Fábio Zanini

Pé na África

 

O Egito é o próximo?

As últimas semanas transplantaram para o norte da África uma tese que já esteve em voga no Sudeste Asiático, Leste Europeu e América Latina, sobretudo no auge da Guerra Fria: a teoria do dominó.

Diz a tese que a queda do ditador da Tunísia há duas semanas provocará algo semelhante em regimes totalitários na região. O próximo a passar por uma revolução democratizante já está escolhido: seria o Egito.

Isso sim seria um terremoto geopolítico. A Tunísia é inspiradora e simbólica, sem dúvida, mas periférica do ponto de vista geográfico, econômico, militar e populacional. O Egito tem 80 milhões de habitantes e a capacidade de mudar o panorama do Oriente Médio. Nada na região se decide sem sua opinião.

Mas realmente há condições suficientes para um repeteco?

À primeira vista, sim: um regime autoritário, um ditador decrépito no poder (Hosni Mubarak, há longos 30 anos), uma bomba populacional prestes a entrar em ignição: sem emprego nem perspectiva, o número crescente de jovens zangados só pode mesmo explodir em cima dos governantes.

Em tese, portanto, Mubarak tem de se coçar, e rápido, antes de ser a Maria Antonieta da vez.

Na vida real, é bem mais complicado, e se tem uma aposta que eu faria (e que eu gostaria, honestamente, de perder) é de que a hora de Mubarak ainda não chegou.

Colocar Tunísia e Egito no mesmo saco apenas porque são árabes é como igualar Brasil e Argentina apenas porque são latino-americanos.

Primeiro, porque o Egito é “grande demais para mudar”, parodiando a expressão que ficou famosa durante a última crise financeira, em que bancos não fechavam porque eram “grandes demais para falir”.

O Egito é aliado dos EUA e, visto do Pentágono, é um bastião de estabilidade numa região conturbada.

Mesmo que essa estabilidade seja na base da porrada, e mesmo que a mudança seria para melhor, haveria inevitavelmente um período de incerteza (como o que vive agora a Tunísia). Esse curto período seria perigoso demais, segundo a tese dominante em capitais ocidentais.

Segundo, o Egito tem uma “desculpa” que vem a calhar para se manter repressor: do outro lado estão os islâmicos da Irmandade Muçulmana. Noves fora o fato de a maioria desse grupo negar o fundamentalismo, eles assustam o suficiente. Seu pedido de democracia, de “um homem, um voto ,“é repelido com uma expressão carregada de sarcasmo: “um homem, um voto, uma vez”.

Ou seja, a democracia (um homem, um voto) seria a porta de entrada para levar ao poder regimes que logo depois aboliriam o sufrágio universal, a democracia.

Na Tunísia, lembremos, nunca houve nada que se assemelhe a um movimento islâmico forte.

O Egito, também, não tem classe média forte e secular como na Tunísia. Ironicamente, algo que é um tributo ao governo que acabou derrubado.

Por fim, como disse a última edição da revista britânica Economist, a repressão total à imprensa tunisiana (ao contrario da egípcia, que é um tanto mais livre) tirou do governo um mecanismo de aferição do nível de descontentamento social. Quando perceberam o tamanho da crise, já era tarde. Mubarak tem mais mecanismos de fazer jogadas populistas antes que o tsunami ataque.

Por isso, a tese de que o Egito é o próximo, é muito simpática. Mas ainda pago para ver.

Escrito por Fábio Zanini às 23h22

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As Comissões da Verdade doem

 

Em fevereiro de 1990, Winnie Mandela estava no auge. Ao lado de seu marido Nelson, deixava a prisão Victor Vorster, nos arredores da Cidade do Cabo, celebrando o início do fim do apartheid e o nascimento de uma democracia rial na África do Sul.

Antes que a década acabasse, um outro lado, bastante sinistro de Winnie, tinha vindo à tona. A de uma líder de gangue que, durante o apartheid, queimava e torturava supostos colaboradores do regime racista. De quebra, foi acusada de fraude e desvio de recursos públicos.

Hoje, Winnie é uma figura de estatura politica bastante reduzida. Continua idolatrada por parcela expressiva do Congresso Nacional Africano, o partido do poder. Mas o caráter mitológico que o hoje ex-marido Nelson Mandela conserva na sociedade sul-africana de forma geral, e internacionalmente, se foi. Ela é uma figura polêmica, para dizer o mínimo.

