Fábio Zanini

Pé na África

 

Um país afogado em petróleo

JUBA (SUDÃO) – Qual a relação entre a cotação do barril de petróleo tipo Brent na Bolsa de Londres e a comida servida num hospital em Juba, provável futura capital do país a ser formado a partir da independência de dez Estados do sul do Sudão?

 

É surreal, mas a relação é direta.

 

Nada menos que 98% do orçamento dessa região vêm da receita do petróleo. Estou para encontrar lugar tão dependente de uma única commodity no mundo. Nem o Afeganistão depende tanto de sementes de papoula. Nem “banana republics” da América Central dependem tanto de banana.

 

Quando o petróleo flutua, o bolso do governo autônomo do sul do Sudão sente no ato. No ano passado, ele caiu, e cortes orçamentários foram ordenados imediatamente. No principal hospital de Juba, 30% do pessoal foi demitido. As refeições dos pacientes precisaram ser cortadas.

 

Este é um exemplo da fragilidade econômica do novo país, que deve se tornar independente no começo do ano que vem. O petróleo gera receita de impostos, mas não emprega quase ninguém. É uma atividade de uso pouco intensivo de mão de obra.

 

As jazidas ficam longe da capital, e a exploração é manejada sobretudo por chineses e por representantes do governo central do Sudão. O principal oleoduto segue rumo ao norte, o que faz supor que, mesmo independente, o sul não conseguirá cortar totalmente o cordão umbilical com o país ao qual hoje pertence.

 

O petróleo traz alguns benefícios, claro. Juba assiste a um boom da construção civil. Prédios para o futuro governo sobem rapidamente na cidade. Já há duas avenidas asfaltadas na cidade. Pode parecer pouco, mas até há pouco tempo a “capital” só tinha ruas de barro. Outras estão em processo de pavimentação. Mulheres e crianças quebram pedras sob o sol escaldante, que serão usadas no asfaltamento. Recebem quase nada, mas pelo menos é um emprego.

 

A infraestrutura para dar conforto aos expatriados também vai bem. Hotéis e restaurantes surgem a todo momento. Juba sofre um caso clássico de “síndrome do carro branco” (referência à cor dos 4 x 4 das agências humanitárias): preços proibitivos para os moradores locais, cobrados em dólar; produtos importados, sufocando produtores locais. Abaixo, um lote de ônibus chega a Juba pelo seu “porto” (um barranco cheio de carcaças enferrujadas).

 

 

 

O governo fala que é urgente a necessidade de diversificar a atividade econômica. Alguns traços disso lentamente aparecem. No ano passado, foi inaugurada uma fábrica de cerveja na periferia de Juba. Parece provocação contra o norte do país, em que vigora a lei islâmica, a sharia, que veda o consumo de álcool (o sul é cristão).

 

A marca produzida ali é “White Bull”, que espertamente bolou um slogan aproveitando o momento histórico por que passa o sul do Sudão: “celebrando paz e prosperidade”. Essa é uma foto da fábrica

 

 

 

Ian Elvey, diretor da unidade, uma subsidiária da sul-africana SAB Miller, afirma que não tem medo de instabilidade ou de uma nova guerra na região (entre 1983 e 2005, 2 milhões morreram no confronto entre o norte do Sudão árabe e o sul negro). “Estamos aqui porque acreditamos nesse país”, diz. O roqueiro Franz Zappa uma vez disse que um país, para ser reconhecido como tal, precisava no mínimo ter uma cerveja e uma linha aérea própria. Metade da exigência já foi cumprida em Juba.

 

E há outro setor em franca expansão, o da vigilância privada. A Veterans Security Services é uma das diversas empresas oferecendo proteção armada para pessoas e canteiros de obras. Como o próprio nome diz, é formada por veteranos do exército rebelde do sul do Sudão, que agora estão perigosamente ociosos e sem saber fazer nada além de matar. A empresa oferece treinamento de um mês para que os ex-rebeldes passem para uma atividade civil.

 

Este é seu cartaz, numa rua de Juba, dizendo que seus homens são “altamente treinados, disciplinados, profissionais e corteses”.

