Trechos inéditos de Joel Santana em inglês
Há dias eu revirava meu gravador digital, sempre um exemplo de desorganização, atrás de um tesouro precioso. Áudios inéditos dele, Joel Natalino Santana, falando o inglês macarrônico que o lançou ao estrelato.
Ontem, finalmente consegui. Imagine Indiana Jones encontrando a Arca Perdida, ou uma vizinha octogenária da família Lennon revirando seu baú em Liverpool para achar um áudio esquecido pelo garoto John no final dos anos 50. Foi um pouco como me senti.
Apresento-lhes os tapes secretos de Joel. Gravados no final de abril, em Johanesburgo, na sede da CBF local, ao lado do Soccer City, o megaestádio que está sendo construído para a Copa. Ali entrevistei o técnico figuraça dos Bafana Bafana, agindo também como intérprete eventual para um jornalista sul-africano que dividia comigo a ocasião (a tradutora oficial de Joel estava de folga naquele dia).
Mas de vez em quando o treinador achava de se arriscar na língua de Shakespeare. Muito antes de seu inglês rodar o mundo no YouTube, portanto, fui testemunha ocular desse momento histórico. O jornalismo nos dá alguns privilégios.
Após muito fuçar, e com ajuda de minha técnica de som Fabrícia Peixoto, coloco aqui dois novos trechinhos de Joel falando inglês. Muito sacaneado ele foi. Eu prefiro vê-lo como um herói brasileiro, sem medo de ser feliz. Sua performance na Copa das Confederações só aumentou minha admiração.
O primeiro trechinho está aqui. Joel fala das dificuldades de jogar o torneio e de treinar o time.
http://media.folha.uol.com.br/blogs/penaafrica/2009/06/30/joel_santana-editado-1.mp3
O segundo trecho eu juro que permanece para mim um mistério. Ganha uma diretoria do Senado quem entender o que nosso brazuca está querendo dizer.
http://media.folha.uol.com.br/blogs/penaafrica/2009/06/30/joel_santana-editado-2.mp3
E força, Joel!!
Escrito por Fábio Zanini às 11h05
Michael e a África
O vídeo é um clássico dos anos 80.
Michael Jackson aparece de preto e dourado, óculos de sol que cobrem metade de seu rosto infantil e luvas brilhantes. Tina Turner usa o cabelo espanador que virou sua marca registrada. Bruce Springsteen faz a pose rebelde, com jaqueta de couro preta. Bob Dylan, Stevie Wonder, Paul Simon, Diana Ross e mais 40 pessoas se revezam em linha indiana junto aos poucos microfones de estúdio para cantar seus versos, todos caprichando nas caras de sofrimento.
A música e o vídeo são horríveis para o meu gosto (mas muita gente boa gosta, devo admitir).
Não importa. Ontem, quando as redes de TV tiveram de improvisar uma cobertura especial da morte repentina de Michael Jackson, uma ou outra referência a “We are the world” conseguiu achar um espaço entre as toneladas de imagens de “Thriller”, do “moon walk” e das incríveis performances do cantor quando garotinho.
“We are...” é um hino e um marco. Michael escreveu-o em 1985, em parceria com Lionel Richie, como a principal peça da campanha “USA for Africa”, de ajuda às vítimas da fome na Etiópia.
O país vivia os estertores de uma cruel ditadura marxista que se preocupava mais em gastar dinheiro com monumentos stalinistas e em eliminar dissidentes do que encontrar soluções agrícolas capazes de alimentar uma população crescente numa região árida e inadequada para o plantio. Fomes são ocorrências cíclicas na Etiópia, e aquela não foi a primeira nem a última a atingir o país.
Mas a fome da primeira metade dos anos 80 foi a primeira a ser capturada por imagens de TV, primeiro numa histórica reportagem da rede BBC, depois pelo mundo todo. São dessa época as primeiras cenas chocantes de crianças e velhos de corpos esqueléticos, cabeça desproporcional, consumidos por moscas gigantescas.