Corte rápido para Serra Leoa, que viveu, entre o final dos anos 90 e o início dos 00, uma guerra brutal. O conflito no pequeno pais do oeste africano, rico em diamantes, notabilizou-se por dois motivos: a grande quantidade de crianças soldados e a mutilação de braços e pernas de inocentes por brutamontes que se diziam rebeldes.

Ali, o governo formou uma milícia para prevenir massacres, conhecida como “kamajors˜. No início, era um grupo preocupado em preservar direitos humanos, mas logo isso se perdeu. Os kamajors descambaram para uma prática bastante semelhante à dos monstros que tentavam combater. Civis de áreas controladas por rebeldes eram mortos a esmo.

Seu líder, Sam Norman, era um mito para camponeses indefesos nas selvas leonesas. Mas isso não o salvou de ser acusado por atrocidades. Quando estive lá, em 2004, um assessor do tribunal que o julgava me explicou: “Mesmo anjos têm de ter regras quando combatem demônios˜.

Nos dois casos, o da África do Sul e o de Serra Leoa, algo aconteceu entre o antes romantizado de Winnie e Norman e o depois realista: Comissões de Verdade e Reconciliação.

São instrumentos que pretendem extirpar demônios escondidos nos anos de chumbo. Já aforam adotados em diversos países e agora devem chegar ao Brasil, segundo promessa da presidente Dilma Rousseff.

A ideia é curar traumas da sociedade um pouco da forma como se cura o alcoolismo em grupos especializados: pela fala desenfreada, a confissão, a sinceridade.

Ótimo. Mas como mostram os exemplos africanos, essas comissões têm de valer para todos. Só funcionou lá quando nem ícones foram poupados de dar explicações.

Me pergunto se as organizações de esquerda aqui também estão preparadas para responder por atrocidades que cometeram, ou por episódios nebulosos. É verdade que não existe equivalência moral entre um regime militar instituído que brutalizou milhões e grupos armados que se insurgiram como consequência. Mas também é verdade que, nas palavras daquele promotor em Serra Leoa, lutar contra demónios não dá carta branca a anjos.

Querem uma Comissão da Verdade? Excelente. O Brasil precisa delas. Mas estejam cientes: a verdade dói.

 

Escrito por Fábio Zanini às 22h40

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O impacto da revolução na Tunísia

É cedo para festejar a transformação da Tunísia em um raro exemplo de democracia no mundo árabe.

O país teve ontem e hoje dois dias de violência e morte. Não se sabe muito bem que apito tocam os novos governantes do local –o premie, Mohamed Ghannouchi, e o chefe do Parlamento, Fouad Mebazza, dois ex-integrantes da cozinha de Zine Ben Ali, o ditador destronado na sexta-feira.

Não se sabe se são democratas convictos ou se apenas vão emular o que fez Ben Ali em 1987, quando tomou o poder do fundador da moderna Tunísia, Habib Bourguiba, prometendo liberdade e democracia. Aliás, não se sabe nem se Ghannouchi e Mebazza são aliados ou rivais pelo poder.

Tamanha era a sombra que Ben Ali projetava sobre a pequena ex-colônia francesa que pouco se sabe sobre os que estavam a seu redor. Mas algo já é possível concluir.

Mesmo se tudo der errado a partir de agora, ainda será possível dizer que algo momentoso ocorreu nas ruas de Túnis, que trará consequências por muito tempo para uma das regiões mais autoritárias do planeta.

Não é todo dia que cai um ditador por uma revolta popular. Há paralelos recentes na Ucrânia e na Geórgia (em nenhum o que se viu em seguida foi um mar de rosas). No mundo árabe, o Líbano viveu um processo de mobilização de massas há cinco anos, que resultou na saída de tropas sírias do pais e numa democracia imperfeita.

O recado a ditadores é inequívoco, no entanto. Prosperidade moderada e estabilidade, como se via na Tunísia de Ben Ali, não bastam. Direitos civis são importantes. Corrupção incomoda. Transparência é uma exigência.

Egito e Líbia, liderados há mais de 30 anos pelos mesmos ditadores (Hosni Mubarak e Muhammar Gaddafi, respectivamente), podem, por que não?, viver processos semelhantes no futuro. Os reis de Marrocos, Jordânia e Arábia Saudita deveriam se preocupar. Idem para as demais ditaduras do Golfo Pérsico.

