No Zimbábue, um fracasso disfarçado de sucesso
A política tem acontecimentos inacreditáveis, e a imagem de Morgan Tsvangirai subindo ontem num palco improvisado no meio da rua, megafone na mão, anunciando para uma multidão de apoiadores estáticos que fechou um acordo com o governo de Robert Mugabe é um dos grandes, sem dúvida.
Tsvangirai é um herói africano, não sem seus defeitos, mas corajoso o suficiente para ter enfrentado um dos ditadores mais cruéis do continente. Foi preso, espancado, teve o crânio rachado e viu dezenas de amigos e apoiadores assassinados. Teve sua eleição como presidente roubada no ano passado, precisou esconder-se e fugiu do país. Voltou quando, sob pressão internacional e uma crise econômica e de saúde sem precedentes, Mugabe aceitou conversar.
O Zimbábue de hoje é um país com uma epidemia de cólera, crises de fome em vastas áreas de seu território e que acabou de abandonar sua moeda, o cômico dólar zimbabuano e suas cédulas na casa dos trilhões.
O modelo do acordo é o adotado pelo Quênia no início do ano passado. Tsvangirai será a partir de 11 de fevereiro o primeiro-ministro do presidente Mugabe, num governo de união nacional. Falta serem divulgados vários detalhes do acordo, costurado após mais de seis meses de negociação, mas aparentemente houve concordância quanto aos ministérios que cada campo ocupará. Mugabe, cada vez mais dependente de seu aparato de segurança para sobreviver, insistia em comandar os estratégicos da Defesa e do Interior, este último responsável por sua temida polícia.
A comunidade internacional aplaudiu o pacto e promete retomar a ajuda humanitária ao Zimbábue, com as tarefas emergenciais de controlar a epidemia de cólera e dar alguma estabilidade econômica ao país. Doadores pretendem dar um crédito de confiança ao novo governo, supondo que Mugabe manterá sua palavra e deixará o dia a dia da administração com seu ex-inimigo, mantendo-se num papel simbólico.
Pode ser que realmente funcione, quem sabe. Num devaneio otimista, Mugabe pouco a pouco vai saindo de cena, perdendo poder, até um dia ser levado a julgamento pelos crimes contra a humanidade que cometeu.
Mas por enquanto o que temos é um fracasso disfarçado de sucesso. Tanto no Quênia quanto no Zimbábue, ainda é difícil presidentes aceitarem pacificamente o resultado das urnas e passarem à oposição (em Gana isso acaba de ocorrer, mas ainda é uma exceção). Agarram-se ao poder, criam uma situação que acaba degenerando em violência das grossas, e a resposta é sempre um “governo de união nacional”.
Uma página foi virada ontem no Zimbábue, mas convém moderar a euforia e ter uma generosa dose de cautela.
Escrito por Fábio Zanini às 12h56
Milagre no Congo: mais gorilas
Uma história positiva na República Democrática do Congo é tão difícil de encontrar quanto um brasileiro (que não seja político ou jornalista de política) interessado na eleição para presidente da Câmara dos Deputados.
Mas ela apareceu ontem, embora não seja exatamente uma boa notícia para a espécie humana, e sim para os gorilas. Já é alguma coisa.
Um censo de autoridades do imenso país do centro da África, um dos menos governáveis do mundo, apontou crescimento de 12,5% na população de gorilas do Parque Nacional Virungas, única região da Terra em que ele vivem. São agora 81 gorilas vivendo permanentemente ali, incluindo cinco recém-nascidos, o que foi considerado uma “notícia maravilhosa” pelos responsáveis pelo censo.
Apenas três países abrigam os gorilas das montanhas. Além do Congo, eles também estão no Parc National des Volcans, em Ruanda (na verdade, é o mesmo parque, que muda de nome de um lado e de outro da fronteira). Há ainda algumas centenas vivendo na Floresta Impenetrável de Bwindi, em Uganda, de um subgrupo ligeiramente diferente dos outros dois parques (alguns cientistas dizem se tratar de uma espécie diferente). Juntando os três países, temos algo como 720 gorilas das montanhas no mundo.
A população do lado congolês é, dessa forma, minoritária, e não sem razão. Décadas de caos do regime do ditador Mobutu Sese Seko foram seguidas por duas guerras civis da pesada. Gorilas morreram no fogo cruzado, foram caçados para aproveitamento de seus órgãos (usados em rituais de feitiçaria) ou simplesmente morreram com a destruição do habitat.
O leste do Congo está longe de ser uma área estável, com conflitos perenes entre inúmeros grupos rebeldes, mas há cinco anos pelo menos há um embrião de ordem pública na região. O suficiente, vê-se agora, para que um projeto de conservação ambiental tenha se estabelecido, com resultados no aumento da população dos primatas.
A vida dos gorilas é cheia de cascas de banana (gostou dessa?), e por isso eles naturalmente têm uma dificuldade em durar muito. Vivem em famílias de cinco a dez membros, geralmente lideradas por um macho, o silverback (costas prateadas, em razão da idade, em torno de 25 anos). Ele tem um harém, formado por duas ou três fêmeas, com seus bebês a tiracolo. Há ainda adolescentes no grupo, que ao crescerem o abandonam para formar seus próprios haréns. Alguns infelizes não conseguem, no entanto, e passam a vida como solteirões no meio da mata.
Gorilas morrem de todo tipo de causa natural. A mais comum é a malária, mas há também casos de pneumonia, picadas de cobra e até infanticídio (bebês mortos por gorilas maiores). Acrescente-se a isso a ação predatória do homem e você tem a explicação de por que é uma espécie tão ameaçada.
No ano passado participei de uma expedição em Ruanda atrás de uma dessas famílias (a foto abaixo é minha).
