Pré-sal:o (mau) exemplo da África
O presidente Lula vestiu hoje sua melhor gravata verde e amarela para, coberto de ufanismo, anunciar as novas regras do pré-sal. Sua candidata Dilma Rousseff, que nas horas vagas também é ministra da Casa Civil, envergou um vestido verde da cor da pátria para militar nenhum botar defeito.
Deixemos ao lado as previsões de uma “segunda independência” para o Brasil para falar um pouco dos riscos que a empolgação com o petróleo carrega. Para isso, nada melhor do que o exemplo da África. Melhor seria dizer contraexemplo, na verdade.
O governo parece ter alguma noção do perigo que o petróleo jorrando sem regras representa, visto que acena com a criação de um fundo social para ser usado como uma espécie de “poupança” para as gerações futuras. Mas há sempre o risco de que esse fundo seja desperdiçado em projetos grandiosos de utilidade duvidosa e, pior, ajude a abastecer a já movimentada indústria da propina nacional.
Petróleo é uma bênção, sem dúvida, mas a maldição também pode ser pesada. Vejamos o desempenho dos grandes produtores africanos, com base no índice mais usado para avaliar a situação socioeconômica dos países, o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU.
Angola, hoje o maior produtor africano, ocupa a posição de número 157 na lista de 179 países avaliados. A Nigéria está em 154º lugar. O Sudão, em 146º. São Tomé está no 128° lugar, a Guiné Equatorial em 115º e o Gabão é o “melhorzinho”, na honrosa 107ª posição. (O Brasil ocupa o posto de número 70).
Jorra petróleo nestes lugares, mas a miséria não diminui. E por quê? Uma série de razões. Há as óbvias: uma pequena elite ligada ao governo e ao partido dominante apropria-se de maneira desigual dos recursos e a corrupção floresce.
Mas também há questões que independem de aspectos morais. Uma entrada maciça de petrodólares faz a economia toda se voltar para um único setor, e todos os outros acabam negligenciados. Tudo ótimo quando o petróleo está lá em cima, mas péssimo quando esse produto de preço bastante volátil despenca. A economia, sem previsibilidade, entra em colapso.
Além disso, o dinheiro que chega valoriza demais a moeda local e arrebenta com o setor exportador, que, na falta de um mercado interno robusto, é o que carrega muitas vezes a economia nas costas, especialmente no setor agrícola. Ok, o Brasil tem uma economia bem mais sofisticada que nossos amigos do Gabão, e um mercado interno “n” vezes mais desenvolvido, mas ainda assim somos muito dependentes da exportação.
O que fazer então? Poupar, por maior que seja a tentação de gastar o dinheiro do petróleo imediatamente. É bastante compreensível que políticos de países paupérrimos tenham dificuldades em convencer sua população de que às vezes é melhor depositar o dinheiro num fundo na Suíça do que gastar em casas e estradas. Mas esse é o caminho. Gastar aos poucos, sem que o país seja submetido a um “porre” de petróleo.
A África está cheia de boas promessas de uso responsável do dinheiro do petróleo que rapidinho foram ignoradas. O Chade (número 170 no índice da ONU) descobriu petróleo na década passada e, responsavelmente, pediu ao Banco Mundial que o ajudasse a gerenciar de forma correta seus recursos, economizando para épocas de vacas magras. O acordo durou menos de dois anos. Na primeira oportunidade, o ditador local rasgou o contrato com o Banco Mundial para comprar armas e retomar uma guerra contra rebeldes.
É por isso que, nas minhas andanças na África, ouvi mais de uma vez pessoas amaldiçoando o produto. Certa vez, na Somália, um oficial do governo me revelou o pânico que tinha de que um dia, no inexplorado subsolo do país, o ouro negro fosse achado. “Era só o que faltava”, suspirou. “Se sem petróleo já temos guerra, imagine com petróleo”.
No Brasil, esse risco não há. Mas fica o alerta.
Escrito por Fábio Zanini às 21h45
O rockstar da África
Bob Geldof tem para a África uma importância maior do que a de muitos presidentes. Foi músico medíocre, mas achou um nicho ao lançar campanhas em prol do continente.
Seu grande momento foi o Live Aid, em 1985, um concerto simultâneo na Inglaterra e EUA em prol das vítimas da fome na Etiópia. Dedicou-se depois ao chamado lobby humanitário, enchendo a paciência de presidentes e primeiros-ministros de países ricos para que aumentem o volume de doações ao Terceiro Mundo (na foto, é ele com o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair). E foi um dos primeiros a perceber que nada disso adiantaria se viesse desacompanhado da liberação dos mercados agrícolas dos ricos para os pequenos produtores dos pobres.

Geldof não é muito de dar entrevistas, mas concedeu uma reveladora ao repórter Thiago Ney, na Folha de hoje. Vê a África não apenas como um cipoal de histórias deprimentes, que certamente existem aos montes, mas enxerga adiante. “Há 900 milhões de consumidores na África, portanto grandes oportunidades no continente”, diz ele.
Alguns consideram Geldof um oportunista interessado apenas em autopromoção. Outros acham que ele contribui para vitimizar os africanos, transformá-los em coitados e condená-los eternamente ao atraso.
Eu confesso uma admiração pelo cara. Não é fácil colocar a África na mídia. Ele conseguiu. Abaixo, sua entrevista à Folha.
Geldof rebate críticas a shows beneficentes
Criador do Live Aid, irlandês diz que cobra por palestras: "Não falo de graça"
Em entrevista, o músico fala sobre os objetivos alcançados com os concertos em prol do continente africano
THIAGO NEY
DA REPORTAGEM LOCAL
O irlandês Bob Geldof tornou-se relativamente conhecido no final dos anos 1970, como vocalista da banda The Boomtown Rats (do hit "I Don't Like Mondays"). Mas passou a frequentar reuniões com chefes de Estado a partir de 1985, quando organizou o Live Aid, evento que pretendia chamar a atenção para a fome na África.
Hoje com 57 anos, Geldof é um dos principais ativistas da música pop -foi o idealizador do Live8, em 2005. Nesta semana, ele vem pela primeira vez ao Brasil para participar do Back2Black, evento que se propõe a celebrar a África (leia mais à pág. E5). De Washington (EUA), Geldof concedeu entrevista por telefone à Folha.
FOLHA - Quatro anos depois, como vê os concertos do Live8?
