Bali 40 graus - Despachos da Conferência do Clima
 

A fuga dos brancos

Abri o site da BBC e dei de cara com uma daquelas notícias inacreditáveis e reveladoras. Essa chega a ser quase cômica.

 

“Britânicos sairão do Zimbábue”.

 

Não porque estivessem passando férias ali (ninguém passa férias no Zimbábue). São brancos pobres, doentes, idosos, tornados miseráveis por causa da hiperinflação zimbabuana. E que estão loucos para voltar para casa.

 

A matéria está aqui (em inglês):

 

http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/8074701.stm

 

A BBC cita um senhor aposentado chamado Fred Noble, que viveu no Zimbábue nos últimos 51 anos. “Fiquei doente, tive que ir a um hospital privado e pagar todas as despesas do meu bolso. Tive que vender meu apartamento”, diz ele.

 

Nostálgico, diz que tem esperança no novo governo de união nacional, formado pelo ditador Robert Mugabe (há 29 anos no poder) e seu inimigo Morgan Tsvangirai, líder oposicionista. Mas afirma que não consegue mais esperar. “Sentirei falta daqui. Passei anos maravilhosos. Mas não sou mais um homem jovem, e estou voltando para casa para morrer. Vim para um país bonito e vou lembrá-lo dessa forma”, afirma.

 

Noble é um de cerca de 60 britânicos que moram no Zimbábue e se inscreveram num programa do governo para repatriar pessoas que não têm condições financeiras para isso. Mas perceba a ironia e o significado disso.

 

Ingleses (assim como franceses, portugueses, alemães, belgas, espanhóis e demais brancos) costumavam chegar à África sem pedir licença, e sempre para enriquecer. Os tempos são outros, claro. Hoje, no mínimo precisam avisar que estão se estabelecendo, e respeitar as leis locais de países livres e independentes (pelo menos na teoria).

 

Do Zimbábue, estão saindo praticamente escorraçados. Alguém com raciocínio simplista poderia comemorar o fato de que a antiga dicotomia de brancos ricos e negros pobres, componente central da colonização, não existe mais. Tanto que há brancos hoje passando necessidades.

 

Mas longe de a notícia ser uma amostra de soberania do país, é um sintoma deprimente de a que ponto ele chegou. No Zimbábue, uma política oficial de décadas de perseguição aos descendentes dos colonizadores levou à saída em massa deles. Na independência do país, em 1980, eram 250 mil. Hoje, não chegam a 10% disso. E continuam indo embora.

 

Muitos, como mostra nosso amigo Fred Noble, vêem o Zimbábue como sua casa. Lembro de ter encontrado, num pub de Harare (a capital), três sujeitos brancos tomando um gim tônica ao meio-dia, melancólicos por se sentirem perseguidos em sua própria pátria. Nasceram no Zimbábue e não reconheciam mais sua terra natal. Pensavam seriamente em ir embora.

 

Não é uma questão racial, embora seja caracterizada dessa forma. A saída dos brancos é apenas mais uma constatação do óbvio: um país se desintegra a olhos vistos.

Escrito por Fábio Zanini às 20h02

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O que faz Jack Bauer na África?

“24 horas” é uma daquelas séries de TV de que eu tenho medo de assistir. Medo de ficar viciado e não parar de falar do assunto. Transporto para o mundo de Jack Bauer a fórmula dos alcoólatras: evite o primeiro episódio.

Mas tenho amigos já perdidos e sem salvação. Vera Magalhães, minha colega na Folha de S. Paulo, é um exemplo. Outro dia me sugeriu de fazer um post soube Bauer na África.

Eu tinha ouvido algo a respeito, por alto. Parece que Jack Bauer, sem ter muito o que fazer nos EUA e cansado de explodir a cabeça de terroristas, vai relaxar na África e pensar na vida. E acaba sendo tragado por conflitos bem, digamos, “africanos”.

Aviso desde já que não vi (“evite o primeiro episódio”). Dei uma olhada na internet para ter uma idéia do que se trata. Valeu, Wikipedia! Esperava uma sequência de clichês e não me decepcionei. Para falar a verdade, até me diverti.

A história se passa no país fictício de Sangala, onde Bauer está passando sua temporada. Gostei do nome: Sangala. Não dá muito pra saber se fica na África francesa, inglesa (ou portuguesa, até). Boa sacada. Assim ninguém se sente ofendido.