O mais interessante é que é possível identificar individualmente os gorilas, como se fossem pessoas, pela feição do rosto. Seus gestos também são muito parecidos com alguns dos nossos: coçam a barba, catam piolhos, bocejam... Recebem nomes dos pesquisadores e são acompanhados durante anos, algumas vezes décadas. Quem se interessa pelo assunto tem de ler o livro “Nas Montanhas dos Gorilas” (“Gorillas in the Mist”), da pesquisadora norte-americana Dian Fossey, que acabou sendo morta por caçadores, nos anos 80.
A notícia do censo está sendo festejada pela comunidade científica internacional como um quase milagre. “É um triunfo para o conservacionismo”, disse à BBC o diretor do parque de Virunga, Emmanuel de Merode.
Agora só falta a guerra acabar e o Congo voltar a ser um país normal.
Escrito por Fábio Zanini às 20h19
Obama silencia sobre o Tribunal Penal Internacional
Barack Obama assumiu disposto a mostrar que é realmente um presidente de esquerda, ou pelo menos o que pode ser considerado esquerda na política americana.
Em seus primeiros dias, anunciou o fechamento da prisão de Guantánamo, autorizou a pesquisa com células-tronco e eliminou restrições ao financiamento de ONGs estrangeiras que admitem a realização de abortos. Também colocou limites nas atividades de lobistas e prometeu para breve um novo plano de combate ao aquecimento global, área notoriamente ignorada por seu antecessor, George Bush.
Até aqui cumpriu o script que dele se esperava, o que só torna mais estranho seu silêncio sobre um tema muito caro às organizações humanitárias internacionais, a integração dos EUA ao Tribunal Penal Internacional, sediado em Haia, na Holanda.
O TPI começou a funcionar em 2002, com a função de processar e julgar acusados de crimes contra a humanidade e genocídio. Veio para preencher um vazio na lei internacional e a de mandar o recado a déspotas em várias partes do mundo, de que não podem agir sem se preocupar com o dia de amanhã.
Hoje, começou o primeiro julgamento da história do tribunal, o do líder rebelde do Congo Thomas Lubanga, acusado de usar crianças na guerra civil que matou mais de 2 milhões de pessoas entre 1999 e 2003 (é ele na foto, distribuída pelo tribunal).
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Até hoje, 108 Estados assinaram e ratificaram o estatuto do tribunal (incluindo o Brasil), mas não os EUA. Bill Clinton chegou a colocar sua rubrica no documento, mas mais como um ato de propaganda, pois sabia que o Congresso de maioria conservadora jamais aprovaria esse ato. Bush, como era de se esperar, retirou a assinatura.
Por que os EUA não assinam? A justificativa é de que, por terem soldados atuando ou estacionados em várias partes do mundo, poderiam ser perseguidos politicamente e processados por governos estrangeiros ao cumprirem suas funções. Argumento que nunca se sustentou muito bem, uma vez que o tribunal é bastante específico quanto aos casos em que pode haver julgamento.
Em linhas gerais, é preciso que um país não tenha condições mínimas de realizar um julgamento justo, ou que não tenha estrutura para tanto. Os EUA, evidentemente, têm. Ainda assim, o Conselho de Segurança da ONU, onde os EUA têm poder de veto, teria de autorizar o julgamento. É óbvio que, com essas salvaguardas, os soldados norte-americanos estão protegidos de qualquer tipo de perseguição injusta.
A história dos julgamentos por crimes contra a humanidade tem um longo pedigree, e remonta aos tribunais de Nuremberg (Alemanha), após a segunda guerra mundial, quando nazistas foram condenados e executados. Após um longo intervalo, a idéia ressurgiu com força nos anos 90, com tribunais específicos sobre crimes cometidos na ex-Iugoslávia, Ruanda, Serra Leoa e Camboja.
Mas são tribunais temporários e específicos, e o TPI surgiu como uma resposta permanente da comunidade internacional. Ele tem suas polêmicas e desvantagens, mas até agora não se pensou numa maneira melhor de fazer justiça a vítimas de atrocidades.
Para a África, o tribunal é especialmente relevante. Até hoje, 12 pessoas tiveram suas prisões pedidas (algumas efetuadas, outras não) pela corte, todas por crimes cometidos em guerras do continente. Cinco líderes do LRA (Exército de Resistência do Senhor, na sigla em inglês), grupo rebelde de Uganda estão entre eles. Outros quatro são rebeldes do Congo (um deles Lubanga, que ontem se disse inocente), além de dois acusados do genocídio de Darfur e um outro congolês implicado na guerra civil na República Centro-Africana. Há ainda o presidente do Sudão, Omar Al-Bashir, cuja prisão foi pedida pelo promotor da corte, Luis Moreno Ocampo, mas que ainda não foi autorizado pelos juízes.
Algumas vezes esse ativismo da justiça atrapalha negociações de paz em curso, o que é uma crítica frequente. Os líderes do LRA, por exemplo, abandonaram um acordo que estava para ser fechado com o governo de Uganda porque queriam garantias de que não seriam presos, coisa que o TPI não aceitou dar. No Sudão, Bashir ameaça tornar um inferno a vida para os capacetes azuis da ONU em Darfur, uma das razões pelas quais sua prisão vem sendo adiada.
Também soa estranha, muito estranha, a fixação do promotor e dos juízes apenas com a África. Fica difícil, numa situação dessas, rebater as acusações de racismo e de justiça do homem branco contra o homem negro. Não estou defendendo clemência para os monstros africanos, mas não existe ninguém na Ásia, Américas, Europa ou Oceania que valesse a pena investigar?
Feitas as ressalvas, é evidente que a corte é um avanço. E ainda mais estranho que Obama não tenha se pronunciado sobre ela. O apoio dos EUA seria um impulso enorme para o tribunal, politicamente e financeiramente. A desculpa de que o Congresso não aprova não cola mais, agora que o presidente tem uma formidável maioria na Câmara e no Senado.
