Vai bem a economia da África?
Saiu um novo relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) sobre as perspectivas econômicas para a África.
O “African Economic Outlook 2009” tem 200 páginas e dezenas de quadros e estatísticas, conforme convém a um relatório feito por gente bacana. Está aqui, em inglês:
http://media.folha.uol.com.br/blogs/penaafrica/2009/07/31/afican_economic_outlook_2009.pdf
O documento dá um quadro sombrio da economia do continente para o ano, o que é uma obviedade, dado o tamanho da crise mundial. Mas oferece também razões para otimismo, e algumas conclusões surpreendentes.
“Infelizmente, o ambiente internacional que a África enfrenta tornou-se decisivamente negativo”, é sua conclusão central. Os dados falam sozinhos: o continente deve crescer 2,8% em 2009, menos da metade do ano passado.
A África tem um mercado interno restrito, e por isso depende muito das exportações, da ajuda internacional e das remessas que seus emigrantes enviam para os parentes em casa. Quando a crise atinge o centro do sistema mundial, essas fontes secam. Some-se a isso o fato de que as principais commodities do continente desabaram. A queda do petróleo, em particular, fez um estrago em países como Angola e Nigéria, bem no momento em que passaram a ser levados a sério como os EUA como fontes energéticas.
“O colapso nos preços do petróleo significa que as finanças públicas desse grupo [exportadores do produto] sofrerão pressão em 2009 e 2010”, afirma o relatório.
E tome desgraça: “O crescimento mais lento agora previsto para a África será acompanhado por balanços fiscais e de contas externas deteriorados”. Vai faltar dinheiro, em suma, tanto de impostos como de investimentos externos.
Como se não bastasse a ameaça de estagnação econômica, o círculo se fecha com o crescimento da inflação. Na economia mundial, é o pior dos mundos. “A maioria dos países africanos está tendo de lidar com taxas de inflação de que chegaram a dois dígitos em 2008”. O remédio para isso, conforme sabemos no Brasil, costuma ser elevação de taxa de juros, o que causa mais recessão.
Sobrou espaço para alguma notícia boa depois disso tudo? Incrível, mas sobrou. A freada é grande, mas a África, apesar de tudo, ainda vai crescer nesse ano. A perspectiva de crescer 2,8% só é vista como tenebrosa porque nos últimos anos o crescimento foi estelar. Em outros tempos, seria comemorada.
“A boa notícia é que o crescimento na África foi de estimados 5,7% em 2008, o quinto ano seguido acima de 5%”, diz o relatório.
Além disso, afirma a OCDE, “nos últimos anos, uma melhor gestão macroeconômica, perdão de dívidas externas, melhor governança e maior integração na economia mundial fizeram a África ser mais resistente a choques econômicos internacionais”.
Anos de trabalho árduo de diversificação econômica, fugindo da órbita tradicional da Europa ou EUA, agora parecem ter sido providenciais. “Comércio mais intenso com potências emergentes como China, Índia e Brasil fazem a África ser menos dependente dos mercados da OCDE. Crescentes relações econômicas sino-africanas, em particular, forjaram fortes laços e reposicionaram a África como um parceiro comercial global”.
A OCDE, é bom que se diga, é geralmente conhecida como o “clube dos ricos”. É uma organização que reúne as principais economias do mundo, e seu relatório traz essa marca. Partes do estudo se dedicam à relação dos países membros com suas ex-colônias na África.
Nesse ponto, é feita uma defesa da assistência internacional como parte de uma política “anticíclica” de desenvolvimento, o que é algo surpreendente, para dizer o mínimo. A assistência internacional (em bom português, doações dos países ricos para países pobres) está em refluxo e é cada vez mais criticada: cria dependência, fomenta a corrupção, sufoca a economia local. É aceita como um instrumento entre muitos, mas até agora eu não havia visto uma defesa enfática como elemento central de desenvolvimento.
“Compromisso dos países doadores de manter e elevar a assistência para o desenvolvimento é essencial para o continente. Não será suficiente aumentar o montante, no entanto. Países doadores devem também melhorar a efetividade de sua ajuda. Agora, mais do que nunca, a assistência deve agir como uma ferramenta anticíclica na África”.
De qualquer forma, prevê o relatório, o apoio nos países ricos para níveis maiores de ajuda está diminuindo. “Déficits fiscais que se expandem e redução no apoio político nos países ricos devem levar a uma revisão para baixo nos níveis de ajuda”.
É altamente provável, conclui a OECD, que as promessas feitas pelo G8 (os oito países mais ricos do mundo) na Escócia, em 2005, de aumentar o volume de doações expressivamente até o ano que vem, sejam descumpridas.
Vamos esquecer o fato de que mais uma vez o mundo rico faz promessa à África, tira fotos e não entrega (Bono Vox, coitado, participou daquele evento...).
A África, se quiser sair do buraco, terá que caminhar com as próprias pernas.
Escrito por Fábio Zanini às 20h46
Seriam os piratas da Somália heróis?
Meu leitor Pedro de Castro, de Lorena (SP), enviou um artigo do jornal inglês “The Independent”, com uma teoria intrigante sobre os piratas da Somália.
Está aqui (em inglês): http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/johann-hari/johann-hari-you-are-being-lied-to-about-pirates-1225817.html
A pirataria na costa somali até pouco tempo atrás era vista como mais um ato localizado de bandidagem inconseqüente num fim de mundo qualquer, mas cresceu e se desenvolveu a ponto de virar um problema internacional sério.

Navios que atravessam o golfo de Áden, vindos da Europa, em direção aos mercados asiáticos (ou vice-versa) precisam passar por ali. Cerca de 20% do tráfego mundial de petróleo utiliza essa rota. Cargueiros com armas, tanques, comida e combustível passaram a sofrer ataques de lanchas com jovens armados até os dentes, que costumam manter tripulações como reféns por semanas e meses.
Desde o ano passado, a situação se agravou a ponto de as marinhas de países europeus e dos EUA passarem a patrulhar com maior freqüência a região. A pirataria parece ter diminuído um pouco, mas está na cara que é um paliativo apenas. Uma solução duradoura nos mares só vai emergir quando se encontrar uma solução duradoura em terra (a Somália é um caos sem governo e sem lei).
O artigo do “Independent” afirma que essa não é toda a história. Os piratas cometem excessos, é certo, mas tem lá suas razões.
“Em 1991, o governo da Somália se desintegrou. Seus nove milhões de habitantes têm enfrentado a fome desde então –e as piores forças do mundo ocidental viram isso como uma grande oportunidade para roubar a oferta de comida do país e desovar nosso lixo nuclear em seus mares”, diz o texto do articulista Johann Hari.
Sua teoria é que a pirataria começou –e em larga medida se mantém- como um movimento de autodefesa das populações ribeirinhas somalis, contra esses dois fatores: o uso das águas costeiras como depósito de lixo nuclear e a pesca sem critério que retira do país uma de suas únicas fontes de riqueza.
