Bali 40 graus - Despachos da Conferência do Clima
 

As razões do Sudão

Acuado pela comunidade internacional e acusado de genocídio, o governo do Sudão não brinca em serviço. Desde o ano passado, quando começou a ficar claro que seu presidente, Omar al-Bashir, seria indiciado por genocídio na região de Darfur pelo Tribunal Penal Internacional, o regime sudanês enviou alguns de seus líderes numa ofensiva internacional de relações pública, dizendo que... não é bem assim.

 

Só para rememorar, a acusação é de extermínio de cerca de 300 mil pessoas na região, com mais 2 milhões de desabrigados. Após ser indiciado, pelo promotor argentino Luis Moreno Ocampo, al-Bashir começou a retaliar, expulsando ONGs e ameaçando tornar um inferno (maior) a vida de civis.

 

Na semana passada, recebi um dossiê da embaixada do Sudão em Brasília com respostas prontas para as críticas que colocaram o país na berlinda, e seu presidente na lista de procurados por crimes contra a humanidade.

 

Em nome da isonomia, já que não me canso de malhar o Sudão, aí vão as principais razões do regime:

 

-“A decisão do Conselho de Segurança da ONU que transferiu o caso para a referida corte [o TPI] é vergonhosa por semear e aprofundar a justiça seletiva”.

 

-“Ao ter como alvo o presidente do Sudão, o procurador realizou um ato político e não jurídico.”

 

-“O pedido pela suspensão das atividades de um presidente da República viola os princípios previstos na lei internacional no que se refere a imunidade dos presidentes.”

 

-“As provas apresentadas são dúbias, pois foram fundamentadas no depoimento de indivíduos e grupos conhecidos por sua inimizade ao governo sudanês.”

 

-“O procurador [o argentino Luis Moreno Ocampo] envolveu-se em atividades políticas claras, o que põe em dúvida sua credibilidade e imparcialidade. Entre essas atividades, a sua solidariedade clara a indivíduos e grupos inimigos do governo sudanês, como a “aliança de salvação de Darfur”.

 

-“O procurador fracassou em provar as suas alegações de que o presidente do Sudão tinha controle dos acontecimentos”

 

-“O procurador fracassou em verificar e compreender o momento delicado que atravessa nesse momento o processo da procura de paz e da segurança de Darfur e o resto do Sudão. [....] Infelizmente este passo da corte profere um golpe prejudicial a esses esforços e ameaça a vida e a prosperidade dos habitantes de Darfur e do Sudão em geral, ao mesmo tempo representa ameaça à estabilidade, segurança e paz da região”.

 

Identificou uma certa ameaça velada no último ponto?

Escrito por Fábio Zanini às 00h22

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O veto ao Dalai Lama

A frase do ano até agora pertence a Trevor Manuel, o ministro da Fazenda da África do Sul, defendendo a escandalosa recusa de seu governo em conceder um visto de entrada para o Dalai Lama, o líder espiritual dos tibetanos.

 

“Parece que dizer qualquer coisa contra o Dalai Lama é o equivalente a tentar atirar no Bambi”, disse ele, reclamando da gritaria na imprensa por causa do veto.

 

Continuou Manuel:

 

“Vamos colocar as cartas na mesa. Quem é o Dalai Lama? Já o vi ser descrito como um Deus. Já o vi ser descrito como Buda. Ele é apenas o líder espiritual dos budistas do Tibete ou é a pessoa que estabeleceu um governo no exílio para afrontar a realidade de uma única China?”

 

“A razão pela qual o Dalai Lama quer vir aqui é para fazer uma grande declaração política sobre a secessão do Tibete da China, no solo livre da África do Sul”, disse ele.

 

Corretíssimo, com a óbvia exceção do final da declaração: será mesmo livre o solo da África do Sul?

 

Eu confesso que não tenho muita paciência para a adoração que se faz do Dalai Lama.  A visão que se tem dele de um semideus, com visões desinteressadas para a paz mundial, é profundamente equivocada, em que pese a louvável pregação antiviolência do líder tibetano.

 

O Dalai Lama é um líder político, com uma agenda, e que tem um agudo senso de marketing. Conseguiu transformar uma batalha obscura (e perdida, convenhamos), numa das causas célebres do mundo ocidental, angariando apoios até em Hollywood.

 

Para isso, contou com a brutalidade da China e com a força de seu sorriso.

 

 

É habilidoso e pragmático. Há muito abandonou o projeto de separar o Tibete e fazer dele uma nação independente. Contenta-se com um grau

elevado de autonomia para seus seguidores.

 

Manuel está certo também ao prever que a visita à África do Sul, para um evento preparatório da Copa do Mundo, seria um palco para manifestações políticas. E é esse exatamente o ponto.

 

Um país livre e democrático poderia até se incomodar, mas não pode tentar impedir que isso ocorra. Vedar a entrada de um líder político, seja o Dalai Lima ou o deputado federal Edmar Moreira, é coisa de ditadura.

 

O governo da África do Sul não tenta nem mesmo esconder o que o levou a negar um viso de entrada. Foi pressão da China, que não tolera o Dalai Lama. Uma pressão que revela, além da democracia imperfeita que é a África do Sul, o imenso poder político e econômico que exerce a China sobre o continente.

 

A África do Sul é considerada o farol econômico, político e democrático do continente, o que só torna sua recaída obscurantista mais deprimente. Esse é o país que quer ser considerado “gente grande” na política mundial, e que no ano que vem sediará o maior evento do planeta, a Copa.

 

Em menos de um mês, o país vai às urnas. Pouca coisa deve mudar. O próximo presidente, Jacob Zuma, declarou que não considera o veto grande coisa. “Não acho que isso afronte os direitos humanos”, declarou.

 

Outra frase histórica, aliás.

Escrito por Fábio Zanini às 20h02

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Lula encontrará o ditador do Sudão?

É grande a expectativa da diplomacia brasileira com a segunda reunião da Cúpula América do Sul-Países Árabes (que era chamada pela deliciosa sigla Caspa, até os itamaratecas perceberem o ridículo e encontrarem uma solução ainda pior para nomear o evento: agora é Cúpula Aspa).

O encontro reunirá chefes de Estado das duas regiões em Doha, no Catar, em 31 de março. A primeira edição foi em Brasília, em 2005, como um reconhecimento de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o criador e maior entusiasta da idéia.

