Até 2009
Chegamos ao fim do primeiro ano de Pé na África. O que começou como um diário despretensioso de viagem tornou-se um blog que já entra no seu décimo mês.
A todos vocês que me acompanham, que colaboram com comentários e sugestões e que me mandam emails, meu muito obrigado.
Feliz 2009! Que as notícias sobre esse continente fascinante sejam um pouco melhores no Ano Novo.
(Vou tirar uma semaninha de folga e volto em breve.)
Escrito por Fábio Zanini às 19h08
Um país que daria um filme de 007
A jornalista Renate Krieger, que trabalha na Alemanha para a "Deutsche Welle" e é colaboradora de "Pé na África", manda um relato de sua incursão por Guiné Equatorial, um micropaís com um pedaço insular e outro continental no oeste do continente (não confundir com Guiné, onde acabou de haver um golpe de Estado).
Ex-colônia espanhola, Guiné Equatorial tem duas características marcantes, que na África andam juntas com muita frequência:
1-) está nadando em petróleo;
2-) é uma ditadura braba.
Siga seu relato abaixo. Num segundo capítulo, ela falará sobre São Tomé e Príncipe:
***
Como não dá para contar tudo sobre um país em dez minutos (mesmo que seja um tempo razoável em rádio), escrevi ao Fabio para dar mais alguns detalhes e impressões sobre a Guiné Equatorial e sobre São Tomé e Príncipe, países que visitei em abril e agosto deste ano para fazer reportagens para a redação portuguesa da Deutsche Welle.
Começo com a Guiné Equatorial. Trata-se de um país que ganha as manchetes dos jornais mundiais com tramas dignas de filmes de conspiração. Além de ser conhecido como o terceiro produtor de "ouro negro" da África central, com 400 mil barris diários em 2007 (dados do FMI), o país de 500 mil habitantes ficou especialmente famoso pela corrupção e pelo desrespeito aos direitos humanos. Num documento preliminar recente, por exemplo, o relator especial das Nações Unidas sobre a tortura, Manfred Nowak, concluiu que o regime do presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo tormenta, "de maneira sistemática, (...) pessoas que recusam cooperar com a polícia, presos políticos e suspeitos de crimes comuns". O representante da ONU não viu "nenhum cárcere sob autoridade militar" durante a sua visita à Guiné Equatorial (09-18/11).
Há anos, o presidente Obiang, sua família e seus colaboradores são suspeitos de corrupção e de atividades ilícitas como o tráfico de drogas. São conhecidas as extravagâncias de "Teodorín", filho mais velho de Obiang e ministro guinéu-equatoriano da Agricultura e das Florestas. Ele dirige diversas empresas no país e teria comprado a maior parte de seus bens por meio das companhias. Possui casas em Los Angeles, Buenos Aires, Paris, Malibu, e é figura carimbada em festas de arromba mundo afora (li em algum lugar que ele até apareceu no Rio de Janeiro) e coleciona carrinhos como Bentleys e Lamborghinis.
Um dos casos mais midiáticos envolvendo a Guiné Equatorial é o do banco Riggs, de Washington, que também lavava o dinheiro do ex-ditador chileno Augusto Pinochet. Em julho de 2004, uma subcomissão do Senado norte-americano publicou relatório dizendo que o regime de Malabo, apoiado por empresas petrolíferas que operavam no país, havia desviado 60% do PIB do país para mais de sessenta contas do Riggs. Essas contas haviam sido abertas por Obiang, sua família e pessoas próximas ao presidente. Obiang teria depositado até 700 milhões de dólares no banco, que fechou as contas na época do escândalo.
Também em 2004, a Guiné Equatorial foi alvo de sua trama mais famosa: um golpe de Estado fracassado que virou livro pelas mãos do jornalista Adam Roberts, da Economist, e deverá estrear nas telas de cinema até 2010. Em "The Wonga Coup", Roberts relata as tramóias de mais de 70 mercenários britânicos que queriam dar um golpe de Estado na Guiné Equatorial em 2004, tirando o presidente Teodoro Obiang do poder e colocando as rédeas nas mãos de Severo Moto, comandante do governo da Guiné Equatorial no exílio (Madri). Os mercenários fracassaram quando o avião que os levaria ao país insular foi interceptado em Harare, no Zimbábue.