BOB GELDOF - Você realiza esse tipo de evento por alguns motivos políticos. Fiz o Live Aid há 25 anos porque havia uma necessidade daquilo, o povo africano estava morrendo de fome. Mas por causa da Guerra Fria não dava para fazer nada muito incisivo, havia países ligados aos EUA e à União Soviética. Quando a Guerra Fria acabou, pudemos lidar com o problema africano de outra maneira. Falei com [Tony] Blair sobre como a África estava distante do desenvolvimento econômico mundial. Ele tocou no assunto nas reuniões do G8 e a África tornou-se um ponto de discussão para a politica britânica desde então. Depois disso, 37 milhões de crianças foram à escola pela primeira vez. Em 2005, 3 milhões de pessoas começaram a receber tratamento contra a Aids. Cerca de US$ 50 bilhões são destinados à África, dinheiro que tornou-se possível com o Live8 e com o lobby que fizemos no G8.
FOLHA - Algumas pessoas dizem que eventos beneficentes, principalmente em relação à África, não atingem seus objetivos. O que acha?
GELDOF - As criticas são válidas se os concertos não atingem os objetivos. Com o Live8, conseguimos colocar 37 milhões de crianças em escolas. Como criticar isso? Se chegarmos a arrecadar US$ 50 bi para a África em 2010, é algo para ser criticado? Se você falhar, será alvo de críticas, mas vale a pena tentar. Algumas pessoas gostam de escrever, de montar uma peça, eu sou um músico, gosto de fazer e participar desse tipo de coisa.
FOLHA - Bandas e artistas mais novos dificilmente falam sobre política e problemas sociais. É frustrante?
GELDOF - Não tenho problemas quanto a isso. O objetivo de um artista é criar arte. Um artista falha quando não cria boa arte. Se você tem um problema no banheiro e chama um encanador, você quer que ele resolva o problema e não que fique falando sobre os problemas do mundo. Apenas conserte o meu banheiro! É assim com arte. O artista deve criar arte, não importa se é política ou não. Nos anos 60 e 70, Jagger e Lennon gostavam de falar sobre política. É algo de minha geração, minha geração veio do punk, foi uma geração política. Quando chamo artistas jovens para participar de um evento, eles não necessariamente têm noção do que ocorre com o mundo, mas querem participar. E isso é válido.
FOLHA - Os europeus têm plena consciência do que ocorre na África?
GELDOF - No Reino Unido, há essa consciência. Não esqueça de que a África está a apenas 8 ou 9 milhas [cerca de 14 km] da Europa. Outro ponto: há 900 milhões de consumidores na África, portanto grandes oportunidades no continente, e os europeus estão dando conta disso. Até para os problemas energéticos estamos olhando para a África. Os europeus estão mais conscientes até devido aos problemas de imigração.
FOLHA - Quais os principais problemas na África? Em quais países?
GELDOF - Há 53 países na África. Eles são muito diferentes entre si. Alguns precisam de nossa ajuda mais do que outros. A África necessita diversificar e desenvolver sua economia. Não há infraestrutura, não há estradas, os portos estão em más condições. Para produzir algo na África e exportar aquilo, é preciso passar por quatro ou cinco fronteiras, é muito caro e complicado. Os países africanos são politicamente independentes há pouco tempo. Mas a África vem se desenvolvendo economicamente, a uma taxa até maior do que a da maioria dos países em desenvolvimento. Passei 26 anos trabalhando com a África e continuo nessa missão. Kofi Anan, Tony Blair, Bono são meus amigos e trabalham pelo continente. Há conflitos, mas estão diminuindo.
FOLHA - Você é criticado por falar sobre pobreza, mas cobrar muito dinheiro para falar em palestras. O que diz sobre isso?
GELDOF - Se as pessoas querem me pagar, tudo bem, se não querem tudo bem. Às vezes faço por nada, às vezes por uma pequena quantia. Não é um problema. Se eu tiver que ir a uma grande companhia privada na China, por exemplo, para falar sobre África, não vou fazer isso de graça. Essa questão não é um problema para mim.
Escrito por Fábio Zanini às 17h47
A saga de Semenya
Há dias a África do Sul se une em apoio a Caster Semenya, a garota prodígio que assombrou o mundo do atletismo ao ganhar com tempo recorde a prova dos 800 metros no mundial de Berlim.
Garota de ouro? Há sérias desconfianças de que não seja bem assim.
Semenya tem 18 anos e sempre foi considerada uma garota. Competiu em eventos infantis e juvenis como mulher, e não há notícia de qualquer suspeita quanto ao seu gênero. Mas ao chegar à idade adulta, começaram a chamar a atenção seu físico musculoso e seu rosto que, para alguns, é masculino demais (foto do The Guardian).

A princípio pensou-se no uso de substâncias proibidas como responsáveis pela transformação, mas agora surgiu uma hipótese mais bombástica. Semenya seria um homem, e por isso corre mais e melhor do que suas competidoras.
Hoje, a coisa pegou fogo de vez. Um teste de testosterona, o hormônio masculino, revelou que ela tem três vezes o índice considerado normal para uma mulher. Devem pipocar em breve pedidos para que ela devolva suas medalhas e seja proibida de competir em provas femininas.
Adicione-se a isso o que parece ser uma monumental inabilidade do órgão mundial que gerencia o atletismo e a confusão está formada. O processo de investigação sobre Semenya, que deveria ser sigiloso, vazou. A defesa de Semenya, neste meio tempo, virou uma causa nacional.
Ontem ela chegou em casa, carregando sua medalha. Foi saudada por uma multidão no aeroporto internacional de Johanesburgo, depois ovacionada na Church Square, a praça central da capital Pretoria. Hoje, encontrou-se com o ex-presidente Nelson Mandela.
O presidente Jacob Zuma e membros do partido governista, o Congresso Nacional Africano, não perderam tempo para capitalizar na nova heroína nacional. Um dos mais populares jornais sul-africanos, o “Sowetan”, não conseguiu esconder sua empolgação.
“Quando a garota do momento finalmente emergiu do terminal do aeroporto, a multidão empurrou, puxou e lutou contra os esforços da polícia para mantê-la longe de sua heroína”.
Assustada com o assédio, a atleta só conseguiu dizer um “obrigado pelo seu apoio”. A multidão entoou um coro de “Caster, Caster, Caster!”. Não faltaram as inevitáveis vuvuzelas, as estridentes cornetas sul-africanas.