Seria apenas mais um encontro inconseqüente de Lula com algumas dezenas de ditadores, coisinha corriqueira para ele, se por lá não estivesse prevista a presença do presidente do Sudão, Omar al-Bashir. Aquele que acaba de ser indiciado pelo Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade na região de Darfur, oeste do país.

Os países que são signatários do tribunal têm a obrigação legal de envidar todos os esforços para prender o sudanês e deportá-lo para Haia, na Holanda, onde está sediado. Sendo o Brasil parte do tribunal, Lula teria em tese a obrigação de dar uma chave de braço em al-Bashir, com ajuda de seu chefe de segurança, o simpático general G. Dias, imobilizá-lo e metê-lo num camburão rumo ao aeroporto.

Mas acho mais provável que nosso presidente abra um sorriso enorme, pose para uma foto ao lado do ditador e regurgite algum trololó sobre a soberania dos países do Terceiro Mundo. Compatível com a posição histórica do governo Lula de apaziguar as piores ditaduras africanas.

É nisso mesmo que al-Bashir aposta ao pisar no Catar. Ali, estará apenas cercado de amigos, e zombará feliz da comunidade internacional, antes de voltar triunfante para casa, solto como um passarinho.

Mentes mais sensatas no Itamaraty devem estar se perguntando quais serão as conseqüências em termos de imagem internacional de um aperto de mãos de Lula e al-Bashir. E rezando quietinhos para que o sudanês não apareça no evento.

Será interessante aguardar o desfecho disso.

Escrito por Fábio Zanini às 22h36

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Blogs "africanos" mui recomendados.

Coloquei links aí ao lado direito para dois blogs muito bons sobre a África. Já deveria ter feito isso há muito mais tempo, na verdade.

Já falei sobre os dois aqui. “Candongueiro” é do jornalista João Fellet, que até pouco tempo atrás estava baseado em Luanda, em Angola. Ele está fazendo uma viagem pelo continente que lembra a que eu fiz no ano passado. No momento está em Moçambique, e pretende chegar ao Egito.

Seu último post é sobre Ilha de Moçambique, uma jóia da arquitetura colonial portuguesa que é patrimônio da humanidade (o cara é bom de foto).

O outro é o “Diário da África”, do correspondente da TV Brasil em Angola, Carlos Alberto Junior, que vez por outra também viaja pelo continente fazendo matérias. Não percam sua descrição da visita do papa Bento 16 ao país, recém-encerrada (especialmente o relato sobre suas agruras em meio à infernal burocracia do país).

Por fim, tem um blog que recomendo agora um pouco em causa própria. É o Gastronomix, de Rodrigo Caetano, especializado em gastronomia, como o próprio nome diz.

http://bloggastronomix.blogspot.com/

Para ele escrevi um texto sobre os hábitos peculiares de higiene da comida de rua africana. Não muito diferente dos sucos a 1 real da rodoviária de Brasília, com a diferença que lá o destaque vai para o churrasco de camelo.

Aproveitem.

 

Escrito por Fábio Zanini às 22h36

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Um balanço da visita do papa à África

Que balanço pode ser feito da visita do papa à África?

Foi uma visita para a história, sem dúvida, do momento em que ele voava para Camarões até o momento em que voou de Angola.

Sua condenação do uso da camisinha no combate à Aids não é exatamente uma novidade, mas poucas vezes o líder da Igreja Católica foi tão assertivo ao rejeitá-la. O tom costumeiro do Vaticano é o de condenar a camisinha como método de prevenção da doença e associá-la ao sexo antes do casamento, o que vai contra um de seus mais elementares princípios.

Na África, o papa deu mais um passo: associou a camisinha à proliferação da Aids; não apenas ela é ineficiente e pecaminosa, mas há um motivo prático para não utilizá-la, porque incentiva, na visão da igreja, um comportamento lascivo que facilita o contágio.

O objeto, em outras palavras, deixou de ser apenas condenável moralmente, ele agora é também condenável por motivos concretos, segundo o papa.

Ao expor a polêmica tese a um continente que virou sinônimo de Aids, a saraivada contra Sua Santidade foi previsivelmente ampliada. Meu palpite é de que era isso mesmo que Bento 16 pretendia: dar máxima visibilidade a uma nova e controversa visão, e a África veio a calhar. Alguma coisa ele aprendeu com João Paulo 2º, o mais midiático de todos os papas.

Nada que atrapalhasse o ponto alto da visita, as megamissas nos dois países visitados. As imagens em Angola de mais de um milhão de pessoas acompanhando seu sermão são algumas das mais impressionantes da história católica recente.

Só mesmo na África para um país parar para ver uma visita papal. Nesse aspecto, Bento 16 levou para casa uma dose cavalar de auto-estima. Na África, a Igreja pode se dar ao luxo de contrariar todo e qualquer bom senso ao atacar a camisinhas; o que fica de saldo é a devoção que não existe em nenhum lugar do mundo, com a exceção de alguns rincões latino-americanos.

Nas ruas angolanas, a mensagem não poderia ser outra que não o chamado a que o país supere três décadas de guerra civil, alem de tentar distribuir um pouco melhor a fabulosa riqueza gerada pelo petróleo (bastante reduzida, é verdade, em razão da queda no preço do barril no mercado internacional).

Assim, Bento 16 mostrou que o Vaticano ainda consegue falar sobre coisas que dizem respeito ao cotidiano das pessoas, esbarrando na política, mas sem envolver-se muito na crítica. De novo, uma lição de habilidade aprendida com João Paulo 2º.

Talvez o aspecto mais surpreendente da viagem tenham sido as palavras finais, em Angola, condenando a bruxaria. A Igreja, aqui, passou um recibo que para mim foi espantoso. Práticas tradicionais (chamadas genericamente de bruxaria, ou feitiçaria) são seguidas por algo como 10% dos africanos. Podem parecer assustadoras, mas são inofensivas e não-excludentes: “bruxas” costumam ir à missa também, e o sincretismo religioso é comum.

Mas aparentemente o Vaticano agora quer exclusividade, e o papa foi firme ao condenar as práticas tradicionais. É uma cartada de altíssimo risco, porque a tentativa de criar uma religião católica “pura” pode afastar definitivamente pessoas com alguma simpatia pela doutrina de Cristo, mas mais agarradas a suas tradições ancestrais.

Mas esse é um papa que não tem medo de arriscar, como sua movimentada viagem à África mostrou.

*foto Ansa/Osservatore Romano

Escrito por Fábio Zanini às 21h49

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Caça às bruxas no oeste africano

Na Gâmbia, um pequeno país situado no oeste da África, caça às bruxas não é apenas uma expressão popular. É uma política de Estado*.