A trama frustrada coleciona figuras proeminentes. O britânico Simon Mann, acusado de ser cérebro do golpe, foi extraditado a Malabo no início deste ano. Em agosto, Mann foi condenado a 34 anos de prisão e está encarcerado na penitenciária de Black Beach, que fica dentro da área presidencial da capital, no norte da ilha de Bioko. O portão de acesso a essa zona, exatamente ao lado da praça principal e do único hotel de luxo da cidade, é guardado por um tanque com cinco ou seis soldados que, com suas metralhadoras, não hesitam em hostilizar os estrangeiros ávidos por tirar fotos das crianças brincando na fonte da praça.
Entre os coadjuvantes de Simon Mann, ninguém menos que Mark Thatcher, filho da ex-premiê britânica Margareth Thatcher. Ele teria comprado o helicóptero que levaria Severo Moto para a Guiné Equatorial após o golpe. Simon Mann o acusou formalmente durante seu julgamento em Malabo. O governo guinéu-equatoriano quer extraditar Mark Thatcher, hoje foragido.
A tramóia serviu para aumentar a paranóia do presidente Teodoro Obiang. (Na foto abaixo, um tanque passeia pelas ruas do país).

Ele não sai sem uma comitiva de jipes e anda rodeado por seus sete seguranças marroquinos. Pude vê-lo, de longe, em duas ocasiões: na missa que comemorou o 29º aniversário de sua ascensão ao poder (em 1979, Obiang deu um golpe de Estado e mandou fuzilar o tio, Francisco Macías Nguema, conhecido pelo regime sanguinário); e durante a inauguração do segundo avião que liga a ilha de Bioko ao continente africano. Em mais ou menos cinco horas, a aeronave faz o trajeto Malabo-Bata-Libreville-São Tomé, e volta.
Nessa segunda ocasião, tive a impressão de que Obiang também incute a desconfiança no discurso: ao mesmo tempo em que defende uma 'transição democrática', o líder guinéu-equatoriano condena os 'inimigos' do país. A paranóia é igualmente patente entre a população. Chegando perto e conversando, a maioria dos guinéu-equatorianos abre um sorriso. Mas o país coleciona fisionomias sisudas e qualquer pergunta mais incisiva inspira cautela - mas na rua, se diz que o regime de Obiang é muito mais aberto que o de seu tio Francisco Macías. Em The Wonga Coup, Adam Roberts conta que os inimigos políticos do ex-ditador eram jogados de uma ponte na selva guinéu-equatoriana ao som de These Are the Days, hit da cantora norte-americana Mary Hopkins nos anos 1960.
Tirar fotos na Guiné Equatorial é sinônimo de olhares lancinantes. (A foto abaixo é de operários trabalhando na cidade de Bata, a principal da parte continental).

Numa incursão pelas ruas da capital Malabo, fui abordada por um fiscal do governo que passeava com a mulher. Acabou me convidando para ir à casa dele, porque não queria dar entrevista na rua. "Não tire fotos aqui, é feio", disse. A mesma linha veio de outro guinéu-equatoriano, que começou a gesticular assim que saquei a câmera para registrar a balsa que, todos os fins-de-semana, leva centenas de pessoas de Malabo a Bata, capital econômica na parte continental do país. Meio impaciente, saquei o microfone e disparei: "Porque não posso tirar fotos aqui"? Mais tranqüilo, ele respondeu: "Porque você vai mostrar isso a todas as pessoas lá fora, e a Guiné Equatorial não é só isso, não são só as coisas feias. Todo guinéu-equatoriano é militar, temos que proteger o que é nosso daqueles que querem nos fazer mal".
Mas, por enquanto, não vi muitas paisagens bonitas na Guiné Equatorial. O petróleo transformou o país num canteiro de obras. Durante a minha primeira visita, em abril, percorri a ilha de Bioko (a capital, Malabo, fica no norte da ilha) de ônibus. Estava com mais dez empresários europeus e norte-americanos convidados pela Lufthansa para participar da inauguração do trecho Frankfurt - Malabo (mais um sinal da corrida do Ocidente pelo petróleo africano).