Sua mãe, Dorcas Semenya, ouvida pelo jornal, deu uma daquelas declarações arrasadoras: “Não comento sobre o que dizem professores e cientistas, mas tudo que sei é que dei à luz uma garota em 1991”, afirmou.
Semenya uniu um país ainda fragmentado em linhas raciais, mesmo 15 anos após o fim do apartheid. Recentemente, estourou mais uma onda de violência motivada por outro tipo de divisão, a econômica. Negros pobres das favelas exigindo do governo oportunidades de emprego.
Hoje a África do Sul está na defensiva, protegendo sua garota prodígio e, por tabela, a si própria. Na saga de Semenya, um país inteiro se enxerga injustiçado e ameaçado em sua tentativa de ganhar respeito internacional.
Escrito por Fábio Zanini às 20h08
Eleições em Moçambique
Em pouco mais de dois meses, Moçambique irá às urnas para eleições presidenciais e parlamentares. A ex-colônia portuguesa na beira do oceano Índico é geralmente considerada um modelo de democracia, estabilidade e bom governo na África. As eleições costumam ser livres e sem fraude. Um mundo perfeito, em suma, mas há algo que incomoda na política moçambicana, e que serve também de modelo de algo maior que acontece no continente.
Não há a menos dúvida sobre quem ganhará a eleição. Será a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), que fará uma maioria esmagadora no Congresso e reelegerá com folga, no primeiro turno, o presidente Armando Guebuza. É o partido que assumiu o poder após a independência, em 1975, e não largou mais. Embora tenha abraçado com gosto o capitalismo, fazendo do país um centro de atração de investimentos internacionais, a Frelimo ainda mantém os cacoetes da época em que era financiada pela extinta União Soviética. Seus integrantes se tratam por “camaradas”.
A oposição é representada pela Renamo (Resistência Nacional Moçambicana) e seu eterno líder, Alfonso Dhlakama, um dinossauro com alta rejeição popular que se recusa a largar o comando do partido enquanto não virar presidente, o que jamais acontecerá. A Renamo é débil, com apenas um terço das cadeiras no parlamento bipartidário, e para sempre associada ao regime do apartheid sul-africano, que a financiou na guerra civil de duas décadas contra a Frelimo.
Há uma novidade dessa vez no campo oposicionista, que é a candidatura do prefeito da importante cidade de Beira, Daviz Simano, um dissidente da Renamo. Ele deve atrair votos do eleitorado cansado da polarização entre os dois principais partidos, mas é uma espécie de Marina Silva moçambicano. Sua chegada é bem-vinda como um sopro de renovação, mas sua chance de ganhar a eleição é zero.
Até a queda do Muro de Berlim, vários países africanos tinham regime de partido único. Nos anos 90, a onda neoliberal teve também reflexos na política, e, sob pressão intensa dos países ricos, os africanos mudaram suas Constituições para autorizar o multipartidarismo. Mas na prática, pouca coisa mudou. O domínio sobre a máquina pública das legendas que estão encasteladas no poder é tão intenso, e seu controle sobre os meios de comunicação tão pesado, que raríssimas são as transferências de poder de um partido para outro, que é da essência de qualquer democracia. As fraudes no modelo clássico, em que urnas desaparecem e cédulas em branco são preenchidas em fundos de quintal, tornam-se desnecessárias. Por inércia, o governo sempre ganha.
Ouso dizer que a Frelimo estará no poder daqui a 20 anos, assim como o MPLA estará em Angola. Mas em Moçambique, pelo menos há eleições presidenciais. Em Angola, nem isso. Pela enésima vez, a eleição que deveria ocorrer agora foi adiada. A última foi em 1992.
Escrito por Fábio Zanini às 08h23
Uma supermodelo na eleição do Gabão
Celebridades que se engajam em causas políticas são comuns desde a Guerra do Vietnã, chegando até a campanha de Barack Obama, mas essa sempre foi uma tradição muito mais comum em países ricos. Na África, ainda é muito raro.
Uma novidade da eleição presidencial do Gabão, marcada para 30 de agosto, é que uma rara celebridade africana resolveu dar seus pitacos. Gloria Mika é uma modelo gabonesa que mora em Paris e, segundo dizem, tem presença respeitável no mundo da moda internacional. Já foi o rosto da empresa de cosméticos L’Oreal, o que não é pouca coisa, segundo quem entende do ramo (não é meu caso).

Gloria juntou-se a uma ONG recém-criada com o propósito único de exigir que o pequeno país do oeste africano realize uma eleição limpa. Coisa que não deve acontecer, por uma série de motivos.
O país não tem tradição de eleições competitivas e multipartidárias. Esta, na realidade, é a primeira em que há a perspectiva de alguma concorrência genuína, já que por longuíssimos 42 anos o país foi governador por um mesmo homem, Omar Bongo.
Bongo morreu em junho deste ano na condição de maior dinossauro do planeta Terra. Ninguém, excluindo reis e rainhas, governava um país havia tanto tempo. Quando ele tomou posse como presidente, o homem ainda não havia chegado à lua.
Rei morto, rei posto, pelo menos isso é o que a nomenklatura política gabonesa espera. E que maneira melhor para fazer isso do que instalar o filho dele na presidência? Afinal, foi exatamente isso que ocorreu num país ali perto, o Togo, quando o dinossauro local bateu as botas, em 2005.
Pois, seguindo fielmente o script, Ali Ben Bongo, de olhar um tanto sinistro, é candidato a presidente e superfavorito. Junto com ele concorrem nada menos do que 22 outros candidatos, o que é compreensível. O país está sedento de liberdade política.
Acontece que a Justiça Eleitoral é frágil, as listas de eleitores não têm credibilidade e a fiscalização é falha. Pior de tudo, a eleição é em apenas um turno, e nesse caso, quem tiver a melhor máquina partidária leva vantagem, já que o velho axioma da política diz que no primeiro turno o eleitor escolhe, no segundo rejeita. Se houvesse segundo turno, provavelmente todos se uniriam contra Bongo, que representa a continuidade de um regime caquético no poder há quase meio século.
O Gabão nadava em petróleo até pouco tempo atrás, mas é um país pobre e caríssimo. É mais fácil comprar queijo brie importado na capital do que um cacho de bananas produzido por camponeses locais.
