Bali 40 graus - Despachos da Conferência do Clima
 

"O apartheid trouxe desenvolvimento"

ORANIA (ÁFRICA DO SUL) – Elogiar o apartheid na África do Sul é quase um tabu tão grande quanto elogiar o nazismo na Alemanha. Mas em Orania, a cidade dos brancos sul-africanos (ver post anterior), nem tanto.

 

Manie Opperman é o senhor aí abaixo, 68 anos de idade, atual vice-prefeito de Orania.

 

 

Também já foi prefeito da cidadezinha. Ex-militar no exército sul-africano, foi enviado incontáveis vezes para suprimir protestos anti-apartheid e por democracia racial entre os anos 70 e 80. Em muitos aspectos, continua pensando como naquela época.

 

Encontrei-o na sede da rádio da cidade, que transmite em africâner, a língua derivada do holandês que todos falam por lá. Opperman é um dos responsáveis por sua programação. É uma das pessoas mais respeitadas do lugar. Também cuida da parte de segurança interna.

 

Conversamos por quase uma hora. Um tanto frio, mas prestativo, ele respondeu a tudo o que eu perguntei com uma sinceridade que foi me espantando a cada minuto. Sim, ele elogiou, e muito, o apartheid, conforme você lê na entrevista abaixo:

 

Pé na África – Por que criar uma cidade só para brancos?

Opperman – Não é para brancos, é para africâners [descendentes de holandeses, são 6% da população e dois terços dos brancos sul-africanos]. Chegamos à conclusão de que com a estrutura demográfica da África do Sul, nós não conseguiríamos sobreviver como uma cultura. Somos um grupo que perdeu o controle sobre os recursos desse país, e que não controla mais as decisões políticas como antes. Se deixarmos que o casamento inter-racial prolifere nesse país, nós vamos desaparecer. Por isso, é preciso que nos isolemos.

 

Pé na África – Vocês realmente acreditam que vão conseguir se manter “puros”?

Opperman – É possível. Criamos Orania em 1991, como uma precaução para o fim do apartheid, que nós percebemos que viria [o regime terminou em 1994]. Estava escrito, havia uma campanha muito forte.

 

Pé na África – Vocês se consideram independentes?

Opperman – De fato sim, mas estamos dentro de um contexto sul-africano. Uma coisa importante é que não temos nada contra o governo, nem contra a Constituição. Aliás, a autodeterminação de grupos culturais específicos em um território exclusivo está prevista no artigo 235 da Constituição.

 

Pé na África – Mas o governo se sente incomodado com a existência de um enclave branco no país.

Opperman – Talvez. Mas o governo nos deixa sozinhos. Nós não somos uma ameaça. E temos muitos amigos políticos. Se o governo quiser fechar Orania, haverá uma reação mundial. Tivemos encontros com Jacob Zuma [futuro presidente da África do Sul, eleito na semana passada], ele prometeu nos deixar sozinhos. Até elogiou Orania como um modelo de desenvolvimento autônomo.

 

Pé na África – O que acontece se um negro quiser viver em Orania?

Opperman – Seria uma decisão sábia? As pessoas podem vir e visitar, mas tornar-se parte da comunidade é diferente. Não é uma questão de raça, mas de cultura. Qualquer um pode andar por aí à vontade, desde que acompanhado por nós. Temos informantes. Temos um sistema de segurança que percebe rapidamente se um estranho começa a perambular por aí. Os moradores vão me telefonar. Nós encorajamos os moradores a fazer isso.

 

Pé na África – Na prática, então, ninguém pode circular livremente.

Opperman – Orania não é um caso único. Há várias cidades zulus ou suazi [etnia da Suazilândia] na África do Sul.

 

Pé na África – Mas lá são cidades abertas, em que qualquer um pode morar.

Opperman – [fica mudo].

 

Pé na África – Não é saudável haver integração com outras raças, principalmente para as crianças? Afinal, o país é diverso.

Opperman – O multiculturalismo tem dois lados. Para não haver conflito entre as raças, não deve haver competição, e isso é impossível na África do Sul. Nós nunca tivemos integração nesse país. Se você misturar seu grupo com outro, não é mais o seu grupo. Especialmente se os outros são mais numerosos que você.

 

Pé na África – O que o sr. acha do apartheid?

Opperman – Se não fosse o apartheid os brancos teriam sido expulsos desse país, como aconteceu em Angola ou no Congo. O apartheid foi um período de grande desenvolvimento, e o atual governo está destruindo tudo.

 

Pé na África – Desenvolvimento para os brancos, com certeza.

Opperman – E para os negros também. Os negros também trabalhavam nesse ambiente. Quando os negros tomaram conta do país, assumiram uma economia muito desenvolvida.

 

Pé na África – Mas era uma sociedade em que os negros eram marginalizados. Não podiam votar, por exemplo.

Opperman – Votavam em suas “homelands” [guetos criados pelo regime branco para abrigar os negros, separado dos brancos]. O problema é que as pessoas só vêem o lado ruim do apartheid.

 

Pé na África – Há um lado bom?

Opperman – Sem dúvida. O problema é que houve uma gigantesca campanha de propaganda política dos negros.

 

Pé na África – O sr. sente pelo fim do apartheid?

Opperman – [hesita alguns segundos]. Orania não é uma extensão do apartheid. É uma antecipação ao fim do apartheid. Durante o apartheid, negros inundaram esse país, vindos de países vizinhos, para aproveitar nosso sistema.

 

Pé na África – O sr. parece ter saudade...

Opperman – Eu só acho que o regime branco rendeu-se ao acabar com o apartheid. O apartheid não tinha como continuar, a pressão pelo seu fim foi muito grande, mas o jeito como acabou foi nada menos do que uma rendição.

Escrito por Fábio Zanini às 13h44

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

A cidade dos saudosistas do apartheid

ORANIA (ÁFRICA DO SUL) – Orania é um daqueles lugares difíceis de acreditar que ainda existem. Eu mesmo já havia lido sobre ela, visitado seu site e falado com algumas pessoas, mas só pude realmente perceber do que se tratava ao entrar em suas ruazinhas calmas, arborizadas, de crianças loirinhas. E nenhum negro em vista.

 

Orania é uma cidade de 700 e poucos habitantes, no meio de campos paradisíacos de milho e trigo, às margens de um rio de águas calmas e onde o céu é incrivelmente azul. Parece a introdução de um poema arcadista, e é disso mesmo que se trata. Orania é a utopia branca no coração negro da África.

