Fábio Zanini

Pé na África

 

Ecos da cúpula

ISLA MARGARITA (VENEZUELA) - Encontros multilaterais (com a participação de vários países) funcionam assim: durante meses funcionários anônimos de chancelarias debatem as minúcias de um documento final com 90% de banalidades (os outros 10% podem ter algum interesse). Deixam o meio de campo preparado para a chegada das grandes estrelas, os presidentes, primeiros-ministros e de vez em quando até reis, que podem assim se dedicar apenas ao que gostam: fazer discursos, contar piadas e bater papo.

 

No encontro da Isla Margarita, a presença de 18 líderes africanos e 9 sul-americanos, além de funcionários de menor escalão de mais 30 países, não tinha mesmo como deixar margem para discussões muito substanciais. Havia outras preocupações. Segurança era uma delas. Vários dos ali presentes mantêm-se no poder com base em esquemas duros de repressão, pelo medo de levarem um golpe. Sabem do que estão falando, já que muitos foram golpistas no passado.

 

Hugo Chávez, o anfitrião, não fez por menos. Ocupou militarmente a praia ao lado do hotel do evento, e entregou a segurança para seus fiéis soldados.

 

 

 

É uma cena inusitada e um tanto intimidadora: militares pedindo crachás de jornalistas.

 

Robert Mugabe, do Zimbábue, circulava cercado por 40 pessoas, muitos deles seus agentes de segurança, mas também um pessoal que veio disposto a aproveitar o paraíso de compras (duty free) que é a Isla Margarita.

 

 

 

Muhammar Khaddafi, vestido com uma túnica que parecia de um dos Três Reis Magos, como sempre, roubou o espetáculo.

 

Sua retórica do socialismo terceiro-mundista estava nos trinques. No lugar reservado à imprensa, cópias em capa dura de seu famoso “Livro Verde”, compêndio de suas doutrinas, foram distribuídas em várias línguas para os jornalistas.

 

“Em todos os fóruns internacionais nós temos maioria e por isso podemos transformar o mundo”, exortou ele à platéia.

 

Foi saudado por Chávez como “um herói deste século e do século passado pela liberdade e igualdade”.

 

Chávez, animado com tantos visitantes, estava impossível e com um repertório novo de piadas sem graça nenhuma. Ao anunciar Jacques Diouf, o senegalês que dirige a FAO, órgão das Nações Unidas sobre alimentação, disse que estava apresentando “Jack, o Estripador da Fome”. Sorrisos amarelos e constrangimento.

 

Não faltaram figuras bizarras no evento, algumas até de dar medo. Teodoro Obiang, o déspota da Guiné Equatorial, titular há 30 anos de um regime corrupto e cruel, ali estava de gravata azul com bolinha branca e lenço combinando. Defendeu respeito aos direitos humanos, e felizmente não cruzou meu caminho. Eu era capaz de fugir em pânico.

 

Outro a aparecer por lá foi o rei Mswati 3º, da Suazilândia, último monarca absoluto da África e um dos últimos do mundo. De terno bem cortado, parecia uma figura respeitável, e não o sujeito com mais de 30 mulheres, escolhidas em medievais festivais entre as mais formosas virgens do país. Seu reino tem a maior proporção de contaminados pela Aids do mundo, mas ali estava ele cobrando respeito a seu governo.

 

A comida estava boa, o hotel era bacana e a conversa entre os colegas fluiu bem. O presidente de Niger, Mamadou Tandja, um dos países mais quentes do mundo, reclamou certa hora de que o ar condicionado do salão de reuniões estava forte demais.

 

Mas fora isso, tudo correu bem. Bem para os dinossauros, com certeza.

Escrito por Fábio Zanini às 21h29

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O que os africanos obtiveram em Margarita

ISLA MARGARITA (VENEZUELA) - A cúpula entre países sul-americanos e africanos acabou ontem, e soterrada pela presença de Lula (meu foco principal como jornalista aqui), pelo histrionismo de Hugo Chávez e os trajes berrantes de  Muhammar Khaddafi (parecia um dos três Reis Magos), houve uma declaração final.

 

Um documento de 28 páginas cheio das boas intenções de sempre, mas com pontos importantes para os dois continentes. Està nesse link: http://www.asavenezuela2009.com.ve/doc/declaracin_final_portugues1.pdf

 

Estes textos finais de eventos multilaterais muitas vezes são genéricos e impossíveis de serem implementados, mas oferecem pistas valiosas sobre o estado geral das coisas.

 

Vou me ater aqui ao lado africano, claro. A primeira coisa que me chamou a atenção foi o item 25, em que as partes signatárias “compartilham a convicção de que recorrer ao pagamento de resgate por terrorismo deverá ser condenado e tipificado como delito”.

 

Isso agride o bom-senso, evidentemente, e me perguntei o que algo tão inusitado estaria fazendo ao lado de platitudes sobre o compromisso com o desenvolvimento econômico. A resposta está no item seguinte: Somália. É uma referência à pirataria nas águas territoriais deste país no extremo leste da África. Os africanos estão incomodados com a disposição de governos e empresas estrangeiras de negociar com piratas que às vezes mantém tripulações como reféns por semanas.

 

Há algo ainda mais revelador. O texto sobre pirataria diz o seguinte: “Reconhecendo os perigos e as consequências negativas provocadas pela pirataria, sublinhamos a necessidade de que a comunidade internacional analise as causas originárias do problema e condene firmemente e desestimule o pagamento de todas as formas de resgate”.

 

Ponto para a África. “Analisar as causas originárias” em terra, em um Estado falido, é urgente. Mas por enquanto o enfoque todo está mesmo em mitigar o problema pagando resgates.

 

Outro ponto diz respeito aos mercenários. Só mesmo uma declaração de países africanos para ainda hoje identificar esse problema de épocas passadas. Mas com razão. O uso de mercenários continua sendo um tema de segurança internacional importantíssimo. Há alguns anos, um grupo contratado por exilados de Guiné Equatorial quase derrubou o governo daquele país (não que o atual governo seja grande coisa).

 

“Reiteramos nossa profunda preocupação com o uso, recrutamento, financiamento, capacitação e transporte de mercenários o qualquer outra forma de apoio a mercenários, em violação aos propósitos estabelecidos na Carta das Nações Unidas”, afirma a declaração.