 

 

 

Mas a fábrica de cerveja emprega 283 sudaneses. A empresa de segurança, 350. O sul do Sudão tem 5 milhões de desempregados. Por aí, você tem a medida do desafio que o jovem país enfrentará.

Escrito por Fábio Zanini às 06h17

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Vem aí um novo Estado fracassado?

JUBA (SUDÃO) – A primeira reação que tive ao chegar a Juba foi me perguntar: como uma cidade assim aspira a ser capital de um país independente em menos de um ano?

 

Não há nada ali, além de duas avenidas asfaltadas, alguns hotéis que brotaram não sei de onde e muitos prédios do governo, agências humanitárias e órgãos ligados à ONU. Comércio? Dois postos de gasolina, um ou outro mercadinho e só. Dois hospitais (se bem que um deles, vou te falar, só com muita boa vontade para chamar de hospital), uma ponte metálica sobre o rio Nilo, um porto que na verdade é um barranco para balsas enferrujadas e mais nada digno de nota.

 

O aeroporto é um casebre, com um sistema “revolucionário” de entrega de bagagem. Na falta de uma esteira, um funcionário empurra as malas no chão, uma a uma, de um canto a outro do “terminal” de desembarque.

 

Mas é verdade, essa cidade poderá muito em breve ser a capital do 193º Estado soberano do mundo, o Sudão do Sul (se bem que desconfio que vão arrumar um outro nome para o lugar).

 

Para janeiro, está previsto um plebiscito sobre a independência de dez Estados do sul do Sudão, que na prática já formam uma outra nação.

 

 

Suas 10 milhões de pessoas são negras, em nada parecidas com seus compatriotas árabes do norte. Têm muito mais relação com a África central. Também não seguem o Islã. Preferem o cristianismo e religiões tradicionais africanas.

 

Durante duas décadas, sul e norte guerrearam, tendo em mente, como não poderia deixar de ser, riquezas naturais. O sul tem jazidas inexploradas de petróleo. Dois milhões de pessoas morreram, num dos conflitos mais feios do feio século 20 africano. Em 2005, finalmente um acordo de paz, e o sul conseguiu extrair do norte a promessa de que, se quisesse, poderia se separar. Daí o plebiscito, marcado para janeiro de 2011.

 

Num continente em que a integridade dos Estados é sacrossanta, e que casos raros de independência são arrancados na marra, a perspectiva de uma secessão pacífica, baseada na vontade do povo, é boa demais para ser verdade.

 

Tão boa que custa a crer. Como escrevi na matéria publicada ontem na Folha de S. Paulo, Juba será em breve uma nova capital ou o palco de uma nova guerra. Talvez as duas coisas. É difícil imaginar o norte aceitando perder 25% de seu território e incontáveis riquezas sem uma atitude mais drástica, embora prometa respeitar a decisão popular.

 

Não há muita dúvida de que um voto seria pró-independência. O sul se sente “colonizado” pelo norte –e totalmente abandonado à sua própria sorte. Quando comentei com um alto funcionário da missão da ONU que havia muito ressentimento com o governo central, ele me deu uma sacaneada. “Esse é o eufemismo do ano”.

 

É fácil perceber de onde vem tanta insatisfação. A ONU fala em “estatísticas assustadoras” e a décadas de negligência no desenvolvimento da região. Mais de 90% estão abaixo da linha de pobreza. Ridículos 2% de mulheres sabem ler e escrever. Uma garota de 15 anos tem mais chances de morrer no parto que de concluir o ensino secundário. Nada menos do que 45% da população passam fome.

 

Nos próximos posts, falarei mais sobre esse novo candidato a um “Estado fracassado” que surge nos confins da África.

Escrito por Fábio Zanini às 12h59

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O Sudão e a sombra

CARTUM (SUDÃO) – O sudanês tem uma relação interessante com a sombra e a água fresca. Não é difícil entender por quê. Em quase duas semanas no país, transitando entre o centro, o sul e o oeste deste gigantesco país, nunca peguei temperatura abaixo de 40 graus.