 

 

Na verdade, não exatamente branca, mas mais especificamente africâner. Em Orania, só entram representantes desse grupo muito restrito de sul-africanos, algo como 6% da população, formado por descendentes de colonizadores holandeses do século 17 e que tem um senso de identidade cultural muito forte. Em meados dos anos 40 do século passado, uma facção radical do pensamento africâner chegou ao poder em eleições (como os nazistas na Alemanha, aliás) e iniciou um movimento vigoroso de defesa de sua cultura. Nascia o apartheid.

 

Foram 50 anos de políticas que, à medida que privilegiavam os africâners, discriminavam quem não pertencia a essa cultura, principalmente os negros (mas não só: mestiços, asiáticos e mesmo brancos de origem inglesa também, em graus diferentes). Cinco décadas de um dos sistemas mais cruéis que já se formou no mundo ocidental, e que durou até as portas do novo século. Terminou, como todos sabemos, com a libertação de Nelson Mandela e sua eleição para presidente da África do Sul, nos anos 90.

 

Mas em Orania essa história não acabou. Ali por 1991, quando percebiam que a maré da história era poderosa demais, um grupo de africâners começou a remar contra ela assim mesmo. Num ponto isolado do país, a centenas de quilômetros da metrópole mais próxima, adquiriram uma extensão de terra para construir uma cidade “pura”, em que suas crianças não tivessem contato com outras culturas, e onde o apartheid é visto com nostalgia.

 

Passei um dia inteiro em Orania na sexta-feira passada. Duas horas de voo de Johanesburgo até o aeroporto mais próximo, numa cidade chamada Kimberley, e depois mais 160 km de carro. De longe se percebe o grupo de casinhas com teto de zinco, varandas espaçosas e jardinzinhos perfeitos.

 

Mais de perto, quem te recebe é o desenho de um garoto arregaçando as mangas, pose levemente ameaçadora.

 

 

É o símbolo de Orania, presente em sua bandeira e na sua moeda própria, o “ora”.

 

 

Bandeira e moeda própria sim, porque Orania se considera uma região autônoma (para não dizer independente). Na primeira metade dos anos 90, quando uma nova Constituição democrática estava em negociação, um dos imperativos era evitar uma guerra civil no país. Os brancos africâners ainda tinham as armas na mão, e temiam que sofressem revanche dos negros. O documento que surgiu, portanto, é cheio de concessões, meios-termos e zonas cinzentas.

 

Um deles é o artigo 235 da Carta, que permite a comunidades “culturais” exercerem auto-determinação em territórios específicos. Ou seja, teoricamente, na África do Sul, japoneses, brasileiros, italianos, coreanos ou mesmo corintianos, poetas byronianos, roqueiros e adoradores de Jornada das Estrelas podem ter suas próprias cidades, onde mais ninguém mora. Basta que se identifiquem como uma comunidade com uma cultura comum. Quem vai dizer que não?

 

Evidentemente o artigo é anacrônico e choca-se frontalmente com outros da Constituição, que prevêem o fim de toda forma de discriminação. Mas foi uma garantia dada aos africâners, que chegaram a ameaçar tomar para si enormes porções do território sul-africano para se defenderem da “ameaça” negra. No final, só um vingou: Orania.

 

Fui recebido extremamente bem na cidade, bem demais até, de um jeito que chega a incomodar. Logo ao chegar fui encaminhado a uma sala onde me fizeram assistir a um vídeo de 20 minutos sobre a história da cidade. Depois, um “guia” me acompanhou para cima e para baixo, todo sorrisos. Preciso ser justo também: em nenhum momento ele me proibiu de conversar com quem quer que fosse. Nem precisava: todo mundo ali fala maravilhas da cidade.

 

E é um lugar maravilhoso mesmo, no sentido do conforto material. As casas são ótimas, o nível de violência é zero, não há poluição, todo mundo se conhece.

 

 

Crianças passeiam e brincam pelas ruas despreocupadas.

 

 

Campos férteis produzem alimentos de sobra, e o que é vendido irriga a economia do local. Um hotel e um spa que acabam de ser construídos trazem turistas (africâners, claro) para conhecer esse idílico local.

 

Juridicamente, Orania é uma cidade como outra qualquer. Não é um condomínio fechado. Entra quem quer, sem portões, cancelas ou guaritas. Mas se a pessoa for “estranha” (um negro perambulando por lá, por exemplo), vai logo chamar a atenção, e em pouco tempo alguém vai ver do que se trata. Se a coisa engrossar, chama-se a polícia.

 

Há um prefeito e sete vereadores, todos eleitos pelos moradores. Existem duas escolas, três igrejas, cerca de 50 pequenos negócios (de cabeleireiros a locadora), dois museus e um cemitério. Em vários lugares se vê a cor laranja, que está para os africâners como o verde e amarelo está para nós. Os dirigentes de Orania sonham com o dia em que atrairão 500 mil habitantes.

 

Um “banco” cuida do “ora”, uma moeda impressa numa gráfica profissional, com a imagem daquele menino arregaçando as mangas. Ele vale a mesma coisa que um rand, a moeda sul-africana, que também é aceita na cidade. A idéia é que o “ora” ajude a reforçar a identidade “nacional” do lugar. Para estimular seu uso, lojas dão 5% de desconto para quem paga na moeda própria.

 

Muita gente ali raramente deixa os limites da cidadezinha. Alguns com quem falei viajam e passam temporadas longe do enclave, mas estão felizes de viver em seu mundinho.

 

Vez por outra o governo tenta acabar com essa situação, mas sempre acaba recuando. Muita gente poderosa (do mundo empresarial e político) apóia Orania, e a gritaria seria imensa.

 

E se alguém estiver pensando em morar na cidade, um aviso. Não é nada fácil. Primeiro, é preciso fazer um pedido formal às autoridades da cidade. Depois, há um processo rigoroso de entrevista, para que o interessado prove suas raízes africâners. Moradores me juraram que brancos de origem inglesa (algo como 3% dos sul-africanos) também já foram rejeitados. Usam isso como argumento para mostrar que não é uma questão racial que move Orania, mas sim cultural.

 

Seja como for, é claro por ali que seus moradores não acreditam no contato com o “outro” como forma de desenvolvimento social. Não aceitam que é possível manter sua cultura em um ambiente plural. E tentam, inacreditavelmente, manter um isolamento total do mundo nos dias de hoje.