A modelo Gloria Mika é o rosto mais conhecido da campanha “Guardian Angels of Gabon” (Anjos da Guarda do Gabão), cujo site é esse aqui:
http://www.lesangesgardiensdugabon.com/?page_id=11
Os organizadores, que envolvem entidades da sociedade civil gabonesa (o que restou dela, pelo menos), pedem coisas básicas: revisão da lista eleitoral, mudança na data do pleito, melhor fiscalização.
“Quarenta e dois anos com o mesmo presidente podem levar as pessoas a se perguntarem o que pode ser feito”, disse a modelo numa entrevista à BBC.
Mika possivelmente está aproveitando a campanha para promover sua imagem. A ONG tem um cheiro muito forte de algo esboçado por opositores abastados do governo do Gabão, confortavelmente exilados na Europa (a modelo não pretende retornar ao Gabão para votar; vai votar na embaixada em Paris).
Tudo isso é verdade, mas a iniciativa deve ser louvada mesmo assim. É muito raro na África nascer uma organização questionando a transparência de um processo eleitoral. Há muito medo de retaliação política.
Mika, com seu rostinho bonito, ajuda a chamar a atenção para um problema num país obscuro de um canto da África, mesmo que o filho do ex-ditador ganhe a eleição facilmente, como eu acho provável...
Escrito por Fábio Zanini às 22h32
Os Simpsons negões
Homer Simpson está de sandália de dedo, camisa Olodum e pulseirinha de crochê no braço. Marge usa um vestido afro e trocou a pintura azul no cabelo pelo preto graúna. Lisa fez dreadlocks no cabelo, assim como Maggie. Bart, também de sandálias, faz o estilo “mano”.

Todos estão morenaços, sentados no sofá assistindo à TV, na imagem icônica da abertura do seriado “Os Simpsons”, fenômeno de audiência mundial há 20 anos. Em cada ponta, há uma gigantesca caixa de som, e na parede, o quadro não é de um veleiro, como no original, mas uma cena de safári africana.
Estes são os Simpsons em versão angolana, modificados por uma agência de publicidade local para promover um canal de TV por assinatura. A brincadeira despretensiosa caiu na web e virou sucesso instantâneo.
Os Simpsons são sucesso mundial e isso não é diferente na África. Mas são poucos os que têm acesso à bizarra família norte-americana. Geralmente os desenhos passam na TV por assinatura, e a penetração desse meio no continente é mínima, com exceção da África do Sul.
Também não me lembro de algum episódio em que eles mencionam o continente, diferente do Brasil, Japão, Canadá e Inglaterra, que já tiveram a honra.
A peça de publicidade em que eles viram “black” é justamente para promover o serviço de TV para uma minúscula classe média em Angola, que se formou com o boom petrolífero. Já é um avanço, mas falta muito ainda.
Enquanto isso, Matt Groening, o criador da séria, experimenta o que é estar do outro lado da piada, ele que parodia tudo e ironiza sem limites. Os angolanos trucaram o criador da série, e só espero que os produtores entendam a brincadeira e não venham com idéias de processar por danos à imagem...
Escrito por Fábio Zanini às 09h32
Um ex-presidente absolvido
Uma das notícias mais importantes do dia na África é a absolvição do ex-presidente da Zâmbia, Frederick Chiluba (1991-2001), da acusação de ter desviado US$ 500 mil durante o seu mandato (na verdade, uma fração do que se suspeita que ele tenha embolsado). É ele na foto abaixo

Após um longo e tortuoso processo, Chiluba, 63, foi absolvido por uma corte de seu país por falta de provas. Ou seja, não foi exatamente declarado uma pessoa acima de qualquer suspeita. Simplesmente não se conseguiu levantar provas cabais do que muito provavelmente foi corrupção da grossa sob seu governo.
Decepção? Sem dúvida. Mas há outro lado. As histórias que vêm da África às vezes têm aspectos que não ficam aparentes logo de cara. Geralmente, o que parece ser uma boa notícia depois se revela um desastre. Nesse caso, é o inverso. Trata-se de uma boa notícia disfarçada de má.
Há um fato a ser louvado aqui, que é o processo em si, a acusação e o julgamento. Chiluba era um autêntico “big man” africano, em quem se depositaram vastas esperanças após sua surpreendente vitória sobre o fundador da moderna Zâmbia, Kenneth Kaunda, em 1991. Kaunda era presidente havia quase 30 anos, desde a independência.
Chiluba assumiu cheio de promessas de renovação política e econômica. A Zâmbia é geralmente citada como emblema da tragédia africana. Nos anos 60, de acordo com um exemplo bastante comum usado por livros de história, sua renda per capita era superior à da Coréia do Sul. E hoje veja onde está um e onde está o outro.
A Zâmbia tem vastas reservas de cobre, que têm atraído a atenção dos chineses. Tem boa localização e alguns dos melhores parques nacionais da África. Cortada por rios, tem algumas das terras mais férteis do planeta.
Chiluba desperdiçou essa chance dando origem a uma cleptocracia. Não tenho dúvidas de que teria se transformado em mais um ditador se pudesse. Mas as instituições da Zâmbia resistiram. Ele tentou um terceiro mandato, mas não levou. Elegeu seu sucessor, mas logo os dois brigaram. E aí veio o processo por corrupção.
Sua mulher, Regina, está presa por corrupção, e apelando contra a sentença. O ex-presidente quase teve o mesmo fim. Aqui está um país africano processando livremente seu ex-homem forte, fazendo-o passar pelo mesmo escrutínio que qualquer cidadão comum. Num continente que idolatra seus ídolos (e os teme), não é algo que aconteça todos os dias.
Mesmo na absolvição pode-se ver um lado positivo. Apesar do clamor popular pela condenação, as cortes tiveram a coragem de dar seu veredicto. “Temos a convicção além de qualquer dúvida razoável de que a promotoria não conseguiu provar o roubo de recursos públicos”, disse o juiz em sua sentença. E ponto final.
Sem dúvida, teria sido muito melhor se Chiluba tivesse sido condenado a devolver o que provavelmente roubou. Mas a Justiça se baseia em provas. É isso que se espera de países livres. A África dará um grande salto quando todos os seus 53 países perderem o medo de processor seus presidentes.
Escrito por Fábio Zanini às 19h36
Meu podcast na Folha Online
Ouça aqui meu comentário sobre a visita da secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, a sete países da África, encerrada na última sexta-feira.
