Bali 40 graus - Despachos da Conferência do Clima
 

Três monstros condenados

Ainda está longe de ser uma rotina, claro, mas os casos de condenados por crimes contra a humanidade na África começam a se tornar mais freqüentes.

Essa semana foram três em Serra Leoa, julgados por uma corte genuína e com o devido respeito ao processo legal. Até que se prove o contrário, o Tribunal Especial de Serra Leoa, baseado na capital do país, Freetown, tem todos os requisitos que se espera de uma corte de verdade. Em nada se parece com farsas que vira e mexe são montadas por ditadores ou ex-rebeldes golpistas que assumem o poder.

Foram condenados três líderes da Frente Unida Revolucionária (RUF na sigla em inglês), o principal grupo rebelde durante a longa guerra civil do país, nos anos 90. Issa Sesay, hoje com 38 anos, Morris Kallon, 45, e Augustine Gbao, 60, ainda não sabem quais são suas sentenças finais (pelo sistema local, elas demoram para sair após a condenação). Mas é de se esperar que passem décadas na prisão.

Quem viu o filme “Diamante de sangue” tem alguma noção do que estou falando. Durante a guerra em Serra Leoa, a sigla RUF era suficiente para levar o pânico a populações civis. Algumas das maiores atrocidades cometidas em todo o século 20 foram de responsabilidade do grupo. Cortar mãos e pés de vítimas (inclusive crianças) era uma marca registrada. Recrutar crianças soldado era outra. Idem fazer apostas sobre o sexo de bebês dentro do ventre da mãe e conferir quem venceu cortando a barriga com um facão.

Desculpe se atrapalhei o jantar de alguém, mas estamos aqui falando de um dos mais emblemáticos grupos rebeldes dentro da miríade de Frentes Revolucionárias, Exércitos de Libertação e Forças Armadas do Povo que infestam o continente africano. Os nomes soam grandiosos, mas acobertam bandidos e mercenários. A importância da condenação de três líderes da RUF, um grupo que se financiavam com a venda de diamantes e recebia apoio logístico do então presidente da vizinha Libéria, Charles Taylor, não pode ser subestimada. Taylor aguarda sua vez de ser julgado pelo mesmo tribunal, apesar de estar preso na Holanda, por medida de segurança.

O julgamento de Sesay, Kallon e Gbao é histórico em uma série de sentidos. Pela primeira vez, o crime de casamento forçado foi considerado. Esta é uma rotina das regiões de guerra: soldados armados perambulando por vilas e seqüestrando garotas para serem suas “esposas” –na verdade, escravas sexuais. Em Ruanda, o crime de estupro já havia sido considerado uma arma no genocídio.

Tribunais para julgar crimes de guerra não são perfeitos, e jamais serão uma história de conto de fadas, com finais 100% felizes. Para começar, tendem a demorar anos para emitir uma sentença final. Os três monstros da RUF levaram 8 anos para serem julgados. Em Ruanda, um tribunal continua a julgar acusados pelo genocídio 15 anos depois.

O principal líder do grupo rebelde de Serra Leoa, Foday Sankoh, morreu na prisão em 2003, antes portanto de ser julgado, o que é realmente uma pena. Mas seus comparsas não tiveram a mesma sorte.

Serra Leoa hoje é um lugar pacífico e uma esperança democrática na África. Em 2007, o vice-presidente perdeu uma eleição presidencial para o candidato oposicionista e aceitou o resultado, caso raro de mudança pacífica de guarda no continente.

Estive lá em 2004, e visitei a corte que julga os crimes de guerra, patrocinada pela ONU e pelo governo local. O país é estável, a capital, Freetown, é linda (praias e montanhas que rivalizam com o Rio de Janeiro), mas o lugar é desesperadamente miserável. Permanece em último lugar no índice de desenvolvimento humano das Nações Unidas. Sinal de que guerras deixam marcas perenes muito tempo depois de encerradas.

