Fábio Zanini

Pé na África

 

As curiosas cédulas do Sudão

Começaram a ser distribuídas na semana passada as cédulas que serão utilizadas no referendo que decidirá em 9 de janeiro sobre a independência do sul do Sudão.

 

O voto é cercado de tensão. Com 10 milhões de habitantes e quase 25% da área do Sudão, a parte sul, majoritariamente formada por negros, sempre se viu colonizada pelo norte, que é sobretudo árabe.

 

Como parte de acordos de paz firmados em 2005, o sul recebeu o direito a um voto sobre seu futuro, no qual, muito provavelmente, decidirá pela independência. Isso se o norte deixar e não criar encrenca (leia-se, provocar uma guerra). O sul já se arma para a eventualidade.

 

Mas voltando à cédula. É talvez uma das mais originais já pensadas. Lado, a lado, as duas opções, em árabe (falado no norte) e inglês (no sul): separação à esquerda, unidade à direita.

 

 

Mas como há quase 90% de analfabetos no país, adotou-se também uma solução visual curiosa: para separação, uma mal espalmada, em sinal de “pare”. Para unidade, duas mãos unidas.

 

As cédulas foram aprovadas pela ONU, que mantém uma missão de paz no país, e pelas partes interessadas no sim (o governo regional do Sudão do sul) e no não (o governo central baseado em Cartum). Há muito petróleo em jogo, lembre-se.

 

Me pareceu estranho o pessoal da separação não ter reclamado. Visualmente, a imagem pró-unidade é muito mais simpática do que a da mão espalmada, um tanto agressiva.

 

Numa campanha tensa, em que já há mobilização de Exércitos de lado a lado, algum desavisado pode votar pela unidade achando que vota pela paz.

 

Mesmo assim, não aposte contra a vitória da independência...

Escrito por Fábio Zanini às 21h44

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Retrospectiva 2010

Quais foram os principais acontecimentos na África em 2010? A lista, compilada pela revista “New Yorker” (e reproduzida pelo blog Baobab, da revista “Economist”), aponta, em ordem decrescente de importância:

 

1-) A Copa do Mundo da África do Sul;

 

2-) As polêmicas envolvendo gays em Uganda;

 

3-) A eleição presidencial na Guiné;

 

4-) O derramamento de petróleo da Shell na Nigéria;

 

5-) A seita Boko Haram, na Nigéria;

 

6-) Os indiciamentos do Tribunal Penal Internacional no Quênia;

 

7-) A independência iminente do Sudão do sul;

 

8-) A disputa presidencial da Costa do Marfim;

 

9-) A eleição presidencial em Ruanda;

 

10-) O ataque a bomba do Shabab (grupo afiliado à Al Qaeda na Somália) em Uganda.

 

Bem, até que o saldo não é dos piores.

 

Das dez notícias, há três indiscutivelmente positivas, incluindo a mais importante delas, a da Copa.

 

A ela, eu acrescento a eleição na Guiné (tensa, mas no fim das contas, com resultado pacífico, o que é surpreendente, dado o histórico de violência neste país do oeste africano) e os indiciamentos no Quênia (ainda que tardios, visto que a onda de violência eleitoral no país está completando três anos).

 

Outros dois são neutros: o crescimento da seita Boko Haram na Nigéria e a provável independência do sul do Sudão.

 

Um parece positivo, mas não é bem assim: a reeleição de Paul Kagame em Ruanda, num pleito calmo, mas em que a oposição foi sufocada.

 

Outro acontecimento, apesar de negativo, tem um quê de positivo: a perseguição aos gays em Uganda, que incluiu projeto prevendo a pena de morte para alguns tipos de relações homossexuais e a publicação, num jornaleco local, de gays que deveriam ser mortos. Tão absurdos foram esses acontecimentos que se criou uma reação entre defensores dos direitos humanos em diversos países africanos, que antes não tinham coragem de tocar no tema.

 

E o restante dos fatos (derramamento de petróleo, confusão na Costa do Marfim e ataque em Uganda) são negativos, ponto.