 

Meu próximo post será uma continuação deste, uma das mais inacreditáveis entrevistas que já fiz, com o vice-prefeito de Orania. E saudosista convicto do apartheid.

Escrito por Fábio Zanini às 13h46

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O CNA ganha mas perde

PRETORIA (ÁFRICA DO SUL) – Um partido há 15 anos no poder, com todo o desgaste que isso acarreta, disputa uma nova eleição. Tem uma vitória folgada: 65,9% dos votos. E no entanto quem comemora é a oposição.

 

A política sul-africana é, para dizer o mínimo, sui generis. Acabam de ser anunciados os resultados finais da eleição geral da última quarta-feira. Quase 18 milhões de votos contados em três dias, nada mal para um sistema ainda baseado em cédulas manuais.

 

O Congresso Nacional Africano, partido de Nelson Mandela e do futuro presidente, Jacob Zuma, saiu-se vencedor com margem esmagadora. Mas ficou um tiquinho abaixo dos 66,66% dos votos que almejava, ou seja, dois terços. Esse é o patamar necessário para mudar a Constituição sem dar satisfação a ninguém. E na comparação com a última eleição, em 2004, a queda foi um pouco maior, de quase quatro pontos percentuais.

 

Talvez mais importante, o CNA perdeu o governo de uma das nove províncias que governava, a do Cabo Ocidental, justamente a mais rica, onde fica a Cidade do Cabo. Lá, quem ganhou foi a Aliança Democrática, de Helen Zille.

 

E por que isso é tão importante? Porque arranha a aura de invencibilidade do CNA, fortalece a oposição e dá um pouco mais de vigor a uma democracia que até aqui estava parecida demais com um sistema com espaço para um partido só.

 

Mas o CNA também pode falar grosso. Há menos de um ano, previa-se nada menos do que o desastre para o partido. Uma luta interna feia, de fazer o PT parecer uma reunião de hippies pacifistas, dividiu o partido e acabou no expurgo do ex-presidente Thabo Mbeki. Parte de seus aliados saiu e fundou o Cope, Congresso do Povo, que acabou ficando abaixo do que esperava, com 7,42%.

 

Na última quinta-feira eu passei algumas horas no centro de divulgação de resultado, na capital sul-africana, Pretoria. Um lugar sofisticado, muitíssimo bem-organizado, o que é espantoso tendo em vista que a votação foi arcaica e bagunçada.

 

 

Jornalistas e dirigentes dos partidos ficavam de olho grudado num enorme placar em que os resultados nacionais iam sendo atualizados, ladeado por placares menores para cada uma das províncias.

 

Mas o mais impressionante era o clima de camaradagem, entre rivais amargos durante a eleição, que ali precisavam sentar-se lado a lado, em mesinhas simples.

 

Ali estava a delegação do CNA...

 

 

...bem pertinho da mesa da Aliança Democrática (à esquerda, Helen Zille, sua líder).

 

 

Abaixo, dando entrevista, você vê Pieter Mulder, da Frente pela Liberdade, o partido que representa os interesses da minoria branca.

 

 

Todos comportadinhos, se abraçando e fazendo piada. No mínimo, isso vale tanto quanto saber se um partido pegou 65% ou 66% dos votos.

Escrito por Fábio Zanini às 12h45

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

A longa espera pelo voto

JOHANESBURGO (ÁFRICA DO SUL) - Já cobri várias eleições, no Brasil e em outros países, e nunca vi filas tão grandes como hoje, na África do Sul.

 

O país ainda está pré-história da tecnologia do voto. Duas ou três cabines apenas por seção eleitoral, cédulas gigantescas que dobradas entram com dificuldade nas urnas de papelão. Processos de contagem manual que demoram dias para serem completados. Pior que aqui, só na Flórida.

 

Mas a população esperava sem reclamar. Era impressionante o silêncio nas três seções que visitei hoje pela manhã, duas no bairro barra pesada de Alexandra (só tive coragem de aparecer por lá porque o policiamento estava reforçadíssimo) e uma no bairro bacana de Sandton.

 

Ambos ficam ao norte do centro de Johanesburgo, separados apenas por uma pista expressa, mas poderiam estar no Zimbábue e em Londres, respectivamente.

 

Em Alexandra, apenas negros.

 

Em Sandton, muitos brancos e alguns negros.

 

 

O tempo virou e o que era um calor de usar bermuda apenas dois dias atrás virou um frio cortante. Homens e mulheres encapotados esperavam de pé, resignados, por até duas horas para votar. As filas formavam minhocas, e, no caso de Sandton, um inusitado quadrado, em frente à estação de bombeiro convertida em seção eleitoral. Um grupo de crianças empreendedoras alugava cadeiras por 10 rands, pouco mais de 1 dólar.

 

A boca de urna foi tolerada, mas institucionalmente, digamos assim. Numa das seções eleitorais havia mesinhas com representantes dos partidos, civilizadamente postadas do outro lado da rua. Cabos eleitorais circulavam entre os eleitores apenas checando o número de votantes.

 

O Congresso Nacional Africano (CNA), partido que está na presidência há 15 anos e que deve eleger seu líder Jacob Zuma para mais cinco, montou uma interessante rede de comunicação por telefone celular, deslocando oficiais munidos do aparelhinho para informar em tempo real, via mensagem de texto, o que estava acontecendo. Cada um recebeu da campanha um valor em crédito telefônico.

 

A votação foi calma, pelo menos no que eu acompanhei. O que chamou a atenção mesmo era o policiamento no bairro de Alexandra. Em meia quadra perto de uma seção, contei quatro carros e três camburões de polícia.

 

 

Em outro ponto, mais de 20 policiais, com seus revólveres bem à mostra, checando documentos dos votantes.

 

E as prioridades também variavam. Para os negros pobres, emprego em primeiro lugar, casas em segundo lugar e segurança em terceiro. Para os brancos e negros ricos (sim, existem, fruto da democracia), segurança, segurança e segurança. Um pouco como num grande país sul-americano que todos conhecemos bem.

 

E muitos velhinhos também, alguns nem se importando de pegar a fila, embora tivessem direito de furá-la. Compreensível: imagine que você é um negro sul-africano de 90 anos de idade e passou 75 deles proibido de morar onde quer, de trabalhar onde quer, de se casar com quem quer, e de votar em quem quer.