Em muitos países vizinhos como Camarões, se fala do "milagre econômico" da Guiné Equatorial. De fato, as estradas não têm buracos e não é raro ver um guindaste competindo com as copas das árvores no meio da selva. Tudo parece estar em construção: a Câmara de Comércio na rua principal da capital, o novo palácio presidencial, o porto de Malabo, e o impressionante (e longo) passeio público na orla da praia em Bata.
Mas não é preciso andar muito para notar as discrepâncias entre o aparente progresso trazido pelo petróleo e a pobreza vivida pela maioria da população guinéu-equatoriana. Apesar de ter um dos maiores PIBs per capita do planeta, tem muita gente vivendo em barracos de madeira no meio da selva, ou à beira da praia. A falta de água corrente obriga os habitantes a andar quilômetros para consegui-la.
A infra-estrutura também é bastante precária, especialmente no setor da saúde. Além disso, há apagões quase todos os dias. A embaixada brasileira em Malabo, que em abril ainda recebia os móveis e as máquinas para emitir passaportes, sempre recorre a dois geradores para iluminar a casa recém-reformada que abriga a representação política do nosso país. O resto da rua fica às escuras. Logo atrás da obra faraônica do novo palácio que o presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo está construindo, as ruas esburacadas justificam os Toyotas usados pelos estrangeiros que querem uma fatia da riqueza guinéu-equatoriana.
Esse interesse, aliás, cresce cada vez mais no Ocidente. Mas, como jornalista ou turista, ainda é difícil entrar no país. Eu só consegui ir duas vezes porque acompanhei delegações de empresários que iam conhecer a Guiné Equatorial. O Brasil tem um embaixador no país há dois anos. Em 2006, a Petrobras comprou 50% de participação na produção petrolífera de um bloco de 4250 quilômetros quadrados na bacia do rio Muni, que corre na parte continental do país. Mas os brasileiros ainda engatinham atrás dos americanos: os "grandes amigos" da Guiné Equatorial não precisam de passaporte e compram cerca de dois terços do petróleo produzido na Guiné Equatorial.
Escrito por Fábio Zanini às 18h48
Justiça para o demônio de Ruanda
A lista dos maiores vilões do século 20 é profundamente injusta com o cavalheiro abaixo (foto da France Presse):

Conheça Theoneste Bagosora, um ilustre desconhecido de 99% da população mundial, mas cuja trajetória não deixa nada a dever à de Adolf Hitler, Pol Pot e Josef Stalin. Em alguns casos, ele foi até mais "eficiente" no ritmo dos massacres.
Bagosora é amplamente considerado o principal arquiteto militar do genocídio em Ruanda. O interessante é que era um funcionário de segunda escalão da máquina administrativa do país. Ocupava apenas a chefia de gabinete do Ministério da Defesa. Mas seu poder real era muito maior do que o dos superiores hierárquicos.
O papel de Bagosora na matança de 1 milhão de civis em apenas três meses em 1994 foi central. Por isso mesmo, por ser um peixe dos mais graúdos, seu julgamento, um dos mais demorados, ficou para o final. Em poucos meses, o Tribunal Penal da ONU para o genocídio de Ruanda, sediado em Arusha (Tanzânia), deve encerrar suas atividades. É possível fazer críticas à lerdeza da corte e a suas debilidades estruturais, mas não há como negar que é um dos maiores casos de sucesso na busca de justiça para crimes contra a humanidade.
Estive no tribunal em abril passado, onde consegui acompanhar algumas sessões, atrás, evidentemente, de um vidro à prova de balas. Praticamente todos os depoimentos que presenciei eram de testemunhas ocultas, identificadas apenas por combinações aleatórias de letras que lembravam robôs de Star Wars (tipo testemunha WX5). Ficavam escondidas da vista da platéia por espessas cortinas.