 

Há também trechos na declaração que fazem o leitor franzir a testa. “Reiteramos que os direitos humanos são universais, indivisíveis e interdependentes, e que a comunidade internacional deve avocar sua completa defesa”. Isso assinado por ao menos 20 ditadores revira o estômago.

 

Outro ponto “exorta a comunidade internacional a condenar toda medida ilegal unilateral e coercitiva como meio de exercer pressão política, militar ou econômica contra um Estado e em particular contra os países em desenvolvimento”. Aqui são os africanos se protegendo uns aos outros, o que é lamentável. As referências veladas do parágrafo são provavelmente ao Sudão, em que seu presidente, Omar al-Bashir (que não apareceu na cúpula) está com a prisão decretada pelo Tribunal Penal Internacional pelo genocídio em Darfur, e ao Zimbábue. Mas há outros exemplos: sob o manto da carta das Nações Unidas, dinossauros africanos pedem um passe livre para continuar dinossauros.

 

Pede-se também no documento a derrubada de barreiras agrícolas dos países ricos a produtos de países pobres, a reforma do Conselho de Segurança da ONU e o aumento da ajuda humanitária internacional. Todos objetivos nobres. Mas o que salta aos olhos na declaração da Isla Margarita são problemas do século 18, como pirataria e mercenários, ainda atrasando um continente inteiro.

Escrito por Fábio Zanini às 17h58

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O camping de Khaddafi

ISLA MARGARITA (VENEZUELA) – A segunda cúpula entre países africanos e sul-americanos começa para valer só amanhã aqui na Venezuela, mas o hotel Hilton, sede do evento, já está a postos.

 

Ao lado da monumental piscina, Muhammar Khaddafi armou sua tenda. Hoje pela manhã funcionários do hotel davam os últimos retoques. E se divertiam à beça com o inusitado da tarefa. Alguns tiravam fotos e contavam piadas. Uma faxineira não apenas não se importou com minha presença como fez questão de posar para um retrato.

 

 

 

O negócio é mesmo extravagante, ao modo de seu proprietário. Khaddafi hoje não vive sem sua tenda, e a transporta para cima e para baixo. A que está aqui é um modelo compacto, digamos assim. O presidente da Líbia e atual presidente da União Africana não dormirá nela, apenas receberá convidados.

 

O camping de Khaddafi é de lona verde, tem algo como 20 metros quadrados, carpete e poltronas. Deve ser ainda instalado um sistema de ventilação para suportar o calor de 35 graus que faz aqui. A decoração é o supra-sumo do kitsch saariano, com motivos de palmeiras e camelos.

 

 

 

A TV de plasma estava ligada, mesmo sem ninguém para ver, reprisando o discurso do líder líbio à Assembléia Geral da ONU, nessa semana, aquele em que pediu a reabertura da investigação sobre o assassinato de John Kennedy.

 

 

 

 

Khaddafi deve mais uma vez roubar o show aqui na Isla Margarita. Mesmo quando era um pária internacional (até há bem pouco tempo, aliás), seu prestígio em círculos do Terceiro Mundo nunca falhou. É um dinossauro que “enfrentou os imperialistas”, e isso basta para que seja celebrado.

 

Hoje, está reabilitado, e Khaddafi está livre para correr o mundo pregando sua versão árabe do socialismo. Não deixa de ser curioso que tenha montado sua barraca bem no coração de um dos símbolos do capitalismo, uma piscina de um hotel Hilton.

 

Outros dinossauros são aguardados por aqui. Robert Mugabe, do Zimbábue, é um deles. Omar al-Bashir, do Sudão, indiciado pelo Tribunal Penal Internacional pelo genocídio em Darfur, é outro. Gostaria muito de vê-los de perto, mas não sei se será possível. A segurança do evento está reforçadíssima. Jornalistas estamos confinados, também numa tenda, sem liberdade para circular entre os participantes do evento. Alguns matam o tempo vendo Venezuela x Nigéria pelo Mundial sub-20 de futebol. Alto-falantes transmitem a programação da rede estatal venezuelana, com suas aborrecidas “reportagens” mostrando os avanços do governo bolivariano.

 

Autoridades serão trazidas para onde nós estamos para darem entrevistas, se assim quiserem. Tudo muito controlado. Estamos em território chavista, afinal.

Escrito por Fábio Zanini às 15h35

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Papo com um amigo de Mugabe

ISLA MARGARITA (VENEZUELA) – Enquanto não chegam as estrelas do evento, é possível circular com alguma desenvoltura por alguns salões do Hilton.

 

Sentado numa poltrona matando o tempo, percebi que o sr. ao meu lado tinha um crachá de delegado do Zimbábue. Puxei papo.

 

Seu nome é Aguy Georgias, e descobri após alguns minutos de conversa que vem a ser um senador nomeado pelo presidente Robert Mugabe e também vice-ministro de Obras Públicas. Um mugabista roxo, portanto.

 

Muito simpático, maravilhou-se quando soube que eu sou brasileiro. “Eu comprava muito aço do Brasil para minha empresa. Muito melhor do que o aço chinês. Que é um lixo”.

 

Sim, Georgias também é um empresário. Algum conflito de interesse no fato de um alto burocrata responsável por tocar as obras do governo ser também dono de uma empresa de construção? Para ele e para Mugabe, aparentemente, nenhum.

 

A chance de conversar com um representante de alto pedrigree da nomenklatura mugabista é preciosa.  No ano passado, no Zimbábue, ao viajar (sem visto) para cobrir a eleição presidencial, eu fugia de autoridades do governo como o diabo foge da cruz, com medo de ser identificado e preso. Agora de manhã, ali do meu lado, pude bater papo com um deles, seguro num lobby de hotel.

 

 

 

Mr. Georgias tem já uns 70 anos, caminha com alguma dificuldade e é muito simpático e risonho. É também defensor incondicional do ditador zimbabuano. “Obama prometeu mudança, mas faz conosco exatamente o que Bush fazia”.