 

Faça chuva ou sol, frio ou calor, fila grande ou não, o dia de ontem foi de festa. O resultado deve sair até sábado.

Escrito por Fábio Zanini às 17h51

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Uma conversa com Dra. Beterraba

JOHANESBURGO (ÁFRICA DO SUL) - Manto Tshabalala-Msimang. O nome é complicado, então pode chamá-la simplesmente de “Doutora Beterraba” (a foto abaixo é do arquivo da Associated Press).

 

 

Manto é uma figura execrada pela comunidade científica, jornalistas, ONGs e lobistas anti-Aids do mundo todo. Até um episódio de “Law and Order” (ou será CSI?) eu lembro de ter visto ridicularizando-a.

 

Ela aprontou das suas, claro. No final da década de 90, quando a epidemia de AIDS saía do controle na África do Sul, Manto, um quadro político antigo do Congresso Nacional Africano, foi nomeada pelo então presidente Thabo Mbeki para o delicado posto de ministra da Saúde. Thabo e Manto têm uma relação política e pessoal antiga: estudantes, foram parte de um grupo que fugiu espetacularmente do regime do apartheid e se exilou na Tanzânia, nos anos 60.

 

Sua gestão como ministra foi um desastre sob todos os aspectos. Ela e Mbeki embarcaram num exercício fútil de discutir se o HIV causa mesmo a Aids, quando há anos esta discussão foi vencida nos meio internacionais. Depois, começaram a questionar a eficácia da nova geração de drogas anti-retrovirais no tratamento dos doentes, indicando que elas seriam “veneno” empurrado pelas gananciosas companhias farmacêuticas multinacionais goela abaixo dos africanos.

 

O tratamento, segundo Manto, deveria concentrar-se não em drogas, mas no reforço alimentar, numa dieta à base de beterraba, batata, alho e suco de limão. Daí o apelido de “Doutora Beterraba”, pespegado pelos ativistas.

 

Enquanto ela e Mbeki cercavam-se de cientistas céticos e procuravam reinventar a roda da luta contra a Aids, os casos se multiplicavam e pessoas morriam. Hoje, a África do Sul tem quase 6 milhões de doentes, a maior epidemia da doença no mundo.

 

Precisaram ONGs travarem uma batalha judicial de cinco anos para finalmente o governo se ver obrigado a aceitar o óbvio. As drogas começaram a ser distribuídas em 2005.

 

Como a Aids é mais do que um tema de saúde pública por aqui, é um assunto eleitoral, coloquei uma entrevista com Manto no topo dos meus objetivos durante a estada em Johanesburgo. Ela foi afastada do ministério da Saúde, mas compensada com um cargo político de ministra da Presidência.

 

Foi uma saga para entrevistá-la. Na quinta-feira passada, mandei um email para um assessor. Na sexta, ele me ligou, dizendo que a secretária da ministra me telefonaria pontualmente às 18h25 me passando o celular da ministra, para eu ligar pontualmente às 18h30.

 

Só que a secretária não é lá muito competente, e só me ligou às 18h50. Imediatamente telefonei para a ministra, que me deu um esporro, dizendo que eu estava atrasado. Depois de eu explicar que a culpa não era minha, instruiu-me a telefonar no dia seguinte, sábado, às 14h.

 

Assim eu fiz, mas o celular dela não atendia. Fiquei tentando a tarde toda, até que perto das 19h consegui. Bem mais simpática, disse que conversaríamos pessoalmente no horário do almoço ontem, segunda-feira.

 

No domingo à noite, a secretária liga de novo dizendo que a entrevista seria às 12h de segunda, num hotel perto do aeroporto. Animei-me: vou entrevistar a lendária Doutora Beterraba!!

 

Segunda-feira de manhã, a secretária liga maaaais uma vez, dizendo que a entrevista passou para as 12h45, para eu não me atrasar em hipótese alguma, pois teria apenas 15 minutos. Tudo bem. No horário marcado eu estava lá, mas Doutora Beterraba estava em reunião.

 

Dois de seus assessores vieram então me dizer que havia um “probleminha”. Por um erro da secretária incompetente, a ministra não sabia que eu estava ali. E agora ela tinha um compromisso urgente e não podia me atender. Furioso, fechei a cara, ao que o assessor tentou ser simpático:

 

“Relax, man!”.

 

Respondi que eu sou brasileiro e portanto relaxado, e ele, beijando a ponta dos dedos como o cozinheiro do filme Ratatouille, fez uma menção qualquer às mulheres brasileiras.

 

Cinco minutos depois aparece Manto, de longo vestido verde com motivos africanos, uma senhora já de quase 70 anos me tratando como um netinho. “Sinto muito, muito mesmo, mas não posso, porque tenho um encontro na sede do partido e se eu não for eles cassam minha filiação”, disse, brincando.

 

Forçando um sorriso, respondi que achava difícil ela ser expulsa do CNA, e sugeri que eu fosse com ela no seu carro, entrevistando-a no caminho. “Mas não tem espaço”, esquivou-se vovó Manto.

 

“Nem para um brasileiro magrelo?”, respondi (magrelo e barrigudo, na verdade, mas isso eu não falei).

 

Nada feito, voltei nervoso para o hotel com uma vaga promessa de tentarmos de novo mais uma vez. No fim da tarde, para minha surpresa, meu celular toca e é a secretária de Manto, a quem eu queria esganar (a secretária, não a ministra). A ministra podia atender, liguei e ela, muito simpática, finalmente me deu uma entrevista, de 18 minutos.

 

A linha estava péssima, o tempo era curto, e o sotaque de Manto é difícil de entender. A entrevista não rendeu como eu imaginava, mas teve bons momentos, como esse, publicado na Folha de hoje:

 

Folha - Por que os remédios anti-Aids demoraram tanto para serem distribuídos pelo governo?

Manto - Deixe-me exemplificar com o nevirapine [uma das principais drogas]. Quando eu me tornei ministra, fui a Uganda ver como era utilizado lá. E não ficamos totalmente satisfeitos com a reação provocada, sobretudo em mulheres. Então, antes de expormos as mulheres da África do Sul a essa droga, decidimos inivestigar mais. Você nunca toma uma decisão política baseado apenas em uma única experiência. Foi errado o fato de que eu queria testar no nosso sistema?

 

Folha - Mas os remédios já eram usados em várias partes do mundo...