“Tão logo o governo somali se foi, navios europeus misteriosos começaram a parecer na costa da Somália, jogando grandes barris no oceano. A população costeira começou a ficar doente. Primeiro, sofreram coceiras estranhas, náusea e deformação fetal. Então, após o tsunami de 2005, centenas de barris vazando apareceram nas praias. Pessoas começaram a sofrer doenças de radiação, e mais de 300 morreram”.
O texto cita uma pesquisa de um site somali mostrando que 70% da população aprovam o uso de pirataria como uma forma de autodefesa.
“Nós queríamos que os famintos somalis esperassem passivamente em suas praias, nadando em nosso lixo tóxico e observando enquanto nós pegamos seu peixe para comer em restaurantes de Londres, Paris ou Roma?”, pergunta o jornal.
O artigo de Hari é um daqueles exemplos de revisionismo que pode até ser fácil de desmontar, mas que faz pensar. Os piratas somalis são os vilões da vez na África, contra quem um dia pode ser montada uma força internacional que tentará a todo custo erradicá-los. Como já foi tentado na própria Somália, aliás.
Eles não são heróis românticos como quer fazer crer o texto. Sequestram, matam e são um atraso muito maior para a economia da região do que a exploração desordenada de países ocidentais. Mas, como tudo na África, nada é preto no branco. As grandes tragédias do continente tradicionalmente têm causas locais e internacionais.
A responsabilidade do mundo exterior na tragédia somali vem sendo propositalmente ignorada. O artigo do “Independent” mostra que todos têm sua culpa no cartório.
Escrito por Fábio Zanini às 08h50
Um email do brasileiro perdido na África
Alguns de vocês devem ter lido a respeito do desaparecimento do brasileiro Gabriel Buchmann no Maláui, no último dia 17. Ele fazia uma trilha pelo monte Mulanje, um dos principais pontos turísticos do pequeno país do sul da África.
Mundo pequeno esse. Eu não conheço Gabriel, mas ele estudou com a mulher de um amigo meu, e ontem recebi um email enviado por ele à sua família em 1º de junho. O título: “This is Africa”, esta é a África, que reproduzo abaixo. Mas antes é preciso entender quem é Gabriel o que está acontecendo (aí está ele, numa foto que tirou na África).
O cara tem 28 anos e, como você pode perceber em seu email, é daqueles interessados na pobreza não apenas de ler o Twitter de algum intelectual de esquerda, como costuma acontecer. Decidiu ir lá e conferir de perto. Antes de se perder no Maláui, já estava viajando por cerca de um ano. Passou por Ásia, Oriente Médio e África. Economista de formação, quis ver situações de extrema pobreza de perto, antes de iniciar um doutorado em Economia da Pobreza, na Universidade da Califórnia. O Maláui é a última parada em seu tour antes da chegada ao Brasil.
Na última quinta-feira, um helicóptero começou a sobrevoar a região atrás de alguma pista. A família está obviamente muito preocupada e quer que o Itamaraty peça às autoridades locais para que não encerrem as buscas na região onde Gabriel se perdeu.
Pelo que pude perceber, Gabriel é escolado em viajar com mochila nas costas. O parque do monte Mulanje é uma atração muito visitada e figurinha fácil nos guias de turismo.

Meu guia "Lonely Planet Africa" o descreve como tendo “acesso fácil, trilhas claras e cabanas bem-mantidas”. O único obstáculo é o “tempo notoriamente imprevisível”, mas isso você encontra em dez em cada dez trilhas montanhosas. O Maláui, além disso, é um dos países mais pacatos da África, e costuma aparecer em destaque em roteiros de agências. Não por acaso, é chamado de “África para iniciantes”. É cedo, portanto, para encerras as buscas, até porque há casos de pessoas que passaram semanas perdidas na região e foram encontradas com vida.
Leia agora seu email, enviado à família desde Uganda, aonde ele chegou após passar pelo Quênia. Um texto cheio de idealismo de mais um brasileiro atraído irresistivelmente pela África.
***
“Caríssimas mamãe, namorada e João, meus grandes parceiros de mochilagem desta fantástica trip, e querida irmãzinha, tô muito roots, andando há uma semana enrolado em cangas coloridas e carregando um cajado e uma espada de aço...e só sei que desde que cheguei na África, não vi NENHUM muzumgo (white man) além de mim... Johnny, boa Rússia pra ti, irmão! Russia Haracho! Russia Kracivaia!
depois de mais de uma semana mergulhado de cabeça no coração da África, encontrei este cyber café aqui em Jinja, interior de Uganda e em frente à foz do rio Nilo...e vos escrevo pra dizer que estou maravilhosamente bem...
meus dias aqui na África estão sendo absolutamente fantásticos ! ! ! ... depois de passar uns dias na casa de um refugiado congolês nos subúrbios pobres de Nairóbi, fui parar nem sei direito como na remota tribo dos massais no kenya, onde passei dias correndo atrás de girafas, zebras e antílopes, com lanças e espadas e vivendo a vida tribal dos caras, dormindo em ocas, etc...e entre outras aventuras pelo kenya, terminei em grande estilo, fazendo um safári de bike com um amigo meu massai num parque nacional lindíssimo...
ah, e hoje no meio de tudo coloquei uma criança na escola...É uma longa estória, mas, resumidamente, depois de passar o dia passeando por um vilarejo aqui de Uganda com um menino que, entre outras coisas me apresentou a sua família paupérrima, e de por acaso visitar uma escola publica e falar com o diretor, acabei que paguei pela matriculas, mensalidades e todas as despesas do menino ate o fim do ano, e me comprometi a, se ele me mandar o boletim dele, continuar pagando pelos próximos anos...
mas o melhor de tudo é que aqui na África to conseguindo por em pratica a viagem que sempre idealizei...hoje ficarei em hostel pela segunda vez desde que pisei no continente, todos os outros dias dormi e comi na casa de locais, gastando uns 2-3 dólares por dia, o que me permitiu a cada dia distribuir meu daily budget entre as pessoas que me hospedaram, alimentaram, etc...to muito feliz com isso, de conseguir estar vivendo grandes aventuras e realizando uma viagem de profunda imersão no continente africano, absolutamente não turística, e de forma totalmente sustentável, transferindo 80% dos meus gastos pra africanos pobres... e aqui com quase nada vc faz uma substancial diferença na vida das pessoas...esse amigo meu congolês, por exemplo, com 12 dólares paguei o aluguel mensal da casa da família dele, esse menino com 40 dólares garanti um ano escolar pra ele numa escola super legal, hoje dei 2 dólares pra uma mulher que me convidou pra conhecer a casa dela e ela se ajoelhou e quase chorou...
podia escrever horas sobre essa minha primeira semana aqui na áfrica, to realmente muito contente por tudo aqui estar superando minhas melhores expectativas...mas to escrevendo mesmo pra dar um sinal de vida, pois essa noite passei fazendo 4 baldeações pra atravessar do kenia pra Uganda durante a madrugada e andei o dia inteiro visitando dezenas de casas de agricultores, missões, escolas, etc., numa vila aleatória aqui no interior de Uganda...
tenho encontrado pessoas incríveis e fascinantes a cada dia que me apresentam a outras e de conexão em conexão vou penetrando aos poucos na alma da África... tenho arranjado contatos incríveis e, semana que vem, depois de prestar minhas homenagens às vitimas do genocídio de Ruanda e de sei-la-o-que-me-espera no Burundi, vou visitar um garimpo de diamantes e os pigmeus nas selvas do congo com o irmão de um amigo, um campo de refugiados na Tanzânia onde mora o tio de outro amigo que fiz aqui, tentar arrumar uma forma afordable de subir o kilimanjaro e então espero minha linda cris chegar em Dar Es Salaam pra mais uma lua-de-mel em grande estilo...
ta bom, um parágrafo sobre os dois melhores amigos que fiz no Kenya...