Uma das primeiras cenas mostra dois garotos jogando bola. São cercados por milicianos do general Juma! Adorei esse. Tá na cara que o nome inspirado no de Jacob Zuma, o novo presidente sul-africano.  

Juma quer dar um golpe de Estado e quer recrutar crianças soldado. Tudo muito africano e muito verossímil. Assim começaram guerras na Libéria, Serra Leoa e Congo. Crianças com AK-47 nas mãos, matando seus vizinhos e parentes, sempre foram um dos aspectos mais chocantes do continente.  

Depois, nosso herói Jack se envolve numa emboscada com um dos comandantes do Exército rebelde, Iké Dubaku. Boa escolha: por algum motivo, nomes de gente má na África precisam ter muitas letras “u” e “k”: Mugabe, Mobutu, Bokassa, Sekou Touré... Jack mata o irmão de Dubaku e passa a ser perseguido por ele.

Conversa vai, conversa vem, Jack enfrenta um campo minado, mais crianças-soldado e um governo em Washington que está mais preocupado em proteger seus interesses do que em ajudar os pobres africanos. No final, deixa o país enquanto a população desprotegida fica para trás. Como em Ruanda, em 1994.

Uma desgraça atrás da outra, como se vê. Mas fazer o quê? Não adianta reclamar que a África está sendo injustiçada ou tem a imagem distorcida. Digamos que o continente deu motivos para ser caracterizado com uma série de clichês. Nos anos 90 principalmente, Jack Bauer teria se divertido em algumas das maiores selvagerias que já se praticou no continente.

Uma coisa que pode se falar em defesa da África é o de que os produtores de “24 horas” estão pelo menos uma década atrasados. A África de hoje não é mais a de dez anos atrás. As guerras diminuíram, o fenômeno das crianças-soldado foi controlado e os golpes de Estado são mais raros. Não virou a Suíça, mas não é mais o inferno completo.

Mas Hollywood e seus assemelhados não trabalham muito com sutilezas. O que importa é uma história de fácil sugestão. Dizem que as de Jack Bauer até que são de uma inteligência acima da média.

Mas isso são meus amigos viciados falando...

Escrito por Fábio Zanini às 22h40

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Qual o emprego mais difícil do mundo?

Já fiz essa pergunta aqui, e o título indiscutivelmente cabia a Tendai Biti, ministro da Fazenda do Zimbábue, encarregado de administrar uma hiperinflação tão alta que as autoridades do país desistiram de calcular. O último número disponível era uns 2 milhões por cento ao ano.

 

Hoje pintou um concorrente de peso. Seu nome é Anwa Dramat, que acaba de ser nomeado pelo presidente Jacob Zuma para o cargo de Diretor de Investigação de Crimes Prioritários, um nome pomposo para o que seria a Polícia Federal deles.

 

São dois os pepinos que aguardam Dramat. Primeiro, a África do Sul tem alguns dos índices mais elevados de homicídios do mundo. Em algumas partes de Johannesburgo, são nada menos que 100 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, dez vezes mais do que na cidade de São Paulo.

 

No país todo, o índice é de 35 por 100 mil. No Brasil, 26.

 

Ou seja, estamos falando de um país mais violento que um dos países mais violentos do mundo (o nosso).

 

Mas há algo pior para Mr. Dramat. Ele terá que recuperar a credibilidade da unidade de elite da polícia após o desmonte que foi patrocinado por aliados do novo presidente Zuma. O departamento que ele dirige é o sucessor dos Scorpions, uma polícia espelhada no FBI norte-americano.

 

Desde 2001, os Scorpions começaram a meter o bedelho onde não eram chamados.  Acharam de investigar o próprio Zuma, por sua participação em um escândalo internacional de venda de armas.

 

A vingança dos zumistas foi pesada -ajudada, é verdade, pela excessiva politização da investigação: um cerco gradual aos Scorpions, que acabou com sua extinção no ano passado, muito embora fosse uma das instituições mais populares do país.

 

O recado não poderia ser mais claro: no presidente e em seus aliados, não importa a seriedade dos indícios de crime do colarinho branco, ninguém toca.

 

Dramat é uma figura pouco conhecida na África do Sul. Sabe-se que era vice-diretor de polícia da província (equivalente a Estado) de Cabo Ocidental e que tem pedigree antiapartheid: foi preso em Robben Island, a ilha-prisão que encarcerou Nelson Mandela.