E veio “We are the world”, uma tentativa de chamar a atenção, que Michael abraçou com gosto. Do outro lado do Atlântico, liderados por Bob Geldof, um roqueiro irlandês de carreira apagada, outros artistas gravaram “Do they Know it´s Christmas?”, com o mesmo intuito. Ambos se encontraram alguns meses depois em dois shows simultâneos, transmitidos via satélite, em Londres e nos EUA, o “Live Aid”.
Foi o big bang. Todo artista que se preze hoje precisa ter uma consciência social. Geldof roda o mundo defendendo a causa da África. Bono Vox é produto direto do que Michael Jackson iniciou com “We are...”.
Talvez por isso sua morte tenha sido tão lamentada na África. Ontem, um apresentador de uma rádio da Nigéria caiu em prantos ao ler a notícia da trágica partida do astro.
Michael visitou o continente algumas vezes na vida, a primeira aos 14 anos, ainda no Jackson Five, para uma apresentação no Senegal. Duas décadas depois, estava de volta, numa viagem de relações públicas.
Alguns podem argumentar que “We are the world” causou mais mal do que bem para os africanos, ao relacionar para sempre o continente às imagens chocantes da fome. A soma levantada pela vendagem dos discos chegou a 55 milhões de dólares, o que fez apenas cócegas na miséria africana (mas os artistas certamente saíram no lucro, com uma garibada na imagem).
Mas há que se reconhecer que o vídeo e a música foram muitos importantes para finalmente levar a África para a agenda internacional. A fome e a pobreza passaram a ser vistos como inaceitáveis, gerando uma série de iniciativas internacionais nos anos seguintes para mitigá-la. O mundo se cobriu de culpa. Um novo conflito global se impôs, não mais entre comunistas e capitalistas, mas entre ricos e pobres.
Artisticamente, “We are the World” pode não ter sido o melhor momento de Michael Jackson. Mas seu impacto na vida de milhões de africanos foi extraordinário.
Escrito por Fábio Zanini às 09h22
A gente é pobre, mas se diverte
A campanha é realmente muito bem sacada.
Um enorme outdoor usa no lugar de papel cédulas de verdade. Loucura? Não se forem as cédulas de dólares zimbabuanos, mais baratas que papel.
A campanha era do jornal “The Zimbabwean”, publicado por zimbabuanos que vivem no exílio e que circula principalmente na Inglaterra e na África do Sul (apesar de ser encontrado em algumas esquinas de Harare também).

“Graças a Mugabe, esse dinheiro é papel de parede”, diz a peça. Ganhou o primeiro prêmio da categoria outdoor do Festival de Cannes, o Oscar da publicidade mundial.
A genialidade da campanha está em dar a medida do absurdo que se tornou a economia do Zimbábue de um jeito bem-humorado, aparentemente exótico, mas totalmente verdadeiro.
Quando estive por lá há pouco mais de um ano, pude constatar como a hiperinflação havia transformado em piada o pobre dólar zimbabuano. Os preços subiam ao ritmo de 165 mil por cento ao ano. As cédulas eram impressas em papel vagabundo, “sem frescuras” como marca d’água. Ninguém seria louco de falsificar aquele dinheiro mesmo.
Pessoas andavam na rua carregando pacotes e pacotes de dinheiro, debaixo do braço, suficientes para comprar não mais do que um pãozinho. Violência? Nenhuma. De novo, quem iria roubar aquilo ali. O dinheiro havia se tornado banal, como um pacote de pão. Sua função essencial, de representar riqueza, havia se perdido.
Cada conta de restaurante necessitava de 70 ou 80 notas de 10 milhões de dólares cada. O dinheiro era tão imprestável que tinha prazo de validade –para depois ser reaproveitado em notas cada vez maiores.
Era o retrato de um país à beira do caos, que só se mantinha mais ou menos funcionando em razão da mão de ferro do seu presidente, o ditador Robert Mugabe.
De lá para cá, a coisa melhorou um pouco, o que não quer dizer muita coisa. Após muita pressão internacional, Mugabe foi obrigado a aceitar um governo de união nacional, e seu eterno rival Morgan Tsvangirai virou primeiro-ministro. O dólar zimbabuano foi aposentado, e as moedas passaram a ser o dólar norte-americano e o rand sul-africano.