Escrito por Fábio Zanini às 21h50

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Começou a Copa

Começou!

A Copa de 2010 ficou muito mais perto ontem (pelo menos simbolicamente), com o início da venda de ingressos para os jogos. Três milhões, mais ou menos, estão disponíveis para 64 jogos a partir de junho do ano que vem. Serão dez estádios em nove cidades, alguns ainda sendo construídos, outros reformados.

A primeira Copa da África tem muitas dúvidas em seu caminho, entre estádios, condições de segurança e de infraestrutura, mas é imperativo reconhecer que o processo de venda de ingressos é bem pensado, e com alguns detalhes interessantes.

Meio milhão de ingressos será reservado para cidadãos sul-africanos, a preços mais baixos, dos quais 120 mil para os trabalhadores das obras para o evento.  Populismo das autoridades (ainda mais que uma eleição se aproxima)? Sem dúvida, isso influenciou na decisão.

Mas também é um fato que a preços astronômicos, que podem chegar a quase mil dólares por um ingresso, uma parcela ínfima dos moradores do continente, mesmo levando em conta a emergente classe média sul-africana, teria condições de acompanhar o torneio. Ficaria mais difícil, então, falar que foi uma Copa verdadeiramente africana, e uma grande decepção para um continente que recebe o primeiro evento internacional de massas de sua história.

Para comprar, você antes precisa se inscrever no site da Fifa:

http://www.fifa.com/worldcup/organisation/ticketing/index.html

Os organizadores bolaram cinco fases de vendas de ingressos, daqui até o início da Copa. A primeira esgota-se em 31 de março próximo. Se houver excesso de demanda por um determinado jogo, realiza-se um sorteio.

Essas primeiras fases de venda têm vantagens e desvantagens. É maior a chance de conseguir um ingresso e recebê-lo confortavelmente em casa. Por outro lado, é uma compra no escuro. Não sabemos no momento quem vai para a Copa e onde vai jogar. Então existe o risco de lá na frente chegar a notícia que seu ingresso em lugar nobre do estádio é para ver Arábia Saudita versus Bulgária.

Há também a possibilidade de comprar ingressos em sequência, para seguir determinada equipe. De novo, é um chute, uma vez que não sabemos ainda quem estará na Copa (embora não haja muitas dúvidas sobre várias equipes, Brasil inclusive, se o Dunga deixar).

O formato final do torneio, com as chaves e locais da partida, só sai no final desse ano, e é a partir daí que vai começar a correria por ingressos. Espere caos, atrasos e confusão na venda de ingressos no primeiro semestre do ano que vem. Todo evento internacional hoje é assim, e o da África do Sul não deve ser diferente.

Mas esses problemas geralmente se resolvem, e sempre resta a opção do cambista na porta do estádio. Mais preocupante é se o país estará em condições. O trânsito em Johannesburgo, por exemplo, é uma desgraça (um trem de alta velocidade está sendo construído do aeroporto até a cidade para tentar amenizar um pouco o problema). Apagões são freqüentes, a ponto de possuir geradores ter se tornado um atrativo para consumidores em lojas mais sofisticadas. E há a violência, o maior de todos os riscos para quem vai à Copa.

Faltam 15 meses para o apito inicial. A Copa já começou, mas ainda não está pronta.

Escrito por Fábio Zanini às 12h23

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Prêmio para o blog

Pé na África recebeu menção honrosa do Prêmio Folha de 2009, a primeira vez que um blog tem tal honraria. O prêmio é uma espécie de Copa dos Campeões, reunindo os seis vencedores das fases “eliminatórias”, relativas aos seis bimestres do ano. Meu blog venceu a “eliminatória” de maio/junho.

 

A todos vocês que me incentivaram e continuam acompanhando o blog, agora numa nova fase (como se fosse uma segunda temporada de “Friends”), muito obrigado!

Escrito por Fábio Zanini às 19h36

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Feliz aniversário, Mugabe!