 

Aparentemente, tem experiência de desbaratar gangues na periferia da Cidade do Cabo, mas sabe pouco sobre o intricado mundo dos crimes financeiros.

 

A inexperiência talvez seja um bônus, por colocar na praça alguém sem ligações com a guerra política que motivou as investigações policiais nos últimos anos. Mas pode ser também um risco: trazer para a berlinda alguém que será pouco mais do que um fantoche de Zuma.

 

E aí, se isso acontecer, a credibilidade da polícia federal sul-africana vai definitivamente para o brejo.

 

Com perdão do trocadilho, drama não vai faltar para o novo diretor de polícia.

Escrito por Fábio Zanini às 20h16

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Por que o Malaui é importante

Cada pequena história de democracia na África conta, mesmo que num país sem importância estratégica nenhuma, como é o caso do Malaui.

Explico.

O país vai às urnas amanhã para eleger seu novo presidente e seu novo Parlamento, para um mandato de cinco anos. A eleição está emocionante: as pesquisas de opinião indicam um empate técnico entre o presidente Bingu Wa Mutharika e o opositor John Tembo (há cinco candidatos menores concorrendo).

Só isso já seria motivo de celebração. Um presidente que disputa a reeleição, passa um calor e pode perder para seu opositor. Algo que ainda é muito pouco comum na África.

Verdade que nos últimos anos transferências democráticas de um partido para outro, base de qualquer regime constitucional minimamente sério, têm se tornado mais freqüentes. Aconteceu em Gana e Serra Leoa, para dar dois exemplos.

Mas ainda são uma triste exceção. Na África, há três padrões:

a-) o ditador que simplesmente não tolera oposição e quando muito encena eleições que são uma farsa. Exemplos: Líbia, Chade, Egito.

b-) o presidente que organiza eleições, admite oposição e até um semblante de liberdade para a campanha, mas na última hora patrocina fraudes que transformam todo o processo num simulacro de democracia. Exemplos recentes: Quênia, Nigéria e Zimbábue.

c-) o partido que tolera eleições porque sabe que vencerá de maneira esmagadora, tamanho é seu controle sobre as instituições de Estado. Exemplos: África do Sul, Moçambique, Angola.

Poucos são os casos em que temos competição de verdade. O Malaui é uma promessa nesse sentido, após cinco longos anos de turbulência política.

Há mais sinais animadores no pequeno país de 13 milhões de habitantes, encravado entre a Zâmbia e Moçambique, e com um dos mais belos lagos do continente africano. Um ex-presidente que já serviu por dois mandatos, Bakili Muluzi, tentou na última hora desafiar a Constituição e candidatar-se por uma terceira vez.

A Corte Suprema do país entendeu que isso não é possível, mesmo com Muluzi estando fora do poder já há cinco anos (ou seja, não seriam três mandatos consecutivos). E o ex-presidente aceitou graciosamente a decisão.

A campanha até aqui tem sido extraordinariamente calma. Mas também havia sido calma no Quênia no final de 2007, e uma apuração emocionante, com provável roubo por parte do partido governista, descambou numa onda de caos e limpeza étnica.

Hoje, temos algo como 20 países democráticos na África, de um total de 53. Mas é um avanço tremendo com relação a dez anos atrás, quando eram meia dúzia.

Por isso, se a eleição no Maláui amanhã for transparente, mesmo que ganhe o presidente, mais um país poderá ser incluído na coluna das democracias africanas.

Um país miserável, com PIB per capita de ridículos US$ 800 por ano (10% do brasileiro), exportações baseadas no fumo e milho e que passa despercebido no radar geopolítico mundial.

Mas na África é assim. Cada passo, por menor que seja, conta muito.

Em breve, saberemos o resultado.

Escrito por Fábio Zanini às 21h28

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Zuma e o Dalai Lama

Há um milhão de motivos para desconfiar de Jacob Zuma. O novo presidente da África do Sul, empossado no sábado passado, teve durante anos as contas pessoais paga por um empresário e negociador de armas notoriamente bandido, que cumpre pena por fraude. Cometeu o disparate de menosprezar os riscos de pegar Aids em relações sexuais, isso num país com o maior número de infectados do mundo. Afirmou que se preveniu da doença tomando uma chuveirada após o sexo. É populista economicamente.

