Notícias de dois países muito diferentes
Devagarzinho, jornalistas brasileiros vão descobrindo a África, um continente imperdoavelmente ausente do nosso noticiário.
No posto anterior coloquei um link para o blog de Carlos Alberto Junior, corresponde da TV Brasil em Luanda (Angola), que agora está no leste do Congo, cobrindo o reinício da guerra civil do país.
Agora mando (com a devida autorização), dois áudios de minha colega Renate Krieger, que trabalha no serviço em português da Deutsche Welle, a BBC alemã (desculpe, mas não resisti à comparação, Renate...).
O primeiro deles é sobre Guiné Equatorial (é preciso rolar a tela para baixo para ouvir a reportagem).
http://www.dw-world.de:80/dw/article/0,2144,3705492,00.html
Se Junior teve coragem para enfrentar os senhores da guerra congoleses, o feito de Renate não é menos espetacular: conseguiu visto de entrada para um dos países mais fechado, corruptos e autoritários da África.
A Guiné Equatorial é um inferno burocrático, uma cleptocracia há quase 30 anos chefiada pelo presidente Teodoro Obiang Nguema. É o único país africano de língua espanhola, tem florestas belíssimas em que vivem raros tipos de gorilas, e é também uma das novas fronteiras do petróleo no continente. Geograficamente, é um país um tanto exótico, formado por uma ilha (onde está a capital, Malabo) e um pequeno pedaço continental.

Se você não for do ramo do petróleo, esqueça: suas chances de entrar nesse lugar são quase nulas (Renate me conta que conseguiu após demoradas gestões do governo alemão).
O outro áudio, no link http://www.dw-world.de/dw/article/0,2144,3722272,00.html

Perceba na reportagem como as pessoas permanecem céticas quanto à promessa dourada do petróleo. No que fazem muito bem, aliás...
Escrito por Fábio Zanini às 19h49
Uma aventura pelo Congo em guerra
Hoje peço licença para tratar não do meu blog, mas de outro que se dedica à África. É de autoria de meu amigo Carlos Alberto Junior, correspondente da TV Brasil em Luanda (Angola), o primeiro enviado permanente de um veículo brasileiro de imprensa no continente africano (espero que não seja o último).
Junior mudou-se para Luanda no início do ano, onde heroicamente enfrenta a enloquecedora burocracia local para conseguir trabalhar. Isso lhe dá uma grande vantagem, na verdade: experiência para tirar de letra qualquer cobertura encarniçada na África. No momento ele está no leste do Congo, cobrindo o reinício da guerra civil lá em razão da rebelião do general renegado Laurent Nkunda (o novo Che Guevara africano, como já mencionei por aqui).
Junior tem também um blog, o Diário da África, e conseguiu uma matéria espetacular: embrenhar-se na selva congolesa, desviando de moleques carregando armas pesadas, até chegar ao quartel-general de Nkunda, numa localidade chamada Rutshuru. Como se não bastasse, acompanhou uma manifestação dele e fez até perguntas para o cidadão. Está tudo no link abaixo:
http://diariodaafrica.blogspot.com/2008/11/o-dia-em-que-fiz-duas-perguntas-ao.html
Vale a pena ler o relato de um repórter corajoso por uma das regiões mais perigosas de um dos países mais turbulentos da África. Estive na região em maio, quando estava relativamente calma, e mesmo assim era um negócio assustador...
Escrito por Fábio Zanini às 20h00
Obama e a Somália
Alguns países retornam para assombrar as grandes potências. Haiti. Afeganistão. Iraque. Somália.
A Somália é um cadáver insepulto para a diplomacia norte-americana desde 1993, quando Bill Clinton bateu em retirada após a morte de 18 de seus militares nas ruas da capital, Mogadício.
O episódio, famoso no filme “Falcão Negro em Perigo” de Ridley Scott, marcou o início de radical processo de isolamento dos EUA no continente. Os norte-americanos bombardearam a Bósnia, Kosovo, Iraque e Afeganistão, invadiram duas vezes o Haiti, mas nunca mais tiveram coragem de se intrometer na África. Ruanda está aí como lembrete.
Por 15 anos a Somália submergiu no radar americano, e vem ressurgir agora, no momento
Neste intervalo, os EUA adotaram uma política de terceirização que criou mais problemas do que soluções. Encarregaram seus aliados etíopes de invadir o país para pôr fim à ameaça de que grupos islâmicos radicais tomassem o controle da Somália, um país sem governo desde o início da década de 90. Os etíopes, longe de serem pacificadores exemplares, são profundamente odiados hoje pelos somalis.