 

Ele faz parte da lista de altas autoridades do governo do Zimbábue que sofrem sanções especiais de países europeus e dos EUA. Têm problemas para viajar e para manter dinheiro no exterior, por exemplo. É uma forma (bastante suave, diga-se) de pressionar Mugabe a respeitar um pouco mais os direitos humanos. Georgias acha tudo profundamente injusto.

 

“Há dois anos eu tinha um prêmio na área de construção para receber nos EUA. Minha filha estuda em Londres, então decidi dar uma passada lá antes. Tinha o visto no passaporte, mas quando cheguei no aeroporto, recusaram minha entrada. Me levaram a uma sala, onde passei a noite, e no dia seguinte me fizeram embarcar de volta para casa. Não vi minha filha nem pude receber o prêmio”.

 

Irritado, decidiu agir. Entrou com um processo em Londres contra o governo britânico e contra a União Europeia exigindo que as sanções sejam canceladas. “Se eu ganhar, será histórico”, afirma.

 

“O problema com os ingleses e os americanos”, continua, “é que não interessa o quão certo você esteja, se você estiver contra ele, então você está errado”.

 

Pergunto como é Mugabe na intimidade. “Está sempre alerta, apesar da idade (85 anos)”, me responde. Georgias diz conhecer o presidente do Zimbábue “há mais tempo do que posso me lembrar”. Mas não é companheiro de armas dele, da luta pela independência, nos anos 70, como a maioria dos que lhe cercam. Pelo que ele dá a entender, tornaram-se próximos por motivos econômicos. Georgias provavelmente é um dos financiadores do partido do governo, e recebeu de prêmio o cargo no ministério.

 

O problema, diz ele, é que Mugabe ouve apenas pessoas que lhe dizem o que ele quer ouvir. “Eu, não. Eu digo a ele somente a verdade. Não importam as consequências”.

 

Entre um comentário e outro sobre as mulheres brasileiras e venezuelanas, Georgias revela que está participando do encontro para tentar vender a governos estrangeiros um megaprojeto: um canal ligando Zimbábue a Moçambique, desviando parte do rio Zambezi. Algo para deixar no chinelo a transposição do nosso rio São Francisco. “Para isso, preciso de capital. Este projeto pode revolucionar a África”.

 

E o que ele acha do governo de união nacional, que desde o começo do ano une Mugabe a seu arqui-rival, Morgan Tsvangirai, agora primeiro-ministro? Ele mostra resignação.

 

“Estão tentando trabalhar, mas é difícil. Suas personalidades são muito fortes. É como dizemos: não é uma boa ideia colocar duas mulheres numa mesma cozinha”. E solta uma gargalhada.

 

Pergunto se Tsvangirai virá para o encontro junto com Mugabe. Ele faz uma cara de “de jeito nenhum”. Pergunto brincando se ele acha perigoso colocar os dois num mesmo avião. Ele ri. Após uma pausa, conclui, parafraseando don Corleone:

 

“Sabe por que sou a favor de Tsvangirai no nosso governo? Porque para conquistar seus inimigos, o melhor é virar amigo deles”.

Escrito por Fábio Zanini às 15h21

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A festa de Chávez para os africanos

Começa amanhã na Isla Margarita, Venezuela, a segunda reunião de cúpula entre países sul-americanos e africanos. Estou indo para lá cobrir o evento, que termina no domingo.

Dessa vez, a festa é toda de Hugo Chávez. O mestre do marketing bolivariano vai sem dúvida aproveitar a presença de convidados estrangeiros para mais uma rodada de pregação retórica da necessidade de união do Terceiro Mundo contra o imperialismo. Muito como faz o nosso Lula, mas de uma maneira chavista, ou seja, agressiva e espalhafatosa.

À primeira vista, não há o menor sentido em essa cúpula se realizar na Venezuela e não no Brasil. Somos o maior país negro do planeta após a Nigéria (onde a primeira cúpula ocorreu, há dois anos), e nenhum outro presidente sul-americano se compara a Lula na prioridade dada a estreitar os laços com os africanos.

Mas o nome do jogo é petróleo, e embora a Petrobras cacareje que o Brasil do pré-sal agora é uma potência nessa área, a referência no continente ainda é, e continuará sendo por muito tempo, a Venezuela de Chávez. Por mais que Lula queira ressaltar os laços culturais e de cooperação científica entre os dois continentes, o futuro de um possível eixo América do Sul-África está no petróleo.

Pouco a pouco, o planeta vai se desvencilhando da excessiva dependência do petróleo do Oriente Médio e diversificando suas opções. Entram em cena a América do Sul (um dia, o Brasil) e a África. Nigéria, Angola, Sudão, Guiné Equatorial, Chade, Líbia e outros africanos são a nova fronteira petrolífera mundial, fornecedores crescentes para o capitalismo norte-americano e o pseudosocialismo chinês.

Chávez, esperto, sonha com o dia, não muito distante, em que países ricos em jazidas petrolíferas dos dois lados do oceano Atlântico formem uma aliança estratégica para emparedar o mundo rico e dele extrair concessões. É a diplomacia Sul-Sul anabolizada, baseada no petróleo e derivando em intercâmbio comercial e militar. Até agora ele mirou em parceiros como a Rússia e o Irã. Agora, volta os olhos para os africanos.

Até ontem não se sabia quais chefes de Estado exatamente compareceriam ao encontro na Venezuela. Desconfio que não serão muitos (o que seria uma pena, já que para mim, ver todos aqueles dinossauros de perto é como um passeio na Disneylândia). Lula estará lá, claro, defendendo a sua visão relativamente benigna de integração. É provável também que o cerco do governo golpista hondurenho à embaixada brasileira no país, que abriga o presidente deposto Manuel Zelaya atraia grande parte das atenções. Mas não importa. O recado de Chávez está dado. A festa é dele.

Escrito por Fábio Zanini às 10h24

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Leitora pergunta: o que importa para a África?

Este comentário veio da leitora Renata, do Rio de Janeiro, a propósito do post “Um pombo vence a internet”, da semana passada, em que relato o fato de um pombo-correio ter conseguido “transmitir” dados de um cartão de memória colado em sua pata mais rápido do que a tartaruguenta internet na África do Sul.

 

Renata lança uma questão intrigante. Veja o que ela escreveu (está publicado na seção comentários, mas achei que valia reproduzir aqui).