O Zimbábue, com uma canetada, decidiu abolir a hiperinflação, mas pagando por isso o sério preço de perder uma parte importante de sua soberania nacional. Não tem poder para fazer política monetária e cambial, por exemplo, que podem absorver choques de oferta e demanda e crises na balança de pagamentos. As crises são muito mais severas e o custo de vida deu um salto, estabilizando-se num patamar bem mais alto.
A bem sacada campanha vencedora em Cannes tem vários méritos, além de ter chamado a atenção da situação do país para a platéia internacional.
Sua irreverência lembra outra campanha, esta espontânea, mas nem por isso menos genial, de zimbabuanos marchando com cartazes em que se lia “Starving Billionaires”, ou bilionários famintos.
Os zimbabuanos são pobres, mas se divertem.
Escrito por Fábio Zanini às 21h30
Dados "chocantes" sobre a África
Duas estatísticas negativas chamaram a atenção sobre a África na semana passada.
A primeira é nada menos do que chocante. Um estudo do Conselho de Pesquisa Médica da África do Sul concluiu que 27% dos homens do país já estupraram uma mulher.
A outra é da FAO, o órgão das Nações Unidas sobre agricultura e alimentação. Diz que 1 bilhão de pessoas no mundo passa fome. Não é exclusiva sobre a África, portanto, mas foram imagens de africanos esqueléticos que rechearam as reportagens de TV sobre o estudo. Quando se fala em fome, se fala em África.
Deixemos de lado a lamentável constatação de que mais uma vez o que gera notícia na África são duas desgraças. Não há muito que fazer quanto a isso.
Chama a atenção em um caso e no outro a beleza dos números arredondados. Veja que coincidência feliz para os pesquisadores e para nós, jornalistas. 1 bilhão que passam fome é um número deliciosamente fácil de ser entendido: melhor ainda, é 1 em casa 6 habitantes do planeta. Muito mais apropriado do que falar em 875 mil, ou 1.135.000, e muito mais fácil de manchetar.
E o caso da África do Sul? 27% é um número interessante também. A BBC arredondou para baixo, dizendo que “1 em cada 4” sul-africanos já estuprou. Outros veículos arredondaram para cima, preferindo a expressão “quase um terço”.
Onde estou querendo chegar? Uma das máximas do jornalismo é que números, se bem torturados, dizem qualquer coisa. De posse de uma mesma planilha de dados, se faz “n” matérias diferentes, algumas indo em direções totalmente opostas.
A FAO e a entidade sul-africana provavelmente são entidades sérias que jamais falsificariam dados. Não duvido que tenham pesquisadores sérios e criteriosos em seus quadros. Mas também desconfio que não resistiram à tentação da manchete fácil.
Desconfie de números redondos. Numa análise superficial, é possível estabelecer fragilidades nas duas pesquisas.
A da fome no mundo é uma aproximação (admitida, aliás, pela própria organização). Outros poderiam dizer que se trata de um chute, mas não chego tão longe. É simplesmente impossível sabermos quantas pessoas passam fome no mundo, porque diferentes indivíduos numa mesma área têm acesso diferenciado à comida. Não basta pegar uma região como Darfur, ou um país como o Zimbábue e colocar sua população toda na coluna dos que passam fome. A FAO, então, trabalhou com uma faixa estatística de probabilidade e resolveu cravar o número de 1 bilhão, por uma incrível “coincidência”.
A pesquisa sul-africana, por outro lado, tem uma limitação óbvia. Foi realizada em apenas duas das nove províncias (Estados) sul-africanos, o Cabo Oriental e Kwa-Zulu Natal. Que são basicamente as duas mais violentas do país. É como fazer uma pesquisa sobre violência no Rio de Janeiro analisando apenas o Complexo do Alemão.
ONGs humanitárias e organizações internacionais prestam serviços inestimáveis na África e em outras partes do mundo subdesenvolvido, mas podem também se tornar parte do problema quando passam a depender desse problema. Tendem a exagerar dados negativos e realçar dados catastrofistas porque precisam justificar sua existência e seu trabalho.