Agora a coisa é diferente, porque a Somália passou a mexer com o interesse nacional norte-americano. Crises humanitárias têm ganho importância como uma razão nobre para operações militares em cantos esquecidos do planeta, mas nada como o impacto no bolso. Que agora começou a ser sentido.
Nessa semana, piratas somalis seqüestraram na costa do país um navio petroleiro carregando 2 milhões de barris vindos da Arábia Saudita (veja foto, do Los Angeles Times).

Trata-se de uma das principais rotas de fornecimento para o hemisfério norte. É provável que primeiro venha um alerta e uma tentativa de solução negociada por parte dos EUA. Como certamente o problema não desaparecerá, a opção militar deve entrar na mesa
Será muito interessante ver como o primeiro presidente negro da história dos EUA reagirá a isso. Talvez anuncie uma operação somente nas águas infestadas por piratas, talvez tente fazer alguma coisa para solucionar a crise em terra firme, tornando um pouco mais governável o país mais perigoso do mundo.
De qualquer forma, faria bem em olhar para o passado. Deixar uma nação do tamanho da Somália em virtual abandono tem um preço.
Escrito por Fábio Zanini às 20h20
Um retrato matador de Mugabe
Jon Lee Anderson esteve no Zimbábue, o que é uma péssima notícia para Robert Mugabe. Publicou um perfil arrasa-quarteirão sobre o velho déspota na revista “The New Yorker” de 27 de outubro, que, felizmente, está disponível na internet no seguinte link:
http://www.newyorker.com/reporting/2008/10/27/081027fa_fact_anderson
É uma reportagem imensa (em inglês), um grande perfil de uma grande figura africana, em que pesem as barbaridades que ele hoje perpetra. Mistura dados biográficos de Mugabe, confissões de integrantes e ex-integrantes de seu aparato de segurança, entrevistas com opositores e evidências fortes de corrupção em sua família mais imediata. Como não podia faltar, há as passagens tragicômicas sobre como é viver num país com 11 milhões por cento de inflação ao ano.
Há ainda uma conversa com Morgan Tsvangirai, o corajoso ex-líder sindical que já foi preso e torturado pelos agentes de Mugabe e que mesmo assim aplicou-lhe um susto em março, no primeiro turno da eleição presidencial, conseguindo mais votos do que o ditador. Acabou se retirando do segundo turno porque a onda de violência contra seus apoiadores passou de todos os limites.
Surpreendentemente, Tsvangirai reconhece a “contribuição positiva” de Mugabe, o herói da independência do Zimbábue em 1980. “Ele é o pai de nossa nação, e temos de salvar o lado positivo de sua contribuição ao país e deixar a história julgar suas contribuições negativas”, diz.
Jon Lee Anderson é um dos principais jornalistas norte-americanos, que fez seu nome com reportagens para jornais e revistas como “Time”, “The New Yorker” e “Los Angeles Times”. Escreveu aquela que é considerada a biografia definitiva de Che Guevara, além de livros sobre as guerras do Iraque e Afeganistão. Recentemente, envolveu-se numa polêmica com a revista “Veja” em razão de uma capa que explorava o lado sanguinário de Che.
Anderson entrou no Zimbábue da mesma forma que eu entrei em março, como turista, disfarçando o real propósito de sua visita (o regime jamais lhe daria um visto de trabalho).
Eu passei 18 dias evitando até passar perto de prédios do governo, mas ele, espantosamente, conseguiu entrevistar figuras ligadas ao regime de Mugabe, que poderiam prendê-lo em uma questão de segundos.
Um dia chego lá.
Escrito por Fábio Zanini às 19h34
Pré-sal na África?
Petróleo, petróleo, petróleo.
A África hoje entra no radar internacional como uma matriz energética para os países desenvolvidos e emergentes, e não apenas por imagens de crianças famélicas e bandos cometendo atrocidades (que continuam a todo vapor, claro).
É um avanço, sem dúvida, levar a África a sério no sistema econômico internacional. Até onde isso traz mais vantagens do que problemas permanece em aberto, no entanto.