A lista é longa, mas há que se dar um crédito de confiança também. Nas duas semanas que passei agora em abril na África do Sul, mesmo os críticos mais severos de Zuma me alertavam para sua capacidade de diálogo, suas qualidades conciliadoras, sua arrogância zero e sua infinita inteligência e sagacidade política.

Alguns de seus primeiros gestos no poder vão nessa direção. Seu gabinete de ministros é inclusivo, a ponto de ele ter nomeado o líder de um partido de defesa dos brancos para vice-ministro da Agricultura. E agora vem a notícia de que ele autorizou uma visita do Dalai Lama ao país.

Alguns devem se lembrar que há apenas dois meses, nos estertores do governo anterior, a África do Sul simplesmente proibiu a visita do líder espiritual tibetano para uma conferência com a participação de prêmios Nobel da Paz. O argumento é o de que o país não queria melindrar a China, com quem o Dalai Lama trava há décadas uma disputa política por autonomia para o Tibete.

Um ato inacreditável de subserviência e de censura pelo governo. Agora, Zuma está dizendo que o Dalai Lama é bem-vindo e que ele pode se expressar livremente em território sul-africano, como tem feito em dezenas de países. Por enquanto, não há resposta do líder espiritual budista sobre o convite.

É só uma miragem ou estamos realmente diante de um novo tempo para a África do Sul?

Terei que abusar do lugar comum e dizer que ainda é cedo para dizer, mas já houve no passado outros sinais encorajadores por parte de Zuma. Ele não tem muita paciência com o ditador do Zimbábue, Robert Mugabe, por exemplo. Seu antecessor Thabo Mbeki insistiu por anos na “diplomacia silenciosa” com o país vizinho, que está em colapso, mas nunca foi bem-sucedido. Zuma, antes de ter virado presidente, criticou publicamente Mugabe. Vamos ver se vai manter a posição agora que precisa ter uma relação de chefe de Estado para chefe de Estado com ele.

Mesmo na questão da Aids, embora todas as bobagens que tenha falado, Zuma só pode ser melhor do que o horroroso Mbeki, que perdeu tempo discutindo se o vírus HIV causa a doença enquanto milhares de pessoas morriam em decorrência da paralisia de seu governo. O ministro da Saúde que ele nomeou é uma pessoa respeitada pelas ONGs atuantes na área.

E também o populismo do presidente pode ter seu lado positivo. “Homem do povo”, vindo de baixo, o novo presidente parece ser mais atento às demandas populares. Seu estilo, muito parecido com o de Lula, é sair às ruas,abraçar pessoas, dançar com apoiadores. Esse contato direto é saudável e evita que o líder fique aprisionado em seu castelo, longe de tudo e de todos.

Zuma continua sendo um ponto de interrogação enorme, mas é preciso esperar antes de sacramentar que sua presidência será um desastre.

Escrito por Fábio Zanini às 08h41

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"Zuma ameaça as instituições"

JOHANESBURGO (ÁFRICA DO SUL) – Agora, a entrevista é com Andrew Feinstein, 45. Ele era um deputado emergente do Congresso Nacional Africano quando sugeriu, em 2001, investigar denúncias de que Jacob Zuma beneficiou-se do escândalo de venda de armas.

 

Escanteado pela legenda, renunciou ao mandato e hoje é um dos maiores críticos da corrupção no partido. É autor do best-seller “After the Party” (depois do partido, ou da festa, pois há duplo sentido).

 

Pé na África - O que podemos esperar de um governo Zuma?

Andrew Feinstein - Zuma é alguém que está preparado para minar as instituições independentes de Estado para resolver suas dificuldades pessoais. Isso é uma tendência iniciada sob [o ex-presidente] Thabo Mbeki, que possivelmente ficará pior. É extraordinário Zuma ter dito que a Corte Constitucional deve ser revista. Imagine Barack Obama, alguns dias antes de sua posse, dizer algo assim...

 

Pé na África - Ainda existem instituições independentes na África do Sul?

Feinstein - Varia muito. Há problemas na polícia, no serviço de inteligência e na promotoria, que tem a função de investigar o governo. O que o CNA faz é colocar um dos seus ali para proteger-se. Mas não significa que tudo esteja contaminado. O Judiciário permanece largamente independente. Mas Zuma, com suas declarações, está sugerindo que o status das cortes corre perigo.

 

Pé na África - O CNA se vê maior que o Estado?

Feinstein - Sem dúvida. Esta é uma organização que vê o partido como a entidade crucial. A dificuldade é que você está pegando o que é uma visão leninista e aplicando-a num país liberal-democrático. Isso cria os problemas que surgem.