Sergio Vieira de Mello, o grande diplomata brasileiro que trabalhava na ONU (e perdeu a vida no Iraque) costumava se dizer chocado com as brigas que precisava travar com colegas da organização que relutavam em fechar campos de refugiados em países que haviam conquistado um grau de estabilidade. Um campo de refugiados a menos significava a perda de milhares de empregos para ONGs e para a própria ONU.
Ninguém duvida que a fome no mundo e os estupros na África do Sul são dramáticos. A crise econômica mundial certamente atrasou o combate à miséria. Décadas de impunidade e de uma sociedade desajustada, em que prevalece a cultura do machão, levaram a violência contra a mulher sul-africana a níveis astronômicos.
Mas quando aparecer um número chocante, redondinho, bonitinho, é saudável desconfiar.
Escrito por Fábio Zanini às 08h34
Deixem as vuvuzelas em paz
A Copa das Confederações ainda está um tanto morna, apesar da histórica vitória do Egito sobre a Itália por 1 a 0, mas deve entrar para a crônica do futebol mundial por outro motivo: as vuvuzelas.
Eu confesso que não tinha sido alertado para a importância da polêmica (até o providencial aviso do amigo jornalista Otávio Cabral). Fui checar e é isso mesmo. Até Sepp Blatter, o “dono” do futebol mundial entrou na onda. A Copa das Confederações é a copa das vuvuzelas.
O nome impagável (significa algo como “fazedora de barulho” na língua zulu) é nada mais do que as nossas manjadas cornetas de plástico, encontradas em bailes de Carnaval e comemorações futebolísticas. Mais finas, mais longas (cerca de um metro de comprimento) e um pouco mais potentes, talvez. Mas apenas cornetas de plástico.
Na África do Sul, tomam as arquibancadas nos clássicos entre Orlando Pirates e Kaizer Chiefs, o Fla-Flu local. Era mais do que esperado, portanto, que também aparecessem com força total agora.

Mas não para todo mundo. As vuvuzelas causaram discussão nos primeiros dias do torneio. Locutores esportivos e telespectadores reclamaram que o barulho ensurdecedor (definido por alguns como o grunhido monótono de um elefante) atrapalha as transmissões. Jogadores, entre eles Luis Fabiano e Lucio, afirmam que não conseguem conversar em campo com seus companheiros e não ouvem apitos do juiz.
A Fifa, tão criticada pelo conservadorismo e a lerdeza em dar respostas, dessa vez percebeu o problemão que poderia se formar e tratou de sair logo em defesa dos brinquedinhos. Talvez por perceber que a única coisa empolgante da Copa das Confederações estava sob risco.
Blatter dessa vez foi na mosca: “Isso é o futebol africano: barulho, excitação, dança, gritaria e diversão”. Em outras palavras, está dizendo algo como: “não querem a vuvuzela? Então não querem Copa na África”.
Em fóruns na internet, o debate anda acalorado. Mesmo alguns africanos se dizem contra. Um deles diz que a vuvuzela “perturba”. “Música é chamada de barulho organizado, mas vuvuzela é apenas barulho –sem organização”.
Outro, num argumento que me parece mais interessante, diz apenas: “Qual é o sentido de trazer a Copa para a África e tentar dar a ela um caráter europeu?”.
Certíssimo. Deixem a vuvuzela em paz. Parem de responsabilizá-la por passes errados ou chutes tortos.
E no ano que vem, na Copa do Mundo, pode esperar um milhão delas infernizando os ouvidos dos mais sensíveis.
Escrito por Fábio Zanini às 17h25
O Facebook descobre a África
Suaíli é uma língua falada por 110 milhões de pessoas no sul, centro e leste da África, de Moçambique até a Somália, passando por Tanzânia, Uganda, Congo, Ruanda, Burundi, Quênia e ilhas do oceano Índico. É um número maior do que os terráqueos que falam italiano ou alemão, por exemplo.
Suaíli também é uma cultura forte, uma mistura de influências da Península Arábica, do subcontinente indiano, da África negra e dos colonizadores europeus, que primeiro se estabeleceu no arquipélago de Zanzibar, na costa da Tanzânia, para depois tomar quase um terço do continente levada por mercadores e traficantes de escravos.
O suaíli nessa semana galgou mais um degrau para ser respeitado como a língua forte, influente e internacional que é. O Facebook, principal site de relacionamentos do mundo, agora tem uma versão dela.