 

Bem, não foi um ano perfeito, mas só o fato de algumas notícias positivas, ou algo positivas, terem se imiscuído na lista, é alentador. E o fato de a principal notícia do ano ser um evento esportivo, e não uma guerra civil ou uma crise de fome, traz ânimo.

 

Sou um otimista incorrigível, como vocês já perceberam.

 

Feliz 2011!

Escrito por Fábio Zanini às 11h52

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O que fazer na Costa do Marfim?

A França orientou hoje seus cerca de 15 mil cidadãos na Costa do Marfim a deixar o país. Cresce exponencialmente a possibilidade de uma guerra civil num país que até dez anos atrás era símbolo de estabilidade.

 

Para rememorar: o presidente Laurent Gbagbo perdeu a disputa em que tentava se reeleger, há pouco menos de um mês, mas se recusa a deixar o cargo. A comunidade internacional reconhece a vitória do oposicionista Alassane Ouattara por uma margem convincente (54% a 46%), e ele instalou um “governo paralelo” num hotel de Abidjan, maior cidade e centro econômico do país.

 

A temperatura está subindo. O Banco Mundial congelou todos os financiamentos para um país que é bastante dependente de ajuda externa. Ontem, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon disse temer uma nova guerra civil, como a que já ocorreu nesta década.

 

Gbagbo, desafiador, ameaça decretar os capacetes azuis da ONU “inimigos”, o que deixaria essa força de paz em situação perigosa. Ouattara, por outro lado, pede que uma força externa invada o país e remova seu adversário do poder.

 

Uma situação que vai ficando dramática, portanto. Podemos entrar no Natal com mais uma guerra na África.

 

O episódio da Costa do Marfim é revelador em dois aspectos. Primeiro, é quase uma receita de bolo de como destruir um país estável e relativamente próspero (africanos são mestres nisso, vide o caso do Zimbábue).

 

Basta, para isso, um líder populista (Gbagbo), apegado ao poder e representante de uma elite corrupta com mais amor às suas mamatas que a noções de democracia. A exploração de rivalidades étnicas ajuda também, e o conflito na Costa do Marfim transformou-se em uma rixa entre o sul cristão e o norte com forte influência islâmica, e que se sente discriminado pelo poder central.

 

A segunda lição do episódio é que é muito difícil remover um autocrata aferrado ao poder (de novo, o Zimbábue é um bom exemplo). Nesse caso, a comunidade internacional inteira está contra o presidente, mas o que fazer?

 

Intervenção militar não é uma opção realista, seja porque potências não querem arriscar seus soldados num país de importância periférica (a Costa do Marfim é o maior exportador de cacau do mundo, mas cacau refinado ainda não funciona em motores de combustão), seja porque os países africanos não topariam a empreitada. Temem que possam ser os próximos da lista.

 

O caminho das sanções é o único que resta, mas não tem resultado imediato (sem falar que prejudica cidadãos comuns, que não têm nada a ver com o peixe). Se países vizinhos entrarem nessa pressão, ajuda um pouco. Mas não resolve. De qualquer maneira, é melhor que nada.

 

A guerra pode estar chegando, e será feia. Ouattara é ligado a Guillaume Soro, chefe da principal facção rebelde durante a década passada –ou seja, comandante de um Exército paralelo. A eleição era para ser o ápice de um processo de paz que fez de Soro o primeiro-ministro de Gbagbo. Há muito ressentimento de ambas as partes.

 

Sobretudo, a Costa do Marfim é um país grande e influente. Um conflito se espalharia por países vizinhos, com refugiados invadindo nações frágeis e pobres. Criando novos problemas, em resumo.

 

O abacaxi da Costa do Marfim é grande e ninguém sabe como descascá-lo.

Escrito por Fábio Zanini às 15h56

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Mais sobre o Mazembe, rival do Inter-RS

E eis que o Todo-Poderoso Mazembe, do Congo, adversário do Internacional-RS pela semifinal do Mundial de Clubes da FIFA, tem torcedores no Brasil.