 

O jornal britânico “The Independent” de ontem trouxe uma reportagem que relata como o presidente Yahya Jammeh lançou as autoridades policiais de seu governo em operações pelo pequeno país em busca de bruxas que estariam sabotando seu governo.

 

Está aqui, em inglês:

 

http://www.independent.co.uk/news/world/africa/gambia-gripped-by-fear-as-leader-scours-country-in-search-of-witches-1648414.html

 

Baseado em quê o presidente chegou a essa conclusão é um mistério. Aproveitando-se do fato de que práticas religiosas tradicionais (comumente chamadas simplesmente de “bruxaria”) são frequentes nesta região africana, Jammeh atribui a elas todo tipo de dificuldade que seu país, um dos mais pobres do mundo, enfrenta.

 

O que existe de bem concreto é que cerca de 1.000 pessoas já foram sequestradas e levadas para “centros de detenção de bruxas” para serem interrogadas, geralmente em condições subumanas.

 

Uma vítima não identificada citada pelo jornal relata que a polícia chegou às 5h da manhã, identificou 300 homens de maneira aleatória e os encaminhou para vários ônibus. De lá, foram levados a um local onde foram despidos, espancados e forçados a beber água suja, para que confessassem a prática de bruxaria.

 

“Fiquei lá por cinco dias. Sofri e presenciei abuso e humilhação. Não posso acreditar que esse tipo de tratamento aconteça hoje. É coisa da idade das trevas”, afirmou a vítima.

 

Há muito tempo que coisas estranhas acontecem em Gâmbia, uma ex-colônia britânica que traz estampada nos seus limites geográficos o acochambramento que foi a criação de países pelas potências europeias. Parece uma língua no meio do Senegal, um país de colonização francesa.

 

 

Jammeh chegou ao poder em 1994 num clássico golpe de Estado e, até recentemente, era apenas um presidente meio esquisitão.

 

 

Quando estive no país há cinco anos, visitei um monumento à sua “revolução” em que um dos itens em exposição era um banquinho tosco de madeira, sobre o qual o presidente, de pé, proclamou-se chefe do país. Está em exibição em local privilegiado, como se fosse o trono de Napoleão Bonaparte.

 

Há também uma larga avenida no centro da capital, Banjul, que vive permanentemente fechada, apesar do trânsito pesado da cidade. Só o carro do presidente pode usá-la.

 

Mais recentemente, no entanto, as gracinhas de Jammeh passaram a ficar mais sérias. Homófobo assumido, anunciou no ano passado que gays que fossem encontrados em seu país seriam sumariamente decapitados.

 

Também declarou ao mundo que não havia necessidade de prevenção ou tratamento da Aids em seu país: ele próprio, com uma pasta esverdeada em mãos, teria o dom de curar a doença. E agora, a caça às bruxas.

 

O comportamento de Jammeh, apesar de tudo, não é inédito. Segue uma tradição triste entre os líderes africanos que o credencia como legítimo herdeiro de presidentes malucos como Idi Amin (Uganda) e Jean Bedel Bokassa (República Centro-Africana).

 

*dica do amigo Pedro Dias Leite

Escrito por Fábio Zanini às 18h01

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O papa na África

A visita do papa Bento 16 a dois países da África, Camarões e Angola, é cheia de significados. Não por outro motivo, foi a caminho da primeira parada que ele deu uma declaração bombástica, de que a Aids não pode ser superada pela distribuição de camisinhas.

Coincidência? Nem um pouco. A África é palco fértil para uma nova maneira de encarar a Aids, baseada numa “revolução moral”, que privilegia a mudança do comportamento sexual. Privilegia, em outras palavras, a abstinência dos solteiros e a fidelidade dos casados.

Para mentes ocidentais, que há muito dão de barato que se combate a doença distribuindo camisinhas e aceitando que as pessoas “normais” têm vários parceiros sexuais antes de se casar (e às vezes durante o casamento...), parece uma loucura. Mas é uma “loucura” com grande aceitação, e com alguns sucessos indiscutíveis. Veja o caso de Uganda, em que a prevalência da população total com Aids despencou de 30% há 20 anos para 7% agora, com base na estratégia moralista (ou moralizadora, dependendo do seu ponto de vista).

Quando estive por lá no ano passado, vi um pôster defendendo que caminhoneiros sejam fiéis a suas esposas, o que me impressionou. Esse é considerado um grupo de risco, em que a abordagem tradicional é promover o uso de camisinha.

 A África é um continente em disputa para a Igreja Católica, onde se concentra hoje seu mais fiel rebanho. O fenômeno das igrejas neopentecostais na América Latina ainda engatinha por lá, embora tenha redutos importantes em países como Gana. Há também a concorrência das igrejas protestantes tradicionais, herança da colonização britânica, do Islã e de religiões tradicionais (frequentemente chamadas pejorativamente de “bruxaria”).

Mas, na comparação com a Ásia (onde o catolicismo é restrito), Europa (onde está esclerosado) e América Latina (onde, aí sim, perde terreno a olhos vistos para a Igreja Universal do Reino de Deus e suas assemelhadas), a África é um porto seguro para o Vaticano. Um pouco como se fosse o lugar em que o catolicismo fosse se revigorar e se reanimar ao fim de um dia cansado. É até de se estranhar que papas em geral visitem tão pouco o continente africano. Um papa africano rotineiramente é comentado como uma questão de tempo.

Multidões receberam Bento 16 em Camarões, e o mesmo pode se esperar de Angola. Segundo as estatísticas do Vaticano, os católicos eram 12% dos africanos em 1978,e hoje são 17%. Sua influência no continente é histórica. Comunidades de católicos como a de Sant´Egidio, baseada na Itália, foram fundamentais para mediarem processos de independência e o fim de guerras civis nos anos 70, 80 e 90, em lugares como Moçambique, Argélia e Congo.

Paróquias em cada vilarejo são valiosas em proporcionar educação de qualidade e alívio da pobreza. Mas de vez em quando a Igreja Católica também acaba associada a fatos negativos, como o genocídio de Ruanda, em que alguns líderes ajudaram a propagar a ideologia do extermínio. Robert Mugabe, o ditador do Zimbábue, católico que faz questão de ir à missa todo domingo, deriva grande parte de seu poder das relações íntimas com parte do clero de seu país.

E às vezes, coitada, a Igreja Católica acaba pagando mico também. A maior catedral do mundo desde 1990 não é mais a Basílica de São Pedro, no Vaticano, mas a Basílica de Nossa Senhora da Paz de Yamoussokro.