Em meio a um esquema reforçadíssimo de segurança, com soldados de metralhadoras na porta dos auditórios, consegui apenas dois minutos para tirar fotos dentro da corte principal, ainda assim com bedéis me puxando para fora após os primeiros 30 segundos. Esta foi uma das fotos que consegui fazer:

Mas voltando a Bagosora. Segundo a acusação, o então coronel hutu do regime extremista de Ruanda foi contaminado desde muito jovem pela ideologia de ódio contra a etnia minoritária tutsi, que acabou sendo a grande (mas não única) vítima do genocídio. Ao subir nos escalões do Exército, passou a difundir propaganda anti-tutsi e, por volta de 1990, já participava ativamente do planejamento da operação.
O pretexto veio em abril de 1994, com a queda do avião que levava o presidente de Ruanda, abatido por um míssil. Quem se interessa por esse triste episódio tem de ler o livro do general canadense Romeo Dallaire, "Shake hands with the Devil" (Apertar a mão do demônio), que era o comandante da frágil presença da ONU no local. O demônio a que Dallaire se refere é ninguém menos que Bagosora.
Após semanas tentando negociar com Bagosora o fim do genocídio, Dallaire finalmente chegou à conclusão de que não havia nada mais a conversar. Os dois romperam. Numa passagem memorável relatada no final do livro, o canadense reencontra o coronel pouco antes do fim da matança. Bagosora vira-se para Dallaire e afirma que, da próxima vez em que se encontrassem, ele mataria o general.
Na verdade, a próxima vez em que se encontraram foi em 2003, na corte de Arusha: Bagosora, que havia sido preso em 1996, como réu, Dallaire como testemunha de acusação.
Ele agora passará o resto da vida na prisão. Sua condenação demorou 14 anos, mas foi comemorada por toda a África como um símbolo de justiça para as vítimas do genocídio. Imperfeita, mas ainda assim justiça.
Escrito por Fábio Zanini às 22h34
Notícias do Congo
Já coloquei aqui um link para o blog de Carlos Alberto Junior, correspondente da TV Brasil na África (baseado em Angola).
No início do mês, Junior esteve no leste do Congo, onde ocorre uma das mais longas guerras civis do continente.
Nos links abaixo, é possível assistir a duas dessas reportagens:
Essa dá um panorama da situação geral do conflito:
http://diariodaafrica.blogspot.com/2008/12/um-conflito-na-repblica-democrtica-do.html
E essa outra, bastante interessante, fala sobre as vítimas da guerra:
http://diariodaafrica.blogspot.com/2008/12/as-vtimas-da-guerra-na-repblica.html
Cada uma tem cerca de quatro minutos de duração, e são altamente recomendáveis para quem quer ter uma noção do que é um conflito na África. Repare na parte em que o repórter é obrigado a subornar soldados congoleses com cigarros para poder prosseguir.
Muito lentamente, a imprensa brasileira vai descobrindo o manancial de pautas que é a África. A TV Brasil foi a pioneira em ter um correspondente no continente. A Record também acaba de abrir um escritório, na África do Sul. A Globo deve chegar em 2010.
Muito é por causa da Copa da África do Sul. Seria uma pena, e uma chance desperdiçada, se essas iniciativas começassem já com prazo para terminar...
Escrito por Fábio Zanini às 22h57
Obama e os genocídios africanos
Pobre Barack Obama. Ele assume a presidência do EUA em pouco mais de um mês, com altíssimas expectativas de mudança no Iraque, Afeganistão, conflito Israel-Palestina, Irã, sem falar na economia e no aquecimento global. Haverá algum espaço em sua agenda para a África?
É certo que sim, tendo em vista sua história familiar e a equipe que formou. Mas também é certo que as mudanças em sua política africana serão bem menos dramáticas do que nos outros vespeiros em que precisará mexer.
Já está certo, por exemplo, que ele fechará rapidamente a prisão na base de Guantánamo, em Cuba, e que começará imediatamente a retirar tropas do Iraque a reforçá-las no Afeganistão. Na economia, já anunciou pacotes de estímulos com os quais o desmoralizado George Bush nem pode sonhar. Na questão ambiental, então, depois de oito anos de virtual abandono, a coisa só pode melhorar.