Escrito por Fábio Zanini às 17h20
A morte do vovô-estudante
A África tem o maior percentual de notícias trágicas do planeta, mas ouso dizer que também é campeã em históricas comoventes e de superação.
Como não ficar tocado pela trajetória de Kimani Nganga Maruge, que morreu aos 90 anos no Quênia? Ele era considerado o aluno de primário mais velho do mundo. Começou os estudos em 2004, aos 84 anos de idade, quando se matriculou na primeira série na cidade de Eldoret, no oeste do país.
Já era um bisavô, e sua figura usando shortinho, camisa e blusão do uniforme escolar ao lado de colegas oito décadas mais jovens o transformou numa celebridade instantânea (foto do Daily Nation).

Chegou a ser convidado para visitar os EUA, onde fez um apelo para que os líderes mundiais dessem prioridade à educação.
A história do vovô é ainda mais incrível porque ela se encaixa perfeitamente em momentos-chave da trajetória de seu país. Como se fosse um Forrest Gump africano, passeando sem querer pela história.
Nos anos 50, o jovem Maruge fez parte do movimento dos Mau-Mau, ponta de lança da revolta de seu país contra a colonização britânica. Temidos e por vezes sanguinários, os Mau-Mau deixaram sua marca na história como um dos mais exitosos movimentos de independência da África. Tornaram-se um farol para outras guerrilhas semelhantes do Terceiro Mundo.
O tempo passou, veio a independência e a desilusão. Havia liberdade, mas que não veio acompanhada pela prosperidade prometida. Maruge isolou-se numa pequena propriedade rural, sem nunca ter tido a oportunidade de estudar. Teve cinco filhos e 30 netos.
Em 2003, após o fim de uma longa ditadura, o Quênia renasceu oferecendo novas oportunidades. Um dos primeiros atos do novo governo foi declarar que haveria educação universal gratuita para a população. Vovô Maruge viu ali sua chance.
Pediu para ser devidamente alfabetizado (tinha aprendido por conta própria a ler algumas partes Bíblia apenas) e para estudar matemática. Não queria ser enganado por comerciantes inescrupulosos e nem pelo governo, notoriamente corrupto.
No final de 2007, novamente sua história e a do Quênia se encontraram. Sua cidade, Eldoret, foi a mais atingida por violentos conflitos étnicos após uma eleição disputada. Morreram mais de mil pessoas, e incontáveis casas foram destruídas. Inclusive de Maruge. Obrigado a procurar refúgio, teve de abandonar momentaneamente os estudos.
A violência passou e ele, já beirando os 90 anos, não desistiu. Retomou o curso e estava a dois anos de terminar o primário quando foi diagnosticado com câncer. Foi finalmente vencido hoje.
A história de Kimani Nganga Maruge é um caso célebre, mas há outros exemplos diários de superação. Ruandeses capazes de atos inacreditáveis de reconciliação após o genocídio; zimbabuanos que levantam cedo todos os dias para procurar emprego apesar do derretimento da economia; sul-africanos acolhendo órfãos da Aids.
A história do velhinho daria um filme. Não duvido que ainda vai virar.
Escrito por Fábio Zanini às 20h39
Um genocida preso
Mais um acusado pelo genocídio em Ruanda foi preso.
Seu nome é Gregoire Ndahimana. É suspeito de ter comandado pessoalmente a demolição de uma igreja em que se escondiam 2.000 pessoas da etnia tutsi, a principal vítima dos massacres de 15 anos atrás.
Sua prisão é importante, mas mais revelador ainda é o fato de que foi capturado no vizinho Congo, onde buscou santuário. Havia se misturado a um grupo de rebeldes chamado FDLR (Forças Democráticas de Libertação de Ruanda). É importante por uma série de razões: primeiro, comprova que é ali que se encontram alguns dos últimos genocidas procurados. Por vários anos, tentou-se difundir o mito de que esses acusados estavam mortos ou de que era inútil caçá-los como são caçados os nazistas responsáveis pelo holocausto. Ndahimana é a prova de que é preciso continuar procurando.
Em segundo lugar, é uma boa notícia também porque demonstra um grau de cooperação entre Ruanda e Congo que estava faltando. Os dois países viviam em estado de tensão permanente até o ano passado, com os ruandeses acusando os congoleses de dar abrigo aos fugitivos dos massacres de 1994. Essa proteção, por sua vez, era o pretexto perfeito para que o Exército de Ruanda invadisse o vizinho de tempos em tempos, aterrorizando a população civil e aproveitando para fazer umas “comprinhas” no caminho (como roubar ouro e diamante). No ano passado, os dois governos, sob a supervisão da ONU, fecharam um acordo de cooperação militar e passar juntos a procurar por genocidas.
Ndahimana é mais um dos que têm as mãos sujas pela matança de quase 1 milhão de pessoas em Ruanda, um dos grandes genocídios do século 20. Seguirá agora para Arusha, na Tanzânia, para ser julgado pelo Tribunal Internacional patrocinado pelas Nações Unidas.
O tribunal está na fase final, e sofre crescente pressão para encerrar seus trabalhos. Completou 45 julgamentos, inclusive condenando o mentor e principal organizador do genocídio, Théoneste Bagosora, um ex-oficial do Ministério da Defesa. Também foram condenados um ex-primeiro-ministro e ex-ministros. Faltam ainda cerca de 40 casos para serem julgados, o que deve ocorrer até o final do ano que vem.
Mas a pressa não se justifica. Os países doadores deveriam ter um pouco mais de paciência. O tribunal de Ruanda é um sucesso, um raro sucesso no campo da justiça internacional.
E ainda faltam suspeitos para serem presos. Um dos maiores financiadores do genocídio, um empresário chamado Felicien Kabuga, vive no Quênia, escondido das autoridades e provavelmente protegido por uma rede de informantes e seguranças. Seus bens foram congelados no ano passado, mas ele não dá sinais de se entregar.
Enquanto ele não for preso e julgado, é impossível fingir que a página do genocídio está virada. Se Ndahimana foi capturado, Kabuga também pode ser.
Escrito por Fábio Zanini às 08h31
Hillary na África
Barack Obama passou apenas 24 horas em solo africano (suficiente para mais um de seus discursos “históricos”, segundo a complacente mídia internacional) e se mandou.
Sua secretária de Estado, Hillary Clinton, em contraste, está fazendo um giro de verdade pelo continente, visitando alguns dos países mais problemáticos da África. O roteiro é bem interessante, e foi desenhado por um craque.