Alex Alembe. Tava no ultimo ano de engenharia em Uvira, sua cidade no Congo. Certa noite uma milícia invadiu sua casa. Mataram sua mãe e sua irmã mais nova, mas ele conseguiu fugir pela janela. Foi parar num campo de refugiados na Tanzânia, onde ficou por 4 anos, se casou com uma tanzaniana e teve 3 filhos. Se mudou pra um subúrbio de Nairóbi e passou os últimos anos trazendo ouro e diamantes de garimpos no Congo e revendo em outros países da East Africa. Conseguiu construir uma casa confortável, e nela alojar sua família e vários órfãos. Voltando de uma de suas viagens, assaltaram o ônibus onde estava e levaram suas maletas com tudo seu, dinheiro, diamantes e passaporte. Perdeu tudo. Se mudou com toda a família pra um casebre de 12m2. Mesmo assim, continua levando a cabo 3 projetos sociais, dando café da manha pra 20 crianças, amparando viúvas de vitimas de Aids e organizando um futebol todas as tardes. Ta juntando tudo o que pode pra se candidatar pra deputado provincial no congo nas próximas eleições. TIA. This is Africa.
Leonard. Massai cuja mãe me hospedou em sua casa em Iwatso Ogindong. Tava no ultimo ano de administração na universidade de Nairóbi. Depois de 3 anos de seca na terra dos massais, teve que largar a faculdade pra levar o gado que sobrou de sua família pra melhores pastagens. Andou 8 dias por 500 km levando 100 cabeças atravessando cidades, inclusive passando pelo aeroporto de Nairóbi. Luta pra preservação da cultura massai e sonha em casar com uma americana, de preferência gorda. Me batizou com um nome massai, Lemaya. Seu irmão, Brain, tem 20 anos e é respeitado na tribo. Aos 14 matou um leão e assim atingiu a maturidade. Aos 15 se casou com uma menina de 12 e outra de 13, que seus pais escolheram. Me deu sua espada de presente. TIA. This is Africa.
Fui.
Mamãe, desculpa não te ligar ha tanto tempo, farei o máximo pra fazê-lo amanha de Kampala, capital do pais...
Cris, te escrevo em seguida...
beijos,
Gabriel”
Ou ainda se cadastrar no email ajudegb@hotmail.com.
No Twitter, o nome é ajudegabriel.
Escrito por Fábio Zanini às 16h55
A internet rápida chega à África
Algumas notícias têm de ser lidas e relidas, até que finalmente seja possível acreditar que estamos falando realmente do planeta Terra.
Ontem, 23 de julho de 2009, quase duas décadas após o surgimento da internet e uma década desde o advento da banda larga, finalmente a internet de alta velocidade chegou à África oriental (foto do "The New York Times").

Cerimônias deram boas vindas à novidade em cidades do Quênia, Tanzânia, Moçambique e Uganda, os países beneficiados. Até ontem, internet banda larga na África, só por satélite, a um custo exorbitante. Com o cabo submarino ligando os países à África do Sul de um lado e à Inglaterra do outro, uma internet de melhor qualidade sairá por um quinto do preço. O benefício para escolas, universidades, escritórios e todo tipo de negócio é incalculável.
Confesso que até agora não sei direito como reagir a essa novidade. Festejo algo que vai mudar para melhor a vida de milhões, sem dúvida.
Por outro lado, que cazzo! Como pode até hoje uma região tão grande e tão importante ainda viver na pré-história da internet?
Não estamos falando de uma região qualquer. Depois da África do Sul, a região leste é o mais importante centro econômico do continente. O Quênia é um país sofisticado, com uma capital (Nairóbi) que em certas partes lembra o distrito financeiro de Londres. A Tanzânia tem uma das forças de trabalho mais preparadas do Terceiro Mundo. E mesmo assim demorou tempo demais para soltar as amarras da internet à lenha.
Em seis meses viajando pela África no ano passado, percorrendo 13 países, criei uma pequena úlcera e uma plantação de cabelos brancos sentado na frente de um computador, esperando, esperando, esperando... Dez minutos para responder um email, 15 para carregar um blog. Tentei desenvolver a transcendental paciência zen, mas não consegui. Levava livros e jornais para me distrair esperando uma página carregar. Às vezes, tinha que recorrer ao “lan house tour”, circulando por três, quatro, cinco lugares numa mesma manhã, até achar uma internet mais ou menos.
E quando o único servidor de internet mambembe da cidade caía? Era a cidade inteira sem internet. Um apagão cibernético.
É difícil compreender por que a banda larga chegou tão tarde à África. Se extrapolarmos o que a telefonia celular representou para o continente, é de se esperar agora uma pequena revolução econômica e social (quem sabe política?). Os africanos aderiram com gosto ao aparelhinho, que funciona espantosamente bem, é barato e sem burocracia. A portabilidade chegou à África muito antes de ter chegado ao Brasil, por exemplo.
O cabo submarino que estreou ontem tem 17 mil quilômetros, e demorou dois anos para ser instalado. Custou US$ 650 milhões, bancados por uma empresa sul-africana, que agora vai obter seu merecido retorno financeiro.
Ah, na verdade um dos motivos pelos quais a coisa demorou tanto é de um simbolismo perfeito sobre duas Áfricas, uma que olha para a frente, outra amarrada a conflitos do passado.
Os engenheiros tiveram que esperar até a pirataria na costa da Somália dar um tempo...
Escrito por Fábio Zanini às 20h34
Sem paciência na África do Sul
De novo, começaram do nada, sem motivo aparente, violentos protestos de rua na África do Sul. A coisa ontem se espalhou: em Johanesburgo, na província do Cabo Ocidental (oeste) e na de Mpumalanga (leste), policiais dispararam balas de borracha contra manifestantes enfurecidos. Carros foram virados, lojas de propriedade de estrangeiros foram vandalizadas. Mais de cem pessoas acabaram presas.