 

Explica-se: sua cidade-sede, Lubumbashi, é área de atuação da Vale do Rio Doce, e muitos brasucas que vão para lá se afeiçoaram à equipe.

 

O advogado Paulo Sergio Alves de Oliveira, do Rio, me mandou o seguinte email, com informações preciosas sobre a equipe campeã africana de clubes.

 

“Fábio, gosto do seu blog.

Algumas coisas sobre o Mazembe:

O Mazembe faz um importante trabalho social na República Democrática do Congo, procurando resgatar, acima de tudo, a alegria. Não é a toa que o lema do seu mascote (maze) pronuncia-se maziii, é a alegria está em jogo.

 

O mascote (abaixo) foi desenvolvido na cidade do Rio de Janeiro pela agência Publicis e pelo torcedor que lhe escreve (está escrito "a alegria está em jogo").

O patrocínio do time é da Adidas, mas uma empresa de São Paulo (não posso lhe dizer o nome) desenvolve um novo uniforme para o ano de 2011.

Com a venda de camisas, bonés e do próprio mascote, o Mazembe vai construir em Lubumbashi um hospital para atendimento preferencial para a mulher (não dá para ser exclusivo em um lugar com a saúde tão precária), mas o entendimento é que a mulher quem segura as pontas em casa e mesmo em Lubumbashi o estupro é um grande problema.

Em Lubumbashi os deputados aprendem português em um curso ministrado na Assembléia.

O grito da torcida do Mazembe: Ê Mazembe, Ê Mazembe, Ê Mazembe, com canto ritmado, batendo as mãos na lateral dos joelhos e jogando-as para o ar.

No ano passado no dia 30 de junho (aniversário da independência da República Democrática do Congo) o Botafogo foi convidado para disputar um amistoso em Lubumbashi e não foi por causa do Joel Santana que vetou a realização do amistoso. O América F.C (com Romário e tudo) quase foi no lugar, mas a agenda apertou demais por conta da desistência de última hora do Botafogo.

Romário é o maior ídolo local.

O Mazembe possui torcida organizada na cidade do Rio de Janeiro.

Ê Mazembe!!!

Outras coisas:


A Vale possui escritório em Lubumbashi.

Existe um curso de português em Lubumbashi para facilitar o contato dos deputados de lá (provinciais) com os deputados da cidade do Rio de Janeiro.

Encontra-se constituída a Frente Parlamentar Rio de Janeiro - Lubumbashi.

Encontra-se constituída a Câmara de Comércio Brasil - República Democrática do Congo.

A Azul planeja instalar-se no Continente Africano operando voos regionais a partir de Lubumbashi.

E mais um montão de outras coisas, mas vamos ficar com o futebol.

Abraços.”

Escrito por Fábio Zanini às 11h29

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Todo-poderoso Mazembe

Sou são-paulino, mas é ÓBVIO que isso não tem a MENOR relação com o fato de amanhã eu ser Mazembe desde criancinha contra o Internacional de Porto Alegre, pelo Mundial de clubes da Fifa.

 

O Mazembe é a África em Abu Dhabi. Um time da República Democrática do Congo do qual eu, confesso, nunca havia ouvido falar. Mas surpreendeu nas quartas de final ao vencer o Pachuca mexicano e agora chega à semi contra o colorado.

 

Meu time, portanto.

 

O futebol congolês nunca se destacou em particular na África, embora o Mazembe já tenha vencido a copa continental de clubes quatro vezes.

 

Na Copa Africana de Nações, a República Democrática do Congo só venceu uma edição, no longínquo ano de 1968.

 

Muito mais famosos são os clubes do Egito, com a dupla de rivais Al-Ahly e Zamalek, ambos do Cairo, que fazem o clássico mais ruidoso do continente.

 

No outro extremo africano, a África do Sul tem dois gigantes do bairro de Soweto, em Johannesburgo, o KaizerChiefs e o Orlando Pirates (embora ambos estejam numa draga no momento).

 

Outros times de grande torcida são o Raja Casablanca, de Marrocos, e o Asante Kotoko, de Gana.