Na África é mais complicado pelo seguinte: primeiro, porque lá Bush, com seus níveis recordes de assistência para o desenvolvimento, não foi tão mal assim (é serio). Segundo, e mais importante, porque não é tão claro o que pode ser feito para mudar radicalmente o curso.
A revista britânica "The Economist" dessa semana traz um artigo interessante sobre os desafios de Obama para lidar com um dos temas mais associados à África (infelizmente), o genocídio. Está no link abaixo (em inglês).
http://www.economist.com/world/unitedstates/displaystory.cfm?story_id=12773216
Obama comprometeu-se mais de uma vez durante sua campanha a levar a sério o slogan "never again" (nunca mais), dos ativistas que lutam contra a repetição de matanças indiscriminadas contra grupos étnicos, que têm nos massacres de Ruanda em 1994 seu melhor exemplo.
Sua equipe não poderia estar mais qualificada. A escolhida para secretária de Estado, Hillary Clinton, tem uma visão muito intensa a respeito do dever moral de evitar genocídios. A futura embaixadora na ONU, Susan Rice, alardeia aos quatro ventos que Ruanda-94 (quando ela era funcionária do Departamento de Estado) é um trauma pessoal em sua carreira. Uma influente assessora, Samantha Power (a mesma que escreveu um excelente livro sobre o brasileiro Sergio Vieira de Mello, morto no Iraque), tem um best-seller sobre o assunto ("A Problem from Hell").
No papel, portanto, as sociedades africanas podem estar descansadas. Nunca na história dos EUA o primeiro escalão do governo lhes foi tão favorável.
Na prática, a teoria é outra, no entanto. Evitar um genocídio é das coisas mais difíceis de fazer. Na verdade, a dificuldade começa em identificá-lo. Como saber com certeza o momento em que assassinatos localizados adquirem a unidade capaz de caracterizá-los como parte de uma mesma máquina de matar? No momento em que se percebe que há um genocídio acontecendo, é provável que grande parte dele já tenha acontecido. Mesmo o de Ruanda, que teve uma velocidade espantosa (1 milhão de mortos em três meses, quatro vezes mais rápido que o Holocausto nazista), só foi percebido como uma catástrofe quando era tarde mais.
A saída para minimizar a dificuldade é um constante sistema de inteligência que permita identificar ações preparatórias suspeitas, o que foi um notório fracasso em Ruanda. Por meses antes do genocídio caixas e mais caixas de armas brancas e de fogo, a maioria provenientes da França, desembarcaram no país sem que ninguém se preocupasse. Três meses antes do início da matança, um informante do regime chegou a relatar os preparativos para as tropas da ONU no país, mas o aviso foi ignorado na cadeia de comando burocrática da instituição.
Identificado o problema, entram em consideração outras questões. Quem tem direito a proteção de genocídios? A pergunta pode parecer cruel e absurda, mas não sejamos ingênuos de pensar que populações submetidas a tal ameaça por um governo aliado do Ocidente terão o mesmo tratamento do que uma na mira de um regime do "eixo do mal". E o caso da cólera no Zimbábue, pode ou não ser considerado um genocídio?
Discussões acadêmicas à parte, temos ainda a prova dos nove: por mais que Obama bata no peito que "Nunca mais", ainda estou pagando para ver uma coluna de marines descendo nas selvas do leste do Congo. Isso seria algo realmente novo na diplomacia norte-americana.
Tão novo quanto improvável.
Escrito por Fábio Zanini às 20h47
Um modelo de eleição em Gana
Ia falar sobre mais uma desgraça no Zimbábue, a epidemia de cólera, um tanto a contragosto, porque evito o quanto posso associar a África apenas a más notícias (nem sempre consigo).
Felizmente, me dei conta de uma terrível omissão até aqui nesse blog, de um assunto importante que, aliás, é uma tremenda boa notícia. A eleição em Gana.
O ano de 2008 foi um tanto traumático para a África em matéria eleitoral. Começou com um choque, o da violência pós-eleitoral no Quênia, um país sempre descrito como exemplo de estabilidade e maturidade política. Pois é, vocês devem se lembrar, a maturidade foi para as cucuias numa eleição apertadíssima, provavelmente roubada pelo governo. Mil pessoas morreram antes de um acordo ser fechado de divisão do poder com a oposição.