No sábado ele completa 85 anos de vida. Em abril, faz 29 de presidente do Zimbábue...

Escrito por Fábio Zanini às 19h35

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Esquenta a campanha sul-africana

Começou para valer a campanha eleitoral na África do Sul. É simplesmente a eleição mais importante do ano no continente e, por que não dizer, uma das mais importantes eleições presidenciais em todo mundo em 2010.

 

Na semana passada, a data da eleição para o Congresso (que por sua vez escolhe o presidente) foi marcada para o dia 22 de abril. Anteontem, o ex-presidente Nelson Mandela, que raramente sai de casa hoje em dia, ainda mais para participar de atos políticos, apareceu num comício do Congresso Nacional Africano para pedir votos. Sinal de que a importância do pleito é enorme.

 

Está em jogo muita coisa. Um país em crise política e econômica, que sozinho responde por 20% da economia de todo o continente, terá sua primeira eleição realmente disputada da história. É verdade que desde 1994 a eleição é democrática, mas o CNA, partido que liderou a luta antiapartheid, passeou a cada vez que o eleitorado ia às urnas, obtendo no mínimo dois terços dos votos.

 

Mas o CNA há muito perdeu seu brilho e sua aura de romantismo. O partido é uma miríade de facções que se odeiam e que fazem o nosso PMDB parecer um modelo de coesão. No ano passado, finalmente houve um racha, que havia muito estava desenhado. O grupo que orbitava em torno do ex-presidente Thabo Mbeki, forçado a renunciar ao cargo por uma manobra de adversários internos ligados a Jacob Zuma (provável próximo presidente), saiu do partido.

 

Surgiu o Congresso do Povo (Cope, na sigla em inglês), a primeira alternativa eleitoral verossímil ao domínio do CNA. Quem o lidera é um peso pesado da política sul-africana, o ex-ministro da Defesa (e herói da resistência ao regime segregacionista branco) Mosiuoa Lekota.

 

É pouco provável que o Cope tenha força para derrotar a máquina eleitoral do partido do governo, mas o novo partido pode fazer alguns estragos e ajudar a dar um caráter mais plural à democracia da África do Sul.

 

Compõe ainda o quadro político sul-africano a Aliança Democrática, que tem alguma força política no oeste do país e bastante respaldo entre brancos, descendentes de indianos e mestiços (os coloured). O partido tem, por exemplo, a influente prefeitura da Cidade do Cabo. E, apesar de bastante enfraquecido, o Inkhata Freedom Party, popular entre a etnia zulu, ainda tem alguma energia. Somados, esses três partidos de oposição podem evitar que o CNA atinja a maioria absoluta dos votos na eleição geral e seja obrigado a fazer acordos e compromissos para governar.

 

Seria um terremoto político no continente, num momento para lá de delicado. A África do Sul faz progressos econômicos a olhos vistos, é uma voz influente para a estabilidade política do continente, tem o Exército mais preparado da África e participa ativamente (ao lado de Brasil e Índia) das articulações de países emergentes em temas como reforma do Conselho de Segurança da ONU e negociações comerciais.

 

Mas há “tempos difíceis pela frente”, como definiu recentemente a revista britânica “The Economist”. A crise econômica deve provocar uma desaceleração parecida com a que atingiu o Brasil, embora ainda haja previsão de crescimento de 2% para o ano. Os níveis de violência são muito menores do que há dez anos, mas ainda é mais perigoso andar à noite pelas ruas de Johannesburgo do que pelas de São Paulo ou Rio de Janeiro. A desigualdade social continua gigantesca, e a epidemia de Aids, devastadora.

 

Por isso a importância tão grande dessa próxima eleição. Uma chance única de a África do Sul virar de fato uma democracia multipartidária. E se alguém ainda não se convenceu do que está em jogo, basta lembrar que em pouco mais de um ano ali vai rolar uma Copa do Mundo.