Em 2004, quando era apenas um senador medianamente conhecido e quando a possibilidade de vir a se tornar presidente era considerada remota, Obama afirmou que “os EUA devem cooperar com o as investigações do TPI de maneira que reflita a soberania norte-americana e promova nossos interesses de segurança”.
Uma resposta meia-boca, como se vê, em que ele não chega a se comprometer com a participação efetiva na corte. Desde então, silêncio absoluto.
Estar fora da corte coloca os EUA na desconfortável companhia de ditaduras como Mianmar, Bielo-Rússia, China, Coréia do Norte e Irã.
Seria um gesto interessante o novo presidente finalmente aceitar o inevitável: o tribunal já está funcionando, gostem os EUA ou não.
E aí, Obama, assina ou não assina?
Escrito por Fábio Zanini às 22h39
Jornalistas brasileiros na África
No mês passado a Rede Record estreou seu correspondente na África, Luiz Fara Monteiro, baseado em Johannesburgo, África do Sul.
É a segunda emissora brasileira que toma essa atitude em menos de um ano, a primeira tendo sido a TV Brasil, com Carlos Alberto Junior, baseado desde maio em Luanda, Angola. Ainda este ano a Rede Globo fará o mesmo, também em território sul-africano.
É claro que há uma Copa do Mundo se aproximando, motivo mais do que suficiente para tentar as TVs brasileiras. Duvido que a Globo iria se não fosse o evento, por exemplo. Já a Record tem um interesse estratégico na África, entre outros motivos pela grande presença de sua proprietária, a Igreja Universal do Reino de Deus, no continente. A TV Brasil tem uma política de elevar o perfil da África em sua programação, em linha com as prioridades da diplomacia de Lula.
Mas o ponto principal é que temos agora três emissoras brasileiras na África, e é prova suficiente de que o continente não é totalmente negligenciável para nossa "imprensa burguesa", como diriam os petistas com quem vira e mexe eu converso.
Como sempre, a adaptação na África não é fácil. O intrépido Junior está passando poucas e boas na burocracia angolana em nome do nobre ofício de reportar. Monteiro, da Record, também teve seus percalços, conforme me relatou num email.
"Eu já tinha acertado com a Record de viajar em janeiro/fevereiro de 2009. Mas em agosto me ligaram, comunicando que iríamos em setembro. O processo do visto de trabalho enrolou e não saiu porque ainda não tínhamos o endereço do escritório", disse ele.
Durante 45 dias, ele rodou por várias cidades sul-africanas (como Johannesburgo, Cidade do Cabo e Durban), além de uma passadinha em Maputo, Moçambique.
Sua série de reportagens pode ser conferida no link www.mundorecord.com.br (é preciso digitar a palavra "África" na caixa de busca). Agora, deve produzir ao menos três matérias semanais. A estrutura é micro, mas suficiente para dar conta do recado: Monteiro, um cinegrafista brasileiro, uma produtora sul-africana e um motorista. O escritório fica em Sandton, bairro de classe média alta de Johannesburgo (e desproporcionalmente branco) que parece saído de um filme de Blade Runner: prédios enormes e mega-shopping centers onde a vida acontece.
"Em Joburg me adaptei logo. Estranhei o shopping abrir 7 da manhã e fechar às 5 da tarde. Pior foi procurar restaurante aberto depois das 21h. Mais tarde descobri que o do Hotel Michelangelo (um dos mais caros) funciona até as 3h da manhã, com direito a desfile de prostitutas que vendem o corpo em busca de um prato de comida ou o sustento para a família. Sejam quais forem os motivos, situaçoes horriveis e lamentáveis."
(Tudo fecha cedo muito por causa do medo da violência, se bem que hoje Johannesburgo é muito mais segura do que há dez anos. Mas a cultura de chegar cedo e sair cedo no trabalho permanece).
Mas tanto Junior como Monteiro aceitam as atribulações como parte do desafio. O importante é que a imprensa brasileira descobriu a África, com um certo atraso, é verdade. Aleluia.
Escrito por Fábio Zanini às 20h54
O oba-Obama da imprensa africana
Quem acompanhou a longa posse de Barack Obama ontem não pôde deixar de notar o clima de oba-oba (oba-Obama?) de praticamente toda a mídia com o "momento histórico", a "esperança da mudança" e o "início de uma nova era". Escolha seu clichê, poucas vezes a imprensa mundial fez uma cobertura tão acrítica como agora. Talvez o exemplo mais recente seja o apoio incondicional conferido a George Bush nos primórdios da guerra ao terror, e deu no que deu.
A imprensa africana sem dúvida embarcou no deslumbramento, mas eu tendo a ser um pouco mais condescendente nesse caso. É um negro, filho de africano, que chega à presidência dos EUA, e é compreensível a euforia no continente. Espero que dure.
Aqui vai um apanhado de como alguns dos veículos africanos cobriram ontem o momento histórico que foi a posse de Obama, certamente o início de uma nova era que traz esperança de mudança.
Na África do Sul, o "Sowetan", um tablóide baseado, obviamente, no distrito histórico do Soweto, que é extremamente popular e influente com a nova classe média negra, dedicou sua primeira página inteira à posse.

"Precisamos escolher a esperança sobre o medo" é a manchete do tablóide, reproduzindo uma frase, aliás, muito parecida com a da posse de Lula em 2002, "a esperança venceu o medo". Mera coincidência?
No Quênia, onde nasceu o pai do presidente, o "Daily Nation" registra uma daquelas frases inacreditáveis, do ministro das Relações Exteriores, Moses Wetangula. "O Quênia agora é visto como uma superpotência, porque nosso irmão chegou ao cargo mais alto do mundo", diz Wetangula, meio brincando, meio falando sério.
Ele continua: "O Quênia sempre teve sua marca associada aos nossos incríveis atletas, mas agora sua marca número um vem com a eleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos".