Até agora ninguém morreu, mas o histórico dos protestos do ano passado é preocupante. Entre maio e junho de 2008, 60 pessoas perderam a vida, a maioria imigrantes ilegais de Zimbábue e Moçambique. Por enquanto, não há um componente xenófobo tão grande na atual onda de violência quando na do ano passado. Os protestos são de sul-africanos pobres que não têm habitação decente e acesso a água, saneamento básico, eletricidade e empregos.
Mas as duas coisas se misturam. Em abril, numa visita ao bairro de Alexandria, em Johanesburgo, onde começaram os protestos do ano passado, pude perceber a hostilidade contra os imigrantes. Com algumas variações, a frase “eles roubam nossos empregos e devem ir embora” estava na boca de jovens mal encarados e impacientes.
A desigualdade social na África do Sul é ainda maior do que a brasileira e aumentou no período após o apartheid, embora os índices sociais de todos tenham melhorado globalmente. O problema é que menos de 10% dos negros (algo como 2 milhões de pessoas) beneficiaram-se das políticas de ação afirmativa do governo e conseguiram subir para a classe média.
Alie-se a isso uma cultura de protesto e contestação formada durante o regime do apartheid, e as explosões de violência no país se tornam frequentes. Bastava um estopim. O assustador é que, nesse caso, nem estopim houve.
Faz apenas três meses que o novo presidente, Jacob Zuma, foi eleito com votação consagradora, com o discurso de dar continuidade ao trabalho de seu partido, o Congresso Nacional Africano, no poder desde 1994.
Agora, justo quando planejava uma série de viagens pelo país, para ouvir os eleitores, depara-se com a onda de protestos. Seu grande trunfo como político é o carisma e a capacidade de se relacionar com o “homem comum”, à diferença de Thabo Mbeki, seu antecessor, de estilo burocrático.
Zuma não teve o benefício da dúvida nem uma lua de mel, como costuma acontecer com presidentes recém-eleitos. Ontem, o clima nas townships, as favelas barra pesada da África do Sul, era de revolta e ousadia dos manifestantes. O governo, no momento, está desorientado sobre como reagir.
Não custa lembrar que estamos falando do país que sediará a Copa do Mundo em 11 meses. A África do Sul é perigosa, e não há bolha de segurança, formada por não sei quantos mil policiais, que esconda esse fato.
Zuma tem margem de manobra estreitíssima. Os sul-africanos têm pressa e perderam a paciência.
Escrito por Fábio Zanini às 19h37
Os gays e a Aids na África
Um estudo da Universidade de Oxford, no Reino Unido, constata com números algo que já se supunha empiricamente. Homens gays africanos são um dos principais grupos de risco da Aids no continente.
Falar em grupo de risco para a Aids hoje é algo meio fora de moda. Há uma opinião generalizada na medicina de que muito mais determinante para contrair a doença é o comportamento, a educação e o acesso a métodos eficazes de prevenção, independentemente de a pessoa ser gay, heterossexual, homem, mulher, negro, branco ou onde viva. Esta é uma regra geral, mas não esconde o fato de que alguns grupos são, sim, mais vulneráveis em alguns lugares.
Os gays africanos, diz o estudo, publicado na revista de medicina Lancet, têm taxas de incidência da Aids dez vezes maiores do que heterossexuais. É fácil entender por quê. O nome do problema é estigma.
Já falei algumas vezes aqui que a África não teve ainda uma revolução sexual digna do nome. Não houve anos 60, Woodstock, pornochanchadas, liberação feminina e a revolução gay dos anos 80. O homossexualismo é visto como uma aberração em praticamente todos os países, e crime em vários deles. De vez em quando surge um imbecil como o presidente da Gâmbia, que promete decapitar os gays que cruzarem seu caminho.
Gays são uma comunidade fechada, envergonhada, amedrontada e desassistida na África. Com exceção de alguns oásis na África do Sul (a Cidade do Cabo, por exemplo), precisam ficar no armário por uma questão literalmente de sobrevivência. Mantêm casamentos de fachada e acabam contaminando mulheres, namoradas e amantes. O crescimento da Aids no sexo feminino é outro componente explosivo da situação na África, aliás.
Diz o estudo que a alta prevalência do vírus HIV entre os gays na África subsaariana é conseqüência da “falta de disposição cultural, religiosa e política de aceitá-los como membros iguais da sociedade”.
Entrevistado pela rede BBC, o pesquisador Adrian Smith, coordenador do estudo, vai direto ao ponto. “Há um profundo estigma e hostilidade em todos os níveis da sociedade com referência a comportamentos homossexuais entre homens”. Ele completa dizendo que “isso tem como efeito o fato de que este grupo se torna muito difícil de alcançar”.
Esse é o nó da questão. Ter Aids já é ruim o suficiente na África, que demorou demais para acordar para a gravidade do problema. Não nos esqueçamos que até bem pouco tempo atrás o governo sul-africano questionava a relação entre HIV e Aids, achava que a epidemia era exagerada pelas companhias farmacêuticas multinacionais e receitava beterraba e suco de limão como cura.
Felizmente, essa fase foi superada, e homens, mulheres e crianças com Aids hoje recebem algum tipo de tratamento sério em quase todos os países africanos. Mas não há uma estratégia montada para os gays, simplesmente porque eles não são aceitos como seres humanos com igualdade de direitos. O homem tem de ser viril, se possível ter mais de uma mulher e uma infinidade de filhos. Homens solteiros com 40 anos e sem filhos são vistos com desconfiança.
É sempre bom lembrar que dois terços dos 33 milhões de pessoas com Aids no mundo, segundo estimativas da ONU, estão no continente africano. Em alguns países, nada menos do que 20% da população têm o vírus.
Em algum momento, da mesma forma como diminuiu o preconceito contra contaminados pela Aids em geral, deve diminuir também com os gays. Não sabemos quando isso acontecerá, e tudo indica que será um longo e demorado caminho.
Escrito por Fábio Zanini às 12h14
Na África, a nova rota mundial do tráfico
A África tem oásis de calma e prosperidade, mas suas extremidades são de lascar. No leste temos a Somália, que dispensa comentários. O norte é todo tomado pelas ditaduras árabes. Mesmo o sul, relativamente mais próspero, tem altíssimos índices de violência e Aids. E o oeste é provavelmente a região mais pobre do planeta Terra.
Lá ficam cinco dos dez países menos desenvolvidos do mundo, segundo o ranking anual feito pela Organização das Nações Unidas: Serra Leoa, Libéria, Níger, Burkina Fasso e Guiné-Bissau. São Estados frágeis, dados a golpes e guerras civis. De vez em quando um presidente morre metralhado. Não podem se dar ao luxo de ter polícias de fronteira ou alfândegas. Por isso, entraram firme na rota do tráfico internacional.
O fenômeno é relativamente recente, de dois anos para cá, e se há uma surpresa é o fato de ter demorado tanto para acontecer. É um ambiente perfeito para malfeitores de todos os tipos: Estados sem estrutura de fiscalização, mas periféricos e sem uma tragédia comparável à do genocídio de Ruanda, por exemplo. Ou seja, não despertam atenção da comunidade internacional a ponto de darem origem a uma intervenção humanitária (ou não-humanitária) de países ricos. Largados, são presas fáceis.