Escrito por Fábio Zanini às 11h38

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O maior torneio de clubes do mundo

Tudo bem que, para reunir amigos num bar, nada supera um Manchester United vs. Real Madrid, mas se você quer a verdadeira expressão nua e crua do futebol, esqueça a Copa dos Campeões da Europa e dê uma olhadinha na sua xará africana. (A foto, da AFP, é de Zamalek, do Egito, contra Africa Sports, da Costa do Marfim)

Este final de semana terá os jogos de volta da primeira rodada da Copa dos Campeões da África, um gigantesco torneio reunindo 64 equipes de 53 países, e com os imprevistos que um evento dessa magnitude na África inclui. É um festival de times desistindo na última hora, partidas sendo canceladas no último minuto, e a realidade política interferindo a todo tempo.

 

Por exemplo, o primeiro jogo entre o Academie, de Madagascar, e o Stade Tamponnaise, de Reunião (uma ilha na costa leste da África pertencente à França) precisou ser cancelado, na semana passada, em virtude da violência política em Madagascar.

 

A Inglaterra do futebol de clubes africanos, digamos assim, é o hoje o Egito. O atual campeão é o Al Ahly, um time que você deve conhecer do Mundial de Clubes da Fifa (está sempre lá, perdendo na primeira rodada). No ano passado, venceu na final o Coton Sport, de Camarões, e conquistou seu sexto título africano. Logo sem seguida, com cinco títulos conquistados, vem outro egípcio, o Zamalek. Eu nunca vi, mas os egípcios dizem que o clássico Al-Ahly vs. Zamalek (abaixo os distintivos de ambos) deixa no chinelo qualquer Milan vs. Juventus...

 

 

A primeira perna da primeira rodada teve alguns resultados dilatados. O angolano Primeiro de Agosto bateu o Cara, do Congo, por 5 a 2, e surge como uma possível surpresa na competição. O futebol angolano, aliás, é um dos emergentes da África e em breve deve estar entre os melhores do continente. O Petro Luanda também é uma equipe a ser observada nesse ano, segundo a imprensa esportiva africana.

 

Na primeira rodada, houve ainda um 6 a 1 do FAR Rabat, de Marrocos, sobre o SC Praia, de Cabo Verde, e um incrível 8 a 1 do Young Africans, da Tanzânia, em cima do Etoile d´Or Mirontsy, de Comoros. O barato de um torneio com times tão obscuros de países tão pequenos é que esses chocolates são freqüentes.

 

A competição é uma maratona que deve ir até o final do ano. Nas próximas rodadas, quando os piorezinhos vão caindo fora, espere jogos mais disputados e placares mais apertados.

 

E além dos egípcios, quem são os favoritos? A imprensa africana aponta o Asante Kotoko, de Gana, o Etoile du Sahel, da Tunísia, e o Africa Sports, da Costa do Marfim, como candidatos fortes.

 

O futebol africano tem todos os problemas do futebol brasileiro, só que amplificados. Faltam estádios decentes, condições de treino e dinheiro para manter equipes profissionalizadas. Se no Brasil fez por outra ainda conseguimos manter um ou outro jogador de nível internacional (um Hernanes no São Paulo ou Ronaldo no Corinthians), na África isso é virtualmente impossível. A vocação deles é realmente servir de fornecedor de estrelas para os europeus, desde os tempos de George Weah, o liberiano que brilhou no Milan, até os de Samuel Etoo, o camaronês do Barcelona ou Didier Drogba, da Costa do Marfim para o Chelsea. Mais recentemente, seus jogadores vêm sendo assediados também por times do Oriente Médio.

 

Não importa. O futebol africano continua sendo uma festa, e não é raro termos estádios lotados (o que só aumenta o apetite sobre a Copa do Mundo da África do Sul, no ano que vem).

 

E onde mais você encontraria nomes de times tão divertidos, como os Heart of Lions, de Gana, os Royal Leopards, da Suazilândia, ou o Monomotapa, do Zimbábue?