 

Mas não é por acaso que o Mazembe é chamado de Tout Puissant (Todo Poderoso). Domina o futebol de seu país. E não é para qualquer um jogar no Congo, ainda que o clube venha de Lubumbashi, no sul do país, uma área relativamente tranqüila de um dos países mais bagunçados do planeta.

 

Meus amigos da Wikipédia (não sei nada sobre esse time, lembre-se) me informam que o Mazembe foi fundado em 1939 por monges beneditinos, ainda durante o domínio belga. No começo, era chamado de Englebert, nome que tomou emprestado de seu patrocinador, uma marca de pneus. O que não deixa de ser irônico e algo apropriado, visto que o Congo, desde o final do século 19, tem uma relação ambígua de dependência com a borracha, fonte de riqueza e de trabalho escravo.

 

Depois da independência, nos anos 60, o Englebert foi pego pela onda nacionalista do continente e africanizou seu nome para Mazembe.

 

O time joga de branco e preto, uniforme parecido com o do Botafogo. O mais legal é o símbolo do clube, um jacaré comendo a bola.

 

 

É também uma das equipes mais diversas da África, reunindo jogadores de Zâmbia, Zimbábue, Camarões e República Centro-Africana.

 

Que mais? Sei lá. Vai, Mazembe!!

 

Escrito por Fábio Zanini às 11h02

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Uma esculachada no Brasil

O vídeo até que é bem divertido.

 

Uma galinha magricela entra cantando ao ritmo de “Garota de Ipanema”, e com sotaque que imita até que muito bem o brasileiro.

“Quem quer jantar a galinha que vem importada, que vem fechadinha, você não vê nada, é seca e magrinha, vem cheia de aaaaaaar...”

Eis que chega outra, bem mais gordinha. “Afasta, magricela”, diz, e dá um chega pra lá na concorrente. “Você só tem costela”.

A campanha passa em Moçambique, e é destinada a valorizar o frango nacional. Quem descobriu a pérola foi Amanda Rossi, estudante de jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP, que acaba de defender trabalho de conclusão de curso sobre o país da costa leste africana, chamado “A luta continua”.

“O frango nacional é melhor”, conclui o vídeo, produzido pela associação de criadores locais.

Este é um exemplo bem-humorado de um fenômeno africano: a relação por vezes ambígua dos países locais com o Brasil.

Com certeza, ela é majoritariamente positiva para nós. Africanos veem o brasileiro da mesma forma que o resto do mundo, com o futebol no topo da lista de referências.

Mas há mais: uma crença disseminada de que somos uma grande potência, e um espanto todas as vezes em que eu, em diversos países, procurava esclarecer que o Brasil ainda é, em muitos aspectos, um país pobre.

E, desde o governo Lula, o Brasil é também um país que fornece assistência técnica em áreas como saúde, educação, desenvolvimento econômico e agricultura. Moçambique é sede, por exemplo, de uma unidade da Fundação Oswaldo Cruz, referência em tratamento de saúde.

Inevitavelmente, no entanto, essa maior presença brasileira começa a vir acompanhada de uma percepção de imperialismo econômico. Algo que, diga-se de passagem, só tenderá a aumentar. É um processo que ocorre toda vez que um país começa a expandir seus tentáculos, seja EUA, França, China ou Brasil.

No caso do frango, os moçambicanos estão incomodados com a concorrência do produto brasileiro. Mesmo a meio planeta de distância, nossas penosas podem chegar às prateleiras locais mais baratas do que o frango oriundo de algumas centenas de quilômetros de distância.

Contribui para isso o fato de que Moçambique é um país extenso e com infraestrutura ainda precária. Passou 16 anos em uma guerra civil que, embora tenha se encerrado em 1992, continua a se fazer sentir na falta de uma malha de transportes decente. O país cresce, mas distribui pouca renda, e para o produtor rural moçambicano, as condições ainda são difíceis.