 

“Você falou em questão de prioridade. O que será mais prioritário: colocar internet banda larga e rápida para uma pequeníssima minoria acessar sem se desesperar como você, ou dar segurança a milhões de mulheres e meninas que vivem em campos de refugiados e são estupradas cotidianamente?

 

O que será prioridade? Você conseguir fazer um download rapidamente, ou promover acesso a medicamentos em regiões em que até 40% da população é HIV positivo?

 

Desenvolvimento é uma internet rápida? Ou será que desenvolvimento é antes de tudo um governo democrático, acesso a condições básicas de saúde para que malária e cólera não matem milhares, a realização do direito humano, a alimentação adequada?

 

Te garanto que para os 70% das mulheres na Libéria que foram violentadas durante a guerra, a prioridade não é a internet. Assim como para os milhões de sudaneses e congoleses em campo de refugiados.

 

E aí? Internet ou combate a Aids? Internet ou democracia, saúde, desenvolvimento? Internet ou combate ao estupro?

 

Para você, o que é prioritário para a África?

Escrito por Fábio Zanini às 19h47

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O uso da máquina pública na África

Imagine a cena.

 

Agosto de 2010, menos de dois meses para a eleição presidencial, e Luiz Inácio Lula da Silva chama a imprensa para, com estardalhaço, inaugurar uma imponente obra de engenharia sobre o rio Paraguai. A ponte “Ministra Dilma Rousseff”.

 

É evidente que no Brasil isso jamais acontecerá, porque a lei eleitoral evoluiu de uma maneira que proíbe o uso escancarado da máquina pública em favor de um candidato. É bem verdade que coisas mais sutis, como as intermináveis inaugurações de pedras fundamentais país afora, sobrevivem. Não há dúvida de que amadurecemos, no entanto.

 

Mas é exatamente isso que acaba de acontecer em Moçambique, que vai às urnas em 28 de outubro escolher seu novo presidente. Na verdade, aconteceu pior: uma ponte Armando Guebuza, inaugurada pelo presidente Armando Guebuza, no último dia 2 de agosto, às portas de uma eleição em que um dos candidatos é o mesmíssimo Armando Guebuza (foto de Stelio Bacar).

 

 

Difícil imaginar um exemplo maior de uso do Estado para fins particulares. A ponte é sobre o rio Zambeze, um dos principais a cortar o país. É um verdadeiro orgulho nacional e uma prova de que Moçambique tem hoje uma das economias mais dinâmicas da África. São 2.376 metros de comprimentos e 16 metros de largura, a um custo de 80 milhões de euros, que demoraram meros três anos e meio para serem concluídos. Para os padrões da engenharia africana, sempre sujeita a atrasos e falta de planejamento, uma verdadeira façanha.

 

Imagine para um candidato como será bom ser associado a uma obra dessas.

 

Rodrigo Leite, um jornalista brasileiro que vive na capital moçambicana, Maputo, descreveu assim a obra num email que me mandou: “Fica bem no meio do país, sobre o rio Zambeze, o maior de Moçambique, e portanto é considerada uma obra-símbolo da unidade nacional, porque permite a ligação entre o norte e o sul de Moçambique. Agora pode-se viajar o país todo sem usar nenhuma balsa, “do Maputo ao Rovuma” (o “Oiapoque ao Chuí” deles).”

 

Continua ele: “A dócil imprensa local fez críticas muito limitadas ao nome da ponte, e enquetes com personalidades dizendo que o nome fazia todo o sentido, porque afinal foi o Guebuza quem negociou o Tratado de Roma, de 1992, que pôs fim à guerra civil e selou a unidade nacional. Então, tá!!”

 

Não há dúvida de que a obra é necessária, mas precisava do nome? Na visão da nomenklatura da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), o partido que mantém o poder há mais de três décadas, o culto à personalidade é necessário. O partido está encastelado no poder e, embora não seja dos mais corruptos e administre seu país de uma maneira melhor do que a média africana, não tolera a possibilidade de uma eleição competitiva.

 

Moçambique é um exemplo acabado de um problema crônico na África, onde o partido se confunde com o Estado. Claro que a oposição, da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), não ajuda. É incompetente e tem há décadas um líder autoritário que se recusa a arejar o partido, Alfonso Dhlakama.

 

A Frelimo, um partido que pelo menos na teoria ainda se diz socialista, não corre riscos. Domina os meios de comunicação. A agência oficial de informações, por exemplo, só se refere à Renamo como “o ex-movimento rebelde”, pelo fato de ter travado uma guerra civil contra o governo dos anos 70 ao 90.

 

Mas a guerra acabou há quase 20 anos, e a Renamo já deu provas incontestáveis de que aceita o jogo democrático. Assim como não faz sentido referir-se no Brasil ao DEM toda hora como “partido que sustentou o regime militar. Ou ao PT como “partido que defende a estatização do setor bancário”, como fazia no começo. Os tempos são outros.

 

 Moçambique evoluiu muito, mas só será uma democracia madura quando houver espaço genuíno para o revezamento de partidos no poder.

Escrito por Fábio Zanini às 20h10

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Um pombo vence a internet

Esta é da série “só na África mesmo...”

 

Diz a agência Reuters, em notícia da semana passada, que uma empresa sul-africana da área de tecnologia de informação, a Unlimited IT, cansou de sofrer com a lentidão desesperadora da internet no país.

 

Decidiu testar dois meios para mandar um conjunto de dados de seu escritório na cidade de Pietermaritzburg para Durban, a 80 km de distância. Um pela internet, incluindo download e transferência de dados. Outro usando um método centenário, o pombo-correio. Numa das patas da ave, foi amarrado um cartão de memória.

 

Um doce para quem acertar quem venceu a inusitada disputa.

 

O pombo, de 11 meses de idade, cumpriu o percurso em 68 minutos. A internet, mais de duas horas depois, só havia transferido míseros 4% dos dados pela linha da Telkom, a empresa nacional de telefonia _que, humilhada, não quis comentar o assunto.

 

Incrível, mas é isso mesmo. Estamos falando da África do Sul, veja bem, de longe o país mais avançado da África. Mas que tem conexões de internet abaixo da crítica.