Onde? Yamoussokro, a capital da Costa do Marfim, uma cidade faraônica inventada no meio do nada pelo ex-ditador local Felix Houphoet-Boigny, em 1983, quando já estava havia 23 anos no poder. Para engrandecê-la, prometeu criar a maior igreja do mundo, ao custo de US$ 300 milhões, apesar dos protestos da Igreja Católica. Lá esta ela hoje, um dos maiores elefantes brancos do mundo...

Bento 16 chega sexta-feira a Angola. Gostaria que tivesse coragem de mencionar as enormes disparidades de renda num país que cresce a 20% ao ano, movido a petróleo, em que brotam ultra-modernos arranha-céus da noite para o dia. E no qual algumas das piores favelas do mundo estão bem instaladas. Vamos aguardar.

p.s.: Foi só eu reclamar de seu imobilismo com relação à África que Barack Obama nomeou um enviado especial para a região de Darfur, no Sudão, o general aposentado da Força Aérea Scott Gration. Nem eu sabia que Pé na África tinha tanto prestígio na Casa Branca.

Escrito por Fábio Zanini às 22h16

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A estranha inação de Obama na África

Já faz quase dois meses que ele está na Casa Branca, e começa a incomodar um pouco a falta de novidades na política de Barack Obama para a África.

Nesse período, o hiperativo presidente dos EUA já disse a que veio em vários temas polêmicos, sempre anunciando mudanças.

Prometeu fechar a base de Guantánamo; anunciou a retirada de tropas do Iraque; propôs a mais radical mudança no Orçamento norte-americano em 20 anos, com aumentos de impostos para os mais ricos como forma de financiar a saúde dos mais pobres; levantou a proibição de pesquisas com células-tronco; e por aí vai.

Mas o primeiro presidente negro da história dos EUA, filho de pai queniano, praticamente ignorou a África até o momento. Tanto que chamou a atenção da revista britânica “The Economist” em sua última edição: “Enquanto o novo presidente parece romper com seu antecessor em várias áreas de política externa, mudanças relativas à África podem ser menos substanciais”, diz o artigo.

Há vários sinais de paralisia na política de Obama para a África:

-não se ouviu nada do novo presidente sobre os mais difíceis conflitos hoje do continente: Sudão, Somália e Zimbábue. Quem esperava palavras duras e um chamado ao respeito pelos direitos humanos ficou a ver navios;

-a política de ajuda para o combate à Aids de George Bush permanece basicamente intocada; fundos são distribuídos com uma condição moral anexa: a entidade ou governo receptor tem de enfatizar a castidade e a fidelidade, e não a distribuição de camisinhas. Ativistas antiAids afirmam que tal estratégia não é realista; seus defensores apontam casos de sucesso, como Uganda.

-até agora, Obama já recebeu três líderes estrangeiros na Casa Branca, de três continentes diferentes: Taro Aso (Japão), Gordon Brown (Reino Unido) e o nosso Lula. Ainda falta o africano.

-sua equipe para a África ainda não está formada. Nada menos do que três enviados especiais já foram nomeados para o Oriente Médio, mas ainda não sabemos quem será responsável pelo continente africano na administração Obama.

-seu silêncio sobre a abertura de mercados dos países ricos para países africanos é gritante. Qual a posição de Obama sobre a Rodada Doha da OMC?

-mais grave, não fez menção até agora de assinar o Tribunal Penal Internacional, em que estão indiciados alguns dos responsáveis por algumas das maiores atrocidades do continente.

A África era um dos poucos lugares do planeta em que Bush tinha alguma popularidade. Mesmo com suas condições polêmicas, despejou dinheiro para o combate à Aids. Foram US$ 3 bilhões no ano passado, mais do que o triplo de quando assumiu. Também ajudou em estratégias contra a malária e a tuberculose. Visitou diversas vezes o continente e teve a coragem de chamar de “genocídio” a matança em Darfur, no oeste do Sudão.

Parece incrível dizer isso, e Deus queira que eu esteja errado, mas no caso da África, Obama, até agora, fica devendo ao caubói texano.

Escrito por Fábio Zanini às 21h39

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Dois livros polêmicos sobre a África

Ainda não li nenhum dos dois, mas já gostei.

Acabam de ser lançados em inglês dois livros que estão tendo uma repercussão internacional muito acima da média, em se tratando de trabalhos sobre a África.

Infelizmente, a perspectiva de serem lançados em português é duvidosa no longo prazo e nula no curto prazo, então resta a quem se interessar (e ler inglês numa boa) recorrer à boa e velha Amazon.

As obras têm em comum o fato de darem novas perspectivas sobre temas quentes do continente: corrupção e desenvolvimento econômico.

O primeiro é “It´s our turn to eat: The Story of a Kenyan Whistle-Blower” (“É a nossa vez de comer: a história de um delator queniano”), de Michela Wrong, que usa a história de John Githongo, o ex-czar anticorrupção do Quênia, para dar uma panorâmica sobre um dos países mais importantes e difíceis de administrar da África.

 

É o tipo de obra que já valeria só pela autora. Michela Wrong é hoje, na minha opinião, e na de muita gente, a maior referência mundial da imprensa em assuntos africanos. Tem um estilo literário refinado, que a faz a sucessora natural do mito polonês Ryszard Kapuscinski. Já escreveu clássicos sobre os últimos dias de Mobutu Sese Seko no Zaire e sobre a Eritréia (sim, Eritréia, e o livro é bom pacas).

A história de Githongo é uma daquelas fábulas ao contrário. Entre 2003 e 2005, esse ex-jornalista foi nomeado pelo recém-eleito presidente, Mwai Kibaki, para coordenar os esforços de erradicação da praga da corrupção, endêmica em seu país. A escolha de Githongo foi um dos principais símbolos de que o novo governo estava disposto a virar a página do país, até então oprimido por uma semi-ditadura esclerosada que já levava duas décadas.

Não durou muito a lua de mel, e Githongo abandonou seu posto atirando no governo e acusando-o de encarar o combate à corrupção como mera estratégia de marketing. A situação não mudava, segundo Githongo, porque poderosos ministros, e o próprio presidente, não tinham interesse.

Deriva daí o segundo grande problema que atrasa o desenvolvimento do Quênia, e que explodiu com toda a força no ano passado, após eleições presidenciais fraudadas: a divisão étnica do país. O grupo que está no poder tenta de todas a maneiras explorar o Estado antes que outra etnia assuma o trono e faça o mesmo, sob o argumento de que é “a sua vez de comer” (daí o título do livro).