A campanha de TV é uma maneira sutil de dar uma estocada em nós, brasucas. Virão outras em breve, em outros países. Continuaremos a ser vistos com simpatia-quase-amor. Mas espere um pouco dessa boa-vontade se dissipando nos anos vindouros.

Escrito por Fábio Zanini às 10h43

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A Costa do Marfim brinca com fogo

Até para padrões africanos o que aconteceu hoje na Costa do Marfim cheira mal.

 

O atual presidente, Laurent Gbagbo, foi declarado reeleito no pleito do último domingo. Seu principal adversário, Alassane Ouattara, ficou a ver navios. E saiu dizendo ter sido vítima de fraude.

 

Até aí, normalíssimo na África. Presidentes normalmente se reelegem, no voto ou na marra, e à oposição resta espernear, ir à Justiça, fazer algumas passeatas, e nada adiantar.

 

Mas dessa vez estão brincando com fogo. O primeiro resultado apurado e anunciado pela comissão eleitoral deu vitória ao oposicionista Ouattara por uma margem clara: 54% a 46%.

 

Governos estrangeiros e a ONU correram para avalizar a eleição do oposicionista.

 

O presidente recorreu (e quando presidentes recorrem, as coisas podem dar resultado).

 

Tudo indicava que seria um caso raro de alternância pacífica de poder na África. Mas hoje algo inusitado aconteceu. A corte constitucional, que é hierarquicamente superior ao órgão eleitoral, aceitou o recurso de Gbagbo, sumariamente. Da cartola, retirou um novo resultado: o presidente venceu, pela suspeitíssima margem de 51% a 49%.

 

Isso eu nunca vi igual. Um resultado ser anunciado e depois rasgado, sem grandes explicações, em tempo recorde.

 

Já vi eleição cujo resultado demorou mais de um mês para ser anunciado (Zimbábue, em 2008). Já vi campanha eleitoral ser cancelada pelo governo na última hora, vendo que a oposição ia ganhar (Argélia, anos 90).

 

Mas resultado anunciado e depois cancelado, jamais.

 

Quando digo que estão brincando com fogo, é porque a Costa do Marfim não é a Bélgica, em que as disputas eleitorais crônicas são resolvidas de forma pacífica. O país tem um histórico perigoso de guerra civil e interétnica. Desde o início da década, esteve mergulhado em caos e violência diversas vezes.

 

Gbagbo controla a metade sul do país. Ouattara, o norte, etnicamente mais próximo dos habitantes de Burkina Fasso e que se sente historicamente discriminado. A frágil paz, até pouco tempo, era mantida por tropas francesas.

 

Imediatamente após o anúncio do surpreendente resultado, começaram distúrbios em Abidjan, maior cidade do país. As fronteiras foram fechadas, há restrições ao trabalho da mídia, foi imposto toque de recolher. Receita tradicional para um estado de exceção.

 

A Costa do Marfim é um dos principais motores econômicos do oeste da África. Se ela derreter em chamas, a região toda sofre. Dias tensos pela frente.

Escrito por Fábio Zanini às 21h37

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O que diz o WikiLeaks sobre Mandela

Desde domingo o site WikiLeaks despeja centenas de comunicados produzidos pelo serviço diplomático norte-americano ao longo das últimas décadas, que estavam destinados a ficar durante décadas protegidos pelo sigilo.

 

A maioria se refere ao Oriente Médio, China e sul da Ásia. Há também um punhado sobre o Brasil. E há um tantinho sobre a África também.

 

O mais importante é um despacho datado de 17 de janeiro de 1990, de autoria do consulado norte-americano na Cidade do Cabo, detalhando preparativos para a soltura de Nelson Mandela, que estava preso havia 27 anos.

 

http://cablegate.wikileaks.org/cable/1990/01/90CAPETOWN97.html

 

O comunicado é endereçado ao Departamento de Estado. Baseia-se numa conversa com Essa Moosa, então advogado envolvido com o Congresso Nacional Africano, partido (banido à época) de Mandela.

 

Moosa diz ao cônsul americano (não identificado no documento) que tem informação de que Mandela será libertado em 2 de fevereiro daquele ano (na verdade, a soltura só se daria em 10 de fevereiro).