Na semana passada, a agência da ONU especializada em drogas e crime (UNODC) publicou um relatório completo dando o diagnóstico da situação. O documento tem nome grandioso: “Tráfico transnacional e o império da lei no oeste da África: uma avaliação de risco”.
Você pode ler no link abaixo (em inglês; o arquivo é pesado e meio chatinho de abrir e manusear).
http://viewer.zmags.com/publication/d86db66e#/d86db66e/1
A principal conclusão é que o tráfico de cocaína atingiu um pico no ano passado e, apesar de ter desacelerado um pouco em 2009, permanece sendo uma grande ameaça à estabilidade da região. Uma conjunção de fatores levou traficantes latino-americanos (principalmente de Colômbia, Venezuela e México) a usar a região oeste da África como condutor para cocaína destinada à Europa. Rotas alternativas, pela América do Norte, estão cada vez mais controladas. A opção geográfica óbvia é por países como Nigéria, Cabo Verde e principalmente Guiné-Bissau.
O caso de Guiné-Bissau é nada menos do que dramático. Está virando um narco-Estado, corrompido pelo poder dos traficantes. Para uma economia que vive à base da castanha de caju exportada para a China, o impacto econômico do desembarque de toneladas de cocaína pode ser imaginado. A classe política e militar começa a ser corrompida pelo poder do dinheiro. Suspeita-se que traficantes tenham relação com o assassinato recente do presidente e do chefe das Forças Armadas do país.
As drogas não são toda a história da região oeste da África. Há ainda quadrilhas especializadas no desvio de petróleo da Nigéria; 80% do mercado de cigarros é ilícito; metade dos remédios que circulam pela região é falsificada; até o lixo eletrônico (computadores jogados fora) virou um problema.
Tardiamente, a comunidade internacional percebeu a extensão do problema. Países europeus, sobretudo os ibéricos (Portugal e Espanha), estão muito preocupados com a entrada de drogas em suas fronteiras e despejam ajuda financeira (como se resolvesse). A Polícia Federal do Brasil agora tem um programa de treinamento da sua contraparte em Guiné-Bissau.
Estados que não conseguem manter em funcionamento suas instituições mais básicas (polícia, Judiciário, Forças Armadas) são rotineiramente classificados de “fracassados”. O termo é polêmico no mundinho dos estudos de relações internacionais. Mas no oeste da África, é difícil discordar do rótulo.
Escrito por Fábio Zanini às 18h57
O julgamento de um senhor da guerra
Demorou, mas o dia de Charles Taylor, o ex-presidente da Libéria, perante um tribunal, chegou ontem.
Lá estava ele, a mesma presença num terno fino, os mesmos óculos escuros de grife que o fizeram famoso (foto da BBC).

Ele é uma figura elegante, ainda mais surpreendente por ter começado sua, digamos, carreira como um warlord, um senhor da guerra, no meio do mato.
Taylor está preso em Haia, na Holanda. É julgado por uma corte especial instituída pela ONU e pelo governo de Serra Leoa para punir os principais líderes da guerra civil que durou uma década e acabou em 2002. Esta é uma guerra famosa por tristes motivos. Foi ela a popularizar o uso de crianças soldados, roubadas de suas famílias e submetidas a um processo de lavagem cerebral. Sua marca registrada era a mutilação de braços e pernas de civis.
Grande parte foi financiada por diamantes, abundantes em Serra Leoa. A própria indústria do diamante teve de mudar suas regras de controle de origem após o choque provocado pelo conflito.
Numa das pontas do tráfico estava Charles Taylor, então presidente da vizinha Libéria. Ele era o financiador do principal grupo rebelde, a Frente Unida Revolucionária, comprando seus diamantes e vendendo-lhes armamento. Ajudou a perpetuar o conflito e acabou incluído pelo tribunal como um dos seus principais responsáveis. Após ser forçado a deixar o poder, exilou-se na Nigéria e de lá foi transferido para a corte, em 2006. Seu processo começou em 2007 e só ontem ele começou a ser interrogado. A justiça internacional é lenta.
Taylor é definido por quem o conhece como um “showman”. Carismático e de inteligência privilegiada, faz parte da elite de liberianos descendentes de escravos norte-americanos que para lá migraram no século 19. Casou-se pelo menos três vezes, tem um número de filhos incerto e não sabido e gosta de usar a retórica dos pastores evangélicos. Quando se viu obrigado a deixar o cargo de presidente, após muita pressão internacional, disse que aceitava ser o “cordeiro sacrificado”, uma imagem bíblica. Outra que ele gosta de usar é a de ninguém menos que Jesus Cristo. “Ele também foi chamado de assassino em seu tempo”, afirma.
Sua vida política foi bem diferente, obviamente. De guerrilheiro nos anos 90, chegou ao poder pela força bruta de um exército particular. Em 1997, aceitou organizar eleições para legitimar seu poder, como manda o figurino dos golpes de Estado africanos. Venceu confortavelmente, pela força da intimidação. Seus apoiadores tinham um slogan informal: “Ele matou meu pai, matou minha mãe, mas eu votarei nele”.
De certa forma, Taylor acabou sendo uma bênção. A justiça internacional precisa de réus-celebridade, para ser notada e receber apoio político. Taylor certamente é um deles. Sua presença no banco dos réus ajuda a corte para Serra Leoa a ser percebida, ainda mais porque o principal líder rebelde de Serra Leoa, de quem vinham as ordens para cortar os braços inclusive de crianças, Foday Sankoh, morreu na prisão, antes do julgamento.
Em suas memórias, Carla Del Ponte, a ex-procuradora-chefe de outro tribunal sobre crimes de guerra, o da Iugoslávia, narra seu quase desespero quando morre Slobodan Milosevic, o ex-ditador do país, em pleno julgamento. Sem uma celebridade, disse ela, ninguém presta atenção no fato de que há justiça sendo feita, apesar de outras dezenas de implicados anônimos estarem sendo julgados.
Para seu crédito, Taylor não está adotando a tática de Milosevic perante os juízes, de obstruir o processo e passar horas questionando sua legalidade e seu suposto caráter político. O ex-presidente da Libéria ontem começou a responder sobre as 11 acusações que pesam sobre si, entre elas de terrorismo e tortura. “É inacreditável que queiram descrever-me dessa forma, e triste que a promotoria, em razão de desinformação, mentiras e rumores, tente me associar a isso”, disse ele, da maneira calma que é sua marca.
Há ainda 249 testemunhas de defesa para serem ouvidas, e o veredicto deve sair apenas no ano que vem. Sua condenação está longe de ser favas contadas. É preciso estabelecer relações materiais de sua atuação como presidente da Libéria com os crimes em Serra Leoa. Apesar de todas as evidências, não será uma tarefa fácil.