 

Pé na África - Há 15 anos as pessoas votam maciçamente no CNA em eleições livres. Isso não é democracia?

Feinstein - Quando votam em você, eles não estão lhe dando a autoridade para usar o Estado de forma errada. O CNA continua tendo apoio por duas razões: seu legado histórico de libertadores e as coisas boas que fez no governo, que existem, em habitação e na criação de uma rede de proteção social.

 

Pé na África - De que maneira Zuma pode ser melhor do que Mbeki?

Feinstein - Ele será visto mais como um homem do povo, em comparação com o distante Mbeki. Mas é uma diferença mais de estilo. Em termos de substância, a maneira como Zuma liderou o CNA foi completamente caótica. Vai depender das pessoas de quem ele se cercar, se pessoas competentes ou simplesmente leais a ele.

Escrito por Fábio Zanini às 22h36

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Duas visões de Zuma

JOHANESBURGO (ÁFRICA DO SUL) – Jacob Zuma foi empossado no sábado como o quarto presidente da África do Sul. A festa, como se previa, foi grande.

 

Começa agora um período de incerteza. Que tipo de presidente Zuma será? Vai se comportar como um rei, fazendo valer a maioria de 65% que seu partido conquistou na eleição? Ou será um conciliador, um pragmático?

 

E as denúncias de corrupção que o cerca? Zuma tentará minar a independência do Judiciário? Só para lembrar, ele foi envolvido em 2001 num escândalo de venda de armas. Um amigo e financiador de suas despesas pessoais (uma espécie de PC Farias dele) foi preso, mas com o novo presidente nada aconteceu. Pelo contrário: há cerca de um mês, as acusações foram retiradas com base em questões técnicas e em falhas da Promotoria.

 

Abaixo apresento duas rápidas entrevistas sobre o futuro presidente, que fiz com um apoiador e um opositor.

 

Começo com um zumista de carteirinha, o secretário-geral do partido de Zuma, o Congresso Nacional Africano, Gwede Mantashe. Ele diz que a vitória esmagadora não fará o partido “arrogante” e que o novo presidente obedecerá qualquer decisão judicial de reiniciar as investigações sobre sua participação num esquema ilegal de venda de armas.

 

Pé na África - O que o CNA fará com o poder que está recebendo?

Gwede Mantashe - Não é uma novidade para nós. O poder não nos faz arrogantes. Nós fazemos o que podemos e o que devemos fazer.

 

Pé na África - Vocês vão mudar a Constituição para consolidar seu poder?

Mantashe - Há dez anos nós temos uma maioria de dois terços e nunca mudamos. Nós não vamos retalhar a Constituição.

 

Pé na África - Há muito receio de que com esse poder todo vocês partam para cima do Judiciário, tendo em vista as acusações feitas por Zuma contra juizes...

Mantashe - Se as pessoas são governadas pelo medo, não há nada que podemos fazer. Se quiséssemos ter mudado qualquer coisa sobre o Judiciário, teríamos feito nos últimos cinco ou dez anos. O presidente Zuma pertence ao CNA. Não é como nos EUA, em que Barack Obama faz o que quer. O CNA é quem decide.

 

 

Pé na África - As acusações contra Zuma foram derrubadas por questões técnicas, mas ele não foi absolvido...

Mantashe - Somos uma organização que respeita a lei. Se você indiciar Zuma e levá-lo a um tribunal, ele irá. Ele apareceu nos tribunais 38 vezes nos últimos oito anos. Ele sempre obedeceu. Quando a Justiça desistiu do caso, nós aceitamos, quando a promotoria recorreu, nós aceitamos, quando a promotoria desistiu, nós aceitamos. Nós somos assim.

 

 

Pé na África - Zuma tem pouco apoio na classe média. Por quê?

Mantashe - Não acho que é uma questão racial, mas ideológica. O problema é que há muitos conservadores que acham que as coisas devem ser feitas de uma maneira particular, que acham que têm o monopólio das ideias.

 

 

Pé na África - Vocês perderam votos e o governo da província de Cabo Ocidental. A oposição está mais forte dessa vez?

Mantashe - Não sei. Acho que não. Basta checar os números da apuração. Que parece não serem tão bons para eles. Sinto muito. Mande minhas condolências. 