 

Descobri também que o pior sol não é o de meio-dia, como pareceria lógico, mas o do meio da tarde. Às 15h, o calor machuca a pele, e é obrigatório se refugiar numa sombrinha.

 

Cartum, a capital, é uma cidade brotada no meio do deserto, com poucos espaços para um refresco na moleira. As várias pontes sobre o rio Nilo são uma providencial exceção. No meio do dia, dezenas de pessoas buscam nas sombras formadas às suas margens um descanso.

 

 

 

Alguns sentam em banquinhos improvisados, outros namoram, amigos simplesmente batem papo.

 

 

 

A confusão dessa metrópole árabe, congestionada e opressiva, parece estar longe. A praia de sudanês é embaixo de uma ponte.

 

No Sudão, a água faz as vezes de cafezinho. É sinal de boa educação oferecer ao visitante um copo, uma caneca, uma tigela ou até uma garrafa d´água antes de qualquer conversa séria começar. Ninguém quer saber de chá, café ou suco. É água e ponto.

 

Em Juba, no sul do país, fui surpreendido ao ser presenteado com uma garrafa de plástico, fechada e provavelmente recém-comprada de um supermercado, por uma deputada que eu ia entrevistar.

 

Num campo de refugiados em Darfur, foi tocante a cena de um senhor quase sem dentes entrando no seu barraco para pegar uma tigela com água para oferecer a mim e a meu tradutor.

 

Homens se protegem com um pano branco (que lembra uma toalha) enrolada na cabeça. Mulheres cobrem-se com tecidos coloridos, que protegem do calor e do poeirol. De alguma maneira, todos conseguem evitar que seus miolos derretam.

 

Eu? Usei um bonezinho e passei protetor solar diariamente. Obviamente, de pouco adiantaram para evitar que a cada final de dia chegasse ao hotel mais parecendo uma uva passa.

Escrito por Fábio Zanini às 16h05

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O ovo de Gaddafi

CARTUM (SUDÃO) – É difícil não perceber o Burj el-Fateh no horizonte de Cartum. Quem gosta acha um símbolo da modernidade de um novo Sudão, próspero e, por que não dizer, livre e democrático. Empresas o colocam em seus anúncios, e o governo publica sua silhueta em folhetos turísticos.

 

Quem não gosta é cruel: “ovo” e “dedão inchado” são duas das expressões que eu ouvi por aqui.

 

Na verdade, quando se fala em “ovo”, adiciona-se sempre o qualificativo “do Gaddafi”. O Burj é um empreendimento líbio, um país socialista que aparentemente sabe ganhar dinheiro de forma bem capitalista.

 

É o principal hotel de Cartum, com diárias a partir de US$ 450 e um restaurante com uma espetacular vista do rio Nilo, com bufê a US$ 50. A idéia era que se parecesse não com um ovo ou um dedão, mas com uma vela de barco. Tire suas próprias conclusões.

 

 

 

Todo envidraçado e ultramoderno, o Burj atende aos bacanas do pedaço e a dignitários estrangeiros. O pessoal da União Europeia que veio observar as eleições ficou hospedado lá, assim como a turma do Carter Centre, do ex-presidente norte-americano Jimmy Carter.

 

“Nossa clientela é internacional”, afirma Sabir Hassanein, gerente de reservas do hotel. Além de organismos multilaterais, vem muita gente interessada em ganhar dinheiro com o petróleo. Chineses e árabes são presença fácil nos corredores.

 

Os 230 quartos costumam ficar lotados durante eventos do setor petrolífero, a maioria realizados no centro de convenções do próprio hotel. Só há alguma facilidade de achar um quarto durante os piores meses do duríssimo verão sudanês (junho e julho), quando as temperaturas beiram os 50 graus.

 

O investimento no prédio de 21 andares é da Lybia Arab Foreign Investment, um braço do governo líbio que investe alguns dos petrodólares do regime de Gaddafi. No Burj foram despejados US$ 80 milhões.