Manto - Lembre-se que herdamos um sistema de saúde muito pouco desenvolvido, e por isso precisamos testar mais. Você não pode usar seu coração ao fazer políticas, tem de usar sua cabeça.

 

Folha - A sra. nunca escondeu sua associação com cientistas que negam a ligação do HIV com a Aids...

Manto - Nesse país, eu tive encontros com vários cientistas, de todas as opiniões. É uma segmentação da mente das pessoas dizer que eu tive encontros com apenas alguns cientistas. O que ocorria é que eu colocava questões, antes de fazer uma decisão política. Acho que o debate e o entendimento sobre a Aids ainda não estão concluídos.

 

Folha - A sra. aceita que o HIV causa Aids?

Manto - Quando eu disse que não?

 

Folha - O que a sra. acha da reação das ONGs?

Manto - É um tema muito emotivo. O fato é que havia outras agendas que tentavam definir as políticas desse país, que não sei de onde vieram [refere-se às companhias farmacêuticas internacionais]. Eu tenho a consciência absolutamente tranquila..

 

Ah, antes de crucificarmos totalmente Doutora Beterraba, duas atenuantes:

 

-primeiro, ela tem razão sobre a importância de promover uma dieta saudável para os doentes, coisa geralmente ignorada nas políticas públicas de Aids. Pena que Manto e Mbeki exageraram na dose e passaram a achar que isso substituiria o uso dos remédios;

 

-segundo, ela tem razão quanto ao fato de companhias farmacêuticas internacionais serem sanguessugas em grande parte das vezes...

Escrito por Fábio Zanini às 12h58

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O show de Zuma

JOHANESBURGO (ÁFRICA DO SUL) - Há sérias dúvidas se Jacob Zuma será um bom presidente para a África do Sul, mas nenhuma quanto ao fato de que seu governo será bem mais divertido.

 

Zuma só não foi a estrela maior do comício de encerramento do Congresso Nacional Africano ontem em Johanesburgo porque Nelson Mandela apareceu de surpresa e, mesmo sem dizer uma palavra, roubou a cena. E concorrer com Nelson Mandela é covardia.

 

Mas o provável futuro presidente, a ser eleito na quarta-feira, pulou, dançou e cantou, feito um crooner, com microfone na mão, animando a galera de 40 mil pessoas.

 

 

Nem pareciam que estávamos (eu e a multidão) ali havia quase quatro horas, sob sol intenso e quase nenhuma gota de água na garganta. Misteriosamente, não havia um mísero vendedor ambulante ali, o que levanta questões importantes quanto ao empreendedorismo do sul-africano.

 

Mas voltemos a Zuma. Desde que entrou no estádio de Ellis Park, uma espécie de Maracanã do rúgbi sul-africano, dentro de um carrinho de golfe, ao lado de Mandela, ele não parou um minuto de sorrir.

 

Ao subir ao palco, iniciou uma curiosíssima dancinha, que, depois fui saber, é sua marca registrada. Em alguns momentos lembra a dança do Tchan, só que mais lenta. Braços abertos, joelhos dobrados quase até o chão, cabeça baixa e o eterno sorriso no rosto, deliciava-se com a sucessão de hinos antiapartheid, que praticamente todo sul-africano sabe de cor.

 

Interrompeu sua diversão com a leitura de um discurso chatérrimo, sem charme, quase sem frases políticas, na maior parte do tempo uma lista aborrecida de promessas vagas de campanha. Uma hora depois, já era o bom e velho Zuma de novo, agora cantando uma música polêmica, com o título de "Umshini Wami", ou “Traga Minha Metralhadora” na língua zulu.

 

Ele não é um terrorista, antes que me perguntem, mas já foi o chefe do serviço de inteligência clandestino do braço armado do CNA nos anos 70 e 80, e essa musiquinha cantada pelos guerrilheiros é uma de suas favoritas.

 

Setores conservadores e de oposição na África do Sul horrorizam-se com um candidato a presidente cantando algo com um título desses, mas Zuma e seus milhares de seguidores não estão nem aí. O único cuidado que ele tomou ontem foi não fazer o gesto com os braços imitando uma rajada imaginária, que é parte habitual da coreografia da música.

 

Quem dançava a seu lado (à direita, na foto de cima) era ninguém menos que Winnie Mandela, a ex-mulher de Nelson, vestida com terno preto e uma boina à Che Guevara. No final do comício, por um acaso, achei-me a dois metros dela, sozinho, e gritei um “Mrs. Winnie, one question from Brazil”, mas fui solenemente ignorado e afastado de maneira pouco gentil por um brucutu.

 

Mesmo para alguém que tem o dever de ofício de ser cético como eu, foi impossível não sentir-se contagiado com aquela multidão enlouquecida com a presença de Mandela e cantando e dançando o tempo todo.

 

 

 

Era um Carnaval, com alguns tipos muito esquisitos na platéia.

 

 

 

O contraste de Zuma com seu antecessor e arqui-rival Thabo Mbeki não poderia ser maior. Mbeki é cinzento e tecnocrático, algo como um FHC ainda mais sério. Zuma é alegre e meio palhação, como um Lula com ainda mais carisma.

 

Quanto a Mandela (abaixo, ao lado de Zuma), entrou, sorriu, deu uma volta olímpica no carrinho acenando para a platéia de adoradores e foi protagonista involuntário de uma cena tocante.

 

 

Sua saúde é boa para um homem de 90 anos, e ele está 100% lúcido, mas tem grande dificuldade de andar (daí o carrinho).

 

Mas Mandela teve de subir dez degraus para chegar ao palco no meio do estádio, e o esforço visível em vencer o desafio foi acompanhado pela multidão pelo telão do estádio. Um coro de incentivo acompanhou cada passo e a chegada ao topo foi aplaudidíssima.

 

O comício de ontem provou que Zuma foi quem deu o show, mas é Mandela quem ainda fascina os sul-africanos.

 

p.s.: fiz um videozinho do momento em que Zuma canta "Umshini Wami". A qualidade da imagem ficou péssima (preciso comprar uma câmera melhor), mas o áudio é legal.

 

 

Escrito por Fábio Zanini às 14h53

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O Soweto não é mais o mesmo

SOWETO (ÁFRICA DO SUL) - Uma ruazinha calma, que poderia estar num condomínio fechado das cercanias de São Paulo. Casas espaçosas, muros altos, sistema de vigilância 24 horas por dia, jardins bem cuidadinhos.