Um otimista é Nelson Narciso Filho, diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP) que vem a ser um dos brasileiros que melhor conhecem o potencial petrolífero africano. Tem 30 anos de experiência no setor privado, em empresas como ABB e Halliburton, dos quais seis passados em Angola, hoje a Meca do petróleo africano. De lá coordenava atividades petrolíferas em outros bolsões do produto, como Gabão e Guiné Equatorial.
Angola deve se tornar em breve o maior produtor de petróleo da África, ultrapassando a Nigéria. Os EUA e a China já crescem o olho para lá, e o governo angolano recebe de bom grado os investimentos recordes que não param de chegar. “Sinto em Angola a intenção do governo de transformar o petróleo na força motriz do desenvolvimento da economia”, disse Narciso, em conversa com Pé na África.
Em outras palavras, o petróleo não está entrando apenas nos bolsos da elite política e econômica do país, embora Narciso admita que uma parte não desprezível acabe irrigando a corrupção. “Há um processo acelerado de construção de estradas, indústrias, ferrovias e infra-estrutura energética que mostra a vantagem que o petróleo traz”.
Angola, segundo Narciso, tem problemas sérios de regulação da atividade petrolífera. Lá reina absoluta a Sonangol, a Petrobras angolana (veja, na foto do blog Skyscraper City, o moderníssimo arranha-céu que está sendo contrstruído em Luanda, capital de Angola, para ser a nova sede da empresa).

Verdadeiro Estado dentro do Estado, é a Sonangol quem define, sem muitos rodeios ou pruridos, quais parceiras estrangeiras vai atrair para a exploração e transporte de petróleo e gás. Não existe, por exemplo, uma agência reguladora nos moldes da ANP. “A Sonangol faz os dois papéis, de exploração e regulação”, diz.
Tardiamente, é verdade, o governo angolano acordou para a necessidade de dar um maior controle ao setor petrolífero. Narciso, aliás, foi convidado no início do ano para ajudar o governo angolano a criar uma agência reguladora. Ficariam faltando apenas uma imprensa forte e independente, e um Congresso sem amarras com o Executivo, para termos um legítimo controle social sobre o ouro negro. Mas por enquanto isso é pedir demais.
Narciso aposta firmemente nas vantagens da África como principal provedor mundial de petróleo, na comparação com os atuais detentores deste título, o Oriente Médio.
Primeiro, os africanos ainda têm consumo interno baixíssimo, o que significa maior sobra para exportar. Segundo, apesar de todos os problemas, é uma região politicamente bem mais estável do que o Oriente Médio (claro que ter ditadores no comando ajuda...)
E, mais importante (e para mim mais surpreendente), Narciso diz que as reservas africanas podem ser muito maiores do que se imagina. “Ali, há grandes chances de acontecer um fenômeno idêntico do pré-sal no Brasil”, declara.
O pré-sal, como sabemos, é a camada de petróleo em profundezas gigantescas, entre a rocha e o sal marinho, que tem feito a festa da Petrobras e do governo Lula. “A costa do Brasil e a da África constituem uma mesma unidade geológica. Os dois continentes já estiveram unidos no passado. É improvável que apenas um dos lados tenha sido abençoado pela natureza”, afirma.
Falta o detalhe de descobrir o pré-sal africano, obviamente. Mas se esse for o caso, como acredita o especialista, será a maior oportunidade econômica que o continente já teve.
Escrito por Fábio Zanini às 20h39
O novo Che Guevara africano
De tempos em tempos surge um novo Che Guevara na África, o rebelde solitário e meio romântico, com boina e óculos emprestando um ar intelectual, que promete acabar com a tirania num canto esquecido do continente. Freqüentemente, trata-se de um tirano também.
Na região central da África, eles são ainda mais comuns. Desde os anos 60, quando começou a descolonização, já tivemos inúmeros, e o próprio Che passou por lá, ajudando um rebelde de nome Laurent Kabila, que depois viria a tomar o poder no Congo. Agora é a vez de um outro Laurent, Laurent Nkunda (foto da Getty Images).

A rede britânica BBC ontem conseguiu uma entrevista com Nkunda, em sua base no meio da selva africana, mais um furo de um dos maiores correspondentes da mídia ocidental na África, Mark Doyle (foi o único a permanecer em Ruanda durante o genocídio, em 1994).