 

Não é a única novidade na capital sudanesa. Duas outras torres de design heterodoxo estão subindo ali perto, uma para a Greater Nile Petroleum Operating Company (à esquerda na foto abaixo) e outra para a PetroDar.

 

 

 

Ambas operando, claro, no setor petrolífero, e controladas (além de construídas) por chineses.

 

Outras cinco torres serão iniciadas dentro de um ano, fazendo dessa parte de Cartum uma pequena Dubai. Se você é arquiteto e tem projetos malucos para prédios, tente a sorte por aqui.

Escrito por Fábio Zanini às 11h51

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O uso da máquina no Sudão

CARTUM (SUDÃO) – Ontem foi o primeiro dia de eleições multipartidárias no Sudão, um evento tão raro quanto investimento em prevenção de deslizamentos no Rio de Janeiro.

 

A última foi em 1986, há 24 anos, e se essa eleição está longe de ser perfeita (explico mais adiante), é histórica assim mesmo. O Sudão pertence ao mundo árabe, ao menos grande parte dele, e nesse pedaço do planeta geralmente a cédula é de partido único, com o presidente eleito com 99% dos votos.

 

Ontem, eleitores tiveram mais escolhas além do partido do Congresso Nacional, do presidente Omar al-Bashir, embora as mais fortes legendas da oposição tenham decidido boicotar a eleição. Al-Bashir vencerá com maioria retumbante, porque é um esperto marqueteiro e preside uma economia crescente.

 

Atingirá assim seu objetivo de mandar à comunidade internacional o recado de que o Sudão está com ele e não aceita o indiciamento por crimes contra a humanidade cometidos na região de Darfur (oeste).

 

Mas é um avanço, sem dúvida, dar ao eleitor mais de uma opção. Tímido, mas um avanço.

 

Visitei uma seção eleitoral numa região paupérrima, ao sul de Cartum, a capital. Uma cena emocionante velhinhos sentados em bancos de metal, totalmente desprotegidos do sol de 45 graus, esperando horas para votar. O primeiro voto de suas vidas.

 

 

 

Mulheres também esperavam pacientemente, com os trajes coloridos que são a marca do norte da África.

 

 

 

A região que visitei chama-se Soba al-Radi. Começou como um campo para refugiados há cerca de 20 anos, para pessoas de todos os cantos do Sudão que escaparam da fome, desemprego e de várias guerras.

 

Em diversas ondas eles chegaram. Primeiro os do sul do país, vítimas de uma das mais longas guerras civis que o continente já viu (1983 a 2005). Mais recentemente, os fugitivos de Darfur.

 

Hoje Soba al-Radi é um favelaço com 200 mil habitantes, ruas de terra vermelha, casebres de tijolos feitos de lama endurecida e cheiro de lixo. Uma escola pública foi escolhida como seção eleitoral, e logo várias filas se formaram.

 

Quase todos ali são eleitores de al-Bashir. Alguns porque realmente admiram o presidente. Beneficiaram-se do crescimento econômico e não dão a mínima para o sofrimento causado por ele em Darfur. Outros simplesmente porque são empregados do governo.

 

E muitos porque foram alvo de um dos mais descarados exemplos de voto de cabresto que eu já vi. Nunca testemunhei nada como o que ocorreu ontem. Eleitores chegando em carros do partido do governo, abertamente (fiz a foto abaixo).

 

 

 

Depois, encaminhados a uma tenda mantida pelo mesmo partido. Recebiam comida, água e um título de eleitor provisório, caso não tivessem documento. E muitos não tinham. Para poder votar, bastava que fossem “reconhecidos” como moradores do local por outras pessoas.

 

Analfabetos, ganhavam ainda uma cédula-modelo, ensinando a marcar na opção “arvorezinha”, símbolo do partido de al-Bashir.

 

Para quem acreditou numa eleição “livre e justa”, uma prova inconteste de que o mundo árabe ainda tem um salto a dar após o tímido passo de ontem.