Na independência, em 1963, assumiu um líder kikuyu, substituído por um kalenjin e novamente por um kikuyu (o presidente Kibaki). Grande parte da violência do ano passado foi devida à recusa da etnia no poder de entregá-lo aos luo, que sempre foram marginalizados politicamente. Era a vez dos luo comer,eles não se conformaram com a provável fraude e o pau quebrou, deixando 1.500 mortos.

O segundo livro é ainda mais polêmico. Chama-se “Dead aid” (algo como “ajuda morta”; em inglês sua sonoridade faz um trocadilho com “Dead Weight”, ou “peso morto”).

A autora é uma desconhecida: uma zambiana de nome Dambisa Moyo, que trabalha no banco de investimentos Goldman Sachs, e pensa com a cabeça neoliberal de Wall Street. Sua tese é simples: dar ajuda humanitária aos africanos, como fazem países ricos e como pregam os Bono Vox da vida, é perda de tempo. Pior do que isso, é prejudicial, porque enseja uma cultura de dependência, estimula a corrupção e inibe iniciativas verdadeiramente capitalistas, que podem geral riqueza e desenvolvimento.

Muito melhor, diz ela, é liberar o comércio mundial, dando acesso aos mercados ricos para produtores africanos, e investir em projetos de microcrédito. O “The New York Times” deu a ela uma página de entrevista, chamando Moyo de “a anti-Bono”. Você pode conferir aqui (em inglês):

http://www.nytimes.com/2009/02/22/magazine/22wwln-q4-t.html?_r=3&ref=magazine

A “The Economist” achou o livro simplista e mal-escrito, apontando (corretamente, a meu ver) que qualquer estratégia decente de combate à pobreza na África precisa incluir um pouco de cada ingrediente: liberalização comercial, projetos capitalistas e também ajuda humanitária. Mas viu méritos no fato de alguém ter lançado a discussão, e logo uma africana.

Já encomendei os dois e quando eu tiver terminado, vou poder dizer se li e gostei.

Escrito por Fábio Zanini às 19h46

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Um email direto de Darfur

Recebi de um grande colaborador do blog na África um email distribuído por uma pessoa que trabalha na equipe da ONU em Darfur no Sudão. Manterei seu nome em sigilo, mas posso garantir que é fonte importante, em posição de comando e com responsabilidades na coordenação de ajuda humanitária.

O relato feito no comunicado é do impacto que a decisão do ditador sudanês, Omar al-Bashir, de expulsar 13 ONGs trabalhando na região terá sobre milhões de pessoas. A descrição muitas vezes chega perto do dramático, não sem razão. Há também um detalhamento sobre ações sendo tomadas pela ONU para tentar reverter a situação.

Só para lembrar, a expulsão foi uma retaliação de Bashir para o fato de ter sido indiciado por crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional, na semana passada.

O email foi enviado em inglês para todas as ONGs e departamentos da ONU que têm alguma relação com Darfur. Segue a tradução:

“Caros colegas,

Estou escrevendo para dar uma atualização sobre a recente expulsão de pessoal humanitário de Darfur e as ações tomadas pela ONU até agora.

Treze ONGs internacionais foram expulsas de Darfur, e outras quatro ONGs sudanesas tiveram seus registros revogados. Isso afeta 6.500 pessoas, 40% da força de trabalho humanitário em Darfur.

Isso terá conseqüências devastadoras para 4,7 milhões de pessoas afetadas pelo conflito, das quais 2,7 milhões são refugiados internos. A ausência dessas ONGs significa que quase 1,1 milhão de pessoas podem ficar sem comida, 1,5 milhão sem assistência de saúde e mais de 1 milhão podem perder acesso a água potável.

É provável que as consequências serão sentidas de maneira mais imediata a aguda em áreas rurais. Movimentos populacionais podem ser deflagrados em direção a centros urbanos, e possivelmente através de fronteiras. Haverá ramificações significativas para o trabalho da Unamid (a força da ONU em Darfur), na medida em que a pressão aumenta nos campos de refugiados e eleva-se a competição por recursos escassos.

Em Nova York, o secretário-geral da ONU [Ban ki-Moon] está conversando com importantes países-membros, pedindo seu apoio para encorajar o Sudão a reverter a decisão de expulsar as ONGs. Ele já se manifestou duas vezes sobre o tema, levantando suas preocupações com as decisões do governo do Sudão, e referindo-se também à apreensão de patrimônio e relatos de maus tratos a colegas nossos em trabalho de campo.

A ONU ofereceu apoio logístico para ONGs que têm de sair de Darfur. Oficiais encontraram-se com os altos escalões do governo para protestar contra a decisão, pedir melhor tratamento ao pessoal humanitário e insistir para que encontrem uma forma de resolver o problema.

Olhando para frente, é importante apontar para a mesma direção, continuando a trabalhar com disciplina e planejamento. Procuraremos oportunidades de pressionar o governo sudanês tanto em público como em privado nos próximos dias.

Uma mensagem pública forte deve vir de todos nós de que a assistência humanitária não tem nada a ver com o TPI, de que é oferecida de maneira neutra e imparcial, e que a expulsão dessas ONGs só vai prejudicar as pessoas mais vulneráveis e o Sudão como um todo.

Reservadamente, será importante encorajar aliados do Sudão para que peçam ao governo que encontre uma maneira de permitir que as agências humanitárias continuem seu vital trabalho.

Nossa responsabilidade junto às pessoas que nós servimos requer de nós encontrar maneiras de preencher os vazios criados por essas expulsões. É improvável que possamos totalmente preencher esses buracos, mas devemos usar quaisquer recursos que tenhamos para ajudar os mais vulneráveis.

Vamos precisar examinar como as ONGs remanescentes podem expandir suas atividades nos próximos dias, como as agências da ONU podem aumentar suas próprias operações e até considerar quais departamentos e agências do governo do Sudão podem oferecer apoio adicional em áreas vitais.

Seu apoio é muito apreciado, e eu espero que nós possamos nos beneficiar de rápidas trocas de informação e análise no momento em que a situação se desenvolve.

Também planejamos oferecer atualizações ocasionais detalhando mudanças importantes e as ações tomadas em resposta. Eu ficarei agradecido se você puder mandar atualizações de sua agência.

Estou ansioso para continuar a trabalhar de maneira próximo com todos vocês, ao confrontarmos esse desafio nos dias difíceis pela frente.”