 

Já sofri isso na pele na África. A internet em todo o continente é atraso, atraso e atraso. No começo eu me desesperava, depois adotei uma técnica zen-budista de esperar estoicamente por uma página carregando a passos de cágado, e por fim, ao final de minha viagem de meses pela África no ano passado, encontrei uma forma de aproveitar o tempo. Levava sempre um livro ou jornal para ler enquanto esperava a geringonça funcionar.

 

Não deveria ser assim. Não há nada obrigando a África a ter de passar por experiências tão vexatórias, como a do pombo. A telefonia celular, por exemplo, funciona muitíssimo bem. Questão de investimento e prioridade. Não existe a noção de que internet significa educação, que significa desenvolvimento.

 

A coisa talvez melhore um pouco em breve. Um cabo de fibra ótica submarino, de 17 mil km de extensão, deve ligar as redes africanas a redes européias. A promessa é de que isso ocorra antes da Copa do Mundo de 2010. Porque hoje, internet na África, só discada, ou por satélite, o que é caríssimo.

 

Enquanto isso, parabéns para nosso amigo pombo. Que vai continuar tendo emprego garantido por algum tempo.

Escrito por Fábio Zanini às 20h14

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Mugabe, um gênio manipulador

A política é como as nuvens, aprendi aqui em Brasília como repórter que acompanha as estripulias do Congresso Nacional e o do governo. O inimigo mortal de ontem é o aliado de amanhã. O demônio de hoje é o herói da semana que vem. Como podemos ver na relação de Lula com Sarney (e com Renan, Collor etc.).

 

A política é a arte do pragmatismo ou, numa definição que aprecio muito, a arte de engolir sapos mantendo um baita sorriso no rosto. E isso em qualquer lugar do mundo. Assim, baseado friamente no que é a política, não deveria surpreender o encontro cordial de ontem entre Robert Mugabe, presidente do Zimbábue, e uma delegação da União Européia, em Harare (a foto abaixo é da BBC).

 

 

O encontro, disse Mugabe, “foi muito bom”. “Damos-lhes as boas vindas com braços abertos. Espero que nossas conversas sejam frutíferas e tenham resultado positivo”, afirmou ele a seus interlocutores, no começo do encontro. O chefe da delegação européia, Karel De Gucht, responsável pela área de desenvolvimento, foi um pouco mais contido (constrangimento?): “Houve progresso e uma atmosfera muito aberta”, declarou. Conversaram sobre ajuda financeira e a eliminação das sanções contra integrantes do regime zimbabuano.

 

Este é o mesmo Mugabe que até bem recentemente era o diabo encarnado, ao menos aos olhos dos europeus. O presidente, desde 1980 no poder, sem dúvida fez por merecer a má fama. Perseguiu opositores, massacrou rivais étnicos, mandou fechar jornais, destruiu a economia e enriqueceu sem pudor. Levou o Zimbábue à maior inflação do mundo. Desestabilizou um continente inteiro. Para completar, roubou uma eleição perdida no ano passado.

 

Mas Mugabe é um gênio. Sabe sobreviver e manipular a platéia. Quando acuado, soltava sua retórica contra “imperialistas e neocolonizadores brancos” e assim, jogando com o lado emocional dos africanos, assegurava uma sobrevida no poder.

 

Sua tática é a de muitos autocratas africanos. Morder e assoprar; apertar e soltar um pouco as rédeas do poder; controlar os ânimos do país de modo a nunca correr o risco de ser deposto; antecipar-se aos adversários e confundi-los.

 

No início do ano, percebendo que o vento virava e que a população se impacientava, aceitou um governo de união nacional nomeando o arqui-rival Morgan Tsvangirai primeiro-ministro. Aos poucos, foi refazendo pontes com a comunidade internacional. O encontro com os europeus foi mais um importantíssimo passo nessa direção.

 

Não é a primeira vez que Mugabe faz um giro de 180 graus. Sua vida política é cheia de curvas bruscas. Em 1980, era endeusado pelo Ocidente como um líder da nova geração de africanos que tiravam seus países do colonialismo. Na metade da década, era um pária. Nos anos 90, comportou-se um pouco melhor e foi recompensado com chazinho com a rainha da Inglaterra e visita ao ex-primeiro-ministro Tony Blair em Downing Street.

 

De novo virou maldito, e agora de novo busca uma reaproximação. É evidente que seus interlocutores no mundo rico sabem que estão sendo usados, mas não conseguem escapar da armadilha. Podem argumentar que a política é como as nuvens, e que não podem ser inflexíveis. Talvez. Mas: 1-) desmoralizam-se no discurso moralista e 2-) ajudam um tiranossauro a sobreviver.

 

Robert Mugabe. Um gênio.

Escrito por Fábio Zanini às 19h17

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Na TV Brasil, o futuro da África

A TV Brasil começa no final do mês (dia 25, para ser mais exato) uma rara, raríssima série de reportagens da TV brasileira com foco na África. Chama-se "Nova África" e tem o objetivo de mostrar, pelo olhar de africanos comuns e esquecidos pelos meios de comunicação, soluções para os inúmeros problemas do continente.

No blog do meu amigo Carlos Alberto Júnior, correspondente da emissora em Angola, você pode ver um vídeo de apresentação da série. Está no link abaixo:

http://diariodaafrica.blogspot.com/2009/09/nova-africa.html

E este aqui é o texto de divulgação do programa:

"A série tem como objetivo retratar o continente africano da perspectiva dos africanos. Como escreveu o autor Mia Couto, a África vive uma tripla condição restritiva: prisioneira de um passado inventado por outros, amarrada a um presente imposto pelo exterior e, ainda, refém de metas que lhe foram construídas por instituições internacionais que comandam a economia.

Nesta série os africanos narram seus problemas e soluções: trabalhadores, políticos, assim como intelectuais, artistas e ativistas sociais africanos, cujas vozes e idéias estão quase ausentes no cotidiano dos brasileiros são nossos entrevistados.

Vários países africanos foram e estão sendo visitados e priorizamos os países com os quais o Brasil - pelas relações históricas estabelecidas ao longo de séculos - tem maiores afinidades culturais e econômicas, além dos acordos de cooperação firmados na atualidade

Assista, divulgue!"