Escrito por Fábio Zanini às 12h03

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A última eleição antes do fim do Sudão

CARTUM (SUDÃO) – Chegar ao Sudão tem um gosto doce para mim, porque foi o único país em que tentei entrar (como turista) há dois anos, durante a viagem de ponta a ponta do continente que deu origem a esse blog. Na época as autoridades sudanesas na embaixada no Egito me enrolaram, como eu já havia previsto. O Sudão é casca grossa na hora de aceitar estrangeiros.

 

Agora não só entrei como entrei deixando claro que sou jornalista, o que em tese seria cem vezes mais difícil. Isso se chama relações públicas.

 

O governo do Sudão está querendo se mostrar democrático. Domingo acontecem eleições históricas por aqui. Pela primeira vez em 24 anos, vários partidos estão concorrendo a diversos cargos: presidente, membros do Parlamento nacional, governos estaduais, assembléias regionais e o importantíssimo cargo de presidente da região sul do país.

 

Saber quem governará o Sudão do sul é especialmente relevante porque provavelmente esses serão os primeiros líderes de um novo país, a ser decretado em janeiro. O acordo de paz assinado há cinco anos que pôs fim a uma longuíssima guerra civil entre o norte majoritariamente árabe e o sul majoritariamente negro previu, além da eleição de domingo agora, um referendo sobre a secessão do sul.

 

É batata que a separação será aprovada, caso a consulta realmente ocorra (no Sudão, nunca se pode descartar uma nova onda de violência passando por cima de um processo democrático).

 

Mas voltando à eleição de amanhã. Os principais partidos da oposição decidiram boicotar o voto na última hora, misturando algumas preocupações legítimas quanto à imparcialidade do pleito com uma grande dose de oportunismo. Muitos se retiraram porque sabiam que iam perder. O SPLM, partido que domina no sul do Sudão, saiu só da disputa pela presidência do país, mas se mantém nos locais em que é competitivo.

 

Não importa. O presidente sudanês, Omar al-Bashir, decidiu seguir em frente com o voto. Para ele, está em jogo também receber um muito necessário voto de confiança da população. Bashir, no poder desde 1989, é aquele que foi indicado por crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional, em razão do ataque contra populações na região de Darfur (oeste), que já teriam deixado 300 mil civis mortos desde 2003.

 

Mas aqui, al-Bashir está tentando se passar por pacificador. Ostenta como trunfo acordos de paz com algumas das facções em luta, apesar de a situação continuar tensa na região. Esperto, espalhou alguns cartazes em inglês (com erros) pelas ruas da Cartum, embora quem entenda essa língua sejam apenas os jornalistas e observadores internacionais aqui presentes.

 

 

 

“Al-Bashir. Símbolo de unidade e paz”, diz a peça de propaganda. Na foto, é ele fantasiado de homem do povo, usando lança e vestimenta tradicional por cima do terno.

 

Quem reparar direito verá uma pele de leopardo, indumentária que ficou marcada como a preferida de Mobutu Sese Seko, do antigo Zaire (hoje República Democrática do Congo), talvez o maior ditador da história da África.

 

Apenas uma coincidência.

Escrito por Fábio Zanini às 12h14

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A volta do arame farpado

VENTERSDORP (ÁFRICA DO SUL) – É verdade que a África do Sul escapou de implodir em uma guerra civil logo que o apartheid acabou, mas não é fato que a transição tenha se dado de maneira indolor.

 

O período de 1990 a 1994 foi de conflito e massacres, nos quais morreram centenas de pessoas. De um lado, uma minoria branca temerosa de perder o poder e ainda com as forças armadas na mão. Querendo a criação de uma “pátria branca”, separada dos negros.

 

De outro, a maioria negra, ainda sem a força das armas pesadas, mas cada vez mais assertiva e disposta a fazer valer sua superioridade numérica.

 

No meio, polícia e muito arame farpado.

 

Tudo isso parecia consignado aos livros de história. A África do Sul de 2010 ainda está longe de uma harmonia perfeita, mas avançou muito no convívio racial.

 

Ontem, porém, o arame farpado voltou, na cidadezinha de Ventersdorp, a duas horas e meia de viagem de Johannesburgo.