 

 

 

Num canto, uma filial da Aliança Francesa. E eu juro que vi uma BMW prata virando a esquina.

 

Esta foi a visão mais surpreendente de minha visita ao Soweto ontem à tarde. Talvez nenhum bairro do mundo seja mais conhecido, mais cantado, lido e estudado. Suas famosas torres da usina de energia, hoje desativada, já viram de tudo.

 

 

 

Do Soweto saiu Nelson Mandela para ser canonizado ainda em vida. No Soweto, em 1976, os estudantes rebelaram-se contra o sistema educacional do apartheid, com uma força tão repentina quanto intensa, pegando a todos de surpresa: governo, mídia e a própria liderança estabelecida da resistência ao odioso regime segregacionista branco.

 

Talvez por isso, o Soweto para sempre estará associado a imagens de violência, protestos de rua e suas imensas townships, as favelas. Mas esse não é todo o Soweto. Aliás, é errado falar de um Soweto. São dezenas.

 

O nome vem das iniciais de South West Townships (Distritos do Sudoeste, sudoeste de Johanesburgo, no caso). No começo do século passado, era para lá que rumaram milhares de migrantes negros e pobres que vieram trabalhar nas minas de ouro. Johanesburgo era o Eldorado do sul da África.

 

Na época do apartheid (anos 40 aos anos 90), era lá que o governo branco enfurnava negros pobres, enquanto distritos ao norte do centro de Johanesburgo eram reservados à elite branca. Com as minas esgotadas, o Soweto era pouco mais que um depósito de mão de obra barata para as casas e escritórios do regime supremacista.

 

Mas o apartheid havia criado um monstro. De um distrito com poucos milhares de habitantes, o Soweto expandiu-se geograficamente a ponto de hoje ser Johanesburgo que parece um distrito seu. 1 milhão de pessoas moram ali, em 87 subdistritos coletivamente conhecidos como Soweto.

 

Quinze anos depois do fim do apartheid, o Soweto é um exemplo do que acontece nesse país. Várias partes desgarraram-se economicamente e hoje abrigam a nova classe média negra, emergente, incluída pelo crescimento econômico, a democracia e a vigorosa política de ações afirmativas do governo.

 

Vocês precisavam ver o shopping center ali pertinho, recém-inaugurado. Lojas finas, cadeias de restaurantes, cinemas de última geração, arquitetura modernista, e aquele toque kitsch que todo shopping tem, com estátuas de elefantes na entrada.

 

 

 

E, para lembrar onde estamos, uma estátua no hall de entrada reproduzindo uma famosa foto tirada nos protestos de 1976.

 

 

 

Ali, eram negros, negros e mais negros, comprando, passeando, divertindo-se. Porque o Soweto cresce e se desenvolve, mas ainda carrega o estigma. Brancos por lá quase não aparecem.

 

Se o Brasil é o campeão mundial da desigualdade social, a África do Sul fica com a medalha de prata (talvez a de ouro, na verdade). Isso é histórico no país, e os 15 anos de democracia racial ainda não mudaram essa realidade. Mas há uma diferença importante. Antes eram os 10% de brancos riquíssimos e os 80% de negros paupérrimos. Agora, o fator racial se diluiu um pouco, e a desigualdade entre os negros começa a predominar.

 

Novamente, é o Soweto que serve de ilustração. Bem ao lado das partes mais nobres, as favelas de casas sem eletricidade e água corrente permanecem. Cinco minutos de carro e você sai de uma pacata ruazinha de casarões para um favelão.

 

 

Um contraste de fazer inveja ao que se vê no Rio de Janeiro.

 

Mulheres com lata d’água na cabeça, imigrantes moçambicanos vendendo batata e tomate sobre toalhas empoeiradas no chão, e até um incrível cercadinho para vender cabritos eu vi.

 

 

 

Todos solidamente fiéis ao Congresso Nacional Africano, o partido de Mandela e de Jacob Zuma, que deve ser eleito presidente do país na próxima quarta-feira. O Soweto não é mais o mesmo, mas continua politicamente alerta e pronto para puxar a orelha dos governantes da vez.

Escrito por Fábio Zanini às 05h41

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

A colorida eleição sul-africana

JOHANESBURGO (ÁFRICA DO SUL) - O primeiro dia na África do Sul, vindo de São Paulo, é uma espécie de enduro de resistência. O voo é muito curto para conseguir dormir, menos de oito horas, e o fuso horário não ajuda. Quando começa a dar sono, lá pelas 23h, horário brasileiro, já são 4h no horário sul-africano. Duas horas depois, o avião já está aterrissando.

 

Por isso, é uma tradição passar o primeiro dia sonado, meio zumbi, como hoje. Felizmente, estou funcionando à base de adrenalina, o que me ajuda a ficar acordado. Mas já são 18h e daqui a pouco vou desabar.

 

Não há dúvida de que vai haver uma eleição presidencial aqui em apenas seis dias, como mostram os inúmeros cartazes pregados em postes, ou os gigantescos outdoors nas beiras das vias expressas que formam as “avenidas” de Johanesburgo.

 

Tudo que até pouco tempo atrás tínhamos no Brasil, aliás, e agora se foi, na onda do politicamente correto que vai varrendo a alma das cidades. A poluição visual aqui é para ninguém botar defeito, mas, ei!, isso aqui é uma eleição! É com grande nostalgia que me delicio com as propagandas coloridas emporcalhando todos os cantos.

 

Jacob Zuma, o futuro presidente, candidato do CNA, está por toda parte, com o largo sorriso maroto de quem sabe que aprontou muito no passado e mesmo assim vai sair por cima. Mas sempre na sua cola, como mostra a foto abaixo, está a branquíssima expressão de Helen Zille e seu partido DA (Aliança Democrática, na sigla em inglês).

 

 

Zuma fia-se na força de seu carisma e na máquina de seu partido, no poder desde o fim do apartheid, em 1994. Usa como slogan “juntos podemos fazer mais”, e alguns gaiatos acrescentam a caneta as palavras “crime” ou “corrupção” no cartaz.

 

Zille, prefeita de Cidade do Cabo, emprestou da campanha de Barack Obama a palavra “change” (mudança), mas não consegue ser mais do que uma candidata da elite branca e de parte da classe média negra. De qualquer forma, provavelmente vai se credenciar como a principal liderança de oposição ao CNA, o que não é pouca coisa.