A matéria da BBC está aqui, inclusive com um pedaço do áudio da entrevista (em inglês, obviamente):
http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/7721205.stm
Nkunda é um rebelde com uma causa, Ou pelo menos um pretexto: defender a minoria étnica tutsi de mais um massacre pelas mãos de seus eternos rivais hutus, muitos dos quais expulsos de Ruanda após o genocídio. Há cerca de um mês, alegando que o governo do Congo não fazia o suficiente para defender os tutsi, ele, sob o comando de 6.000 homens mais ou menos, reiniciou uma guerra civil que estava dormente havia cinco anos.
Pôs-se em marcha sobre as maiores cidades do leste do Congo, ajudado sem dúvida pelo governo tutsi de Ruanda, que não perde uma chance de se envolver numa região riquíssima em ouro, zinco, cobre, cobalto e outros minerais. Suas forças já provocaram o êxodo de cerca de 850 mil civis da região.
Quando estive na região, em maio, pessoas em fuga relatavam atrocidades cometidas por suas forças. Um rapaz que teve a família morta pelas tropas do general Nkunda me mostrou o buraco por onde entrou uma lança, em seu abdômen.
Na entrevista a Doyle, ele dá um recado assustador: o governo do Congo que se cuide. O objetivo final é tomar o poder em Kinshasa e derrubar o presidente Joseph Kabila, confortavelmente instalado numa cidade do outro lado do continente.
E quem é Nkunda? Trata-se de um general renegado do Exército congolês, 41 anos, que tem uma incrível semelhança física com seu principal patrocinador, o presidente de Ruanda, Paul Kagame. Culto (fala inglês, francês e as línguas locais swahili e kynyarwanda), inteligente, perigoso.
Como muitos rebeldes africanos, Nkunda criou para si um curto de personalidade. É nada menos que um herói para uma parte dos africanos, um destemido militar que evitará a ocorrência de um novo genocídio na região. A mídia está fascinada por seus últimos atos.
Sua determinação e seu poder militar hoje permitem prever que a guerra civil no Congo não terá solução fácil, apesar dos incessantes esforços de mediação internacional. Com rebeldes africanos como Nkunda, infiltrados na selva e imunes a pressão externa, a diplomacia costuma ter efeitos muito reduzidos.
Escrito por Fábio Zanini às 09h19
Na África, Bush deixa saudade
Agora que George Bush tem tempo sobrando para pensar sobre seu futuro, tenho uma sugestão a fazer. Peça asilo na África.
Entre os africanos, a unanimidade entre os analistas de que uma das piores presidências da histórica norte-americana chega ao fim é uma idéia absurda. Parece cômico, mas a África ainda se entusiasma com Bush, e lhe concede índices estratosféricos de popularidade.
Em junho do ano passado, o Pew Research, um dos principais centros de pesquisas de opinião do país, fez um grande levantamento em 47 países que incluiu uma pergunta sobre a confiança que tinham
Está aqui: http://pewglobal.org/reports/pdf/256.pdf
Os cinco primeiros colocados foram todos africanos: Na Costa do Marfim, inacreditáveis 82% dos entrevistados disseram ter muita ou alguma confiança de que Bush faz a coisa certa nas relações internacionais. Em seguida vieram Quênia (72%), Gana (69%), Mali (66%) e Nigéria (62%). Israel, considerado um dos mais tradicionais aliados do EUA, aparece em sexto, com 57% de confiança em Bush.
Apenas como comparação, na Turquia míseros 2% dos entrevistados disseram ter alguma confiança no presidente norte-americano. Na França foram 14%, na Rússia 18%, na Alemanha 19% e na China 31%. No Brasil, 17%.
Bush é genuinamente popular em várias partes da África (a foto abaixo, da Getty Images, é de um evento na Tanzânia).

Alguns meses atrás, vendo um videoclipe numa TV tanzaniana, imagens de arquivo de sua visita ao país eram mostradas enquanto um grupo de senhoras cantava músicas tradicionais. Em Ruanda, o presidente Paul Kagame tem uma política deliberada de se afastar dos franceses e belgas e se abraçar com americanos e britânicos, que inclui uma relação estreita com Bush. Na vizinha Uganda, Bush e o presidente local, Yoweri Museveni, são “cristãos renascidos” e se dizem irmãos espirituais.