Nunca houve uma influência democrática no mundo árabe, com as exceções parciais do Líbano e, ironicamente, do Iraque pós-Saddam. O impacto do que ocorreu na Tunísia é, portanto, imprevisível.

No futuro, a revolução tunisiana pode entrar para a história como uma das mais improváveis e surpreendentes da história recente.  Na Ucrânia, foram necessárias semanas de protestos contra o ditador local, e a partir de certo ponto, já estava claro que sua queda era inevitável. Na Tunísia, Ben Ali era uma maçã podre que caiu ao primeiro sopro. Sua sombra era ilusória.

Olhando em retrospecto, fica fácil apontar sinais de um regime que não tinha como se sustentar. Há pouco mais de um ano, em novembro de 2009, estive na Tunísia e tive duas experiências reveladoras.

A primeira, na chegada, no porto de Túnis, quando ingenuamente escrevi “jornalista” no campo “profissão” do cartão de embarque e levei uma canseira de meia hora com a autoridade local, que quis saber tudo da minha vida, embora eu ali estivesse apenas de férias.

E a segunda na saída, quando o restinho de dinheiro local que eu levava para a área de embarque do aeroporto, para aquele tradicional último café antes do voo, foi confiscado por um operador de raio-x a título de ˜gorjeta”.

Repressão à imprensa e corrupção (ainda que pontual), sobre isso se assentava o regime de Ben Ali. Mas nem nos meus pensamentos mais delirantes eu suporia que aquilo em breve se tornaria uma bola de neve que derrubaria o velho líder.

Escrito por Fábio Zanini às 19h26

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Revolução na Tunísia?

Zinedine Ben Ali, o ditador da Tunísia, acaba de anunciar que não tentará mais uma reeleição (a quinta) em 2014. Seu país é a um só tempo parte da África e do mundo árabe, duas regiões onde líderes não gostam de sair do poder.

 

Sua promessa, dando de barato que será cumprida (2014 está longe e até lá muita coisa pode mudar), não é algo insignificante, portanto.

 

Ben Ali está no poder desde 1987, e faz o tipo autocrata do bem (como se isso existisse). A Tunísia tem o maior nível de desenvolvimento humano da África.

 

Realmente. Estive lá há dois anos. Estradas bem pavimentadas, internet que é uma beleza, nenhuma miséria aparente. Resorts e mais resorts que atraem turistas europeus. Nas interessantes áreas turísticas, caravanas e mais caravanas de japoneses e chineses.

 

Graças ao primeiro presidente tunisiano, Habib Bourguiba (1903-2000), pai da independência do país em 1956, o regime é bastante secular. Mulheres não são obrigadas a cobrir cabeça, e os níveis de emancipação feminina são os melhores do mundo árabe.

 

Mas aí vêm os problemas. Por onde se olhe está lá a figura do bonitão, Ben Ali, sorridente, às vezes levemente ameaçador, em pôsteres e cartazes. Alguns até emporcalhando fachadas de prédios medievais. E bandeiras, bandeiras e mais bandeiras do país.

 

 

Se há uma regra de ouro em qualquer lugar do mundo é de que essa onipresença de um líder prenuncia coisas sinistras. E a Tunísia é uma ditadura, e ponto final. O regime não é muito de prender e arrebentar. Tortura-se muito pouco. Desaparecidos são raros.

 

Mas a Tunísia é imbatível na arte de silenciar opiniões. A ONG Repórteres sem Fronteiras põe o país no último lugar no ranking dos que cerceiam a liberdade de expressão. Não há mídia local independente. Os jornais que existem são odes ao brilhantismo do ditador. A oposição e as ONGs não têm espaço político para respirar.

 

Lá, sempre houve um contrato não-escrito entre governo e população. Vocês me deixam com meu autoritarismo que eu garanto estabilidade e alguma prosperidade. Aos olhos do mundo, a Tunísia sempre foi um oásis de paz numa região conturbada.

 

Há mais ou menos um mês, essa máscara caiu. Primeiro, foi um estudante que ateou fogo ao próprio corpo, em protesto contra o governo. Depois, seguiu-se uma bola de neve: protestos em universidades por todo o país, confrontos com a polícia, decretação de toque de recolher (prontamente desrespeitado) e mais mortes. Mais de 60 pessoas podem ter sido mortas em apenas algumas semanas.