São sete países. Começou no Quênia, força econômica do leste do continente e um dia considerado uma âncora de estabilidade. No ano passado, transformou-se no oposto, após uma eleição fraudada e violenta. Depois veio a África do Sul, parada inevitável por ser a maior potência regional (na foto, da Reuters, é ela com o presidente Jacob Zuma).

Em seguida, Angola, a nova fronteira energética da África, e onde os EUA cada vez mais irão buscar petróleo. Ali é o palco de uma nova guerra fria, desta vez com a China, que tomou conta da infraestrutura angolana. Mesmo assim, Hillary não deixou de botar o dedo na ferida, cobrando eleições livres o mais rápido possível (a última eleição presidencial foi em 1992; o presidente José Eduardo dos Santos está no poder desde 1979). Um exemplo para Lula de como é possível manter uma política externa que dosa bem pragmatismo e a defesa de princípios.
Hillary esteve hoje no Congo, o pesadelo africano. Um país gigantesco (do tamanho da Europa ocidental), riquíssimo, violentíssimo e corrupto. Alguns diriam, ingovernável. Pediu estabilidade e deu o recado de que o país será recompensado por isso. Os EUA são os maiores fornecedores de ajuda humanitária.
Ela tem ainda três paradas pela frente: outro pesadelo (Nigéria), um país em plena recuperação pós-guerra civil (Libéria) e um modelo de democracia e desenvolvimento para o Terceiro Mundo, não apenas na África, mas em todo o mundo (Cabo Verde).
Uma bela mistura de bons e maus exemplos, como se vê.
Mas o que importa mesmo é o fato de que a secretária de Estado decidiu dedicar 11 dias de sua agenda ao continente. É uma eternidade. Mesmo se falasse apenas obviedades (e ele falou coisas importantes), já teria sido o suficiente para dar à África uma nova relevância, ainda que inevitavelmente suas imagens dançando “até o chão” no meio de africanos chamem mais a atenção.
Falta Obama. A visita de Hillary é importante, mas não é ela a chefe. O presidente norte-americano está devendo uma visita de verdade ao continente em que nasceu seu pai.
Escrito por Fábio Zanini às 21h51
A praga do terceiro mandato
Algumas coisas caracterizam muito bem o Terceiro Mundo, seja na América Latina, na Ásia ou na África: caminhões soltando fumaça preta numa avenida congestionada; táxis velhos com o pára-brisas trincado; camelôs entupindo calçadas; políticos tentando um terceiro mandato.
Esta última é a mais nociva, sem dúvida. Envenena as relações políticas, como se viu no Peru de Fujimori, na Venezuela de Chávez e mais recentemente em Honduras. A África, então, adora a praga do terceiro mandato. Gastam-se anos e anos com debates intermináveis sobre mudanças constitucionais para satisfazer a vaidade dos presidentes de plantão. Antigos aliados se distanciam, coalizões são desfeitas. Presidentes tidos como democráticos do dia para a noite revelam-se gananciosos e ciumentos com o poder.
O último país acometido da febre é o Níger, no oeste da África, o sexto mais pobre do mundo segundo o ranking anual da ONU (numa lista de 179). Seu presidente, Mamadou Tandja, acaba de obter uma vitória acachapante num referendo sobre a possibilidade de mudar a Constituição e disputar um terceiro mandato.
“Disputar” é força de expressão, já que na África presidente que está no cargo não perde eleição. Vence pela força da intimidação e da fraude, se for um troglodita. E se não for, como é o caso de Tandja, vencer por inércia, pelo poder da máquina do governo, invencível nos rincões que dependem do Estado.
Tandja não é dos piores presidentes que a África já teve. Está no poder desde 1999, tendo sido reeleito em 2004. Sob seu governo, o país teve estabilidade numa das regiões mais instáveis do planeta. Os níveis de corrupção declinaram. O país teve altas taxas de crescimento. Em vários momentos, Tandja, 71 anos, foi considerado uma voz conciliadora e racional no continente.
Mas ele quer ficar. Presidentes africanos têm dificuldade em pendurar as chuteiras. Alguns por medo da vingança de seus sucessores, de acabarem processados e julgados por delitos reais ou inventados. Tandja, respeitado inclusive pelos opositores, não corria esse risco.
Sua justificativa é a de sempre: é preciso continuar no poder para dar prosseguimento a reformas econômicas e sociais. Este é um traço perene da política africana: tudo depende do indivíduo, nunca do Estado. Sem a presença do “pai”, conquistas poderiam ser perdidas. Não existe confiança de que as instituições darão conta de seguir seu curso, independente do partido que estiver no poder.
Nos últimos meses, o presidente do Níger perdeu um pouco do recato que o caracterizava. Atropelou o Parlamento e a Corte Constitucional para convocar o referendo. O resultado divulgado ontem não surpreendeu ninguém: vitória do presidente, com 92% dos votos.
Alguns votos ainda eram contados quando já apareceram outdoors pelas ruas da capital, Niamey, em que Tandja agradecia os eleitores pela “confiança renovada” (foto da BBC).

Um grand finale para a farsa em que se transformou o outrora democrático Níger.
Abaixo, uma matéria da Folha, da última terça-feira, sobre o referendo:
Pobre e isolado, Níger organiza referendo sob temor de violência
Presidente busca reeleição ilimitada e aumento de poder em votação hoje
ANDREA MURTA
DA REDAÇÃO
Em região semidesértica, paupérrima e quase sem infraestrutura, o Níger entra hoje para o crescente grupo dos países cujos mandatários puseram em marcha referendos a fim de permitir a reeleição ilimitada.
Para isso, o presidente Mamadou Tandja, 71, passou por cima do Parlamento e do Tribunal Constitucional. Ambos se opuseram à votação e foram sumariamente dissolvidos.
Nas últimas semanas, milhares de pessoas tomaram as ruas da capital nigerina, Niamey, em manifestações contra o referendo e a abolição das instituições democráticas. Em 15 de julho, um ato terminou em confronto com a polícia.
Há temores de mais violência. A Frente para a Defesa da Democracia (FDD), grupo que uniu 20 ONGs e partidos de oposição, considera o presidente culpado de "alta traição" e promete fazer de tudo para bloquear a votação de hoje.
