticas. Um país imenso, numa região estratégica entre a África e a Península Arábica, num estado permanente de caos, enfrentando separatismo em um terço de seu território e rotineiramente descrito como o pior lugar do mundo para se viver. Sim, pior que o Iraque, o Afeganistão, o Haiti, o Congo e a Faixa de Gaza.

O mais recente problema da Somália se refere às suas águas territoriais. Sem uma Marinha digna de nome, a Somália vem sofrendo com a ação de piratas modernos. Navios e barcos que se aventuram pelas suas águas, mesmo que a uma distância razoável da costa, são freqüentemente invadidos por bandidos em busca de mercadorias ou de resgates milionários.

Ontem, finalmente o governo que teoricamente administra o país (na prática, tem controle sobre menos de 10%) reconheceu sua impotência e pediu ajuda internacional. A partir de agora, navios estrangeiros estão convidados a entrar nas águas somalis para perseguir piratas.

Num mundo em que governo guardam suas fronteiras de maneira obcecada e que resistem o quanto podem a qualquer tipo de intervenção estrangeira, a decisão da Somália é rara. Ainda mais se tratando de um país com população muçulmana, numa região do planeta em que os traumas de invasões e ocupações externas estão frescos na memória. O Iraque é logo ali, por exemplo.

Na verdade não foi a primeira vez. Tropas etíopes estão lá “a convite” do governo somali, para tentar colocar algo de ordem no caos.

A gota d água dessa vez foi o seqüestro de um navio de bandeira ucraniana, carregado com 33 tanques ainda da era soviética, na semana passada. Os piratas exigem US$ 20 milhões de resgate.

Tão logo o governo somali autorizou a entrada de estrangeiros em suas águas, a Rússia se prontificou a atender ao pedido. Tão desgraçada é a situação da Somália que a notícia maior ontem nas agências internacionais não era nem a ameaça dos piratas a seu território, mas o fato de os russos estarem querendo projetar seu poder militar mais uma vez para além de suas fronteiras. Primeiro ao invadir a Geórgia, depois ao fazer exercícios militares conjuntos com a Venezuela e agora com essa aventura marítima no litoral da África.

Mas voltemos à Somália. Seu último governo mais ou menos funcionando acabou em 1991, quando o ditador Siad Barre foi derrubado num golpe. Ironicamente, uma das qualidades desse território, o fato de ter poucas divisões étnicas e ser razoavelmente homogêneo, acabou se transformando em um fator de risco. Porque a Somália não tem rivalidades étnicas, como em outros países africanos, mas tem centenas de clãs, que têm competido entre si por terra, água e poder político desde tempos coloniais. Sem um clã que se estabeleça perante os demais, o conflito nunca termina.

Há um parênteses a se fazer. Formalmente a Somália é um único país, mas na prática há uma região independente, a Somalilândia, que forma a parte norte desse território em formato de bumerangue. Estive lá em julho, e apesar de ter ouvido alguns tiros de AK-47 na capital, Hargeisa, em plena luz do dia, de ter sido obrigado a andar com guarda-costas nas estradas, de ter visto alguns tanques enferrujando no meio do deserto, como na foto abaixo,

e de encontrar uma barreira policial a cada meia hora, me senti relativamente seguro. E capaz de comer em restaurantes decentes, fazer compras num quase shopping Center, sentar num café sem grandes problemas e conversar com pessoas nas ruas.

A Somalilândia é razoavelmente bem administrada e tem bem menos problemas que o restante da Somália. É uma amostra de que o pior país do mundo não é um caso perdido.

Escrito por Fábio Zanini às 23h20

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PERFIL

Fábio Zanini Fábio Zanini, 34, é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), com mestrado em relações internacionais pela School of Oriental and African Studies (Soas), da Universidade de Londres.

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