O principal site noticioso sobre a África, o www.allafrica.com (recomendo, aliás), ontem era praticamente monotemático, com blog em tempo real e tudo mais. Das dez matérias mais lidas ontem, nada menos que oito tinham relação com a posse.
Em Angola, o jornal oficial "Jornal de Angola" (desculpe a redundância...) trouxe a manchete "Primeiro presidente negro muda a história dos EUA", com a indefectível foto do presidente fazendo o juramento ao lado da primeira-dama, Michelle.

Angola é um caso engraçado, um governo nominalmente marxista fissurado no capitalismo norte-americano. É provável que dentro de quatro ou oito anos, quando Obama deixar o poder, os angolanos tenham se consolidado como um dos maiores fornecedores de petróleo para os americanos.
Dei uma olhada ainda na mídia do Zimbábue, país que será uma dor de cabeça para o novo presidente. Infelizmente, não consegui acessar o site do "Herald", o jornal chapa-branca e porta-voz do regime de Robert Mugabe, porque, com a crise econômica no país, não é sempre que ele funciona. Estava curioso para saber o tratamento dado por Mugabe a Obama.
Mas deu para acessar um jornal online de oposição, o "Harare Tribune" (www.hararetribune.com). Veja que a ali a esperança é enorme. "Talvez esse dia histórico atinja a consciência de Mugabe, se ele tiver uma, e levar a uma mudança em políticas, liderança e tom, desesperadamente necessários para um novo Zimbábue. A mudança virá para o Zimbábue, uma vez que a inspiração que foi canalizada ao mundo por Obama é enorme, e a população do Zimbábue, como poeira, vai levantar e acreditar que sim, nos podemos mudar".
Certo. Vamos esperar.
Escrito por Fábio Zanini às 20h36
Extraditar ou não extraditar?
Cesare Battisti, um italiano condenado em seu país por terrorismo, recebeu na semana passada asilo político do governo brasileiro, dando início a um debate quente sobre o que um país tem ou não tem o direito de fazer com alguém procurado por outro.
A discussão sobre exílio político e extradição de condenados ou acusados por crimes graves se intensifica em todos os cantos, mas é especialmente importante na África, provavelmente mais do que em qualquer outro lugar.
Na última década, dezenas de países do continente deixaram de ser ditaduras monopartidárias para democratizar-se ou pelo menos avançar nesse sentido. O resultado é que uma geração de presidentes, primeiros-ministros e demais autoridades em governos corruptos e autoritários passou a ser julgada e algumas vezes até condenada. Os que puderam fugiram para outros países, e agora têm a extradição pedida em seus Estados de origem.
Um exemplo claro é o de Haile Mengistu, o ditador comunista da Etiópia entre 1974 e 1991, cujo regime matou pelo menos 1 milhão de pessoas entre execuções e as conseqüências da fome, que se refugiou no Zimbábue de Robert Mugabe. A foto abaixo, que tirei em Addis Ababa, mostra um monumento em delicioso estilo soviético, com Mengistu liderando as massas de trabalhadores comunistas (estranhamente, nunca foi demolido pelo atual governo).
No ano passado, Mengistu, vivinho aos 71 anos, foi condenado à morte pela Justiça de seu país, mas é pouco provável que Mugabe conceda a extradição desejada pelos etíopes.
Ao mesmo tempo, novas leis e conceitos de jurisdição universal, ou seja, de que alguns crimes são cometidos contra a humanidade de maneira geral e portanto passíveis de julgamento e condenação em qualquer lugar do planeta, têm ganhado espaço. A Bélgica é especialmente atuante nessa área, e indiciou Hissene Habré, líder do Chade entre 1982 e 1990, por crimes contra a humanidade cometidos durante seu governo.
Habré hoje está exilado no Senegal, país que se recusa a extraditar o ex-ditador para a Bélgica para ser julgado. Nesses momentos, o espírito de corpo dos africanos fala mais alto, e Habré, embora uma figura odiada no continente africano, dificilmente será extraditada para um país europeu. Como consolo, há a promessa de que as próprias cortes senegalesas julguem o ex-presidente do Chade.
Por fim, há a proliferação de tribunais internacionais, sob os auspícios da ONU, para julgar criminosos de guerra. Nessa categoria têm se verificado os casos mais abundantes de extradições autorizadas. A corte especial para o genocídio de Ruanda, baseada em Arusha (Tanzânia), já obteve a extradição de cerca de 80 suspeitos, vindos de vários países da África, EUA e Europa.
A que trata dos crimes cometidos em Serra Leoa conseguiu extraditar o ex-presidente da Libéria Charles Taylor, cúmplice dos rebeldes que cortavam mãos de crianças, antes tendo a "decência" de perguntar se queriam manga curta (facão no cotovelo) ou manga longa (no pulso). Exilado na Nigéria, foi capturado e enviado para a Holanda, para ser julgado.
E temos ainda o Tribunal Penal Internacional, com sua estranha fixação apenas por criminosos africanos (não que eles não mereçam, mas parece que só se preocupam com a África). Jean Pierre Bemba, um líder rebelde congolês, foi extraditado para responder por crimes de guerra na República Centro-Africana. Outros congoleses estão na mira da corte, além, é claro, do presidente sudanês, Omar Al-Bashir, em razão do genocídio em Darfur.
Como regra, a extradição é concedida por um país a outro ou a uma corte internacional se o acusado recebeu ou receberá um julgamento justo num país com legislação sólida, que respeite o amplo direito de defesa e a presunção de inocência, necessária até para um genocida asqueroso _o que só torna mais inexplicável a recusa do Brasil de extraditar Battisti, condenado por um país democrático, a Itália.
No caso dos africanos, a questão é mais delicada, como sempre. Afinal, países como Etiópia e Chade estão longe de serem democracias plenas. Seria correto extraditar Mengistu e Habré, por exemplo? Por isso existem cortes internacionais, mas aí volto ao ponto do espírito de corpo dos africanos, que dificulta as coisas.