É motivo de comemoração, sem dúvida, mas também de espanto. Como é possível ter demorado tanto para isso acontecer?
O suaíli é hoje a única língua genuinamente africana em condições de competir com as línguas europeias em termos de influência e presença global. No Quênia e na Tanzânia, é a verdadeira língua nacional, falada por virtualmente toda a população. O inglês dos colonizadores, em contraste, é praticamente inexistente nas camadas mais baixas e nas regiões mais isoladas.
O suaíli tem palavras emprestadas de vários idiomas europeus, mais uma prova de sua incrível capacidade de absorção de diversas influências externas. As palavras “caixa”, “copo” e “vinho” vêm do português, por exemplo, com apenas algumas alterações ortográficas.
Recentemente, o suaíli obteve uma vitória diplomática importante ao ser reconhecido como um dos idiomas oficiais da União Africana, que reúne todos os países do continente, ao lado de inglês, francês, português, espanhol e árabe.
O domínio é tão grande que já traz preocupação. Línguas locais, faladas por determinadas etnias, correm o risco de desaparecer não por causa do inglês e do francês, como ocorre em grande parte da África, mas por causa de uma irmã mais rica africana, o suaíli.
Os idiomas africanos, mesmo os mais fortes, ainda têm uma presença limitada na web. Antes do suaíli, o Facebook tinha apenas uma versão em africâner, a língua dos brancos e mestiços sul-africanos descendentes de holandeses. Fala-se agora em versões para o zulu, a língua mais falada no sul da África, e em hausa, que domina grande parte da Nigéria. (O hausa, aliás, é falado por mais pessoas que o suaíli, mas concentradas em apenas uma região, o que o torna menos influente).
Na internet, a presença das línguas africanas ainda é restrita. Não existe versão do Wikipedia para nenhuma delas, por exemplo**. O Google é mais abrangente, com sites em suaíli, zulu e xhosa (outra língua da África do Sul). Em geral, os idiomas africanos não escapam da realidade global do continente. Têm importância marginal.
Africanos têm uma capacidade incomum de dominar idiomas. Em alguns países, falam quatro: a da etnia, a da sub-região, a língua franca (é aqui que o suaíli se encaixa) e a do colonizador. Em áreas turísticas, acrescente também o inglês, geralmente bem razoável.
O Facebook demorou, mas percebeu que existe um mercado a ser explorado entre africanos que têm orgulho de sua língua e não a trocariam nem pelo inglês. Com o avanço lento mas permanente do acesso à internet na África, pode esperar novas idéias parecidas. A Amazon suaíli é só uma questão de tempo.
**Alguns leitores, como Teixant, de Maputo, apontaram um erro aqui. "A página que mostra as Wikipédias por língua (http://meta.wikimedia.org/wiki/List_of_Wikipedias) lista muitas línguas africanas, a maioria com poucos artigos (menos que línguas asiáticas e obscuros dialectos europeus, mas ao mesmo nível das línguas indígenas das Américas). Curiosamente a língua com mais artigos (números aproximados) é Swahili (11.500 e poucos menos que Afrikaans), seguida por Yoruba (6,300), Malagasy (1,400), Wolof (1,000), Igbo, (600), etc.", disse ele. Obrigado!
Escrito por Fábio Zanini às 21h56
A Copa das Confederações é um fiasco?
Começou a Copa das Confederações, o ensaio geral para a Copa do Mundo de 2010, e as primeiras notícias são de preocupação da Fifa e de grande parte da imprensa mundial com a organização.
Os estádios são precários e estão longe da lotação máxima. Os índices de criminalidade impedem que os torcedores se movimentem livremente pelo país. O trânsito é insano.
Essas são, em linhas gerais, as principais inquietações. Parece que todo mundo aponta o dedo para a África do Sul. Estará a primeira Copa do Mundo em solo africano, que começa em exatamente um ano, fadada inevitavelmente ao fracasso?
Há preocupações legítimas, sem dúvida, mas muito de fatalismo e julgamento apressado. Parece uma obviedade dizer isso, mas a Copa das Confederações serve para isso mesmo: para ser confusa, para dar errado, para dar problema, de modo a que o espetáculo principal, no ano que vem, seja perfeito. O torneio que se iniciou ontem é assumidamente um rascunho do que virá.