Escrito por Fábio Zanini às 21h47

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Por que o Brasil poupa o Sudão?

A obsessão do governo brasileiro em liderar o Terceiro Mundo, muitas vezes justificada, também serve a vexames. É notória a dificuldade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seu chanceler, Celso Amorim, de enxergar violações de direitos humanos, ou agressões à democracia, em países aliados, ou com os quais se pretende estabelecer alianças. Mesmo quando elas estão na cara.

Fala-se muito no tratamento benigno dado por Lula a Hugo Chávez ou a Raul Castro, um semiditador, outro um ditador completo, mas um dos casos mais escandalosos ocorre na África, num dos países hoje apontados como líderes (digamos assim...) na promoção de crimes contra a humanidade, o Sudão.

Na semana passada, como já escrevi aqui, o presidente sudanês, Omar al-Bashir, teve o indiciamento aprovado e a prisão pedida pelo Tribunal Penal Internacional, sediado em Haia (Holanda), por crimes cometidos a região de Darfur, oeste do país. Desde o início da década, estima-se que 300 mil pessoas tenham sido mortas e quase 3 milhões desabrigadas pelas políticas de extermínio empreendidas pelo governo de Bashir. Por uma tecnicalidade, ele não está sendo acusado de genocídio ainda, mas pode vir a ser no futuro.

Não importa. Há praticamente um consenso na comunidade internacional de que o presidente sudanês precisa ser preso, julgado e condenado. Mas não para o Brasil.

Por diversas vezes no passado o Brasil decidiu não apoiar resoluções do Conselho de Direitos Humanos da ONU ou do Conselho de Segurança condenando o Sudão, às vezes abstendo-se, outras votando contra.

Quando é instado a se posicionar, a diplomacia brasileira adota o caminho vaselina. Um exemplo é um pedido de informações feito no ano passado ao Itamaraty pelo deputado federal Raul Jungmann (PPS-PE).

O requerimento é o número 3103/08, enviado por Jungmann em julho, no qual o deputado usa de uma prerrogativa de parlamentares, de fazer perguntas e pedir informações ao Executivo. A íntegra pode ser vista aqui:

http://www.camara.gov.br/sileg/integras/586854.pdf

Jungmann faz seis perguntas, e o Itamaraty escorrega em todas elas, em resposta datada de 21 de agosto, com quatro páginas, e, algo bastante incomum, sem assinatura (infelizmente o ofício do ministério não está em meio digital).

Pergunta o parlamentar:

1-) Qual a posição oficial do governo brasileiro sobre os massacres em Darfur?

Resposta: As violações causam grande preocupação ao Brasil. Os crimes devem ser apurados e os perpetradores punidos. Deve haver um esforço internacional para dar encaminhamento pacífico a essa questão. O Brasil defende que todos os países têm a obrigação de reprimir crimes contra a humanidade.

(Comentário meu: generalidades constrangedoras, como se vê. Dizer que as violações causam preocupação e que os crimes devem ser punidos equivale a dizer que a cura do câncer deve ser encontrada o mais rápido possível. Não há uma palavra sobre a responsabilidade do governo sudanês nos massacres, nem sobre o papel do TPI no caso).

2-) Quais os planos de investimento do Brasil no Sudão?

Resposta: O Itamaraty menciona que uma empresa sudanesa chamada Kenana, do ramo açucareiro, está interessada em construir usinas de etanol no país.

(Comentário meu: o Itamaraty, espertamente, esconde qual a principal motivação econômica para o silêncio do Brasil sobre o caso sudanês: trata-se de uma das novas fronteiras mundiais do petróleo. A China, outra que não liga muito para o que acontece em Darfur, largou na frente na exploração petrolífera, e o Brasil está preocupado).

3-) Quais as razões que levaram o Brasil a abrir uma embaixada no Sudão?

Resposta: O Itamaraty coloca a decisão dentro do conjunto de embaixadas que foram abetas no continente africano desde o início do governo Lula. Diz que o Sudão é uma “nação árabe e africana” e que é necessário “atender às necessidades dos brasileiros residentes naquele país”.

(Comentário meu: de novo, generalidades e nada sobre petróleo).

4-) Quais os interesses específicos, nos setores econômico, social e político na pauta de relacionamento Brasil-Sudão?

Sem resposta.

5-) Qual a posição do governo brasileiro sobre um possível embargo econômico contra o Sudão?

Sem resposta.

6-) Quais os encaminhamentos da delegação brasileira na ONU sobre a questão de Darfur e da ditadura sudanesa?

De novo, sem resposta.

A posição de lavar as mãos era meramente repugnante até alguns dias atrás, mas agora se tornou perigosa. O Brasil, signatário do Tribunal Penal Internacional, tem dever legal de prender Bashir caso tenha a chance. Evidentemente, isso não vai acontecer (é difícil imaginar o presidente do Sudão vindo passar a Semana Santa em Ipanema), mas o fato de haver uma decisão de uma corte contra o ditador tem um peso enorme.

O Brasil, se continuar a ter uma posição dúbia, corre sério risco de se isolar internacionalmente. Até a China, maior aliada do governo do Sudão, já flexibilizou um pouco sua posição de apoio total a Bashir, com medo de ficar associada a um regime pária. É hora de o Brasil fazer o mesmo.

Escrito por Fábio Zanini às 20h04

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Justiça ou paz no Sudão?

O que fazer com um ditador com fortes indícios (para não dizer culpa comprovada...) de participação em crimes contra a humanidade, de cuja boa vontade dependem ajuda humanitária a milhões e um claudicante processo de paz?

 

É esse dilema que vêm enfrentando a ONU e o Tribunal Penal Internacional (TPI) desde julho do ano passado, culminando ontem com a decisão de indiciar o presidente do Sudão, Omar al-Bashir.

 

Em rápidas pinceladas: al-Bashir, no poder desde 1989, é acusado de empreender uma campanha de extermínio na região de Darfur, oeste do país, contra tribos de pele escura e que vivem da agricultura.

 

 

Seja de maneira direta, usando as Forças Armadas do país, seja terceirizando o conflito para grupos etnicamente árabes de nômades, os temidos janjaweed, o governo do Sudão já pode ter matado 300 mil pessoas e provocado 3 milhões de refugiados, segundo algumas estimativas (que ele contesta).

 

 

À primeira vista, um caso incontroverso: matou, pilhou, estuprou e bombardeou, tem que ser preso e julgado. Mas no direito internacional, nada é simples assim.