 

Para quem se interessar e quiser acompanhar as aventuras desses românticos do futebol, o site da Confederação Africana de Futebol (CAF) pode ajudar:

 

http://www.cafonline.com/competition/champions-league_2009

Tente também a página da BBC sobre futebol africano:

 

http://news.bbc.co.uk/sport2/hi/football/africa/default.stm

Escrito por Fábio Zanini às 12h23

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O pior emprego do mundo

Procura-se: ministro das Finanças para o Zimbábue, com a tarefa de domar inflação anual de 23 milhões por cento (e contando...), reconstruir economia com 90% de desemprego e dar um jeito num país que não produz alimentos básicos para sua população e em que faltam pão, água e outros gêneros de primeira necessidade.

 

O infeliz que acaba de preencher a vaga acima, provavelmente o pior emprego do mundo, é um sujeito risonho de 42 anos de idade, um advogado chamado Tendai Biti.

 

Trata-se de um dos líderes do MDC (sigla em inglês de Movimento para Mudança Democrática), o principal partido oposicionista do Zimbábue. Biti não é um pobre coitado, apesar da encrenca em que se meteu. Ao contrário, tem a melhor chance em uma década de tirar o país do atoleiro em que está. Sua nomeação no novo governo de união nacional zimbabuano é um daqueles eventos inacreditáveis que acontecem de tempos em tempos na política africana.

 

Biti literalmente até ontem era acusado de traição (ontem um juiz, “coincidentemente”, derrubou as acusações contra ele, numa prova indiscutível de que o Judiciário zimbabuano é uma piada). Tinha uma possível pena de morte pairando sob si. Como braço direito do líder oposicionista Morgan Tsvangirai, foi preso pelo ditador Robert Mugabe em retaliação a sua participação no movimento que exige reformas democratizantes no país do sul da África.

 

Em março do ano passado, quando Mugabe roubou uma eleição na base da intimidação, tortura e morte, Biti era um de seus alvos mais evidentes. Ele não tem o carisma de Tsvangirai, um líder escolado no movimento sindical, nem as credenciais da luta de libertação nacional de Mugabe. Sua grande qualidade é a capacidade de articulação e o pendor para a diplomacia. Não é à toa que virou o queridinho da comunidade internacional, o homem de ligação da oposição zimbabuana nos contatos com os governos europeus e norte-americano.

 

Ao fim de um dos eventos em que o encontrei, em abril do ano passado, ele foi logo cercado por embaixadores de países ricos e começou uma conversa para lá de amigável. (Biti é o baixinho de óculos da esquerda, na foto que fiz). Demonstração maior de apoio, impossível.

 

 

Biti é um sujeito de coragem também. Mesmo com o pau comendo e a tensão aumentando, continuou dando as caras nas ruas de Harare, a capital. Aparecia sem guarda-costas em entrevistas coletivas durante a eleição presidencial e falava com a imprensa do mundo inteiro, até comigo, um brazuca.

 

A nomeação de Biti é apenas uma parte de uma semana notável na política africana. Acabo de ver o vídeo de Tsvangirai jurando desempenhar bem o papel de primeiro-ministro Mugabe, impávido ouvindo as palavras de seu arqui-inimigo, e continuo sem acreditar. O acordo de paz assinado pelos dois partidos, após intensa pressão internacional, prevê uma genuína divisão de poder, com a oposição inclusive tendo algumas responsabilidades sobre o temido aparato de repressão do presidente.

 

Boa sorte para Biti e Tsvangirai. Num cenário otimista, eles conseguem atrair o apoio internacional para seu grande projeto de reconstrução do Zimbábue, aprovam uma nova Constituição e em eleições livres assumem o poder verdadeiramente no país.

 

Aí, sim, teremos uma história de sucesso no Zimbábue, e não uma que, por enquanto camufla um grande fracasso.