Continuou com o imbróglio do Zimbábue (olha ele aí de novo), em março, numa eleição aí sim clara e indubitavelmente roubada pelo governo. Prosseguiu em Angola, em setembro, numa eleição até que calma e provavelmente relativamente limpa, mas ganha de forma tão acachapante pela elite que há 30 anos se mantém no poder que ficou um pressentimento amargo de que ali não teremos nunca a verdadeira alternância de poder, um dos princípios básicos da democracia.
Bom, aos 45 minutos do segundo tempo apareceu a eleição de Gana para salvar o ano. Não é de hoje que esse pequeno país de colonização inglesa do oeste africano, cuja economia se baseia no ouro e no cacau (um pouco agora no turismo, também), serve de inspiração para o continente.
Gana foi, afinal de contas, o primeiro país a conquistar sua independência das potências européias, em 1957. Seu primeiro presidente, Kwame Nkrumah, é considerado o maior herói do continente no século 20 (mais que Mandela), uma inspiração para centenas de jovens idealistas africanos.
Nos anos 90, após passar por uma sucessão de golpes e regimes militares, Gana se abriu para a democracia e eleições multipartidárias que são um modelo para o mundo. Quando alguém pede exemplos de países estáveis e democráticos na África, dez entre dez respostas citam Gana em primeiro lugar (às vezes em segundo, com Botsuana em primeiro...).
No fim de semana, ocorreu o primeiro turno da eleição presidencial para decidir o substituto de John Kufuor, o grandalhão que está deixando o cargo após dez anos, e que é majoritariamente considerado um bom governante. Na foto, tirada por mim durante a visita de Lula a Gana em abril passado, é ele do lado direito, olhando para o além, enquanto nosso presidente conversa com seu tradutor.

O resultado do primeiro turno foi de roer unhas. O candidato governista, Nana Akufo-Addo, teve 49,13% dos votos. O veterano oposicionista Atta Mills ficou com 47,92%. Se fosse nos EUA já daria uma grande confusão, quanto mais na África. Não em Gana. A corte eleitoral simplesmente recomendou um segundo turno, já que ninguém teve metade mais um dos votos. Os observadores internacionais disseram que a eleição foi perfeita.
O segundo turno será em 28 de dezembro. Por uma incrível coincidência, exatamente um ano após a eleição queniana. Como símbolo da renascença democrática de um continente, nada poderia ser melhor.
Escrito por Fábio Zanini às 22h09
Um brasileiro no caos da Somália
Marcio Gagliato trabalha para a CARE International, uma das mais atuantes agências humanitárias na África.
Baseado em Nairobi, capital do Quênia, é responsável por operações em nove países do leste e centro do continente, uma das regiões mais difíceis do mundo para se trabalhar. Principalmente (mas não apenas), porque lá está a Somália, um país em caos absoluto, sem governo e com riscos imensos para qualquer um que por lá se aventurar.
Marcio me mandou um email em que conta um pouco de sua vida por lá. De Nairobi, centro de operações de várias agências humanitárias no continente, ele se desloca com freqüência para a Somália. Ou pelo menos se deslocava, até o aumento da violência recentemente por lá.
"Somália é minha prioridade desde que as ameaças da milícia Al Shabad engrossaram significativamente", diz ele, em referência a um dos inúmeros grupos armados que lutam pelo controle do território somali. Para quem não tem familiaridade com o tema, a Somália desde 1991 não tem um governo central efetivo (o que existe praticamente só consegue controlar o hotel de onde opera). A Al Shabad (foto abaixo, do blog "War is Boring") atua no sul do país e é adepta do fundamentalismo islâmico.

"Somos a principal agência humanitária na Somália, com mais de 25 anos de trabalho. Somos responsáveis pela distribuição de comida para mais de um milhão de pessoas, alem de centenas de outros projetos...", continua Marcio.
Cerca de 40 dias atrás, diz ele, o trabalho teve de ser suspenso por causa de ataques dos milicianos, que não vêem com bons olhos a presença de estrangeiros no país _mesmo que sejam estrangeiros vacinando crianças ou ajudando flagelados da seca.