Há inúmeros outros exemplos: no Quênia, Congo, Libéria e Costa do Marfim, sobram agradecimentos pelo papel dos EUA na resolução de conflitos internos. Em Darfur, não se esquecem que foi o governo Bush o primeiro a reconhecer que naquela região do Sudão pratica-se “genocídio”. Mesmo junto ao regime central sudanês há algum crédito: os EUA foram os principais patrocinadores do fim da guerra civil de duas décadas com rebeldes no sul do país.
E há o combate à Aids e à malária. Bush despejou dinheiro para combater as duas epidemias mais graves do continente. Triplicou o montante anual para US$ 9 bilhões de ajuda humanitária. “Espero que ele seja lembrado pelo aumento da assistência ao desenvolvimento para a África após um período de décadas em que essa verba se manteve estável”, disse a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, recentemente, à agência Associated Press.
Muito desse dinheiro vem com condições, no entanto, agregado a programas que promovem abstinência sexual e fidelidade, em vez de camisinhas. É o caso de Uganda, por exemplo, em que a influência religiosa é muito grande. Na foto abaixo, um adesivo que estimular jovens a "manterem a promessa" de fidelidade. Reparem no símbolo do Usaid, a agência humanitária norte-americana, no canto direito inferior.
E como fica a relação dos africanos com Obama? O novo presidente parte com uma grande vantagem, um grande risco e uma grande oportunidade.
A vantagem é a imensa simpatia dos africanos com o democrata, que vai lhe dar um colchão bastante duradouro de boa-vontade para suas políticas.
O risco é ele desmantelar de uma hora para outra o que Bush construiu em solo africano, sob o argumento de que não condiz com sua ideologia, principalmente no que se refere ao combate da Aids.
A oportunidade é avançar mais. Bush não foi longe o suficiente para liberar os mercados de seu país para produtos africanos, por exemplo.
Mas se há um consolo para o desmoralizado presidente que sai, está na África. Ali, ele até pode caminhar na rua de cabeça erguida. Cercado de seguranças, claro.
Escrito por Fábio Zanini às 20h58
Os africanos e Obama
O lugar
A África, nessa véspera de eleição, não consegue disfarçar o entusiasmo, como fica evidente na amostragem de artigos e editoriais de jornais que selecionei abaixo. Alguns francamente em êxtase, outros mais realistas. Mas todos torcendo. Perceba:
O “The New Times”, jornal de língua inglesa de Ruanda de propriedade do governo, adota um tom poético em seu editorial de hoje: “Para os africanos, vença ou não, o senador Obama elevou a estatura do homem negro a alturas que são irreversíveis”
Na mesma linha segue o “The Star”, principal diário da África do Sul: “Barack Obama está no limiar de fazer história, quando pesquisas de opinião lhes dão uma margem acentuada sobre seu rival republicano, no voto presidencial mais dramático em uma geração”
Na Nigéria, o “The Guardian”, em texto assinado pelo jornalista Emmanuel Ogebe, diz que “é duvidoso que algum líder ou político nigeriano tenha incendiado a imaginação do eleitorado local como fez Obama”.
Em seguida, com certo exagero retórico, Ogebe dá uma pista para tamanho sucesso: Obama é visto como um homem comum, não um “big man” (literalmente, homem grande, mas no sentido do político todo-poderoso e corrupto comum no continente). “Obama não é um big man. Na sua campanha, ele tem cinco ternos idênticos, que lava, usa e recicla, e quatro pares de sapatos. Ele diz que está cansado de fazer suas malas todos os dias de um hotel para outro”.
Em Uganda, o “Monitor” é um dos poucos que adota uma dose de realismo, preocupado com expectativas tão grandes: “Rezamos para que Obama dê à África amor, mas com dureza. Corte todos os presentes e coisas fáceis e leia para a África parte do seu próprio script, que diz algo como ‘se eu consegui, vocês também podem’. O caminho para a salvação da mente africana é que parem de ser nossas babás e nos deixem pensar de maneira independente.”
Termino com o “Daily Nation”, da terra do pai do candidato, que estampa um cartum que resume bem o sentimento do continente africano (o cartaz diz "o mundo quer que você eleja Barack Obama").

Mas que também, surpreendentemente, adota alguma cautela: “Claro que o senador Obama não tem obrigação de apoiar a África e outros países subdesenvolvidos, mas ele provavelmente terá empatia pela causa. Quando os americanos decidirem hoje, o mundo espera que o melhor candidato fique com a coroa”.
De olhos nos EUA, os africanos prendem a respiração.
Escrito por Fábio Zanini às 20h56

Fábio Zanini