Escrito por Fábio Zanini às 20h28

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Era uma vez um castelo...

Um dos escândalos mais “divertidos” da política brasileira nos últimos tempos chegou ao fim nesse fim de semana, quando Edmar Moreira (DEM-MG), dono de um castelo milionário em plenas Minas Gerais renunciou ao cargo que tinha na direção da Câmara dos Deputados.

 

Pobre Edmar. Tem muito que aprender sobre extravagâncias com os políticos africanos. Nenhum chegou ao ponto de construir castelo medieval, com torres e masmorras, mas se tem uma coisa que ditadores da África sabem fazer bem é palácios megalomaníacos.

 

Mobutu Sese Seko , provavelmente o maior dos ditadores africanos do século 20, tinha seu recanto em Gbadolite, uma cidadezinha no norte do então Zaire (hoje República Democrática do Congo) em que o destaque eram as fontes de champanhe cor-de-rosa, os inúmeros flamingos e a pista particular para o pouso do Concorde (que Mobutu fretava para fazer compras na Europa nos finais de semana).

 

Nos anos 80, a cidade era chamada de a “Versalhes da Selva”, em referência ao palácio da realeza francesa nos arredores de Paris. Praticamente a cidade inteira trabalhava no complexo arquitetônico do presidente. Uma cidade de criados, mordomos e camareiras. Hoje, abandonada à própria sorte, Gbadolite vem sendo engolida pela selva.

 

 

Na vizinha República Centro-Africana, Jean Bedel Bokassa (1921-1996), um presidente famoso pela doideira e crueldade com inimigos, foi mais longe. Em 1976, coroou-se imperador, e mudou o nome do país para Império Centro-Africano. Tomou o título de Bokassa 1º numa cerimônia no estádio nacional de Bangui, a capital, cujo modelo foi a coroação de Napoleão Bonaparte na catedral de Notre Dame, no começo do século 19. Num país paupérrimo, Bokassa (na foto abaixo) gastou algo como 20 milhões de dólares na brincadeira, com direito a trono e cetro. Seu palácio, a 80 km da capital, é outro precisando de uma mãozinha de tinta.

 

Há extravagâncias do nosso tempo também, como as do rei Mswati 3º, da Suazilândia, um pequeno país encravado entre a África do Sul e Moçambique, a última monarquia absolutista da África e uma das últimas do mundo. E que tem o troféu de país mais infectado pela Aids no planeta Terra, com 26% da população adulta carregando o vírus HIV. Isso mesmo, na Suazilândia, de cada quatro adultos que você vê, um tem Aids.

 

Não que o rei se importe muito. Aos 40 anos (relativamente jovem, portanto), tem 14 mulheres e 23 filhos. Um dos pontos altos do calendário suazi é a cerimônia em que jovens virgens são expostas para o rei escolher sua próxima mulher.

 

Não muito longe dali, no Zimbábue, Robert Mugabe governa teoricamente uma república, mas já está no poder há mais tempo que muitos reis (29 anos). Seus palácios não ficam a dever nada para o dos ditadores do passado. É difícil saber quantos são, na verdade: tem gente que diz que são cinco, outros que são dez e já ouvi uma conta de 20. Muitos estão em nomes de filhos, sobrinhos, primos etc. Numa reportagem recente, o jornal inglês “The Sun” descobriu mais um, em construção.

 

 

É inevitável que em alguns cantos da África apareçam bizarrices como essas, assim como de vez em quando aparece um Edmar Moreira por aí. Evidentemente, não são o padrão, mas o exagero, a caricatura. E geralmente os donos dos castelos acabam destronados, apesar das exceções...

Escrito por Fábio Zanini às 20h20

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O cinema africano em Berlim

Quem acompanha esse blog sabe que cultura não é bem o meu forte, e que são raras as referências a literatura, cinema, música, dança etc. africanas.  Mas a Folha de hoje tem uma reportagem assinada por Silvana Arantes que me chamou a atenção.