Segundo, estamos apenas no segundo dia da competição. Há tempo para melhorar o acesso aos estádios, a estrutura para os treinos e aumentar a lotação das arquibancadas.
É realmente preocupante um jogo com a Espanha, time considerado hoje a sensação do futebol mundial, ter público de apenas 21 mil pessoas (ou seja, público de Campeonato Paulista), mas, de novo, há qualificativos para isso. A Copa das Confederações é um torneio novo, sem tradição, e que nunca foi lá muito empolgante. Do que você se lembra mais, da vitória do Brasil nessa competição em 2005 ou de sua derrota para a França na Copa do Mundo em 2006?
Quase ninguém, com a exceção de um punhado de jornalistas, viaja para assistir à Copa das Confederações. Segundo as estatísticas da Fifa, 95% dos ingressos vendidos são para sul-africanos mesmo. É compreensível que nem todos se empolguem com partidas em que sua seleção nacional não esteja presente, ainda que sejam jogos de Brasil, Espanha ou Itália.
Dito isso, é inegável que os sul-africanos têm que melhorar. Alguns estádios estão recebendo uma nova mão de tinta como grande “reforma” para abrigar partidas do Mundial. O governo está estranhamente tranquilo quanto ao sério problema da criminalidade. Acha que conseguirá criar uma “bolha de segurança” em alguns pontos centrais despejando policiais durante a Copa, como se isso resolvesse o problema. Há gargalos de energia e transporte. Muita coisa ainda para ser resolvida no prazo de um ano.
Mas é bom nós irmos nos acostumando ao fato de que teremos uma Copa do Mundo menos do que perfeita. É uma Copa em país de terceiro mundo, como será a seguinte, no Brasil, em 2014. Há argumentos inclusive para defender que os gastos com a organização e a estrutura sejam mais modestos, mais adequados à realidade do país, em vez dos elefantes brancos que a megalomania da CBF quer impor aqui.
Aguardemos os próximos dias para ver se os problemas de organização da Copa das Confederações se resolvem. Se há algo a ser criticado é a horrorosa seleção de Joel Santana, essa sim perto de um desastre. Quanto ao resto, vamos dar uma chance aos sul-africanos.
Escrito por Fábio Zanini às 16h07
A morte de um dinossauro
Morreu hoje Omar Bongo.
Quem?
Omar Bongo, o presidente do Gabão, o dinossauro entre os dinossauros africanos. Estava no poder desde 1967, veja só. Exatos 42 anos, portanto, fazendo dele o chefe de Estado há mais tempo no poder em todo o planeta (tirando reis e rainhas). Quando Bongo tornou-se presidente, aos 31 anos de idade, o homem ainda não havia chegado à Lua, os Beatles estavam em plena atividade, Pelé não tinha feito seu milésimo gol. Como um Luís 14 do século 20, passou mais tempo de vida no poder do que fora dele.
Bongo era uma excrescência africana, uma relíquia caricatural de um tipo de líder que está rareando no continente. Há quatro anos, outro presidente que subiu ao poder em 1967, Gnassingbe Eyadema, morreu no Togo, outro país pequeno ali pertinho. Ainda há muitos dinossauros em atividade, alguns com mais de duas décadas no poder. Mas eles passaram de regra a exceção.
Bongo presidia um país pequeno, de apenas 1,4 milhão de habitantes, e que seria totalmente desimportante não fosse pelo petróleo. Por causa das jazidas em sua costa, a renda per capita é de quase US$ 7.000, grande para padrões africanos. Mas a expectativa de vida é de ainda 56 anos apenas. O Gabão é um modelo de concentração de renda e da perversidade que isso pode causar.
Desigualdades sociais são males óbvios, mas que trazem efeitos colaterais pouco notados, e igualmente perversos. O Gabão oferece um daqueles exemplos de almanaque. O custo de vida explodiu, respondendo a um aumento do poder aquisitivo da elite conectada ao petróleo, prejudicando a todos. A entrada de dólares estrangeiros depreciou a moeda local, arrasando o setor produtivo e aniquilando as exportações (a isso se chama “doença holandesa”, no jargão financeiro). Alguns bairros de Libreville, a capital do Gabão, hoje se parecem com a Riviera Francesa. Em outros, não há o que comer. É mais fácil comprar queijo brie francês do que um cacho de bananas produzidas localmente.