Ficha Técnica

Direção Geral: Henry Daniel Ajl e Luiz Carlos Azenha

Direção de Fotografia: Markus Bruno

Projeto editorial: Luiz Carlos Azenha e Conceição Oliveira

Coordenação de Produção: Tatiana Barbosa

Reportagem: Aline Midlej

Produção: Paulo Eduardo Palmério

Assistentes de produção: Erica Teodoro, Yuri Gonzaga

Montagem: Marco Korodi, Augusto Simões

Roteiro programa estréia: Eduardo Prestes Diefenbach

Roteiro: Angela Canguçu

Consultoria Histórica: Conceição Oliveira

Finalização Gráfica: Fernando Clauzet

Trilha Original e Mixagem: Rafael Gallo

Coordenação de Pós-produção: Eduardo Prestes Diefenbach

Narração: Phil Miler

Narração "Os Lusíadas" de Luiz Vaz de Camões: Gero Camilo

Agradecimentos a Carlos Serrano, Rita Chaves e Adelto Gonçalves."

Aos poucos, a mídia brasileira acorda para a África. Não deixe também de acompanhar a série de Renato Ribeiro, no "Esporte Espetacular", da TV Globo, sobre os países africanos que tentam ir à Copa. Hoje, ele falou sobre o Gabão.

Escrito por Fábio Zanini às 18h47

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A hora da verdade nas eliminatórias africanas

Está certo que muita gente está torcendo como louco para que a Argentina fique de fora da Copa do Mundo da África do Sul, mas pense racionalmente: o torneio perderá muito caso a tradicionalíssima seleção de Maradona fracasse nas Eliminatórias (ou na repescagem).

 

O mesmo pode acontecer na África, depois dos jogos do último fim de semana. As últimas rodadas estão chegando, e muitas seleções fortes e com presença constante no torneio estão com a corda no pescoço.

 

As eliminatórias africanas são uma maratona cruel. Mais de 50 equipes disputando míseras cinco vagas, numa sucessão de fases e repescagens de dar vertigem. Sobraram agora 20 equipes, divididas em cinco grupos. Os vencedores dos grupos vão à Copa (a África do Sul, obviamente, já estava qualificada desde sempre).

 

Por enquanto, garantida mesmo só Gana, que já conquistou por antecipação a vaga no grupo D. A Costa do Marfim, no grupo E, também está praticamente dentro.

 

Nos outros três grupos, o bicho pega. No A, Camarões lidera (7 pontos), seguido por Gabão (6) e Togo (5). Faltam ainda dois jogos, e os camaroneses, que pegam Togo em casa na próxima rodada, têm um leve favoritismo. De qualquer forma, uma das duas equipes, veteranas de Copas, estará fora. Pior: o veteraníssimo Marrocos, em último, é praticamente carta fora do baralho.

 

No grupo B, a disputa é entre Tunísia e Nigéria. Moçambique, infelizmente, está em terceiro no grupo e dificilmente repetirá a façanha angolana na Copa da Alemanha. O Brasil deve ser mesmo o único país de língua portuguesa no Mundial. Uma pena, porque os moçambicanos fariam uma festa incrível na vizinha África do Sul. De qualquer forma, já pensou uma Copa sem a Nigéria?

 

E o grupo C é o mais dramático. O Egito, com 7 pontos, bicampeão africano, está três pontos atrás da azarona Argélia. Mas enfrenta a rival em casa na última rodada, e tem tudo para vencer, dado o fanatismo de sua torcida. Mas para isso tem que vencer a Zâmbia fora de casa, na próxima rodada.

 

Ver caras novas numa Copa é interessante, mas eu sou um tanto conservador. Para mim, o maior torneio do futebol mundial tem de ter as equipes tradicionalmente mais fortes, de maior mística, camisa mais simbólica e torcida mais presente. Na Europa, Portugal está pela bola 7. Na América do Sul, a Argentina. Já pensou uma Copa também sem Camarões, Nigéria, Egito e Marrocos?

 

Estou errado?

 

Em breve saberemos quem foi e quem fica. O suspense termina em novembro.

Escrito por Fábio Zanini às 21h31

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O poder da França na África

No atual mundo unipolar, em que só o que importa é a opinião dos EUA (vá lá, talvez da China também...), a França procura de maneira desesperada manter alguma relevância. O Brasil acaba de dar uma forcinha para essa tentativa um tanto triste, ao assinar um mega-acordo militar com os franceses. Se o governo brasileiro não voltar atrás, são R$ 30 bilhões em helicópteros, submarinos e caças.

O Brasil não está sozinho. Em nenhum local do mundo a França agarra-se com tanto afinco a suas pretensões globais como na África –mais especificamente, no oeste e norte do continente. No momento em que nos tornamos, para todos os efeitos, um satélite militar francês, convém observar o que ocorreu com os africanos que já trilharam esse caminho.

Na África, o império francês rivalizou com o britânico por hegemonia. As duas potências dividiram o continente de forma mais ou menos definida no século 19, como se cortassem uma pizza. A França dominante no oeste, norte e centro; a Inglaterra mais forte no sul e no leste.

Dos 53 países africanos, 20 são ex-colônias francesas e outros três (Congo, Ruanda e Burundi), apesar de colonizados pelos belgas, estão na órbita da francofonia. É muita coisa. A descolonização e a independência de novos países não eliminaram a influência econômica, militar e cultural da antiga metrópole, e a França se esforça para manter rédea curta sobre os ex-vassalos. Geralmente, com a ajudinha providencial de ditadores e crápulas locais.

Foi a França, por exemplo, quem ajudou a manter por décadas o ditador Mobutu Sese Seko no Zaire, o arquétipo do tirano corrupto africano do século 20. Foram os franceses quem apoiaram até o fim o regime genocida de Ruanda. É a França quem mantém no poder hoje os autocratas do Chade, do Congo-Brazzaville, do Togo e do Gabão, entre outros.

São três bases militares francesas no continente africano, prontas para intervir em nome de algum de seus protegidos, caso se sintam ameaçados. Ficam no Djibouti (leste), Gabão (centro) e Senegal (oeste). Além delas, há contingentes expressivos de franceses atuando na Costa do Marfim, Chade e República Centro-Africana. No total, cerca de 6.000 soldados estacionados permanentemente na África (o mapa abaixo é da "The Economist").