 

 

Misturando interpretação dos fatos com o que resultou da conversa com o advogado, o cônsul dá algumas informações interessantes, ainda mais à luz do que se sabe hoje.

 

Uma das mais incríveis revelações é uma preocupação do governo da África do Sul de então, o do regime do apartheid, com “a definição de um homem, um voto”.

 

Essa expressão era o princípio basilar da democracia racial que o CNA e Mandela buscavam. Nada pode ser mais simples: cada pessoa (branco, negro ou mestiço) teria direito a votar sob as mesmas condições. Foi apenas proibindo o voto da maioria negra que o regime segregacionista conseguiu se manter no poder durante quase meio século.

 

É de se supor que, num período de tamanha dúvida, medo e confusão, o regime branco agarrava-se até mesmo à definição de “um homem, um voto” para procrastinar.

 

O CNA, uma organização de forte inspiração leninista e com DNA na luta armada, é descrita no comunicado como “pragmática”. A avaliação é de que o partido tinha conseguido controlar as massas, ensejando um período de calma.

 

“Moosa concorda que a atmosfera é muito menos tensa neste ano do que há seis meses”, diz o comunicado. Naquele momento, havia uma “crise ainda pior” em curso, em razão da falta de vagas em escolas destinadas aos negros. Mas as ruas estavam tranqüilas.

 

Da leitura do comunicado, parece até que a conversão do movimento de Mandela ao pragmatismo foi tranqüila. Longe disso. Durante a segunda metade da década de 80, cresceram as acusações de que o CNA tinha se vendido ao governo, ou no mínimo se tornado um partido de gabinetes.

 

Mesmo Mandela foi rotulado de colaboracionista ao defender a negociação. Como resultado, cresceram franjas radicais como o movimento Inkhata, dos zulus, que explodiria em confrontos com o CNA no início da década seguinte. A história mostraria, no entanto, que Mandela fez a conversão pragmática no momento certo.

 

Há outros aspectos pontuais, e alguns até divertidos. O consulado americano filosofa sobre o momento e o local da primeira aparição pública de Mandela livre. “Sentimentalmente, Paarl [onde fica a prisão em que ele estava] tem apelo junto a Mandela. Mas politicamente e praticamente, isso faz pouco sentido. Johannesburgo parece, de longe, o local mais apropriado” (no final, ele deixou a prisão andando e fez seu primeiro discurso na Cidade do Cabo).

 

Mandela também afirmou a “vários visitantes” que tinha uma boa opinião do então presidente Frederik de Klerk, o homem que o libertou (e com quem dividira o Nobel da Paz). “Acha que de Klerk é um indivíduo sincero, embora Mandela ainda o considere nada mais do que o líder do Partido Nacional [que comandava o apartheid]”.

 

A relação dos dois é curiosa. Primeiro, negociaram a libertação do próprio Mandela e a legalização dos partidos políticos. Depois, bateram boca, muitas vezes em público, sobre o desmantelamento do apartheid –De Klerk tentando mostrar aos brancos que não os havia vendido aos negros, Mandela tentando mostrar aos negros que não os havia vendido aos brancos.

 

Hoje, têm uma relação cordial, mas De Klerk vira e mexe alfineta o governo do CNA (algo que Mandela também faz, aliás).

 

E há o pânico dos EUA com a polêmica figura do pastor Jesse Jackson, interlocutor do CNA e do governo sul-africano, que ameaçava atropelar o samba e sair anunciando o fim do apartheid sem que isso tivesse sido negociado.

 

“É possível teme que o governo sul-africano esteja fazendo um trabalho bom em cultivar Jackson, e ele pode retornar aos EUA e anunciar que as sanções [contra o apartheid] devem ser levantadas”, diz o consulado.

Escrito por Fábio Zanini às 11h41

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PERFIL

Fábio Zanini Fábio Zanini, 34, é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), com mestrado em relações internacionais pela School of Oriental and African Studies (Soas), da Universidade de Londres.

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