 

E, mostrando que Obama é mesmo “o cara”, o partido Cope (Congresso do Povo), dissidência do CNA, bate na tecla de “hope” (esperança), a outra metade da retórica do presidente dos EUA.

 

Temos também uma gama de candidatos menores, alguns disputando palmo a palmo espaço com publicidade comum, como esse cartaz do VF (sigla para Frente da Liberdade), um partido ainda mais assumidamente branco, escrito na língua africâner, para sempre associada ao regime do apartheid.

 

 

 

Sim, porque faz 15 anos que o apartheid se foi, mas a mentalidade tribal (branca e negra) de grande parte do eleitorado sul-africano permanece intocada.

 

E vai para um partido tribal assumido, o Inkhata Freedom Party (IFP), representante da etnia zulu, o prêmio de cartaz mais bonito da eleição até agora, um meiguíssimo desenho com três elefantes.

 

 

 

Eu sei que não diz nada, mas cartaz eleitoral é assim. Que saudade do tempo em que tínhamos campanhas de verdade no Brasil...

Escrito por Fábio Zanini às 13h18

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Pé na África do Sul

Nas próximas duas semanas, Pé na África se muda para a África do Sul. Embarco hoje para Johanesburgo, para cobrir pela Folha de S. Paulo, e para este blog também, a eleição presidencial de 22 de abril no país mais importante do continente.

 

O resultado são favas contadas, com a mais do que certa vitória de Jacob Zuma e de seu partido, o Congresso Nacional Africano.

 

Mas a eleição, a quarta desde o fim do apartheid, é histórica assim mesmo. Marca os 15 anos de democracia racial, e a primeira vez em que o CNA, o partido de Nelson Mandela, enfrenta oposição de verdade. Se a fatia dos votos do partido governista reduzir-se dos atuais 70%, terá sido um passo imenso para o fortalecimento da democracia sul-africana. E há grandes chances de isso acontecer.

 

Em 15 anos, o país ganhou em liberdade, em participação política dos negros e no surgimento de uma nova classe média. Enfrentou a tragédia da AIDS e sofre com os índices inacreditáveis de corrupção.

 

Tudo isso é assunto para os próximos dias. E tem a Copa do Mundo também.

 

Nesse momento estou embarcando. Como é bom voltar para a África.

Escrito por Fábio Zanini às 14h41

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O que fazer na Somália?

Voltei de uma semaninha de recesso de Páscoa com a notícia de que Barack Obama começou a falar grosso contra um dos mais espetaculares fenômenos do banditismo internacional dos últimos anos, os piratas da Somália.

Será?

Veja o que disse há pouco o presidente dos EUA sobre os piratas: “Temos que continuar a estar preparados para confrontá-los quando aparecerem, e temos que garantir que aqueles que cometem atos de pirataria sejam responsabilizados por seus crimes”.

Seu secretário de Defesa, Robert Gates, fez eco: “Eu penso que vamos terminar gastando uma quantidade grande de tempo nesse governo, vendo se existe uma maneira de tentar mitigar esse problema”.

Teve também um porta-voz do Departamento de Estado dando sua contribuição: “Vamos examinar um número de opções e mecanismos”.

Bem, ouvindo declarações tão “ameaçadoras”, eu, se fosse um pirata somali, continuava botando meu barquinho na água sem medo nenhum.

Porque, apesar do resgate cinematográfico de ontem de um capitão de navio norte-americano que era mantido refém por um grupo de piratas, o que temos até aqui são palavras vagas e nenhuma noção do que deve ser feito.

Repare que a ameaça do porta-voz soa quase cômica.

Enfiar-se no enrosco da Somália era a última coisa de que Obama precisava nesse momento, enrolado que já está com Iraque, Irã e Coreia do Norte. A Somália consegue ser mais difícil e mais perigosa, porque ali não há fiapo de governo e ordem. Em regimes inimigos, ao menos sabe-se a quem enfrentar. Muito pior é pôr o pé num cipoal de grupos, sub-grupos, clãs e subclãs, todos armados até os dentes, como é o caso da Somália.

O negócio da pirataria é tão rentável porque em terra firme não há guarda costeira, alfândega ou delegacias de polícia. A Somália, desde 1991, não tem um governo que funcione. Os parcos esforços da comunidade internacional para proteger suas águas, importantes rotas do comércio marítimo, são paliativos contra lanchas ágeis e praticamente invisíveis a radares.

Faz tempo que a Somália não ocupa o precioso tempo do homem mais poderoso do planeta. Desde 1993, mais precisamente, quando Bill Clinton teve de retirar às pressas marines massacrados por milicianos na capital, Mogadíscio (estavam lá para assegurar a distribuição de ajuda humanitária).

Quinze anos se passaram e quis cair no colo de Obama o fato de que os piratas começam a causar danos econômicos, justamente quando a crise internacional aperta. A descendência africana do presidente só colabora para o clamor de que a superpotência faça alguma coisa para finalmente pôr ordem naquele pedaço da África.

Entendam bem: as palavras do presidente norte-americano, tentando falar grosso, têm alguma importância. Revelam que a Somália passou a incomodar.

Mas enviar mais navios para a região e tentar liderar um grande esforço diplomático internacional (mais um) são mais paliativos.

Todos sabem o que precisa ser feito na Somália: a entrada de uma força maciça internacional, sob os auspícios da ONU e da União Africana, com o maior contingente cabendo aos EUA, para neutralizar as milícias e dar uma chance a um governo minimamente democrático. A ordem no mar depende da ordem em terra.

Isso sim seria falar grosso, mas, como eu disse, não acho que os piratas devam ficar muito preocupados...

Escrito por Fábio Zanini às 22h05

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Caminho livre para Zuma

O dia de hoje foi um dos mais importantes na história recente da África do Sul, provavelmente ainda mais importante do que a eleição marcada para 22 de abril.

O órgão que lá faz as vezes de Ministério Público decidiu retirar as acusações de corrupção que pesavam contra o candidato presidencial pelo Congresso Nacional Africano, o principal partido do país, Jacob Zuma.

Era a única coisa que ameaçava a ascensão de Zuma como o homem mais poderoso do continente africano. Sua eleição é 100% certa, e seu governo, a menos que apareça algo de novo, assegurado.

Assim que o anúncio foi feito, apoiadores de Zuma explodiram em júbilo pelas grandes cidades do país. Carros soavam suas buzinas em congestionamentos. Centenas marcharam por favelas.