As perguntas são muitas, mas é preciso ver o lado positivo disso tudo. Só estamos discutindo esse assunto porque ditaduras e ditadores gradativamente vão se tornando anacrônicos, mesmo na África. Dizem que é por isso que Robert Mugabe se agarra tão firmemente ao poder no Zimbábue. No dia que for ejetado da cadeira presidencial, correrá sério risco de acabar em algum tribunal.
Escrito por Fábio Zanini às 00h01
Êba! Uma nota de 100 trilhões de dólares!
Eu sei, eu sei que tinha prometido parar de fazer piada com o dinheiro do Zimbábue. E que estou ficando repetitivo.
Mas eu não resisto. Só mais essa vezinha, tá?
Acabou de sair a nota de 100 trilhões de dólares zimbabuanos. Que vale apenas cerca de US$ 30, na cotação de hoje, sexta-feira. Na segunda-feira, estará valendo algo como US$ 25, até o dia, dentro de um mês mais ou menos, em que vai valer poucos centavos. E então virá a próxima nota, provavelmente de 1 quatrilhão de dólares zimbabuanos. Será que conseguirei resistir a outro texto quando isso ocorrer?
É uma tragédia para a população, sem dúvida, mas ainda bem que o governo do ditador Robert Mugabe ajuda a dar um tempero de humor no dia-a-dia. Veja que hilário o anúncio da nova nota pelo jornal "Herald", porta-voz do regime:
"Numa medida com o propósito de assegurar que a população tenha acesso a seu dinheiro nos bancos, o Banco Central do Zimbábue introduziu uma nova família de cédulas, que gradualmente entrará em circulação, começando com a de 10 trilhões de dólares".
Parece coisa séria de anúncio do Federal Reserve norte-americano. "Acesso a seu dinheiro nos bancos"? Só se for uma referência à elite de apaniguados do regime, os únicos ainda transitando na economia formal. No Zimbábue de hoje, crescem o escambo e o uso de moeda estrangeira para os que a têm. O governo, numa admissão de fracasso, desistiu de proibir que a população encontrasse maneiras de sobreviver a uma inflação de 231 milhões por cento ao ano, segundo os últimos dados.
Enquanto isso, o regime continua prendendo ativistas, a cólera continua matando e o acordo de união nacional com a oposição continua encalacrado.
Pelo menos temos a moeda zimbabuana para nos divertir.
Escrito por Fábio Zanini às 20h22
O que Hillary disse sobre a África
A futura secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, foi ontem ao Senado para responder a perguntas antes de ser confirmada para o cargo. Apesar do clima de camaradagem (Hillary é, afinal, ela mesma uma senadora), a nova chefe da diplomacia dos EUA deu pistas interessantes, e algumas espantosas, do que será a política de Barack Obama para a África (foto abaixo do "Washington Post").

Confesso que me surpreendeu positivamente o espaço que o continente teve na audiência, muito maior do que eu esperava. Obviamente, não se pode esperar da África o mesmo destaque que têm o Oriente Médio, a Europa, o terrorismo islâmico, a imigração mexicana e a ascensão da Rússia e da China. São assuntos muito mais relevantes para o público norte-americano e, diga-se de passagem, para o brasileiro também. Quantas matérias na imprensa de hoje você leu sobre o que pensa Hillary sobre o continente mais pobre do mundo? Esse post é uma tentativa de eliminar essa lacuna.
A transcrição completa, aliás, está aqui (em inglês):
http://www.cfr.org:80/publication/18225/transcript_of_hillary_clintons_confirmation_hearing.html
Logo no começo, Hillary listou os novos problemas surgidos no mundo nos últimos 70 dias, desde a eleição de Obama. Mencionou seis, dos quais três na África: a guerra no Congo, a cólera no Zimbábue e a pirataria na Somália (os outros três são níveis recorde de efeito estufa, derretimento polar e, claro, o conflito em Gaza). Evidentemente estamos aqui falando de tragédias, mas só o fato de temas africanos estarem sendo colocados no mesmo plano que outros já é um sinal promissor.
Mas Hillary é uma secretária de Estado norte-americana, e repete o cacoete de ver tudo pelo prisma do terrorismo e da segurança nacional. A pirataria na Somália, por exemplo, é classificada por ela de "uma antiga forma de terrorismo", uma relação que eu nunca tinha vista.
Diz a nova secretária de Estado: "Na África, os objetivos de Obama estão baseados em interesses de segurança, política, economia e ações humanitárias, incluindo combater os esforços da Al Qaeda para criar redutos no Chifre da África [leste do continente], ajudar nações africanas a conservar seus recursos naturais, parar a guerra no Congo, acabar com a autocracia [por que não chamou de ditadura???] no Zimbábue e a devastação humanitária [por que não chamou de genocídio???] em Darfur".
Hillary em seguida elogia democracias como a África do Sul e Gana e promete trabalhar com os "amigos africanos" para atingir os objetivos do milênio na saúde, educação e oportunidades econômicas. Mais à frente, fala sobre Aids, malária e outras doenças comuns no continente, fazendo um justo reconhecimento ao trabalho de George Bush nessa área (não estou brincando). "Os Estados Unidos desfrutam de grande apoio em muitos países africanos. Mesmo entre populações muçulmanas da Tanzânia e Quênia, os EUA são vistos como líderes na luta contra Aids, malária e tuberculose. Temos a oportunidade de continuar esse sucesso".
São objetivos louváveis, mas, de novo, estão subordinados ao prisma da segurança, como deixa claro esse trecho: "É com grande preocupação que vemos redutos para terroristas criados novamente. O caos em Estados falidos como a Somália, as consequências de regimes autocráticos que maltratam seu povo, como o Zimbábue, a anarquia e violência terrível no leste do Congo. Quer dizer, esses são campos férteis não apenas para abusos contra seres humanos, mas são convites a terroristas para encontrarem refúgio no caos".