Escrito por Fábio Zanini às 22h28

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O "Ninho do Pássaro" africano

SOWETO (ÁFRICA DO SUL) – Falei no post anterior do vovô dos estádios da Copa do Mundo de 2010, o Loftus Versfeld, em Pretoria, que terá tenros 104 anos ao ser usado no ano que vem.

Agora pulo para o outro extremo: o mais moderno e importante palco do mundial, o Soccer City, na entrada do histórico bairro do Soweto, em Johanesburgo.

Teoricamente não é um estádio novo, porque ali já existia um, chamado de FNB Stadium, referência ao antigo patrocinador, o First National Bank. Mas na prática, só o campo foi aproveitado. O resto é todo novo.

Quando ficar pronto, no segundo semestre, o Soccer City será o maior estádio do continente africano, com capacidade para 95 mil espectadores. Tão importante é ele para a Copa que, rompendo uma tradição de revezamento, ali serão disputadas as duas mais importantes partidas do torneio: abertura e final.

Para quem tem dúvidas sobre a capacidade das autoridades sul-africanas de entregar as instalações a tempo, o progresso do Soccer City é um alento.

Há exatamente um ano, fui dar uma olhada nas obras pela primeira vez. Essa é a foto que eu fiz então: apenas uma carcaça.

Há duas semanas, ali estive novamente. A situação é bem diferente. O anel superior está completo e já dá a volta inteira no estádio, em formato de elipse.

E metade desse anel já ganhou as placas cor de cobre que darão ao estádio uma característica toda peculiar.

Garanto que de longe fica ainda mais bonito.

Lembra um pouco o Ninho do Pássaro de Pequim, se você reparar bem, e também o Allianz Arena, de Munique, usado na Copa da Alemanha. Parece que um novo paradigma de arquitetura de estádios está se formando...

Por enquanto, é proibidíssimo entrar no estádio,e minha tentativa de dar uma de joão-sem-braço e entrar sem ser percebido foi prontamente rechaçada pelo pessoal que trabalha a todo vapor no canteiro de obras.

Daqui a alguns meses, o mistério estará desfeito. Aguardemos.

Escrito por Fábio Zanini às 20h51

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O vovô dos estádios da Copa

PRETORIA (ÁFRICA DO SUL) - Simpático com certeza ele é, com sua estrutura quadrangular e arquibancadas íngremes que conferem uma sensação de caldeirão.

Sem falar na fachada de tijolinhos aparentes, sua marca registrada.

Bem-vindos ao Loftus Versfeld, o vovô dos estádios das Copas do Mundo. (O nome é uma homenagem a um antigo dirigente esportivo sul-africano).

Repare que usei o plural: será o mais antigo estádio não apenas a ser usado no mundial de 2010, na África do Sul, como nunca na história do mais importante torneio do futebol mundial um palco tão velho foi usado.

Ao receber o pontapé inicial em junho do ano que vem, ainda para duas seleções indefinidas (quem sabe o Brasil?), o Loftus, orgulho de Pretoria, terá 104 anos de existência. Sim, é isso, ele data de 1906.

O recorde anterior era do Parque dos Príncipes, de Paris, 101 anos de idade ao ser usado na Copa da França, em 1998.

O Loftus é uma instituição romântica, um pouco como o Pacaembu é para os paulistanos.  Até uma meiga flor está desenhada na arquibancada.

Sua idade avançada não ameaçou por um segundo que fosse sua condição de um dos palcos principais da Copa. Mesmo levando em conta que vivemos numa era de estádios high tech para eventos esportivos de grande monta.

Pelo contrário, foi uma sinalização clara da Fifa de que, num país pobre como é a África do Sul, os critérios são mais flexíveis. As estruturas não precisam ser um show de tecnologia. Basta que funcionem.

O Loftus Versfeld tem capacidade para 50 mil pessoas. Quem o utiliza normalmente é a equipe dos Blue Bulls, de rúgbi, mas o futebol também tem guarida ali.

Numa tarde ensolarada de segunda-feira, feriado na África do Sul, o Loftus estava de portas abertas, recebendo famílias que brincavam em sua grama bem cortada. Dei umas voltas e bati fotos sem problema algum.

O vovô dos estádios recebeu uns retoques, mas que por enquanto foram mínimos. Câmeras de segurança foram instaladas, além de novos refletores. Na entrada principal, uma nova calçada de tijolinhos está sendo construída. E foi só.