E quanto à Libéria? Vai bem, obrigado, apesar de percalços. Está bem mais segura e com uma das melhores presidentes da atual safra africana, Ellen Johnson-Sirleaf, a primeira mulher a liderar um país no continente. Por lá, Taylor é apenas um fantasma de terno Armani e óculos escuros.
Escrito por Fábio Zanini às 08h24
O que fica do discurso de Obama?
Depois do “discurso histórico” de Barack Obama em Gana, no sábado, o que fica?
Histórico, histórico, histórico. A imprensa adora eventos históricos. Ajudam a justificar o espaço dedicado em páginas e colunas. Pelo que entendi, o discurso ao Parlamento de Gana, em Acra, a capital do país do oeste africano, é irmão de outros dois no Egito e na Rússia. A última perna de um tripé “histórico”, digamos assim.
Obama é um craque e fez todos os acenos, gestos e referências apropriados. Falou de Martin Luther King e dos cultuados líderes de libertação nacional africanos do século 20. Contou histórias comoventes de sua família desde a origem humilde no Quênia, para ilustrar alguns de seus pontos. Bradou um “yes you can” (sim, vocês podem), variação de seu celebrado slogan de campanha. Até citou George W. Bush, seu antecessor, que tem cartaz na África por suas políticas anti-Aids. Foi aplaudido 45 vezes em meia hora de fala, uma média impressionante (foto do site AllAfrica.com).

A íntegra está aqui (em inglês):
http://www.whitehouse.gov/the_press_office/Remarks-by-the-President-to-the-Ghanaian-Parliament/
O discurso no geral foi bom. Houve alguns trechos irritantemente paternalistas, como, aliás, é quase a regra quando o Primeiro Mundo baixa no Terceiro. Criticou a corrupção justo no momento em que o capitalismo norte-americano produz um escândalo atrás do outro. “Nenhum empresário vai querer investir num lugar em que o governo fica com 20% -ou em que o chefe da alfândega é corrupto”, disse ele. Poderia estar falando de seu próprio país.
Mas Obama dosou bem dois conceitos antagônicos. O primeiro, de que a culpa pelos problemas da África é do colonialismo predatório. O segundo, de que é dos próprios africanos. A verdade está no meio do caminho.
“É fácil apontar o dedo e culpar os outros pelos problemas. Sim, um mapa colonial que fazia pouco sentido ajudou a fomentar conflito. O Ocidente frequentemente abordou a África como fonte de recursos, em vez de como um parceiro. Mas o Ocidente não é responsável pela destruição da economia do Zimbábue, ou pelas guerras em que crianças são alistadas como combatentes”.
O desenvolvimento, segundo Obama, depende de “boa governança”. “Este é o ingrediente que tem faltado em muitos lugares, por muito tempo. Essa é uma responsabilidade apenas dos africanos”.
Verdade. É preciso dar crédito ao presidente norte-americano por não ter passado a mão na cabeça dos africanos. Como também não comprou a balela tão comum no continente de que a democracia ocidental não funciona ali, por certas razões “africanas”, como quer, por exemplo, o ditador líbio, Muammar Khadaffi.
“Cada nação dá vida à democracia de sua própria maneira, de acordo com suas tradições. Mas a história oferece um veredicto claro. Governos que respeitam a vontade de seu povo, que governam por consenso e não coerção, são mais prósperos, mais estáveis e mais bem-sucedidos do que os que não o fazem”. Ponto para Obama.
Ele estava claramente pisando em ovos em alguns momentos. Ao falar em desenvolvimento econômico, atacou a dependência da ajuda externa, que cria vícios e é nociva no longo prazo, apesar de vital no curto. “O verdadeiro sinal de sucesso não é se nós somos uma fonte perpétua de ajuda para que as pessoas sobreviverem, mas se somos parceiros na construção da capacidade para mudança”. Mas fez apenas a mais vaga das promessas de reduzir barreiras comerciais de seu país a produtos africanos, a melhor chance que eles têm de realmente se tornarem “parceiros”.
Da mesma forma, procurou tranquilizar os africanos sobre o poderio militar norte-americano. Nada de aventuras ao estilo do Iraque, prometeu, o que por um lado é tranquilizador e por outro preocupante. A África vai necessitar de intervenções humanitárias no futuro. Estaria Obama descartando essa opção tão cedo em seu mandato?
Ele repetiu a palavra “genocídio” ao tratar da região de Darfur, no Sudão, e mencionou a guerra na Somália, o país mais caótico do planeta. Prometeu tratar as duas crises como “desafios de segurança globais, que demandam uma resposta global”. Fez uma referência brevíssima a “apoiar esforços de processar criminosos de guerra”.
Falou de petróleo, hoje o real motivo de interesse norte-americano na África, mas, politicamente correto como é, também mencionou o potencial do continente como fonte de energias renováveis como solar e eólica.
Tudo muito correto, equilibrado e ponderado. Um senhor discurso, que faz jus à sua fama de Obama de ter uma retórica que opera milagres.
Mas eu ainda espero por uma visita de verdade à África, não de apenas 24 horas e a apenas um país. Mr. Obama só vai me convencer quando, pelo menos, reabrir a rodada Doha de liberalização comercial e colocar sua assinatura no Tribunal Penal Internacional, esse sim o instrumento para julgar criminosos de guerra.
Até lá, seu belo pronunciamento é apenas um belo pronunciamento.
Escrito por Fábio Zanini às 20h22
24 horas para Obama
Barack Obama acaba de chegar a Gana. Por um momento, alguns órgãos de imprensa deixaram de lado sua suposta conferida no traseiro da brasileira (as imagens da TV mostram que ele não olhou, aliás) para tratar do “momento histórico”, como definiu a rede britânica BBC.
Obama escolheu Gana para uma passadinha rápida de 24 horas na África. Algo como se estivesse ali apenas para cumprir tabela e evitar ser acusado de ter ignorado o continente de nascimento de seu pai no início de seu governo.
Em 24 horas não se faz muita coisa, mas todos os gestos, imagens e visitas obrigatórias desse tipo de viagem devem acontecer. Na chegada, estavam lá os tambores e dançarinas tradicionais. Amanhã ele visita um forte de onde escravos partiam para as Américas.
Os ganenses estão extáticos, como era de esperar, uma vez que dentre 53 países foram eles os escolhidos por Obama. Nem o Quênia de seu pai mereceu a distinção, nem a potência regional continental, a África do Sul. Gana recebeu a deferência merecidamente. É uma democracia modelo, assistindo a duas trocas de poder pacíficas em menos de uma década, coisa rara.
Já a parte que toca a Obama é mais nebulosa, e tem um cheiro inescapável de muito marketing e pouca substância. Porque o presidente norte-americano adotou uma atitude estranhamente blasé em relação ao continente. Quem esperava por liderança e iniciativa com relação à África (caso deste blogueiro) tem grandes motivos para decepção. Chega a dar saudade de George Bush.
É verdade que o presidente norte-americano tenha outras coisas urgentes para se preocupar, da crise financeira ao Irã. Mas está um pouco estranho seu descaso pela rodada Doha, por exemplo, que poderia liberar o comércio agrícola mundial e beneficiar milhões de pequenos produtores africanos.