É claro que as situações são bem distintas. A França, no Brasil, não terá o poder de decidir sobre questões de política interna como tem na África. Aqui, é um acordo comercial, por maiores que sejam as implicações geopolíticas, e existe alguma reciprocidade envolvida. Há a promessa de transferência de tecnologia. Parece mais ser um acordo entre iguais, embora evidentemente não seja. Estamos bebendo da fonte francesa, e com isso de alguma forma representaremos seus interesses na América Latina pelas próximas décadas.

Na África,a relação é neocolonial. Ao assumir o cargo de presidente, Nicolas Sarkozy prometeu mudança de atitude na relação com as ex-colônias africanas. Anunciou um basta na sustentação de ditadores decrépitos e mais respeito aos direitos humanos e civis na África. Até agora, pouca coisa mudou na prática.

São os franceses que mantém de pé regimes que há muito já deveriam ter caído de podres. O ditador do Chade socorreu-se dos franceses há dois anos, quando esteve muito perto de ser derrubado por rebeldes apoiados pelo Sudão.

Apesar das diferenças e ressalvas, não deixa de ser curioso perceber uma mesma linha unindo a atuação francesa no Brasil e na África. No fim das contas, há um desejo claro de projetar-se em regiões periféricas do planeta mais pela força bruta que pela das idéias.

Escrito por Fábio Zanini às 22h14

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O poder hereditário no Gabão

Este é um roteiro tristemente comum na África:

 

1-) líder chega ao poder ainda jovem, de preferência num golpe, e vai ficando, ficando...

 

2-) após uns cinco ou dez anos, coloca seu filho num posto-chave, preferencialmente o de ministro da Defesa (mas pode ser das Relações Exteriores, ou da Informação também).

 

3-) com 15 ou 20 anos de mandato (ou 30, ou 40...), o dinossauro começa a caducar, ou a ter sérios problemas de saúde. Seu filho ganha mais poder ainda e se torna o presidente de fato.

 

4-) com a morte do papai, o filhote vira candidato do governo nas eleições “democráticas” marcadas para dali a alguns meses.

 

5-) a máquina trabalha por ele, os meios de comunicação o bajulam e a oposição fica amordaçada.

 

6-) as urnas são abertas e...surpresa! O filhinho assume o lugar do pai.

 

Esse ciclo acaba de se completar no Gabão, um país no oeste da África que tem muito petróleo e muita pobreza. Ali Bongo acaba de vencer a eleição provocada pela morte de seu pai, Omar Bongo, em junho, após nada menos do que 42 anos no poder.

 

Nessa eleição chegou até a haver um esboço de reação inconformada de entidades da sociedade civil e algumas celebridades gabonesas contra o roteiro mais do que previsível. Mas restringiram-se a setores da elite exilada e não foram páreo para a máquina oficial.

 

A vitória de Bongo júnior levou aos inevitáveis protestos de ruas de oposicionistas, apontando evidências de fraude. Mais de 50 foram presos na cidade de Port Gentil. Como também costuma acontecer nesses casos, prédios e locais relacionados aos antigos colonizadores (os franceses) foram os mais atingidos.

 

Serão talvez alguns dias de protestos, pancadaria, e depois tudo voltará ao normal.

 

Bonguinho já assume tendo que se fiar na estrutura de segurança. Sua legitimidade é questionada, ainda mais porque, no sistema político gabonês, não existe segundo turno, e ele ficou abaixo dos 50% dos votos (a explicação para isso é que seu pai concorria basicamente como candidato único).

 

O mais assustador é que é provável que não tenha havido fraude nos moldes clássicos: votos queimados, urnas estufadas etc. Não é necessário: a máquina clientelista e de propaganda sufoca qualquer possibilidade de uma concorrência leal.

 

Haverá protestos da comunidade internacional e a gradual aceitação do novo presidente. Que um dia provavelmente cederá o lugar para seu herdeiro, como num episódio de “The Tudors”...

Escrito por Fábio Zanini às 19h47

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Um bom documentário sobre Ruanda

Em 2007, um grupo de estudantes de jornalismo da Unasp (Centro Universitário Adventista de São Paulo) decidiu levar a sério seu trabalho de conclusão de curso. Impressionados com as histórias terríveis do genocídio de Ruanda, mas sem medo do que iriam encontrar, partiram para o pequeno país da África central que tenta se reconstruir 15 anos após uma das maiores matanças do século 20.

Lá, entrevistaram sobreviventes, visitaram locais de massacres e conversaram com autoridades, ongueiros e especialistas. O resultado é um belíssimo documentário que recebi num DVD chamado “Memórias Feridas, o renascer de uma nação”.

São 50 minutos de entrevistas caprichadas, técnica apurada e uma narrativa histórica muito correta. Quem assina o trabalho são os estudantes Joelmir Mello, Larissa Jansson e Paulo Mondego.

Ruanda é um país minúsculo, de lindas colinas verdes e uma impressionante história de superação. Há uma década era um país arruinado. Hoje, é um dos Estados africanos mais organizados, com crianças indo à escola, estradas bem cuidadas, respeito ao cinto de segurança e clínicas surgindo em todo lugar. Se há uma crítica a ser feita é à falta de liberdade da nação, governada como se fosse uma escola militar pelo presidente Paul Kagame. Mas Kagame comporta-se como um déspota benigno: não há tortura nem desaparecimento de adversários políticos.

Talvez a maior surpresa seja a segurança. Em Ruanda, caminha-se tranquilamente na rua durante a noite.

Por email, conversei com Larissa e Paulo. Ele, aliás, de uma boa definição sobre os ruandeses: é um povo que fala com os olhos. É verdade. Há dezenas de expressões com os olhos, boca e sobrancelhas que sempre querem dizer alguma coisa. Custa até um forasteiro se acostuma.

Se alguém se interessar em comprar o DVD, é só entrar em contato com Larissa no tel. (47) 9965-6627 ou email larissa.jansson@uol.com.br

Pé na África - Quantas pessoas foram para Ruanda? Quanto tempo vocês passaram lá?

Larissa - Ficamos entre 31 de julho e 15 de agosto de 2007 -16 dias em Ruanda. Fomos eu, Joelmir Melo, Paulo Mondego e o cinegrafista Jean Gabriel, que já foi nosso professor em períodos anteriores.