 

Chega-se lá por estradas vicinais sem acostamento, atravessando belas fazendas de milho e criação de gado. Quase todas de propriedade dos bôers, os fazendeiros africâners (descendentes de holandeses).

 

Os dois mundos, negro e branco, se encontraram em frente ao fórum da cidade, um prosaico edifício de telhado zinco verde, num pacato lugarejo com não mais do que 10 mil habitantes. Vieram fazer vigília no dia da aparição em corte dos dois acusados (negros) pelo assassinato de Eugene Terreblanche, líder de uma facção radical branca, o AWB.

 

O AWB já foi bastante influente, mas hoje não passa de uma relíquia, um amontoado de viúvas do apartheid. Não importa. Ontem, figuras do passado espanaram o pó de roupas e bandeiras e foram à luta.

 

Cerca de 200 africâners estavam lá, indignados com o crime. A antiga bandeira tricolor da África do Sul (azul, laranja e branco), da era do apartheid, estava em todo o canto.

 

 

 

Alguns estavam vestidos para a guerra, com camisas e calças camufladas. Um grupo de quatro sujeitos mal-encarados num canto cortou na hora meu pedido de entrevista, de forma ameaçadora.

 

Outros usavam o uniforme da AWB, cujo símbolo tem clara inspiração nazista, como você pode perceber na foto abaixo, de uma senhora de 73 anos e seu neto de 13. São três números “7” pretos sobre um fundo vermelho, imitando a suástica. A explicação oficial é que o grupo foi fundado por sete pessoas.

 

 

 

Havia também muita indignação contra o governo. O assassinato de Terreblanche, ao que tudo indica, foi por causa de uma disputa trabalhista com empregados em sua fazenda. Mas tudo na África do Sul ganha contornos políticos. Por uma coincidência infeliz, alguns dias antes, uma ordem judicial proibiu membros do partido governista, o Congresso Nacional Africano, de cantar uma antiga música dos tempos do exílio cujo refrão diz nada menos do que “shoot the boer” (atire no boer).

 

Esse fazendeiro protestou, numa referência aos cerca de 3.000 boers assassinados desde 1994.

 

 

 

O cartaz diz: “Caça a fazendeiros. Licenças grátis emitidas pelo ANC [o partido do governo]"

 

E os negros?

 

Também estavam ali às centenas, abertamente felizes com a morte de Terreblanche, aplaudindo os dois suspeitos e os chamando de heróis. O AWB sempre foi odiado por eles.

 

Para não haver pancadaria, a polícia teve que separar os dois grupos por uma barreira de dois metros de altura de...arame farpado.

 

 

 

Uma decisão justificável do ponto de vista da segurança das pessoas, mas simbolicamente deprimente.

 

Outro simbolismo não passou despercebidos. Alguns negros acompanharam a movimentação de cima de um monumento honrando três membros do AWB mortos num confronto em 1991.

 

 

 

O dia terminou calmo, mas a tensão permanece. Por enquanto não houve onda de violência, e acho difícil que aconteça. Mas a África do Sul “nação arco-íris”, orgulhosa sede da Copa do Mundo em pouco mais de 60 dias, não poderia estar mais distante ontem em Ventersdorp.

Escrito por Fábio Zanini às 11h15

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Páscoa tensa na África do Sul

JOHANNESBURGO (ÁFRICA DO SUL) – Há muito não se via uma Páscoa tão tensa na África do Sul. O assassinato em circunstâncias inusitadas de Eugene Terreblanche no sábado jogou esse país de volta ao início dos anos 90, quando milícias negras e brancas se enfrentavam abertamente nas ruas das grandes cidades.

 

Será?

 

Não há base para tamanho pessimismo, apesar de a tentação ser grande. Terreblanche liderava o Movimento de Resistência Africâner (AWB, na sigla na língua africâner, derivada do holandês). Já teve muita influência no passado, mas atualmente era uma figura folclórica. Seus seguidores mal chegavam à casa dos milhares, usando uma ridícula simbologia aparentada à do nazismo. Ao morrer, Tereblanche era uma relíquia.