 

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0602200914.htm

 

Diz que o Festival de Berlim, o segundo mais importante do mundo (atrás somente do de Cannes), dedicou grande parte da edição desse ano a falar do cinema africano. Diversos roteiristas e cineastas fizeram declarações de apoio ao cinema produzido no continente, durante encontro com a imprensa que Silvana presenciou.

 

Henning Mankell, um escritor sueco que viveu muito tempo no continente, defendeu maior atenção ao cinema africano, para mudar a situação atual, em que “não sabemos como as pessoas vivem e como elas estão morrendo”. (Acho que ele tem razão quanto à desinformação de como vivem as pessoas, mas infelizmente não faltam notícias de como elas estão morrendo...).

 

Logo em seguida veio Gastón Kaboré, um cineasta de Burkina Fasso, que, para quem não sabe, é um país aficionado por cinema, com um festival que já se convencionou chamar de “Cannes africana”. Kaboré defende uma tese polêmica: “O cinema não é um luxo para a África”, diz ele. “Mesmo que custe caro fazer um filme, isso é extremamente importante. Há gente que morre todos os dias no mar, tentando ir para a Europa. Talvez o cinema seja um modo de dizer a eles que não é uma desgraça ter nascido na África”, afirmou.

 

Por fim, falou o cineasta chinês Wayne Wang, que sugeriu uma espécie de pacote para o cinema africano, com a aquisição em massa de câmeras de baixo custo, ao valor de US$ 100 e sua distribuição para cineastas africanos. Entusiasta dos filmes de baixo orçamento e da divulgação pelo YouTube, Wang diz que não há mais desculpas financeiras para que as pessoas não contem suas histórias.

 

Interessante a ideia de Wang, mas desconfio que há uma confusão de prioridades. Se há algo que o cinema africano faz muito bem são filmes de baixo orçamento, como demonstra a impressionante produção cinematográfica da Nigéria (“Nollywood"). O que falta é qualidade nos filmes de orçamento maior. À exceção de alguns rodados na África do Sul, o cinema africano ainda é pobre, em todos os sentidos.

 

Mas há que se comemorar a atenção dada pelos luminares de Berlim ao cinema africano. Essas coisas funcionam um pouco em ondas, e já tivemos a onda iraniana, a coreana, a brasileira... Há sempre espaço para o exótico na indústria cinematográfica, e até que demorou para chegar a vez de os africanos surfarem.

 

Mesmo dando o desconto de que o exotismo costuma favorecer o reforço dos estereótipos, sempre há um impulso indiscutível às indústrias locais. Vendo os últimos filmes brasileiros, parece que o Brasil é só favelas, drogas e periferia, mas é inegável que a picada aberta por “Cidade de Deus”, por exemplo, foi positiva para o cinema nacional.

 

Isso vai se repetir com o cinema africano? É primeiro preciso investimento, depois mercado, local e internacional. Dezenas de países do continente têm ao menos algum embrião de classe média, potencialmente interessada em consumir cinema.

 

Mas, com tantas carências no continente, fica difícil aceitar passivamente o diagnóstico de Kaboré, o cineasta de Burkina Fasso. Cinema ainda é um luxo, e dos grandes, na África.

Escrito por Fábio Zanini às 20h32

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Khadafi, o rei dos africanos

Quando algumas coisas começam a dar certo na África, como uma eleição exemplar em Gana e um acordo de divisão de poder no Zimbábue, você sempre pode contar com líderes africanos para dar um tiro no pé.

Acabam de escolher ninguém menos do que Muammar Khadafi da Líbia como presidente da União Africana, a associação que reúne praticamente todos os países do continente (a exceção é o Marrocos, ostracizado por manter a ocupação da ex-colônia espanhola do Saara Ocidental).