 

No ano passado, o promotor do TPI, corte criada para julgar indivíduos envolvidos em crimes como genocídio, pediu o indiciamento de al-Bashir e sua prisão. O requerimento do argentino Luis Moreno Ocampo ficou na geladeira da corte até ontem, quando foi aceito pelos juízes. O presidente do Sudão ainda não foi condenado de coisa nenhuma, mas passou a ser réu, e com ordem de prisão expedida. Torna-se assim o primeiro chefe de Estado do mundo a se ver nessa situação.

 

Teoricamente, se Omar al-Bashir puser os pés em algum país que reconheça o tribunal (108 o fazem até hoje), ele deve ser preso e deportado para Haia, na Holanda, sede da corte. Na prática, é muito difícil que isso aconteça, até porque o sudanês, que não é bobo, terá muito cuidado de por onde andar. E não passa pela cabeça de ninguém uma força multinacional invadindo o Sudão para prendê-lo.

 

Esse é um dos problemas do TPI: é um tribunal sem polícia, o que arranha muito sua eficácia.

 

A coisa piora quando se leva em conta que Omar al-Bashir tem um trunfo: controla o acesso de ONGs e agências humanitárias aos desabrigados de Darfur. Ontem mesmo, em retaliação, ele determinou a expulsão de 13 dessas agências. Há também uma força de paz multinacional na região, usando os capacetes azuis da ONU, que provavelmente começará a sofrer retaliações em breve. A situação imediata dos civis só deve piorar (até porque os grupos rebeldes que em tese os representam não são inocentes e cometem suas próprias atrocidades).

 

O que fazer, então? Esse debate de justiça contra paz está se tornando uma constante na curta história do TPI.  No ano passado houve um episódio igualmente dramático, em Uganda. O Exército do país estava próximo de um acordo com o LRA (Exército de Libertação do Senhor), um grupo guerrilheiro conhecido por sequestrar e escravizar crianças, quando as negociações desandaram. O TPI simplesmente não aceitava retirar o pedido de indiciamento contra seus principais líderes. Então, nada feito, disseram os rebeldes. A guerra continua.

 

Não há resposta fácil para o dilema. No debate sobre justiça e paz, as duas faces são igualmente virtuosas, e é possível argumentar que nunca haverá paz sem justiça e vice-versa.

 

Mas quando entram em conflito, a dor de cabeça para os engravatados que cuidam do direito internacional está formada.

Escrito por Fábio Zanini às 19h39

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Tiros em Guiné-Bissau

A semana começou de uma maneira tipicamente africana, um golpe de Estado em Guiné-Bissau. Morreu João Bernardo Vieira, “Nino” para os íntimos, figura dominante na política desse paupérrimo país desde sua independência, em 1974.

 

As informações ainda não são muito claras, mas aparentemente ele foi assassinado na porta de sua casa como um ato de vingança pela morte do chefe do Exército, Tagme Na Waie, algumas horas antes. É o tipo de roteiro hollywoodiano que na vida real só acontece mesmo em algumas partes da África.

 

O país está acéfalo, apesar de a situação na capital, pelo menos, aparentar tranquilidade. A dúvida agora é se isso vai se configurar num golpe de Estado à moda antiga, com as Forças Armadas tomando o poder e suspendendo a Constituição, ou se uma fachada de legalidade será respeitada, com o vice-presidente ou o primeiro-ministro assumindo.

 

Não é pouca coisa o assassinato de Nino Vieira. O país é pobre e periférico, mas ele era uma figura com certa estatura na política continental. Era um “big man” à moda antiga, um “homem grande” não por suas credenciais de visionário ou pensador, mas por confundir-se com as instituições de Estado, como ocorre frequentemente no continente. E havia uma aura romântica sobre sua biografia.

 

Nino destacou-se na luta pela independência, nos anos 70. Era a sombra de Amílcar Cabral, esse sim um ícone do nacionalismo africano, assassinado pela ditadura portuguesa em seus estertores, em 1974. Com o caminho livre, Nino pouco a pouco foi consolidando seu controle sobre as Forças Armadas de Guiné-Bissau até dar um golpe em 1980 e assumir o poder total.

 

Durante 19 anos ele governou de maneira ininterrupta um dos países mais pobres do mundo, cuja única produção econômica de algum valor é o cultivo de castanhas de caju. Primeiro num pastiche de socialismo e, após a queda do Muro de Berlim, como presidente eleito de maneira (mais ou menos) democrática, em 1994.

 

Cinco anos depois, uma guerra civil tirou-o do poder. Como frequentemente acontece na África, havia um componente étnico. Os rebeldes eram da etnia balanta, um grupo historicamente marginalizado da sociedade guineense e que sofreu pouca ou nenhuma influência dos portugueses (seus nomes têm uma característica “africana”, enquanto a elite local tem nomes lusófonos e fala o português).

 

Por seis anos Nino viveu exilado, até voltar em triunfo em 2005, novamente eleito presidente. O mito do “homem grande” era forte demais para ser derrotado.

 

Guiné-Bissau hoje é um país falido, e vem sendo chamado de o primeiro “narcoEstado” do planeta. Tornou-se uma rota muito lucrativa do tráfico de drogas da América Latina para a Europa. Todas as condições ali são perfeitas para isso: localização geográfica privilegiada, população miserável disposta a correr riscos e ausência de poder público.

 

Estive por lá em outubro de 2004. Poucos dias antes, o então chefe do Exército (antecessor do assassinado ontem) havia tido o mesmo fim: morto por rebeldes balantas, descontentes com o fato de sua etnia estar sendo supostamente discriminada em promoções hierárquicas.

 

Lembro da buraqueira nas avenidas centrais, dos porcos e galinhas passeando pelo centro da capital, dos apagões diários religiosamente às 19h e do palácio presidencial em ruínas, ainda um resquício dos bombardeios da guerra civil. E também da principal avenida comercial deserta num dia útil, das poucas lojas abertas e da incrível quantidade de 1 (um) cyber café para abastecer todo o país.

 

Mais revelador de tudo foi o dia em que um caminhava por uma calçada esburacada e, por trás de um muro alto, uma voz me pediu um trocado, do jeito que é uma marca registrada dos países africanos de língua portuguesa: “Me ajude, ó pá, que estou cheio de fome...”

 

Era um soldado de Guiné-Bissau, de sentinela na entrada de seu quartel, mendigando um trocado.

Escrito por Fábio Zanini às 13h53

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Um brasileiro em meio a um país traumatizado

Márcio Gagliato é um brasileiro que trabalha para a Care em algumas das regiões mais difíceis do planeta –o que inclui a África, claro.