O risco de instabilidade preocupa não só vizinhos como a Nigéria, já ocupada com seus próprios conflitos internos, como parceiros comerciais como a França, ávida consumidora das reservas de urânio locais.
Os EUA exortaram norte-americanos a não viajar ao Níger por enquanto. "Cidadãos americanos devem estocar água, comida e artigos de necessidade básica devido a possíveis interrupções na distribuição de suprimentos e serviços", informou o governo em nota.
O referendo visa aprovar uma nova Constituição, que daria a Tandja mais três anos no poder -em período de transição-, eliminaria limites para reeleição e concentraria poder.
O Níger já foi alvo de três golpes de Estado desde a independência, conquistada da França em 1960, e opositores afirmam que Tandja está lentamente preparando o quarto.
Condenação externa
Os defensores do presidente afirmam que Tandja, eleito em 1999 e reeleito em 2004, merece continuar governando por ter trazido crescimento econômico ao país. Mesmo com crescimento do PIB esbarrando 5% ao ano, o Níger ocupava em 2008 a 174º posição no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, que avaliou 177 países.
A União Europeia (UE), a ONU e organismos africanos têm visto a situação com preocupação e tentam, com ameaças de sanções, evitar o referendo. A UE suspendeu parte da ajuda ao Níger.
Mas críticos temem que o comércio de urânio (do qual o país é o quarto produtor mundial) enfraqueça a condenação. Um terço do urânio usado para energia nuclear da França, por exemplo, é originado no Níger.
Tandja também tem acordos com a China no valor de mais de US$ 5 bilhões para a exploração de petróleo no país.
Apesar da tensão, um diplomata estrangeiro que falou à Folha em condição de anonimato afirmou que o clima nas ruas da capital nigerina é calmo. "Não há presença anormal de policiais nas ruas", disse, por telefone, de Niamey.
A expectativa geral é que o referendo será favorável ao presidente. Segundo o diplomata, os críticos têm sido incapazes de engajar a população. "A oposição já é conhecida do povo desde eleições passadas, e historicamente tem pouco poder de convencimento."
Escrito por Fábio Zanini às 12h21
O blog de luto
Morreu Gabriel Buchmann.
As autoridades do Maláui confirmaram hoje pela manhã que encontraram o corpo do economista brasileiro perdido no Monte Mulanje, no sul do pequeno país africano, desde o último dia 17.
No momento em que escrevo (20h de quarta-feira), ainda são escassas as informações. Gabriel está no alto da montanha. Não sabemos o estado de seu corpo, muito menos o fundamental: morreu de fome e frio, ou de maneira brutal, atacado por alguém? (atualização: morreu de hipotermia; menos mau).
A África, com algumas exceções (África do Sul, Nigéria, Angola, Congo), é extremamente segura. Em cinco meses perambulando por lá no ano passado, não me senti em perigo em nenhum momento. Andava durante a noite despreocupadamente. Interagia com os locais sem receio.
O Maláui é especialmente seguro, e a trilha onde Gabriel se perdeu é considerada fácil. Sua morte é um mistério. A necropsia nos próximos dias vai revelar o que aconteceu.
Ele era um idealista. Estava se preparando para fazer um doutorado nos EUA, em que estudaria soluções para a pobreza, e para isso decidiu se preparar. Armou uma viagem de um ano por Ásia e África. O Maláui era sua última parada antes do Brasil.
A África precisa muito de gente como ele. Os conceitos simplistas que se formaram do continente, de ser habitado por uma gente ignorante, sem lugar no mundo, só serão desfeitos por pessoas sem medo do desconhecido.
Gabriel era um desses desbravadores. Suas fotos sorridente, em alguns dos cantos mais pobres do planeta, são seu maior testamento.

Abaixo, republico o email enviado por Gabriel a sua família em 1 de junho passado, relatando suas experiências da África:
depois de mais de uma semana mergulhado de cabeça no coração da África, encontrei este cyber café aqui em Jinja, interior de Uganda e em frente à foz do rio Nilo...e vos escrevo pra dizer que estou maravilhosamente bem...
meus dias aqui na África estão sendo absolutamente fantásticos ! ! ! ... depois de passar uns dias na casa de um refugiado congolês nos subúrbios pobres de Nairóbi, fui parar nem sei direito como na remota tribo dos massais no kenya, onde passei dias correndo atrás de girafas, zebras e antílopes, com lanças e espadas e vivendo a vida tribal dos caras, dormindo em ocas, etc...e entre outras aventuras pelo kenya, terminei em grande estilo, fazendo um safári de bike com um amigo meu massai num parque nacional lindíssimo...
tô muito roots, andando há uma semana enrolado em cangas coloridas e carregando um cajado e uma espada de aço...e só sei que desde que cheguei na África, não vi NENHUM muzumgo (white man) além de mim...
ah, e hoje no meio de tudo coloquei uma criança na escola...É uma longa estória, mas, resumidamente, depois de passar o dia passeando por um vilarejo aqui de Uganda com um menino que, entre outras coisas me apresentou a sua família paupérrima, e de por acaso visitar uma escola publica e falar com o diretor, acabei que paguei pela matriculas, mensalidades e todas as despesas do menino ate o fim do ano, e me comprometi a, se ele me mandar o boletim dele, continuar pagando pelos próximos anos...
mas o melhor de tudo é que aqui na África to conseguindo por em pratica a viagem que sempre idealizei...hoje ficarei em hostel pela segunda vez desde que pisei no continente, todos os outros dias dormi e comi na casa de locais, gastando uns 2-3 dólares por dia, o que me permitiu a cada dia distribuir meu daily budget entre as pessoas que me hospedaram, alimentaram, etc...to muito feliz com isso, de conseguir estar vivendo grandes aventuras e realizando uma viagem de profunda imersão no continente africano, absolutamente não turística, e de forma totalmente sustentável, transferindo 80% dos meus gastos pra africanos pobres... e aqui com quase nada vc faz uma substancial diferença na vida das pessoas...esse amigo meu congolês, por exemplo, com 12 dólares paguei o aluguel mensal da casa da família dele, esse menino com 40 dólares garanti um ano escolar pra ele numa escola super legal, hoje dei 2 dólares pra uma mulher que me convidou pra conhecer a casa dela e ela se ajoelhou e quase chorou...