"Agora estamos definitivamente fechando todo o programa na região central e sul da Somália, que é a região que abriga as populações mais vulneráveis", diz ele.
Márcio afirma que é responsável por dar suporte psicossocial para a equipe da organização nesses países, incluindo pessoas contratadas no local, muitas delas ex-vítimas também. Mas se a Care for obrigada a sair, deixará muita gente na mão.
"Isso significa que atendo, por exemplo, aquele somali que está agora lá na região central da Somália, que um dia foi pastoralista e agora trabalha pra uma ONG internacional, e que hoje está perdendo seu meio de sustento e sob constante ameaça de vida por milícias...", diz ele.
Para a equipe internacional da ONG, a situação não é muito melhor. "É muito complicado. Quem trabalha com o humanitarismo internacional sofre, pois vai aonde ninguém quer ir, e faz o que o mundo não quer fazer... lidar com a sujeira. O resultado é o trauma para os trabalhadores nacionais e o cinismo para os internacionais, a pior forma de reação. O adoecimento psíquico entre os que trabalham com ONGs é 4 vezes maior do que numa pessoa normal", diz Márcio.
Sobra um merecido puxão de orelha na imprensa internacional, que se preocupa com o país em ciclos, geralmente quando têm relação com seus interesses próprios. Está acontecendo agora, quando navios estão sendo seqüestrados por piratas na costa da Somália, um deles carregando 2 milhões de barris de petróleo.
"É muito triste ver as notícias correndo o mundo por conta da pirataria, mas muito pouco se lê sobre o genocídio, caos e absoluta miséria... É aquela história, é só mexer com o bolso que logo o mundo todo reage rapidamente. Estando perto da situação da Somália, vendo a real situação, me surpreendia não ver nada nos jornais".
Como a Care, dezenas de ONGs que ainda se arriscavam na Somália estão tendo que fazer uma opção muito difícil: abandonar o país e garantir a segurança de sua equipe? Ou ficar, para não deixar para trás pessoas ainda mais vulneráveis?
Escrito por Fábio Zanini às 22h47
Proposta indecente em Angola
Recebi do leitor Raphael Neves um email que mostra muito bem a situação do ensino universitário na África. Ele recebeu uma proposta de trabalho da Universidade Agostinho Neto, a principal de Angola. Reproduzo abaixo:
O Diretor da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, Dr. Manoel Ndonga, informa que está contratando 07 mestres, doutorandos e doutores brasileiros das seguintes disciplinas: Lingüística, Língua Portuguesa, Língua Inglesa, Ciência Política, Gestão, Comunicação Social,História e Ciências de Documentação para trabalho temporário em Luanda.
Local de trabalho: Universidade Agostinho Neto, Faculdade de Letras e Ciências Sociais, cidade de Luanda
Função: lecionar nos cursos de graduação, orientar monografias. Serão 12 horas/aula/semana.
Tempo de atividade contrato de 6 meses, renovável para um ano
Valor da proposta: dependentemente do grau académico (Dr. 2500 Usd; Mestre 2000 Usd). Ainda mais, quem quiser lecionar aulas nocturnas, estas são pagas a parte (Dr. 50 Usd/hora; Mestre 45 Usd/h).
Passagem aérea: pagamos
Moradia: garantida nos 2 primeiros meses
Transporte: garantido da Faculdade para os polos de ensino
Seguro saúde: pagamos
Aparentemente tudo normal, com salário nada mal, variando de US$ 2 mil a US$ 2.500 por mês. Não é muito menos do que se ganha nas universidades públicas brasileiras.
O problema é que, em Luanda, esse salário é uma piada. Sem exagero, é para passar fome. Estamos falando da cidade mais cara do mundo, segundo todos os rankings internacionais. Mais do que Tóquio, Zurique, Nova York ou Oslo, que sempre figuram nas cabeças dessas listas.
Em Luanda, o aluguel de um apartamento de dois quartos, numa região de classe média, pode custar US$ 10 mil. Por mês! E geralmente exige-se pagamento adiantado de um ano, com o detalhe adicional de que não são aceitas transferências bancárias. No embrionário sistema financeiro angolano, tem que ser uma nota em cima da outra -isso num dos países mais perigosos da África.