Ele será um dos quatro estádios a serem usados na Copa das Confederações, uma competição teste que a Fifa organiza agora em junho, para ver como estão as estruturas do país para a Copa. O Brasil participa, e jogará contra ninguém menos que a Itália no velho palco do Loftus Versfeld. Partidaço.

Verdade que o quesito conforto ainda é um pouco preocupante. Os assentos são velhos, de plástico,e longe do padrão que se espera de um torneio da Fifa.

Os corredores e degraus também são dignos de estádios furrecas.

Tudo isso será consertado até a Copa do Mundo, me garantiu Danny Jordaan, presidente do comitê organizador do mundial.

O vovô dos estádios segue em diante, de plástica em plástica, mas orgulhosamente parte da história da África do Sul.

Escrito por Fábio Zanini às 23h26

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Na capital dos diamantes

KIMBERLEY (ÁFRICA DO SUL) – “Um diamante é para sempre”. O slogan é celebrado como um dos mais geniais do século 20, e veio a ser sinônimo da De Beers, o mamute empresarial que nasceu em Kimberley, no centro da África do Sul, no final do século 19.

Esta é uma cidade que respira diamantes, em praças, nomes de shopping Center, avenidas e monumentos.

É a capital mundial indiscutível dos diamantes, muito embora eles há muitos anos não brotem mais de suas minas.

Diamantes são polêmicos. Retirados de minas em condições insalubres, controlados por um cartel (De Beers à frente) que virou símbolo de anticapitalismo, e responsáveis por prolongar guerras horríveis na África. Rivalizam com o petróleo entre os maiores vilões do continente.

Em Kimberley, cidade de 200 mil habitantes e capital da província sul-africana de Northern Cape, eles ainda têm uma aura de romantismo. Turistas enchem a cidade para conhecer o Big Hole (literalmente, o buracão), a maior mina cavada pelo homem do mundo.

Neste lugar, por volta de 1870, as primeiras pedras de diamante foram encontradas (por crianças que brincavam, diz a lenda). Durante quase 50 anos milhares de aventureiros, gângsteres e aproveitadores de todos os tipos correram à cidade, cavando cada vez mais, até que os diamantes fossem rareando e a procura passasse a ser muito perigosa e antieconômica. Em 1914, o Big Hole foi fechado.

Um dos que deixaram sua marca na cidade foi o britânico Cecil Rhodes, que chegou praticamente sem nada e ali virou uma lenda. Fundou a De Beers, agregando terras da África austral para a coroa de seu país (como a Rodésia, atual Zimbábue) e tornou-se o mais conhecido dândi branquelo desbravando o continente selvagem. A ele deve-se grande parte do impulso ao imperialismo europeu na virada dos séculos 19 e 20.

Kimberley tem um lado meio faroeste, terra sem lei, lugar para destemidos. Por onde se anda há memoriais e cemitérios dedicados aos heróis de batalhas do passado por este pedaço da África rico em minerais. Ali morreram ingleses, holandeses, africâners e negros, muitos negros.

Mas sua imagem está indelevelmente ligada aos diamantes e à De Beers, muito embora sua sede hoje esteja em Johanesburgo, a 650 km de distância de lá. Quem viu “Diamante de Sangue”, com Leonardo di Caprio, deve se lembrar da companhia fictícia que controla a oferta de diamantes, que compra sem saber muito a procedência deles e que guarda suas pedras num cofre em Londres, para que o preço não desabe no mercado internacional. Era uma referência claríssima à De Beers.

A desgraça é que diamantes podem ser escondidos facilmente e trocados por armas no mercado internacional. Foram eles os responsáveis pelo prolongamento de guerras em países como Angola e Serra Leoa. Quando a má publicidade começou a prejudicar os negócios, foi em Kimberley que uma conferência internacional foi organizada para criar um processo de certificação de origem dos diamantes -o chamado processo Kimberley.

Há diamantes em um punhado de países africanos, mas em apenas um deles, Botsuana, a riqueza mineral trouxe realmente algum conforto material para a população. Nos demais, na melhor das hipóteses concentrou renda nas mãos da elite. Na pior, trouxe morte e destruição.

Diamantes realmente são para sempre. Pergunte aos que sofreram por eles.

Escrito por Fábio Zanini às 21h56

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PERFIL

Fábio Zanini Fábio Zanini, 33, é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), com mestrado em relações internacionais pela School of Oriental and African Studies (Soas), da Universidade de Londres.

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