 

Para um país em que isso nunca havia acontecido, um choque e tanto. Que agora culmina no anúncio da saída de Ben Ali. Seu surpreendente gesto pode finalmente acalmar os manifestantes. Assim o velho autocrata espera.

 

Ou pode acontecer o oposto também. Zinedine, a exemplo de seu xará Zidane, pode ter dado uma cabeçada. Foi, afinal, uma confissão de fragilidade, e a massa pode se sentir encorajada a exigir sua saída imediatamente.

 

Isso, sim, seria inédito. Uma revolução popular democrática no mundo árabe.

Escrito por Fábio Zanini às 19h17

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A divisão sudanesa e seu impacto na África

Para onde vai a África depois da mais do que provável divisão do Sudão?

 

Enquanto se aguarda o fim da votação, no sábado, e depois a contagem dos votos (que promete ser um longo e demorado processo), especula-se o que pode acontecer com outros movimentos separatistas africanos (e no mundo, aliás).

 

Porque o Sudão do Sul criará um novo paradigma para a formação de Estados. Ainda mais forte que o de Kosovo, pois tende a ser universalmente reconhecido, ao contrário do que acontece com a declaração de independência da ex-província sérvia.

 

Sobre isso, escrevi o seguinte na Folha que saiu domingo:

 

“A descolonização africana começou há 50 anos com uma regra sagrada: fronteiras são indivisíveis. Ao longo de décadas, países surgiram às pencas, mas sempre respeitando o princípio conhecido no jargão da diplomacia como “uti possidetis” (o que você possui, em latim).

 

¦Do ponto de vista estratégico, fazia sentido que as linhas políticas traçadas pelas potências europeias no final do século 19 fossem a base para os novos Estados, por mais arbitrária que sua criação tivesse sido.

 

¦Uma espécie de acordo de cavalheiros proibiu subdivisões. Evitou-se, assim, que cada um dos centenas de grupos étnicos agrupados em alguns poucos países pelos colonizadores criasse seu Estado, receita para o caos.

 

¦Sempre que se buscou quebrar a regra, houve crises. A tentativa do sudeste da Nigéria de se separar em 1967 gerou a Guerra de Biafra, que deixou 1 milhão de mortos.

 

¦Não há precedente africano, assim, para a secessão do sul do Sudão. O caso mais próximo é a Eritreia, que se separou da Etiópia em 1993.

 

¦Mas a região havia sido colonizada de forma separada pela Itália antes de ser engolida pelos etíopes em 1951.

 

¦Quanto ao Sudão, trata-se da divisão de uma mesma ex-colônia (britânica), gerando um divórcio que será sentido por muito tempo em lugares como Somália, Angola e Marrocos, para ficar apenas em países africanos com movimentos secessionistas fortes.”

Escrito por Fábio Zanini às 11h05

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Os coptas do Egito

Raramente trato do Egito aqui, como já expliquei. O país é árabe, uma extensão do Oriente Médio que apenas por acaso está, como indicam os mapas (e o tabuleiro de War), no continente africano.

 

Mas de vez em quando é bom falar da região. Ainda mais quando algo inesperado e trágico acontece, como o atentado de sábado passado que deixou 23 mortos em Alexandria, segunda cidade mais importante do país. O alvo foi uma igreja cristã copta (foto), uma minoria que compreende cerca de 10% da população egípcia.

 

 

As cenas nesse caso, como sempre, são chocantes. Mas algo pior aconteceu. Um arranhão numa das mais positivas situações de tolerância religiosa de toda a África.

 

Pelo discurso oficial, os coptas são uma minoria integrada, respeitada e prestigiada no Egito, um país nominalmente governado por um regime secular, mas que na prática tem forte sentimento islâmico. A Irmandade Muçulmana, um grupo que se pauta pela observância do Alcorão, tem uma base social bastante forte, que só não se impõe politicamente em razão de restrições do regime do ditador Hosni Mubarak.

 

Grupos militantes radicais, apesar de bem menos influentes do que a Irmandade, também se fazem presentes. Um deles foi o responsável pela atrocidade em Alexandria.

 

Em resumo: num país islâmico, uma significativa minoria cristã vive em perfeita harmonia. Ou pelo menos era isso o que se imaginava.

