A que mundo pertence a Tunísia?
TÚNIS (TUNÍSIA) – Falo pouco da África do norte neste blog (basicamente, apenas para ridicularizar o líbio Muhammar Gaddafi). Há dois motivos para isso: conheço relativamente pouco a região ao norte do Saara, embora já tenha visitado Marrocos e Egito no passado. E o principal: historicamente, a África do norte tem praticamente nada a ver com a África que me interessa muito mais, a África negra. Culturalmente, pertence ao mundo árabe, ao Oriente Médio, apesar de geograficamente todos dividirem o mesmo continente.
Usei parte das minhas férias para conhecer um pedaço desse mundo para mim quase invisível. Agora em novembro, passei dez dias na Tunísia, a ex-colônia francesa que divide sua identidade com o mundo árabe com um indisfarçável olhar para cima, para o norte.
A Tunísia tem muito da Europa mediterrânea. Sua capital, Túnis, é uma graça, e a avenida principal do centro, a Habib Bourguiba (nome do fundador do país) é uma reprodução em miniatura da avenida Champs Elysees, em Paris, com cafés e prédios charmosos.
O país funciona bem, como eu disse no texto anterior, e a organização urbana é impressionante. Não há muito do caos e da fumaça das cidades africanas. As cores predominantes são o branco das paredes e o azul claro das portas. A internet é provavelmente a melhor de todo o continente. Praticamente todos falam a língua do colonizador (além do árabe nativo), e não apenas uma elite, como é comum na África.
O país, para padrões árabes, é bastante ocidentalizado. A poligamia é proibida. Poucas mulheres cobrem o cabelo com véu, e encontrar bebida alcoólica não é muito difícil. Herança de Bourguiba, que chegou ao poder nos anos 50 (e só o largou nos anos 80) destinado a secularizar o novo país.
Socialmente, o país não vai mal. Claro, é subdesenvolvido, e percebe-se que a existência sobretudo no interior é difícil. Mas miséria extrema é rara. No ranking anual elaborado pela ONU, é o quarto país africano mais rico, atrás da Líbia (em que sobra petróleo) e de duas nações insulares, Maurício e Seychelles.
Mas o olhar, digamos, europeu, da Tunísia é torto. Falta algo básico, o que termina por aproximá-la, finalmente, do restante da África. Acertou quem pensou em democracia. Ali, não existe. O presidente, Zinedine Ben Ali, está no poder há 22 anos, desde que delicadamente removeu do poder o fundador da pátria, Bourguiba, já avançado em anos.
No mês passado, Ben Ali reelegeu-se para um quinto mandato de cinco anos, com apenas 90% dos votos. Digo “apenas” porque ele chegou a ter 99% em pleitos anteriores. Seus adversários potenciais são fraquinhos, mas por via das dúvidas costumam ser proibidos de concorrer por filigranas técnicas pelos juízes locais, amigos do ditador.
É bom que se ressalve que Ben Ali não é um ditador clássico, que prende e arrebenta, mas um caso mais sutil de déspota benigno, que se mantém no poder por meio do controle total sobre as instituições do país.
Sua foto sorridente, muitas vezes com a mão no peito, está em todo lugar. Nem no Zimbábue de Mugabe eu vi coisa parecida. O bonitão aparece em casas, postes, muros e prédios históricos (a foto abaixo é da cidade velha de Kairouan, principal centro religioso do país).

A imprensa é dócil como um cachorrinho. Todo boletim de rádio começa com uma notícia da agenda do presidente. Só depois de sabermos da participação de Ben Ali num simpósio sobre agricultura é que vêm informações sobre a guerra do Iraque, a do Afeganistão ou a crise econômica mundial.
O mesmo se aplica aos jornais. Num dos dias em que eu estava por lá, o jornal “La Presse”, principal de língua francesa, deu mais destaque para um discurso qualquer da primeira dama do que para a notícia dos primeiros casos de morte por gripe suína no país.
E eles não gostam da imprensa de fora. Antes de entrarmos no país, eu e minha mulher, que também é jornalista, tivemos um debate sobre o que escrever no cartão de entrada na linha “profissão”. Decidimos dizer a verdade, e sofremos as conseqüências. Fui levado para uma salinha onde um burocrata me perguntou dez vezes o que eu estava fazendo ali até finalmente ser convencido de que eram apenas férias. Liberou-nos só depois de anotar os dados do passaporte e de todo nosso roteiro no país.
É por isso que, ruas limpinhas à parte, a Tunísia ainda pertencerá, por um bom tempo, a um lugar chamado Terceiro Mundo.
Escrito por Fábio Zanini às 16h08
Um Carnaval na Tunísia
TÚNIS (TUNÍSIA) - “One, two, three! Viva l´Argelie!”.