É fácil enxergar a estratégia dela. Hillary reflete o comportamento dos EUA pós-11 de setembro. Na lista de prioridades da opinião pública, o espaço é limitado para o que não representar ameaça a seus interesses e bem-estar físico. É provável que incluindo a África na temática da segurança, ela consiga fazer mais pelo continente, levando recursos, investimentos e ajuda humanitária com o argumento de que é preciso haver um mínimo de ordem.
Mas há o outro lado. O discurso do Estado falido, que abriga terroristas, é sempre o prefácio de uma aventura militar. Chama a atenção, por exemplo, o fato de Hillary, ao ser questionada sobre a Somália e a pirataria em suas águas, que custam caro para o transporte de mercadorias (incluindo petróleo), ter mencionado a possibilidade de uma intervenção militar.
"Eu não sei qual a maneira mais efetiva de avançar. O conflito interno dos grupos na Somália é cada vez mais intenso, agora com o ingrediente adicional da Al Qaeda e de terroristas que tentam tirar vantagem do caos. Há muitas consultas sobre o que fazer com relação à pirataria. Há alguma conversa sobre entrar em terra, muitos que advogam isso. Temos que pensar muito a respeito", afirma ela.
Ainda é cedo para saber o que muda e o que não muda na política de Hillary e Obama para a África. É inevitável que cresça de importância, até em razão das raízes africanas do novo presidente. A inclusão do continente na estratégia global antiterror dos EUA é um dado realidade. Se será uma decisão que trará ganhos para os africanos nós ainda vamos ver.
Escrito por Fábio Zanini às 20h49
Quando imigrantes viram modelos
Uma dica interessante de minha colega Ana Estela de Souza Pinto, editora de Treinamento da Folha e responsável pelo blog "Novo em Folha" (recomendo: http://novoemfolha.folha.blog.uol.com.br/).
Acaba de ser lançado na Espanha um calendário com fotos de homens seminus, em poses sensuais, um ilustrando cada mês de 2009. Mas não são modelos, bombeiros ou jogadores de futebol, e sim imigrantes africanos, moradores da cidade de Albacete.
Sobre isso, saiu uma matéria no jornal espanhol "El País", no link abaixo:
http://www.elpais.com/articulo/agenda/Inmigrantes/desnudo/elppgl/20090105elpepiage_2/Tes
A idéia é de um fotógrafo de 28 anos, Adolfo López, que admite ter tido um certo trabalho para convencer os imigrantes a posarem para suas lentes. Afinal, nada mais distante dos hábitos da África subsaariana que expor o corpo. Em regra, por onde se anda no continente, pode estar fazendo 40 graus à sombra, mas é todo mundo de calça e camisa de manga comprida. É raríssimo ver algum nativo de bermuda e camiseta. Expor o corpo simplesmente não é com eles.
Os africanos, de países como Mali, Senegal e Mauritânia, são bastante representativos do fenômeno migratório da África para a Espanha (se bem que senti falta de marroquinos, tunisianos, argelinos e outros representantes da parte árabe do continente).
A Espanha tradicionalmente sempre foi um país tolerante com seus imigrantes africanos, consciente de que é em sua costa que o continente mais pobre do mundo e o mais rico quase se tocam e que, portanto, é inútil tentar estancar movimentos migratórios.
Mas isso vem mudando rapidamente, principalmente com a paranóia posterior aos ataques da Al Qaeda a um trem em Madri, há cinco anos, quando morreram quase 200 pessoas. A Espanha, por mais alegre e simpática que seja, não escapou de uma tendência mundial ao fechamento de fronteiras.
Há quem dirá que o calendário é uma afronta à cultura africana, mas prefiro ver a coisa toda como uma maneira interessante de tentar eliminar um pouco o estereótipo que cerca esses imigrantes. Sem falar que eles vão ganhar um troco razoável pelo trabalho.
E no final das contas, como diz um "modelo" de Mali, sem roupas somos todos iguais...
Escrito por Fábio Zanini às 21h57
São Tomé: visite enquanto é tempo
Renate Krieger, que trabalha na rede alemã "Deutsche Welle" e é colaboradora de Pé na África, mandou o texto e as fotos abaixo sobre sua visita a São Tomé e Príncipe, minúscula ex-colônia portuguesa bem no meio do Golfo da Guiné, uma das novas fronteiras da exploração petrolífera mundial. Este é o seu relato sobre um país para lá de pacato, ainda totalmente despreparado para a revolução que o petróleo trará.
***
Por Renate Krieger
São Tomé e Príncipe é um pequeno paraíso na costa ocidental da África, logo onde passa a linha do Equador. Conhecido especialmente pela produção de cacau de alta qualidade, o arquipélago é praticamente ignorado pelo resto do mundo. Mas, se depender do fuzuê em torno do petróleo que jaz nas águas do Golfo da Guiné, essa realidade pode mudar nas próximas décadas.
Passei apenas três dias em São Tomé e Príncipe e saí de lá com vontade de voltar o mais rápido possível (não cheguei a visitar o Príncipe, ilha mais conhecida pela natureza intocada). Nem de longe, é tempo suficiente para conhecer o país a fundo - por menor que ele seja. São Tomé e Príncipe caberia umas 50 vezes na Ilha de Marajó.
Depois de passar uma semana em meio ao clima inóspito e desconfiado da Guiné Equatorial, foi um alívio pisar na ex-colônia portuguesa. Ao contrário dos guinéu-equatorianos, de cara fechada, os são-tomenses são todos sorrisos, mesmo sendo um dos povos mais pobres do mundo (no ranking de 179 países do Índice de Desenvolvimento Humano/IDH das Nações Unidas, o país caiu do 127º ao 128º lugar em 2008).