Bongo não era um ditador daqueles sanguinários. Não prendia nem torturava. Mas também não precisava. Num país tão pequeno, sem classe média nem setor produtivo digno de nome, mantinha-se no poder um pouco por inércia. “Mudar para quê?”, perguntavam-se as elites gabonesas (a maioria ligadas por parentesco).
E era também um pouco excêntrico. Em 2004, nosso presidente Lula encaixou o Gabão numa de suas viagens por ditaduras africanas. Bongo arrumou uma festa e um Rolls Royce prateado para receber o visitante. Ambos desfilaram em carro aberto pelas ruas da capital.

Dias depois, Lula fez uma piada sem graça, referindo-se à longevidade de Bongo. “Agora eu fui a uma viagem ao Gabão aprender como um presidente consegue ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição”, disse.
Bongo era o típico autocrata africano também por outros motivos. Preparou seu filho para sucedê-lo, e o script deve ser seguido (de novo, o paralelo com Luís 14 se justifica). Também era acusado de desviar milhões de dólares do Orçamento gabonês para uma conta bancária na Europa.
E, num toque final de ditadura bananeira, seus assessores tentaram esconder a morte hoje de manhã, embora a notícia já tivesse vazado para a imprensa francesa.
Bongo se foi, e agora um novo “democrata” ganhou o título de chefe de Estado mais duradouro do continente: Muhammar Khadaffi, da Líbia. Parabéns para ele.
Escrito por Fábio Zanini às 15h12
Como compensar pela escravidão?
A notícia estava ontem no site do Senado: “Audiência pública discutirá indenização aos descendentes de escravos”.
Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Casa, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) prometeu realizar um debate sobre a polêmica tese de se indenizar negros e mestiços brasileiros pelo tráfico negreiro de séculos atrás. Um debate costuma ser o primeiro estágio da tramitação de um projeto de lei no Congresso Nacional.
O requerimento para realização do debate já foi aprovado. Ainda não há data marcada para ocorrer, mas deve ser em breve.
A idéia da indenização tem defensores aguerridos. Um deles é o Instituto Todos a Bordo, que participará da audiência pública ao lado de especialistas.
Como funcionaria essa indenização? Haveria uma comissão para decidir quem pode e quem não pode recebê-la. Cristovam diz que ela não precisa necessariamente ser financeira.
Indenizar descendentes de escravos tem todos os ingredientes de uma maluquice. Para começar, quem terá direito? O Brasil tem algo como 60% de pessoas com alguma ascendência negra, ainda que a maioria absoluta seja de mestiços, tendo sua cor original diluída ao longo do tempo por casamentos e miscigenação.
Mesmo entre os que hoje se parecem brancos há muitos com raízes negras em sua árvore genealógica. Se o Gugu Liberato ou o Cid Moreira disserem que têm direito, quem vai dizer que não?
E quanto vão receber? Como se calcula uma indenização dessas? Como chegar a uma fórmula que compense o terrível crime da escravidão, séculos depois? Haveria juros e correção monetária aplicados sobre 350 anos?
Por fim, de onde virão os recursos para indenizar tanta gente? Quantos bilhões serão necessários? As contas do governo vão para as cucuias?
Se seve como consolo, o exotismo da idéia não é produto exclusivamente nacional. O movimento pela indenização das vítimas da escravidão é popular na África, Europa e EUA. Em países como Gana, Serra Leoa e Gâmbia, milhares de norte-americanos visitam todos os anos as regiões de onde saíram seus antepassados.
A maneira de compensar negros e descendentes pelo sofrimento de seus ancestrais é investir em saúde, educação e geração de empregos de maneira direcionada aos mais pobres (e não apenas negros, como defende o povo das cotas).