Em ritmo cadenciado, hipnotizante, este era o grito, numa mistureba divertida de inglês e francês, que saía da garganta de milhares de jovens ensandecidos com a emocionante classificação da Argélia para a Copa do Mundo da África do Sul. Foi preciso realizar um jogo desempate contra o Egito, em campo neutro (no Sudão) para definir quem se classificaria. No final, 1 a 0 para a equipe de verde do Magreb.
O grito de guerra não era a única coisa improvável do evento. O local da comemoração era igualmente estranho. Pois estávamos não em território argelino, mas na vizinha Tunísia, que havia perdido sua própria chance de ir à Copa alguns dias antes, numa vitória para a limitada seleção de Moçambique.
Presenciei a comemoração no último dia 19, no centro de Túnis, a capital da Tunísia. Está certo que ali vive uma grande diáspora argelina, que obviamente não se continha de felicidade, mas deu para perceber uma enorme alegria também dos moradores locais.
Me diga: você sairia às ruas para comemorar a classificação da argentina? Os portugueses celebrariam extasiados um triunfo da Espanha? E os italianos com relação aos franceses? Vizinhos geralmente são rivais amargos no campo do esporte (e em outros campos também).
Como explicar o que aconteceu naquela noite em Túnis, a agradável capital da Tunísia? Como entender o fato de as principais artérias do centro da capital terem sido tomadas por buzinaço e as bandeiras verdes de um país vizinho?
Não tenho muito a resposta. O “chamado da tribo” é um ingrediente, obviamente. Em outras circunstâncias, o Egito, rival derrotado pela Argélia, poderia muito bem ter sido o beneficiário da torcida tunisiana. Ambos são países árabes e muçulmanos.
Mas a identidade com a Argélia é mais forte. Ex-colônia francesa, compõe, com a Tunísia e o Marrocos, um triunvirato conhecido como “Magreb” (vem do árabe “ocidente”, em relação à sua localização no oeste do mundo árabe).
São países que atuam de maneira muito parecida na esfera política internacional e têm laços culturais, étnicos e históricos fortíssimos, apesar de uma certa heterogeneidade econômica. A Tunísia é muito mais desenvolvida que o Marrocos e, principalmente, a Argélia.
Na cabeça daqueles jovens ensandecidos, portanto, prevaleceu a conclusão de que pelo menos um magrebiano irá para a Copa. De alguma forma, na África do Norte, a solidariedade intratribal fala mais alto.
Mas o mistério da alegria na noite de Túnis não se resolve. Afinal, uruguaios e argentinos, ou colombianos e venezuelanos, por exemplo, também são feitos da mesma “costela” cultural e histórica. E estou para ver um comemorando o sucesso do outro...
Escrito por Fábio Zanini às 11h13
Chegou Pé na África, o livro!
Olá!
Tem alguém aí?
Ainda estou de férias, mas interrompi brevemente para contar uma novidade das boas. Aos muitos que ao longo do último ano me perguntavam sobre "Pé na África, o livro", chegou a resposta. Está pronto e sai agora, pela editora Publifolha.
Para quem acompanhou minha viagem entre março e agosto do ano passado, por 13 países da África, está aí uma chance de reviver várias das histórias que contei nesse blog, com mais detalhes, além de outras que na época não couberam. Também faço uma análise histórica, política e social mais aprofundada sobre cada um dos lugares por onde estive. Algumas coisas um tanto assustadoras que eu não contei sobre o Zimbábue na época, para não preocupar minha família no Brasil (e também para não provocar as autoridades locais), estão lá. Como diz um amigo, é uma espécie de "Proibidão do blog". E tem fotos, mapas e o "making of" de cada passo da viagem.
Quem só quem conheceu esse blog recentemente poderá entender de onde ele surgiu. E para todos que se interessam pela África, por jornalismo e por viagens, espero que seja uma pequena contribuição.
Enfim, esqueça o novo livro do Dan Brown. Lançamento literário de fim de ano é Pé na África!
No link do lado direito desta página você já pode comprar. Em breve, estará nas livrarias.
Em Brasília, onde vivo, farei um lançamento em 10 de dezembro, na Livraria Cultura do Casa Park Shopping, a partir das 19h30 . Quem puder comparecer me deixará muito honrado!
Bem, é desnecessário dizer como estou feliz que o projeto Pé na África finalmente culmine nesse livro. E só tenho a agradecer a vocês, queridos leitores! Muito obrigado pelos comentários, elogios e críticas durante todo esse tempo. Valeu!
Escrito por Fábio Zanini às 09h56

Fábio Zanini