 

Naqueles tensos anos da transição para o final do apartheid, os brancos tinham o controle da economia e das forças de segurança. Conseguiram assim incluir na nova Constituição uma série de garantias anacrônicas, como o direito de se organizarem em comunidades abertamente racistas (em nome da preservação de sua cultura). Mas o tempo passou, e novas camadas de negros se apoderaram de fatias da economia e do aparato policial.

 

O temor de um contra-ataque em vingança pelas décadas de apartheid não se concretizou, muito por responsabilidade de, adivinhou, Nelson Mandela. Os brancos, 10% da população, preocupam-se hoje com seqüestros, assaltos e assassinatos. Mas os negros também. Há uma violência urbana que é racialmente cega hoje na África do Sul.

 

Apenas uma franja de lunáticos ainda sonha em voltar aos dias bicudos da segregação racial. Uma minoria delira em achar que uma nação africâner vai se levantar por força das armas e criar um país apenas para os brancos.

 

A tensão de agora é muito o resultado de uma infeliz coincidência: a morte de  Terreblanche, por dois de seus empregados, veio no momento exato em que uma polêmica correlata ganha as manchetes de jornais. Uma ordem judicial proibiu que negros cantem um hino da época da resistência ao apartheid cujo refrão pede que se “mate o bôer” (bôer é sinônimo de africâner, os descendentes de holandeses).

 

A irresponsabilidade de ambos os lados alimenta a fogueira, mas minha aposta é que após uma semana de tensão máxima, a nova África do Sul vai se impor. Vem aí uma Copa do Mundo, afinal.

Escrito por Fábio Zanini às 13h51

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O espetacular Green Point

CIDADE DO CABO (ÁFRICA DO SUL) – Mais um estádio espetacular para a série “não será por falta deles que a Copa vai dar errado”.

 

E que estádio. Green Point é seu nome, aqui na Cidade do Cabo.

 

 

Espetacular é pouco. A Fifa tem dito que é a arena com a vista mais bonita do planeta, de cara para a Table Mountain, a majestosa montanha em forma de, bem, mesa que define essa metrópole. E pode ser mesmo.

 

Com 66 mil lugares e ao preço de R$ 1,1 bilhão, foi o estádio mais caro da Copa. Está praticamente tudo pronto, com a exceção de alguns retoques finais nas avenidas de acesso.

 

Não dá muito para entender como foi preterido para sediar a abertura do Mundial (que será no Soccer City, em Johannesburgo, assim como a final).

 

Há uma desconfiança generalizada de que foi por critérios políticos. A Cidade do Cabo é o único reduto da oposição no país, já há bastante tempo. Dos jogos mais importantes do evento, o Green Point sediará apenas uma semifinal (que seria a do Brasil, se a seleção não decepcionar).

 

Não importa. O risco de esse estádio se tornar um “elefante branco” é minúsculo. A localização é ótima. A dez minutos de caminhada está o Victoria and Alfred Waterfront, principal reduto de hotéis, bares, restaurantes e lojas para turistas da cidade, todos “abençoados”, obviamente, pela Table Mountain.

 

De cima dela, aliás, o Green Point já pode ser notado, o mais novo acréscimo à beleza de uma cidade que não precisaria disso.

 

 

Poucos estádios da  Copa estão tão à vontade na vida da cidade. O Soccer City também é fantástico, mas fica sozinho no meio do nada, numa via que divide Johannesburgo do distrito de Soweto. O Ellis Park fica no nem um pouco agradável centro. O único que pode falar de igual para igual com o Green Point é o Moses Mabhida, de Durban, a poucos minutos das praias da cidade.

 

Na constelação de estádios novinhos em folha construídos para a Copa, o Green Point se destaca. É de se lamentar que não tenha tido mais destaque no evento.

Escrito por Fábio Zanini às 14h02

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PERFIL

Fábio Zanini Fábio Zanini, 34, é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), com mestrado em relações internacionais pela School of Oriental and African Studies (Soas), da Universidade de Londres.

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