podia escrever horas sobre essa minha primeira semana aqui na áfrica, to realmente muito contente por tudo aqui estar superando minhas melhores expectativas...mas to escrevendo mesmo pra dar um sinal de vida, pois essa noite passei fazendo 4 baldeações pra atravessar do kenia pra Uganda durante a madrugada e andei o dia inteiro visitando dezenas de casas de agricultores, missões, escolas, etc., numa vila aleatória aqui no interior de Uganda...
tenho encontrado pessoas incríveis e fascinantes a cada dia que me apresentam a outras e de conexão em conexão vou penetrando aos poucos na alma da África... tenho arranjado contatos incríveis e, semana que vem, depois de prestar minhas homenagens às vitimas do genocídio de Ruanda e de sei-la-o-que-me-espera no Burundi, vou visitar um garimpo de diamantes e os pigmeus nas selvas do congo com o irmão de um amigo, um campo de refugiados na Tanzânia onde mora o tio de outro amigo que fiz aqui, tentar arrumar uma forma afordable de subir o kilimanjaro e então espero minha linda cris chegar em Dar Es Salaam pra mais uma lua-de-mel em grande estilo...
ta bom, um parágrafo sobre os dois melhores amigos que fiz no Kenya...
Alex Alembe. Tava no ultimo ano de engenharia em Uvira, sua cidade no Congo. Certa noite uma milícia invadiu sua casa. Mataram sua mãe e sua irmã mais nova, mas ele conseguiu fugir pela janela. Foi parar num campo de refugiados na Tanzânia, onde ficou por 4 anos, se casou com uma tanzaniana e teve 3 filhos. Se mudou pra um subúrbio de Nairóbi e passou os últimos anos trazendo ouro e diamantes de garimpos no Congo e revendo em outros países da East Africa. Conseguiu construir uma casa confortável, e nela alojar sua família e vários órfãos. Voltando de uma de suas viagens, assaltaram o ônibus onde estava e levaram suas maletas com tudo seu, dinheiro, diamantes e passaporte. Perdeu tudo. Se mudou com toda a família pra um casebre de 12m2. Mesmo assim, continua levando a cabo 3 projetos sociais, dando café da manha pra 20 crianças, amparando viúvas de vitimas de Aids e organizando um futebol todas as tardes. Ta juntando tudo o que pode pra se candidatar pra deputado provincial no congo nas próximas eleições. TIA. This is Africa.
Leonard. Massai cuja mãe me hospedou em sua casa em Iwatso Ogindong. Tava no ultimo ano de administração na universidade de Nairóbi. Depois de 3 anos de seca na terra dos massais, teve que largar a faculdade pra levar o gado que sobrou de sua família pra melhores pastagens. Andou 8 dias por 500 km levando 100 cabeças atravessando cidades, inclusive passando pelo aeroporto de Nairóbi. Luta pra preservação da cultura massai e sonha em casar com uma americana, de preferência gorda. Me batizou com um nome massai, Lemaya. Seu irmão, Brain, tem 20 anos e é respeitado na tribo. Aos 14 matou um leão e assim atingiu a maturidade. Aos 15 se casou com uma menina de 12 e outra de 13, que seus pais escolheram. Me deu sua espada de presente. TIA. This is Africa.
Fui.
Mamãe, desculpa não te ligar ha tanto tempo, farei o máximo pra fazê-lo amanha de Kampala, capital do pais...
Cris, te escrevo em seguida...
Johnny, boa Rússia pra ti, irmão! Russia Haracho! Russia Kracivaia!
beijos,
Gabriel”
Escrito por Fábio Zanini às 20h10
O Zimbábue melhorou?
Após anos banida, a BBC finalmente teve autorização do governo do Zimbábue para voltar a operar no país. Sinal inequívoco de que as coisas por lá degelaram um pouco.
O país continua sendo dirigido pelo presidente Robert Mugabe, mas o governo de união nacional formado no ano passado com o oposicionista Morgan Tsvangirai, mediante grande pressão internacional, deu algum resultado.
Alguma ajuda internacional começou a voltar para o país. A moeda local, que era uma piada, foi abandonada em favor do dólar norte-americano. Manifestações políticas agora são toleradas. Presos políticos foram liberados, embora um punhado continue atrás das grades. A epidemia de cólera do ano passado foi controlada. Em suma, o doente saiu da UTI.
Mas doente continua, porque décadas de política destrutiva demoram a dar efeito. Não se reconstrói um país do dia para a noite, e o Zimbábue ainda é um dos lugares mais infelizes do planeta.
No auge da paranóia, Mugabe, no poder desde 1980, proibiu totalmente a entrada da imprensa internacional. Político habilidoso e sem escrúpulos, debitou na conta de uma suposta conspiração branca todos os problemas do regime. Um caso raro de racismo ao contrário.
Mas num sinal de esquizofrenia do regime, manteve fácil o acesso de turistas, o que criou legiões de repórteres disfarçados de visitantes (eu fui um deles, no ano passado). Nunca o Zimbábue teve tantos “atrativos turísticos” capazes de atrair multidões.
A própria BBC em mais de uma ocasião recente contrabandeou repórteres, microfones e microcâmeras para dentro do país. Jornalistas filmavam prateleiras vazias de supermercados com imagens desfocadas, e cochichando. Essa fase mezzo heróica, mezzo ridícula, aparentemente acabou.
Andrew Harding, repórter da rede britânica, aparece no vídeo de estréia de uma série de reportagens no país passeando por um supermercado bem abastecido na periferia de Harare, a capital do Zimbábue. No auge da crise, produtos alimentícios eram raros, e a fila do pão, sempre enorme. Agora, pelo menos há o que comprar.
Num outro sinal de distensão, pessoas na rua aceitaram dar entrevistas criticando o regime, embora algumas tenham preferido manter-se no anonimato. Tsvangirai, o primeiro-ministro, deu uma entrevista sem temer ser preso e espancado (como já foi quando estava na oposição).
Quer dizer então que Mugabe agora virou bonzinho? Estamos diante de um democrata?
Mil vezes não. Estamos diante, isso sim, de um dos gênios da política africana, um senhor que sabe se adaptar às circunstâncias para não perder seu poder. Que sabe a hora de apertar e a hora de relaxar a repressão. E que continua tendo controle absoluto da situação, apesar das aparências.
A BBC voltou ao Zimbábue, e daqui a pouco a CNN e outras redes aparecerão por lá também. O Zimbábue respira um pouquinho. Mas sua tragédia continua.
Escrito por Fábio Zanini às 21h29

Fábio Zanini