Não é preciso ser Nobel de economia para entender o motivo do custo de vida altíssimo. É o resultado previsível de explosão de demanda com oferta microscópica. Acabou a guerra civil que durou 30 anos, e o dinheiro do petróleo jorra como nunca. Uma classe emergente vivendo à base de petrodólares, formada por muitos estrangeiros, procura casas, carros e restaurantes. Mas a infra-estrutura do país continua precaríssima, com poucos hotéis e opções de moradia disponíveis.
Nesse contexto, é até cruel esperar de um professor universitário, com grau de doutor, que sobreviva com US$ 2.500 por mês, ainda que seja por uma jornada de trabalho pequena, de 12 horas semanais. Será inevitável que arrume bicos, comprometendo a qualidade do ensino.
Não é segredo para ninguém que a educação engatinha na África. A quantidade de pessoas com curso superior não chega a 5% da população, mesmo em países relativamente mais ricos. Uma situação que, como muitos outros problemas, tem origem na época colonial. Quando da independência dos africanos, nos anos 60, podia-se contar nos dedos os que detinham diploma universitário.
Um detalhe de humor involuntário da proposta de trabalho é a garantia de moradia por 2 meses. E depois? Nenhuma palavra...
Escrito por Fábio Zanini às 21h04
A África está na moda
Nunca me imaginei escrevendo sobre moda nesse blog, até porque sou provavelmente a pessoa que menos entende disso no planeta Terra, como minhas combinações heterodoxas de ternos, camisas e gravatas atestam.
Mas sempre há uma primeira vez.
Quem é do ramo passa o ano esperando pelo calendário de moda da Pirelli. É um dos eventos obrigatórios do mundo fashion. E não é que o recém lançado calendário de 2009 tem a África como tema?
O padrão é o mesmo dos anos anteriores, desde a década de 60. Algumas das modelos mais famosas do mundo, fazendo uma pose para cada mês do ano. Do Brasil estão Isabeli Fontana, a do mês de fevereiro (descrita, com algum exagero, como a modelo mais popular do mundo; até eu sei que a Gisele Bundchen é mais) e a pernambucana Emanuela de Paula (essa eu não conheço).
E tome caras e bocas, mulheres descabeladas, algumas seminuas, outras gritando "help" enquanto parecem fugir de elefantes. Nenhum clichê africano escapa das moças. Não faltam as inevitáveis danças tribais em volta das fogueiras, com guerreiros pintados e com lanças em punho.
Para dar um aspecto mais realista aos ensaios, o site informa que as fotos foram feitas não em algum cenário em Manhattan, mas em plena África. Mais exatamente em Botsuana, no sul do continente, "um dos poucos lugares que permanecem selvagens e preservados, livre da destruição da guerra e com a maior concentração de vida animal do continente".
Tudo verdade: uma escolha perfeita. Botsuana é o principal destino do exclusivo segmento do safári de luxo na África. Calmo, relativamente próspero e democrático, às vezes é chamado de "África para iniciantes". As garotas nunca estiveram mais seguras.
Mas voltando ao calendário. Infelizmente, não posso colocar aqui algumas dessas fotos, porque senão o pessoal do copyright me trucida, mas posso dar o link para vocês checarem:
http://www.pirellical.com/thecal/calendar.html
Não é a primeira vez que vejo a África assim, associada ao mundo da moda. Quem já viu o filme "O Diabo veste Prada", em que Meryl Streep faz uma editora megera talvez se lembre de uma cena com modelos para um editorial ambientado na África (naquele caso, era um cenário, e as modelos estavam no Central Park). Também me disseram que o tema do São Paulo Fashion Week do ano que vem vai ser...a África.
Por que todo esse interesse? Vou me arriscar aqui na sociologia de botequim para lançar a hipótese de que a África, o mais exótico dos continentes, é um prato cheio para um ramo que tem uma necessidade inesgotável de chamar a atenção. Uma explicação simples, que leva à pergunta: por que não foi feito antes?
Escrito por Fábio Zanini às 23h03

Fábio Zanini