Durante a minha primeira caminhada pela capital, muitos são-tomenses chegaram perto para conversar e acabavam pedindo dinheiro, os chinelos que eu usava nos pés, a mochila que eu levava nas costas ("deixe aí quando fores embora, lá na Europa compras outra"), e davam gargalhadas quando se viam retratados no monitor da câmera fotográfica digital. As crianças na roça de cacau Diogo Vaz (noroeste da ilha de S. Tomé), onde fiz parte da reportagem para a DW, logo me chamaram de "amiga", depois pelo nome, e pediam doces e brinquedos. Pelo que ouvi, é assim que todos os visitantes de fora são recebidos nas "roças" (as fazendas de cacau).
Tive a impressão de que a malícia ainda não conseguiu manchar a candura daquela gente. "Essa é a Clarissa", me disse uma moça magra, vestida de branco e que não parecia ter mais de vinte anos, assim que cheguei às casas ocupadas pelos trabalhadores da roça. Deu-me a filha para segurar, um bebê magrinho, frágil e silencioso, mas de olhos curiosos e irrequietos.
A família da Clarissa é grande, uma das milhares que sobrevivem da própria plantação nas roças de São Tomé e Príncipe. O pai da menina, Salomão, tem 30 anos e um lote de 200 m², que ganhou do governo (a antiga colônia portuguesa passou por algumas reformas agrícolas desde a independência, em 1975, com medidas que primeiro nacionalizaram as roças e depois distribuíram parte das terras à população). Em seu sítio, a dois quilômetros da sede da fazenda, Salomão planta cacau, banana-pão, banana-prata e mandioca. Mas ele ganha pouco: da colheita de cacau a cada três meses, ele tira, no máximo, 350 mil dobras são-tomenses (o equivalente a 60 reais).
Como muitos são-tomenses, Salomão reclama recursos e acompanhamento técnico para estimular a agricultura. (Na foto, é ele com sua família).

Da estrada, o que mais se vê são pés de cacau, principal produto de exportação do país. Abaixo, o produto está sendo secado numa das "roças".

Mas a produção atual não se compara à época áurea do cacau são-tomense, que no início do século XX era o primeiro do mundo (também devido ao trabalho escravo, cujas condições desumanas se prolongaram para bem além da abolição). Na época da independência, em 1975, o produto de São Tomé já estava decadente, situação que acabou se agravando até 1990 com a saída dos portugueses, o alinhamento do país ao regime comunista e a desapropriação das roças. Mesmo assim, o cacau de São Tomé tenta se reerguer com projetos como a produção de cacau biológico. O italiano Cláudio Corallo, por exemplo, vive em São Tomé desde 1993 e é lá que produz seu chocolate mundialmente famoso no arquipélago.
Mas São Tomé não é só chocolate. Aos poucos, tenta estruturar o setor de turismo.

No Príncipe, uma empresa holandesa está montando um programa de turismo sustentável para atrair os visitantes. O grupo de hotéis Pestana também já encontrou uma boa fatia no arquipélago e administra dois hotéis de luxo e um resort no Ilhéu das Rolas, a 93 km ao sul da ilha de S. Tomé. Algumas das roças também foram reformadas para atrair visitantes, mas a maioria, como a roça Diogo Vaz, está abandonada.
Se São Tomé tem nesses exemplos algumas alternativas para sair da miséria, estas estão sendo ofuscadas pela discussão em torno do petróleo. O link a seguir, do Le Monde Diplomatique (outubro/2006), fala em reservas estimadas em 11 bilhões de barris de petróleo. O artigo de Jean-Christophe Servant, traduzido para o português, critica a influência do "ouro negro" no já instável sistema político do país.
http://diplo.uol.com.br/2006-10,a1416
Entre a população, a expectativa - e a desconfiança - em torno do petróleo crescem. Muitos dos são-tomenses com quem falei reclamam das constantes mudanças de governo (o país trocou de primeiro-ministro duas vezes em 2008 - o atual chefe de governo é Rafael Branco, do Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe, o MLSTP-PSD, maior partido de oposição). Para muitos são-tomenses, o petróleo será mais uma promessa não-cumprida que servirá para enriquecer a elite política do país e evidenciar novamente a incapacidade administrativa do Estado...
O discurso das autoridades, como Luís dos Prazeres, diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo, é conciliador. Se encontrarem petróleo em São Tomé e Príncipe, a exploração só deve começar lá por 2014. Poderia demorar mais. Ou não acontecer, para que o paraíso são-tomense não se torne um canteiro de obras, como aconteceu com a vizinha Guiné Equatorial.
Escrito por Fábio Zanini às 21h26
Três mulheres para o presidente
O início de 2009 trouxe duas notícias importantes da África do Sul. Aparentemente sem relação nenhuma entre as duas. Na verdade, vistas em conjunto, bastante representativas da transformação por que passa o país mais importante do continente.
No primeiro dia do ano foi anunciada a morte de Helen Suzman, uma das últimas sobreviventes da geração que fez história ao resistir ao apartheid. Suzman era uma velhinha de 91 anos que é o que se poderia chamar de um "ícone", termo, aliás, que ela mereceu da imprensa internacional. Talvez o único ícone da luta anti-apartheid da raça branca (foto do Jewish Web South Africa).

Durante décadas, Suzman foi a única deputada no Parlamento sul-africano a denunciar o regime de exceção que foi imposto à maioria negra. Representava o Partido Progressista, uma legenda nanica formada por brancos ditos liberais, que fazia oposição ao Partido Nacional, cujos 45 anos no poder serviram para deixar como legado o regime segregacionista.