Ou tome-se o silêncio de Obama sobre o genocídio no Sudão e o caos na Somália. Seu enviado especial à África foi o último a ser anunciado na equipe de política externa, e até agora não disse a que veio. Não há cheiro de que um dia o presidente vá assinar a participação dos EUA no Tribunal Penal Internacional.
É revelador o fato de que Obama chegue à África logo após participar do encontro dos países mais ricos do mundo, na Itália. A grande decisão do encontro foi uma promessa genérica de doar US$ 20 bilhões para a produção alimentar no Terceiro Mundo. Mesmo que seja cumprida, o que é pouco provável, fará cócegas na pobreza. Não adianta doar. É preciso incluir os africanos na economia mundial.
Obama usou muito bem a África em sua escalada meteórica na política americana. Sua visita à avó no Quênia, em 2006, gerou uma onda de simpatia na mídia. Ali estava a face caridosa da superpotência.
Esses dias se foram. No momento, a África, para Obama, se resume a uma visita de 24 horas.
Escrito por Fábio Zanini às 21h39
Quem tem medo de moto-táxi?
Lobby pode ser uma coisa divertida. Circulando pela Câmara dos Deputados aqui em Brasília, sou diariamente abordado por sindicalistas, ongueiros, empresários, prefeitos e associações das mais esdrúxulas (devo ter cara de deputado). Ontem mesmo, uma turma que se dizia do lobby do outdoor (queriam liberar o uso em campanhas eleitorais) circulava com adesivos na lapela do terno, em que um outdoor sorridente pedia apoio.
Nos últimos dias, um lobby muito atuante é o que tenta derrubar um projeto de lei regulamentando os moto-táxis. Ontem, o Senado aprovou o texto, que ainda precisa ser sancionado pelo presidente Lula antes de virar lei.
Os setores empresariais em especial, reunidos na Confederação Nacional do Transporte, espernearam. Alegam que motos são coisas perigosas, e moto-taxistas circulando pelo país, com clientes na garupa, representariam um risco enorme para a segurança pública (desconfio que o real motivo da resistência tem muito mais a ver com a perda de mercado por taxistas, ônibus e minivans, mas deixa pra lá).
Lobby também pode ser uma coisa irracional. Eu simpatizo muito com as motoquinhas, desde que criadas uma série de condições de segurança. A África tem muito a ensinar a esse respeito. Lá, no intervalo de apenas alguns dias, colhi um exemplo bom e outro ruim do uso de motos como táxis.
Ruanda é um país de ladeiras que desafiam o mais atléticos dos pedestres (quanto mais os sedentários). Carros e ônibus sofrem para vencê-las. Por isso, proliferam as motocicletas. No começo, dá um pouco de medo subir num troço daqueles, geralmente uma motinho bem básica, mas que tem uma facilidade incrível de ir pra cima e pra baixo. O país fez a sua lição de casa: as motos são regulamentadas, os capacetes são obrigatórios para o passageiro (meio nojento no começo, depois a sensação passa) e eles chegam ao cúmulo de determinar cores diferentes para regiões diferentes. Motos que atendem ao sul de Kigali, a capital, são verdes; no norte, azuis. A foto abaixo eu tirei no centro da capital de Ruanda.
A viagem é baratinha e, até onde pude perceber, segura, apesar de alguns motoqueiros abusarem da velocidade. Não é a coisa mais confortável do mundo, mas em Ruanda são o meio de transporte mais popular, de longe. Mais de 90% das viagens são feitas na garupa de motocas. A coisa funciona muito bem, obrigado.
Alguns dias depois, cheguei a Uganda, e as motocas eram igualmente onipresentes. Lá, são chamadas de boda-bodas, e, como em Ruanda, são popularíssimas. Campala, a capital, é uma cidade de trânsito complicadíssimo, e na hora do rush, só mesmo a bordo de um moto-táxi é possível chegar a algum lugar.
Mas em Uganda impera o caos. Os capacetes são opcionais, e portanto ninguém usa. Os motoqueiros cometem loucuras ainda maiores do que os de Ruanda. Dirigir na contramão, desviando dos carros que vêm em sentido contrário é o que eles fazem de mais light. De vez em quando minhas pernas chegavam a relar em carros e ônibus, tamanhas eram as “finas” tiradas nas avenidas da cidade. Algumas garupas se transformam em coletivos. Lembro de duas motos que viajavam parelhas, cada uma com uma mulher e duas crianças espremidas, batendo papo animadamente.
O projeto aprovado no Senado coloca algumas normas de segurança. Estima-se que, no Brasil, haja cerca de 2,5 milhões de motoqueiros que agora poderão passar à legalidade. Minhas andanças pela África me deram a convicção de que moto-táxis podem ser uma alternativa interessante de transporte principalmente em locais isolados. Na Amazônia, já são comuns.
Se o Brasil seguir o caminho de Ruanda, e não o de Uganda, os lobistas terão de procurar outros argumentos para derrubar a lei.
Escrito por Fábio Zanini às 08h54
A greve na Copa
Estava tudo correndo bem demais.
Ontem veio a bomba. Os trabalhadores sul-africanos prometem greve a partir de quarta-feira. O caminho está livre, após uma decisão judicial que rejeitou o pedido dos empregadores de considerarem o movimento ilegal (felizmente, ainda há liberdade de associação na África do Sul).
Devem cruzar os braços 70 mil trabalhadores. Querem 13% de aumento, o que não é muito, considerando-se uma inflação de dois dígitos na África do Sul. Prometem parar todos os canteiros de obras do país, incluindo, obviamente, os relacionados à Copa: o futurista trem de alta velocidade ligando Johanesburgo a Pretoria, que já estava atrasadíssimo, agora deve mesmo não sair a tempo do evento. Novos projetos de energia devem ser paralisados (há apagões frequentes no país). E, claro, há os estádios (na foto, as obras em Soccer City, o principal palco da Copa).

O movimento sindical tem dentes afiados na África do Sul. A escola de resistência dos sindicalistas, afinal de contas, foi nada menos que o regime do apartheid. Quem enfrenta os cães e bombas do regime racista não tem medo de parar uma obrinha ou outra.
São sindicalistas espertos também, pois jogam muito bem dos dois lados do balcão: estão formalmente no governo, por meio da Cosatu, a central sindical local, que é parceira histórica do CNA (Congresso Nacional Africano). E ao mesmo tempo fazem manifestações da pesada. De alguma forma, ao contrário da nossa CUT, domesticada com cargos e benesses pelo governo Lula, os sul-africanos não amoleceram.
E tudo está perdido então? Muita hora nessa calma, como diz um amigo meu. Há diversas razões para não entrar em pânico e esperar que seja apenas um soluço passageiro num cronograma que até agora, contrariando todas as expectativas, estava sendo seguido.