Khadafi é uma figura que dispensa apresentações, um dinossauro no poder desde 1969 e notório criador de encrencas. São incontáveis as vezes em que se meteu nos assuntos internos de países vizinhos, apoiando alguns rebeldes aqui e outros acolá. Estranhamente, porém, continua prestigiado como um ícone do nacionalismo africano, uma espécie de Fidel Castro sem charuto. Não que ele também não tenha suas esquisitices, como despachar numa tenda no meio do deserto, ou convocar uma conferência de chefes tradicionais do continente para autonomear-se “rei dos reis”, como fez no ano passado.

Enfim, nada mais desmoralizante para uma entidade fundada em 2002 como um órgão democrático, moderno e aberto, um sucessor para a Organização da Unidade Africana, chamada de “clube dos ditadores”.

Khadafi não esconde que não é muito chegado a uma democracia. Sua primeira declaração como chefe da União Africana foi condenar partidos políticos e eleições livres. “Nossos partidos são tribais, o que leva a derramamento de sangue”, disse.

Alguma razão ele não deixa de ter. A política africana gira bastante em torno de identificações tribais, e a história do continente está cheia de carnificinas provocadas por partidos que sobem ao poder e passam a eliminar rivais de outras etnias. O exemplo extremo, obviamente, é o genocídio de Ruanda, promovido por um partido que promovia o “poder hutu”, mas até a democrática e civilizada África do Sul até hoje tem um partido identificado com a etnia zulu (o Inkhata Freedom Party), enquanto o Congresso Nacional Africano, de Nelson Mandela, é dominado pelos xhosa.

No Zimbábue, o Zanu-PF, de Robert Mugabe, privilegia os shona, enquanto a oposição tem uma base política forte entre os ndebele, minoritários. E por aí vai.

Mas Khadafi é um sujeito muito esperto (caso contrário não estaria no poder há 40 anos, numa região em que golpes de Estado são freqüentes). Usa um argumento aparentemente lógico e provado no tempo e adiciona uma tese de forte apelo nacionalista para legitimar sua ditadura e a de demais colegas.

Uma das falácias mais conhecidas do nacionalismo africano é a que pretende demonstrar que a cultura do continente não permite o desenvolvimento das democracias ao estilo ocidental. Parlamentos livres, Judiciários independentes, multipartidarismo e liberdade de expressão seriam coisa para europeus imperialistas. Africanos, segundo essa tese, resolvem suas diferenças do modo tradicional, em reuniões ao redor de fogueiras em que um sábio de barba branca dita as regras, em geral após receber iluminação divina.

Estou caricaturando um pouco, claro, mas esse é o sentido da coisa: um sistema patriarcal, e não democrático, de governo. Khadafi, sempre muito esperto, chegou a inventar uma nova teoria universal da política, em seu infame “Livro Verde”. A obra propõe um modelo muito próprio de socialismo (sempre o socialismo usado como desculpa...), em que o poder seria exercido por conselhos locais, sempre supervisionados Congresso Geral do Povo, o partido do poder. Na prática, um regime de partido único.

Khadafi já foi um pária internacional, mas manobrou para conseguir recuperar algum grau de respeitabilidade que abrisse os mercados europeus para seu petróleo. Reconheceu responsabilidade de seu serviço secreto na derrubada de um avião sobre a cidade de Lockerbie, na Escócia, em 1988, que deixou 270 mortos. Também renunciou publicamente a qualquer programa nuclear. Rapidamente, o que mostra também a hipocrisia dos ocidentais, foi recebido de braços abertos por líderes de países ricos, de Tony Blair a Silvio Berlusconi.

Hoje, ele não é tão perigoso, mas continua o mesmo bufão. Sua última idéia é a criação de um enorme país, chamado Estados Unidos da África, reunindo todo o continente.

Agora, sim os problemas da África acabaram...

Escrito por Fábio Zanini às 09h28

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PERFIL

Fábio Zanini Fábio Zanini, 33, é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), com mestrado em relações internacionais pela School of Oriental and African Studies (Soas), da Universidade de Londres.

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