Mesmo dentro de seu partido, ela destoava. Os "Progs" eram liberais e criticavam os extremos do apartheid, mas não chegavam a ir tão longe como antever um governo de maioria negra. Suzman, não. Sem papas na língua e sem medo de ser chamada de traidora, era uma rara visitante frequente de Nelson Mandela na prisão. Duas vezes foi nomeada para o Prêmio Nobel da Paz, e só não ganhou porque a cota de líderes anti-apartheid já havia sido preenchida pelo arcebispo Desmon Tutu e pelo próprio Mandela.
A outra notícia a que me refiro é o anúncio de que Jacob Zuma, o líder do Congresso Nacional Africano e provável próximo presidente do país, anunciou ontem sua intenção de se casar pela terceira vez. Nada demais, se não fosse a terceira mulher simultânea que ele busca. Ele já tem duas, uma desde 1973 e outra com quem casou no ano passado (foto da Reuters).

A novidade monopoliza o noticiário sul-africano, e a morte de Suzman já virou pé de página. Feministas estão em polvorosa. A fama de machista de Zuma, conhecido por dizer que se previne da Aids tomando banho após ter relações sexuais, acaba de se firmar um pouco mais no imaginário do país. O líder político se defende dizendo que as regras ocidentais de monogamia não se aplicam na cultura tradicional africana. Em sua tribo zulu, assim como em outras do continente, diz Zuma, a poligamia é perfeitamente aceitável.
Não vou aqui julgar as razões do futuro presidente sul-africano e entrar num debate etnológico sobre a concepção de casamento. Zuma e suas mulheres que decidam o que é melhor para eles. Um parênteses, aliás: eles vão se casar apenas segundo a tradição tribal, sem validade legal.
O que os dois fatos isolados reforçam, no entanto, é a troca de guarda que está transformando a sociedade sul-africana. Suzman, como eu já disse, era uma das últimas sobreviventes da geração dos heróis sul-africanos. Morreram nos últimos anos Walter Sisulu, Oliver Thambo, Joe Slovo e Govan Mbeki, entre outros que ficaram por décadas associados à política do país. Mandela e Tutu são os últimos.
Entra em cena uma geração de carne e osso, sem o respaldo moral que os heróis tinham. Só um louco para atacar Mandela (e Suzman), mas descer a lenha em Zuma faz parte do jogo. É positivo até certo ponto, sem dúvida. Mas a geração que está assumindo o poder na África do Sul corre o risco de descer ao outro extremo: o do escárnio em praça pública. Não há dúvida que, para um país que já teve Mandela como presidente, acabar nas mãos de um Zuma é duro de engolir.
Escrito por Fábio Zanini às 22h56
Rali Paris-Dacar: já vai tarde
O ano começou com uma boa notícia para a África. O famoso rali Paris-Dacar, que na verdade já vinha apresentando variações no trajeto na última década, pela primeira vez está sendo disputado bem longe do continente. Já vai tarde.
Quem tem a duvidosa honra de sediar o evento em 2009 são nossos hermanos Argentina e Chile. O rali começou no último sábado e termina no próximo dia 18, e seria mais uma inofensiva competição de playboys endinheirados se não tivesse uma história macabra de acidentes, mortes e desrespeito ao continente africano.
O rali começou em 1979, quando o francês Thierry Sabine, após se perder no deserto do Saara, achou a brincadeira interessante e resolveu transformar sua agonia num evento pseudo-esportivo. Nos anos seguintes, dezenas de pilotos em diversas categorias começaram a participar do rali. O sucesso foi instantâneo. As câmeras de TV vidraram-se no espetáculo de homens e mulheres destemidos enfrentando dunas e tempestades monstruosas, correndo para superar os limites da natureza. Blergh.
Pouco a pouco, outra imagem foi se formando. O Paris-Dacar é também o "rali da morte", e com boas razões para merecer o epíteto. Nas três décadas do evento, cerca de 50 competidores já morreram em acidentes. Que são lamentáveis, sem dúvida, mas pelo menos eles sabiam dos riscos que estavam correndo.
Muito piores são as mortes de africanos inocentes, atropelados por máquinas que geralmente custam mais do que a renda inteira das vilas pelas quais passam a mais de 200 km/h. A foto, da Getty Images, mostra um competidor cruzando uma vila no Mali em 2006.

Incrivelmente, não existe uma contabilidade segura de quantos africanos já foram vítimas do rali, mas há exemplos chocantes.
Em 1988, uma garota de dez anos de idade no Mali morreu atropelada quando cruzou a pista. Alguns dias depois, uma mãe e sua filha em outro país no roteiro do evento, a Mauritânia, tiveram a mesma sorte.
Em 2003, um garoto de cinco anos morreu esmagado por um caminhão. O ano de 2006 foi especialmente violento. Em apenas dois dias, morreram um menino de dez anos e outro de 12.
Mas não é apenas isso. Há algo de profundamente errado no fato de milionários brancos em máquinas caríssimas invadirem o espaço de comunidades paupérrimas apenas em nome da diversão, como se fossem garotos mimados ateando fogo a um mendigo que dorme no ponto de ônibus.
O rali explora todo tipo de clichê sobre a África selvagem, inóspita e exótica. Às vezes, é um preço a se pagar para trazer dinheiro e investimentos -não é esse o apelo dos safáris? Infelizmente, não é esse o caso do Paris-Dacar. Qualquer benefício material que traga (pequeno, na verdade) é vastamente ofuscado pelos problemas que causa à África.
Foi, ironicamente, a ameaça de terrorismo no norte do continente que afugentou os organizadores do evento. Grupos armados na Mauritânia, possivelmente ligados à rede Al Qaeda, ameaçaram sequestrar e matar participantes ocidentais. Em 2008, já não houve rali. Agora, ele ocorre na paisagem da cordilheira dos Andes, muito embora o nome fantasia de "rali Dacar" permaneça.
Que fique por lá. Melhor ainda seria se esses caras encontrassem outra maneira, menos estúpida, de gastar sua testosterona.
Escrito por Fábio Zanini às 22h22

Fábio Zanini