A oposição protestou, acusando a promotoria de tomar uma atitude política, e promete recorrer.

É uma reviravolta incrível. Há quatro anos, Zuma foi afastado do cargo que ocupava, de vice-presidente sul-africano, quando emergiram as primeiras acusações de corrupção e lavagem de dinheiro numa nebulosa transação de venda de armas. Seu principal assessor foi preso e condenado a 15 anos de cadeia.

No mesmo ano, surgiu outra denúncia: nada menos do que estupro, um crime tão traumatizante quanto freqüente no país.

Zuma caiu no ostracismo e parecia fadado a nunca atingir a presidência. Mas eis que retorna triunfante, após primeiro tomar o controle do partido e depois defenestrar seu arqui-rival Thabo Mbeki da presidência da África do Sul. Até agora não foi julgado pela Justiça.

Como fez isso? Com carisma que rivaliza com o de Lula, credenciais da resistência armada ao apartheid que competem com as de Dilma e populismo econômico de matar Heloisa Helena de inveja. Zuma é aliado dos sindicatos, campeão dos pobres e uma figuraça em cima de um palco. Nos anos 70, era chefe do serviço clandestino do CNA. Ainda hoje, entoa com gosto a canção de protesto “Umshini wami”, um hino dos guerrilheiros do grupo, que significa “Traga minha metralhadora” na língua zulu.

Zuma é a figura mais polêmica da África do Sul e tem relações suspeitíssimas com grandes empresários, mas o que o salvou foram a incompetência e a descarada falta de isenção política dos investigadores.

É possível aqui traçar paralelos com o delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz, cuja falta de cuidado técnico numa operação crucial, lançando suspeitas contra meio mundo e elaborando teorias conspiratórias malucas, provavelmente será determinante para livrar de condenação o banqueiro Daniel Dantas, sobre quem pesam fortes indícios de corrupção.

Zuma se safou porque vazaram diálogos entre promotores e policiais federais sul-africanos em que era acertado o “timing” da divulgação de suspeitas contra ele, de modo a lhe causar o máximo prejuízo político. Um dos diálogos mostrava a pressão para que as acusações estivessem na praça de modo a coincidir com a célebre convenção que levou Zuma à presidência do CNA, em dezembro de 2007.

Em nada ajudava o fato de que o procurador-geral à época, Bulelani Ngcuka, era marido da vice-presidente que sucedeu Zuma (e sua inimiga política), Phumzile Mlambo-Ngcuka.

Hoje, a promotoria desistiu com base no argumento de que não havia credibilidade na investigação. Na África do Sul ou no Brasil do dr. Protógenes, começa a ganhar força uma tese de que, tão importante quanto a coleta de provas de corrupção é o nível técnico da investigação. Para sorte de Zuma e de Daniel Dantas.

Escrito por Fábio Zanini às 21h35

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Dizem que Roque Santeiro...

Gustav Nilsson é um leitor assíduo do blog que mora em Douala, nos Camarões. Trabalha para uma empresa e tem responsabilidades sobre 12 países da África subsaariana.

 

Frequentemente, viaja a Luanda, em Angola, de onde mandou fotos e um relato sobre sua visita ao mercado de Roque Santeiro, o mais famoso do país e um dos mais famosos de toda a África.

 

Talvez muitos de vocês já tenham ouvido a história desse lugar. É uma megafeira que vende de tudo um pouco e tem características únicas, como algumas das fotos abaixo do Gustav mostram.

 

É razoavelmente perigoso, e quando estive em Luanda fui fortemente desaconselhado a visitá-lo sem proteção policial. E, sim, o nome é uma referência à novela da Globo dos anos 80.

 

 

 

A parte mais chocante é o açougue e suas milhares de moscas. Na foto, não se consegue ver muito todas elas, porque voando não aparecem na câmera”, diz Gustav.

 

 

 

“O cinema também impressionou, os barracões infernais totalmente fechados e passando um filme com som altíssimo e uma poeira sufocante ao redor”, continua ele.

 

 

Há ainda uma espécie de setor de “cama, mesa e banho”, como mostra a foto abaixo. Lá, como em muitos mercados da África, tudo é divididinho, como se fosse um hipermercado.

 

 

“Do alto da escola foi possível ver o favelão de cima, entrando nos barracos e vivendo, por alguns segundos, aquela realidade deles. Forte. Vale para uma reflexão profunda de nossas vidas”, conclui.

 

A impressão sobre o mercado vale para Angola de maneira geral, aliás. Ao lado do favelão, prédios moderníssimos sobem rapidamente na orla de Luanda, alimentados pelo petróleo (mesmo com o preço em queda no mercado internacional).

 

Mesmo para um brasileiro acostumado à imensa desigualdade social, impressiona.

Escrito por Fábio Zanini às 20h12

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

A incrível sorte de Lula

Se havia alguma dúvida de que o presidente Lula nasceu virado para a lua, dissipou-se na Caspa, a Cúpula América do Sul-Países Árabes, ocorrida ontem no Catar.

 

Pois não é que colocaram Lula bem ao lado do ditador sudanês Omar al-Bashir na mesa do almoço, e nenhuma fotinho foi feita da cena? Esperto, nosso presidente se mandou ainda na salada, com a desculpa de que tinha que voar para Londres, para o encontro do G-20. E ninguém registrou o momento histórico.

 

As únicas fotos feitas do evento são insossas, como essa, da Agência Brasil, órgão oficial da Presidência:

 

 

Hoje, ser visto ao lado de al-Bashir é um pouco como ser visto ao lado de Adolf Hitler. O presidente do Sudão é acusado pela morte de 300 mil pessoas na região de Darfur, oeste do seu país, e por isso foi indiciado por crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional, sediado em Haia, na Holanda.

 

Teoricamente, deve ser preso assim que colocar seu nariz fora do país, mas em Doha, capital do Catar, estava entre amigos. Como Lula.

 

Uma foto do brasileiro ao lado do sudanês, jogando conversa fora, quem sabe rindo de uma piada, seria o mais poderoso testamento das limitações e absurdos da nossa política externa. Um símbolo e tanto, pelo qual esperei ansiosamente. Infelizmente, não aconteceu.

 

Êta sujeito de sorte esse!

Escrito por Fábio Zanini às 21h25

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Fábio Zanini Fábio Zanini, 33, é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), com mestrado em relações internacionais pela School of Oriental and African Studies (Soas), da Universidade de Londres.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.