 

Na prática, não é bem assim. Antes mesmo do atentado, os coptas reclamavam de serem relativamente mais pobres do que a elite muçulmana. Mas pelo menos não sofriam violência.

 

Aqui vale um parênteses. Os coptas são uma igreja autônoma do Vaticano, que segue ritos ortodoxos próprios e tem seu próprio papa. Separaram-se no século 5º da Igreja Católica tradicional. Têm alguma presença em outros países africanos, como a Etiópia, mas é no Egito que conservam sua principal base.

 

Hoje, é o Ano-Novo dos coptas, que seguem um calendário ligeiramente diferente do nosso. Multidões vão a igrejas espalhadas pelo país. O medo é palpável entre eles.

 

Há algumas coisas positivas a serem extraídas dessa situação. Líderes muçulmanos egípcios pretendem fazer atos de solidariedade aos coptas, pedindo paz. E pelo menos jogou-se luz sobre as condições de uma comunidade a respeito da qual pouco se fala.

 

Mas a maior conclusão não é essa. Não há como desconectar a bomba na igreja de Alexandria do clima político pesado que se respira no Egito, onde Mubarak acaba de roubar mais uma eleição (parlamentar). E no ano que vem, roubará outra (presidencial). É dele, em última análise, a responsabilidade pela instabilidade no Egito.

 

Escrito por Fábio Zanini às 11h48

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O ano de Obama na África?

Até agora, convenhamos, há uma certa decepção com a atenção dada por Barack Obama à África.

 

Tirando o importante discurso que ele fez em Gana em 2009, em que de maneira muito lúcida dividiu a culpa pelo subdesenvolvimento do continente entre fatores externos (colonização) e internos (corrupção, desgoverno), Obama deixou a região no fim da fila de suas prioridades.

 

Em parte, é natural nisso. O presidente assumiu com muita coisa para resolver: duas guerras complicadas (Iraque e Afeganistão), uma crise econômica e prioridades domésticas enrascadas (como a reforma da saúde). Ainda assim, fica uma sensação de que o filho de pai queniano poderia ter feito mais.

 

Será 2011 o ano “africano” de Obama? Talvez. Uma reportagem ontem da agência Associated Press aposta que sim.

 

“[Em 2011], ele vai focar na África em boa governança e em apoiar nações com fortes instituições democráticas”, diz o texto.

 

A Casa Branca informa que Obama viajará novamente ao continente, dessa vez numa jornada mais longa (quando foi para Gana, passou apenas uma noite no país do oeste africano).

 

Segundo Ben Rhodes, vice-assessor de segurança nacional dos EUA, a definição dos locais repetirá o que foi feito na viagem de 2009. Países serão escolhidos com base no exemplo positivo que dão de “modelo democrático”. Candidatos não são muitos, mas poderiam ser, por exemplo, a África do Sul, Moçambique, Senegal, Cabo Verde, Botsuana...

 

A Nigéria, um dos países mais influentes do continente, poderia ser incluída, caso sua eleição presidencial em abril transcorra sem muitas fraudes e violência (porque ausência total de fraudes e violência num dos países mais turbulentos do continente é, convenhamos, impossível).

 

Também haverá atenção especial ao que acontece no Zimbábue. Eleições gerais estão previstas para maio, e nooooooovamente o ditador Robert Mugabe deve se candidatar.

 

Citado na reportagem, o ex-embaixador dos EUA na Nigéria, John Campbell, hoje ligado ao Council on Foreign Relations, disse que as eleições podem dar a Obama a oportunidade de estabelecer “políticas claras” sobre o continente.

 

“A administração deveria ter menos disposição para ignorar quando eleições são menos do que livres, justas e de credibilidade”, disse Campbell.

 

Tudo muito animador, mas há dois testes importantes para o real comprometimento da Casa Branca com a África. O primeiro é a crise na Costa do Marfim, com a ameaça muito real de uma guerra civil. Até agora, os sinais são positivos: os EUA não reconhecem a recondução fraudulenta do presidente Laurent Gbagbo.

 

Outro está chegando: domingo, é o referendo de independência do sul do Sudão, e uma nova guerra no maior país do continente pode estar apenas começando.

 

Obama ainda tem muito o que provar na África.

Escrito por Fábio Zanini às 20h43

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PERFIL

Fábio Zanini Fábio Zanini, 34, é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), com mestrado em relações internacionais pela School of Oriental and African Studies (Soas), da Universidade de Londres.

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