A greve pegou os estádios em sua fase final de construção ou reforma. Se tivesse ocorrido dois anos atrás, teria tido um impacto muito mais sério. Mas os estádios todos ficarão prontos até dezembro (ficariam, pelo menos), com tempo de sobra até junho. Talvez haja um atraso de algumas semanas, ou mesmo meses, mas a margem de manobra é ampla.
Segundo, o sindicalismo sul-africano é combativo e “esperto”, mas também é pragmático. Sabe negociar. Não à toa, foi o sindicalista, Cyril Ramaphosa, quem, nos anos 80, teve a função de negociador-chefe com o regime branco para acabar com o apartheid. O patronato acena com 10% de aumento, o que não é distante do que pedem os trabalhadores.
Mais importante, o sucesso da Copa é um projeto nacional sul-africano. É muito fácil a população se virar contra os trabalhadores, se houver risco de uma humilhação para o país. Eles sabem que não podem arriscar perder apoio popular.
Por fim, há o presidente Jacob Zuma, ele mesmo um ex-sindicalista, que deve entrar em campo em breve. Seus poderes de mediação são famosos, e ele é respeitado pela turma que está gritando nas ruas.
Nunca imaginei dizer isso, mas Zuma, dessa vez, é a esperança.
Escrito por Fábio Zanini às 19h44
O inferno da Somália, visto de perto
Para ir a alguns lugares (Iraque, Afeganistão, Faixa de Gaza), um jornalista tem que ser corajoso. Para ir à Somália, só se for maluco.
A revista britânica “The Economist” dessa semana traz uma matéria inacreditável sobre o lugar mais perigoso do mundo. Não feita do Quênia, como costuma ser tudo relativo à Somália, mas in loco.
O jornalista foi à Somália e voltou vivo para contar a história (pena que jamais saberemos seu nome, já que a revista adota uma política de não assinar as reportagens).
Está aqui (em inglês):
http://www.economist.com/world/mideast-africa/displaystory.cfm?story_id=13964251
Na Somália em guerra, um jornalista, ainda mais ocidental, teria dificuldades de durar mais do que 24 horas, mesmo com zilhões de guarda-costas contratados. Desconfio que o maluco do jornalista não faça o tipo inglês branquelo. Talvez seja negro, quem sabe até de ascendência somali. De novo, nunca saberemos sua identidade nem as circunstâncias em que conseguiu esse feito.
Por que é tão perigoso? Porque não existe Estado, lei ou governo. É a anarquia, um território pobre e árido disputado a tapas (tiros, na verdade) por clãs, subclãs, senhores da guerra, mercenários, piratas e adeptos da Al Qaeda de Osama Bin Laden. Estrangeiros são prêmios cobiçados: podem valer um bom resgate.
O texto começa mostrando que uma das regiões visitadas, no sudoeste do país, é uma terra árida, em que mulheres costumam ser comidas por crocodilos quando vão buscar água suja em alguns dos poucos rios.
Depois, próximo a uma cidade de nome Wajid, o repórter teve de dar meia volta em seu trajeto. Um cidadão estava sendo justiçado, com o método mais popular da região: a decapitação.
Quem dá as cartas em grande parte da Somália é a milícia Shabab, ou “Juventude” na língua local. É formada por fundamentalistas islâmicos. Um deles conversou escondido com o repórter: se fosse pego falando com um “infiel”, poderia ser punido.
Uma das poucas agências humanitárias a se aventurarem no país é o Programa Alimentar Mundial, da ONU. A Shabab às vezes autoriza o programa a operar e distribuir ajuda desesperadamente necessária.
Não que adiante muito. Em algumas áreas, 90% das pessoas são desnutridas. E a coisa vai piorar. As chuvas desse ano foram ruins. Refugiados já se acumulam. E não há sinal de fim do conflito armado que está na raiz do drama.
A Somália é uma tragédia que geralmente fica em segundo plano no noticiário internacional, muito porque os repórteres não entram lá.
A menos que sejam malucos, como o herói anônimo da “The Economist”.
Escrito por Fábio Zanini às 20h28
Leitor decifra fala de Joel Santana
Thiago Gomes, de Cingapura (!) ganhou a diretoria de Serviços Aleatórios do Senado Federal como prêmio por sua heroica transcrição do segundo trecho da entrevista de Joel Santana em inglês. Confira abaixo:
"And now, you see, the Brazil have one national team for years, maybe changed one or to players. Italy same, Argentina same, England same, Spain same. Now, as I talked to you before, I can have 2 or 3 players to make it difficult for my equip. Don't the equip stay in front, about the culture, 3 for year. But I need to go to the final".
Parabéns, Thiago! Basta aparecer na mansão não-declarada de José Sarney (ou talvez na de Agaciel Maia) para pegar seu prêmio!
Escrito por Fábio Zanini às 19h57
Lula e os ditadores (de novo)
A semana que passou ofereceu um exemplo primoroso da esquizofrenia da política externa do presidente Lula.
Anteontem, ele condenou de forma exemplar o golpe de Estado em Honduras, que depôs o presidente Manuel Zelaya. Algumas horas mais tarde, embarcou para um dos maiores convescotes de ditadores do ano, em solo africano.
Lula foi o convidado de honra do encontro da União Africana, em Sirte, na Líbia, presidida há 40 anos por Muhammar Khadaffi (ele na foto, da BBC, enquanto Robert Mugabe, de Zimbábue, se afasta).

Confraternizou ali, entre outros, com o ditador do Sudão, Omar al-Bashir, indiciado por crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional, da ONU.
Encontrou-se também com Mugabe, com Hosni Mubarak, do Egito, e com ditadores de Chade, Guiné Equatorial, Tunísia e outros. A cereja do bolo foi a suspensão das sanções contra a Mauritânia, que no ano passado sofreu um golpe de Estado. As sanções eram uma rara mostra de comprometimento da organização com a democracia. Mas acabou.
A África não é mais apenas um clube de ditadores, uma vez que a onda democratizante chegou a parte considerável do continente na última década. Mas ainda há muitos. Lula parece não se importar.
Há alguns meses, já havia se encontrado com alguns deles, os da parte árabe do continente, numa reunião de cúpula no Catar. Agora, revê os amigos mais uma vez. Está ficando íntimo.
Toda política externa requer uma dose de pragmatismo, mas a de Lula com a África é desconfortavelmente exagerada. Nosso presidente tem méritos por ter colocado o continente africano novamente no radar da política externa. Os anos FHC praticamente ignoraram os africanos, o que não faz sentido do ponto de vista histórico e comercial.
O intercâmbio econômico do Brasil com a África cresceu exponencialmente nos últimos anos. Há fábricas e projetos educacionais brasileiros por todo o continente. A preocupação de Lula com o continente é genuína.
Mas o preço começou a ficar caro. Há um cheio de compadrio desagradável com algumas das ditaduras mais cruéis do planeta. Lula deveria recalibrar um pouco sua admiração 100% acrítica pelos dinossauros africanos.
Escrito por Fábio Zanini às 20h02

Fábio Zanini