 

A Care é uma ONG das mais atuantes e respeitáveis em zonas de conflito e de miséria crônica. A base de Márcio é Nairobi, no Quênia, de onde ele viaja para missões especiais em lugares como Somália, Sudão e Faixa de Gaza. Recentemente esteve em Ruanda, de onde enviou um relato para o blog.

 

“O objetivo da viagem foi atender um antigo pedido do diretor da Care Ruanda sobre trabalhar com o trauma do genocídio de 1994”, explica ele.

 

Ruanda para sempre estará marcada como um símbolo de caos e violência. O que poucos sabem é que hoje o principal problema do país não é violência física (tiroteios, guerra civil ou assassinatos). Ruanda é um país extremamente seguro para dar uma volta a pé na calada da noite.

 

O principal problema ali, como explica Márcio, é de ordem psicológica. Milhares de pessoas que participaram do genocídio vagando pelas ruas; milhares de vítimas que viram suas famílias serem dizimadas, muitas delas crianças à época e agora chegando à maioridade; incontáveis órfãos da matança que nunca tiveram uma família a educá-los (a foto abaixo, enviada por ele, mostra um dos locais da matança, no que era uma igreja).

 

 

Márcio conta que ao encontrar uma funcionária local da Care sugeriu, com a melhor das intenções, que era importante ter “um grupo etnicamente balanceado na reunião” que organizavam. Traduzindo: que houvesse hutus, etnia responsável pelo genocídio, e tutsi, as vítimas.

 

“Ela se levantou, fechou a porta, sentou-se novamente e começou a falar bem baixinho: ‘Márcio, aqui não falamos sobre as diferenças étnicas desde o genocídio. É proibido por lei e as pessoas não revelam de qual etnia são’”, relata ele.

 

É verdade. A lei hoje em Ruanda é severa para quem se referir aos dois grupos. Tive essa nítida sensação ao visitar o país no ano passado. A dificuldade em ouvir relatos sobre como são as relações interetnicas me pareceu surpreendente no início, mas depois me acostumei.

 

Num país traumatizado, o governo tinha duas opções: pregar a reconciliação entre hutu e tutsi ou fingir que essa divisão não existe e obrigar por lei a que todos se tratem como ruandeses. Preferiu a segunda alternativa.

 

Márcio continua o relato de sua conversa com a mulher: “À primeira vista, qualquer um pensa que trauma foi superado. As pessoas sofrem, e muito, mas não falam sobre isso. Têm medo. O governo simplesmente decreta que todos são um só povo”.

 

A interlocutora do brasileiro contou a Márcio a história de uma colega de trabalho que perdeu toda a família no genocídio. “Hoje é obrigada a conviver com o assassino da família no bairro em que mora”, diz Márcio.

 

O número mais aceito dá conta de que morreram 800 mil pessoas no genocídio. Cerca de 80% dos tutsi do país perderam um parente próximo. Igualmente impressionante, calcula-se que outros 800 mil hutus tiveram algum envolvimento na matança.

 

Na época, o país tinha 8 milhões de habitantes, o que significa que 10% da população foi assassinada e 10% assassinou. Como curar um país assim?

 

Imagine julgar e prender toda essa gente num país miserável, com apenas um punhado de tribunais e prisões decentes. O governo nesse caso não teve escolha: prendeu apenas os organizadores dos massacres, liberando a grande maioria dos peixes menores, que hoje perambulam pelo país, muitas vezes convivendo com familiares de pessoas que ajudaram a matar. Que Ruanda seja um país tão estável vivendo uma situação dessas é nada menos que incrível.

 

Seguindo no relato de Márcio, “existem cerca de 5 mil jovens que são filhos do estupro durante o genocídio. Os HIV positivos eram os primeiros a cometer o estupro [infectando as mães]. Os órfãos da AIDS se multiplicam”, diz ele.

 

 Durante sua visita, Márcio contratou um motorista que o levou a uma igreja onde ocorreu um massacre, hoje um santuário. “O motorista contou que, por parte da família da mãe, não existe pessoa alguma, todos foram mortos”. Mas o mais perturbador, na visão do brasileiro, foi a revelação do motorista de que não tinha com quem conversar sobre isso. O tema continua sendo tabu.

 

Mas algumas passagens do relato de Márcio são mais animadoras. Como essa:

 

“Uma noite, um pastor me procurou. Queria apoio da Care para alguns projetos. Ele me contou que a base do seu trabalho é falar do perdão. Todos os seus irmãos e sobrinhos foram mortos. Em 1996, fez a primeira visita missionária num presídio onde só havia hutus do genocídio. Ao entrar e encarar os assassinos da família dele, começou a chorar e disse que veio trazer uma mensagem de reconciliação. Muitos dos prisioneiros não puderam acreditar naquilo e foram abraçá-lo. Disseram ao pastor que no momento em que todos querem que eles morram pelo que fizeram, vem um tutsi desejar-lhes esperança!”.

Escrito por Fábio Zanini às 22h08

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Um novo pé na África

Faz praticamente um ano que iniciei minha viagem à África e que abri esse blog. O tempo passa...

Por uma grande coincidência, é também agora que um colega meu começa uma versão muito parecida da minha viagem. É o jornalista João Fellet, que estava baseado em Luanda, capital de Angola (de onde cobriu a eleição presidencial para a Folha de S. Paulo no ano passado, aliás).

João também tem seu blog: http://candongueiro.wordpress.com/

A ideia dele é cruzar o continente de sul a norte, começando por Johannesbrgo, na África do Sul, e terminando no Cairo, Egito. Cinco meses de viagem no total. Seu roteiro tem algumas coisas interessantes, como passar por Moçambique, que eu pulei (e me arrependo...), entrar no Zimbábue pós-governo de união nacional e conseguir o maldito e famigerado visto para o Sudão. Eu tentei, tentei, e não consegui. Espero melhor sorte para o João.

Se eu puder dar um conselho a ele, é "take it easy". Pega leva com a África, tenha paciência com horários não cumpridos, atrasos monumentais e, principalmente, aprenda a fazer meditação transcedental na frente de um computador com internet discada (como são quase todos).

No mais, boa sorte e divirta-se, João! Vamos te acompanhando.

Escrito por Fábio Zanini às 18h53

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PERFIL

Fábio Zanini Fábio Zanini, 33, é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), com mestrado em relações internacionais pela School of Oriental and African Studies (Soas), da Universidade de Londres.

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