O reconhecimento moral de um país sofre os males que causou no passado é importante. Pode-se citar o exemplo das indenizações para as vítimas da ditadura como um precedente, mas são coisas completamente diferentes. Nesse caso, diferente da escravidão, é possível individualizar episódios, datas e vítimas. Muitos dos que sofreram estão vivos para receber a pensão.
Há cinco anos, Lula desculpou-se oficialmente pelo tráfico de escravos durante uma visita à Ile de Goree, no Senegal, que funcionava como um entreposto para o embarque de negros para o Brasil. Fez uma coisa caprichada: levou uma trupe de ministros e jornalistas. Gilberto Gil cantou à capela.
Alguns entendem que esse reconhecimento de culpa é o que dá o embasamento jurídico necessário para a indenização. Não poderiam estar mais enganados. O tráfico de escravos é um episódio macabro da história mundial, mas tentar fazer disso uma fonte de renda presente cheira a oportunismo.
Escrito por Fábio Zanini às 08h12
O presidente vai virar santo
Líderes políticos não são candidatos naturais a santos, mesmo aqueles que conseguem ganhar o afeto genuíno de seu povo. A política é um jogo dado a traições, rasteiras e sujeira. Mesmo que o líder seja pessoalmente impoluto e idealista, é obrigado a passar por cima de alguns princípios vez por outra em nome da ética peculiar do exercício do poder. Se não, não governa.
Causa espanto, portanto, a tentativa, aparentemente levada a sério, de transformar um dos mais importantes líderes africanos do século 20 em santo da Igreja Católica. Eu já tinha ouvido qualquer coisa a respeito, mas agora aparentemente há um movimento organizado para fazer do fundador da Tanzânia, Julius Nyerere, um presidente-santo (na foto, é ele com o primeiro-ministro chinês Chou En-lai, nos anos 70).

Como sempre, há um padrinho por trás disso, o presidente de Uganda, Yoweri Museveni. Museveni é um famoso oportunista africano, um líder há 23 anos no poder que mesmo assim projeta uma imagem de democrata. É um dos preferidos da comunidade internacional. E é pertencente a uma igreja protestante, o que só torna mais estranho seu empenho por Nyerere. Provavelmente trate-se de uma jogada política para se manter em evidência.
Julius Nyerere é realmente uma figura muito admirada no continente africano. Nasceu em 1922 e morreu em 1999 um senhor de posses modestas, que deixou o poder graciosamente para seu sucessor eleito. Num continente em que o “Big Man” só deixa o poder à força, num golpe de Estado, e ainda assim dentro de uma Mercedes-Benz a caminho do aeroporto para a Suíça, é um feito.
Nyerere era um professor idealista, que levou a Tanzânia à independência em1962 e governou até 1985. Durante esse período, transformou seu país num posto avançado para dar suporte material a dezenas de movimentos de libertação nacional africanos. Qualquer cidade que se preze na África tem hoje a sua avenida Julius Nyerere. O Congresso Nacional Africano, de Nelson Mandela, deve muito a ele.
E era também um devoto católico, indo à missa todos os dias.
Nyerere sofreu da miopia que estagnou por décadas a Tanzânia, no entanto. Admirador do maoísmo chinês, virou um grande defensor da coletivização da agricultura e de um certo “socialismo africano”. Sua política econômica privilegiava células familiares rurais em detrimento da industrialização urbana do país.
A Tanzânia hoje é um país de renda média na África, porque abandonou essas políticas estatizantes. Mas há que reconhecer que as políticas de Nyerere ofereceram um colchão social mínimo para a população e permitiram uma certa harmonia interna, coisa rara por ali.
E ele também sabia ser duro quando precisasse. Foi por sua iniciativa que a ditadura sanguinária de Idi Amin em Uganda caiu.
Nyerere é lembrado hoje como não apenas o pai de seu país, mas um pouco como o pai da África livre. Não deixa de ser irônico que a tentativa de canonizá-lo o transforme também um símbolo maior do culto à figura do líder que é tão peculiar na África. Nyerere, um sujeito tímido e afável, provavelmente se sentiria constrangido com isso.
A África tem o único “santo” vivo do planeta, um senhor chamado Nelson Mandela. Pode agora ter o primeiro santo presidente da República.
Escrito por Fábio Zanini às 07h35

Fábio Zanini