Pé na África - Foram para onde?

Larissa - Nosso roteiro incluiu a capital Kigali, onde fizemos a maior parte das entrevistas. Lá visitamos o Memorial de Kigali, a ONG Hope After Rape e as “gacacas” (tribunais tradicionais para julgar criminosos do genocídio) que são mostradas no documentário. Entrevistamos as autoridades políticas – entre elas o ministro da Cultura Joseph Habineza- e a antropóloga americana Kristin Doughty. Visitamos, na Província Sul, o memorial de Murambi, que era uma antiga escola técnica protegida pelos franceses. Milhares de tutsis (etnia que foi a maior vítima do genocídio) tentaram se proteger na escola, mas os franceses os abandonaram nas mãos dos hutus (etnia rival, que estava no poder).

Paulo - A ONG Hope After Rape trata de mulheres estupradas durante ou após o genocídio. Ali, elas aprendem atividades manuais e convivem com muitas dificuldades de moradia, higiene e saúde. Muitas deles possuem o vírus HIV. A gagaca é o sistema judiciário com origem no período pre-colonial que foi resgatado após do genocídio para julgar e condenar os criminosos do massacre. Com exceção dos mandantes que foram e ainda estão sendo julgados pelos tribunais internacionais.

Pé na África - Como surgiu a ideia desse documentário?

Larissa - Um dos nossos orientadores, o jornalista Ruben Holdorf, deu a idéia. Contudo, a idéia original era produzir um material contendo entrevistas com brasileiros que estiveram em Ruanda antes, durante e depois do genocídio e contar como foi essa experiência. Mas encontramos dificuldades, daí mudamos a pauta para irmos visitar a própria Ruanda.

Paulo - Há que se considerar que o grupo tinha um grande interesse em fazer um trabalho que extrapolasse os limites do óbvio. Depois da orientação do professor Ruben, listamos vários temas que considerávamos desafiadores e tudo que acrescentasse algo novo. Ruanda venceu em ineditismo e dificuldade financeira, e depois de muitas tentativas frustradas de patrocínio a Larissa abdicou de seu veículo para investir nesse sonho.

Pé na África - Quem patrocinou o projeto?

Larissa - Tivemos muita dificuldade para conseguir dinheiro. Começamos a procurar por patrocínio cerca de um ano antes e até uns três meses antes da viagem não tínhamos conseguido. Daí vendi meu carro, não teve jeito!

Pé na África - Por que falar justamente sobre o genocídio de Ruanda?

Larissa - Acho que embora essa tragédia já tenha acontecido há quinze anos, é sempre um tema atual. Penso que o que aconteceu lá é um grande exemplo do que podemos aprender. Quando adotamos uma atitude preconceituosa e discriminatória com uma pessoa ou grupo, nem lembramos do que esse tipo de atitude já foi capaz de causar. Olhar para a história e aprender com tragédias como o Holocausto, Ruanda, Camboja e Darfur é o que cada um de nós precisa fazer para sermos pessoas melhores, mais tolerantes, capazes de ver o ser humano independente da etnia, classe social, sexo ou nacionalidade. Precisamos entender melhor o valor da vida humana.

Paulo - Particularmente a história de Ruanda não era nova pra mim, uma vez que eu tinha uma amiga que trabalhou como voluntária em uma ONG em Kigali. Depois disso assisti a uma palestra de outra voluntária que acabara de retornar de sua experiência também como voluntária da mesma ONG. A partir daí comecei a pesquisar ainda em 2006 sobre a história daquele povo que fala com os olhos. Quando finalmente formamos o grupo para realizar o trabalho eu logo citei Ruanda como possibilidade, a aceitação foi geral e depois com a orientação do professor ficou mais clara essa possibilidade. No entanto, eu creio que o que nos levou a Ruanda foi um desejo muito grande de ver de perto aquilo que antes era visto só em livros de histórias ou filmes de Hollywood. Fomos com tanta intensidade que cada um absorveu de maneira muito própria uma das mazelas da humanidade, a guerra. E depois de terminar o trabalho entendi por que fui lá. Um dos nossos entrevistados disse no final: “Deus nos abençoou, nos deu um trabalho, estamos vivos”. Fomos a Ruanda por causa dessa gente que está viva lá, que carrega história de superação e dor, que conhece muito bem dois extremos do ser humano, a crueldade e o perdão.

Pé na África - Como vocês se sentiram fazendo as entrevistas?

Paulo - Em muitos momentos eu me perguntava o porquê. Qual a razão de tantas mortes em poucos dias. Por que tanto ódio. Depois de ouvir a mesma história em diversas perspectivas, entendi que agora o por que não era mais importante, mas sim o como superar. Eles vivem em busca da superação, o governo luta por isso, as pessoas almejam isso, todos esperam e sabem a importância da paz, pois só quem viu a morte de frente sabe o quanto vale a vida. Tentei a todo momento analisar os fatos como um cientista social, mas depois de ver fotos e corpos de gente assassinada pelo ódio passei a entender que o homem é capaz de tudo, inclusive de perdoar o imperdoável.

Larissa - Para mim em particular, foi difícil. Foi uma carga emocional tremenda. Chorei durante a visita ao Memorial de Kigali. Foi doloroso, difícil separar o pessoal do profissional. Estar ali, falando com sobreviventes de algo tão chocante, cruel e de consequências tão profundas foi algo que senti –e acho que ainda sinto, mesmo dois anos depois– profundamente. E ver aquelas pessoas de repente se abrindo, falando de algo tão doloroso para elas, ver que elas confiaram em nós daquela forma foi tocante e gratificante. Por melhor que tivessem sido nossas fontes políticas e contato com os melhores especialistas, por mais confiáveis que pudessem ser as pesquisas que fizemos, esse trabalho não teria sido tão fantástico como foi sem a contribuição daquelas pessoas. São delas as memórias feridas, são eles a nação que vem renascendo todos os dias, desde 1994.

Escrito por Fábio Zanini às 23h21

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Fábio Zanini Fábio Zanini, 34, é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), com mestrado em relações internacionais pela School of Oriental and African Studies (Soas), da Universidade de Londres.

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