Fábio Zanini

Pé na África

 

Bom dia, Egito

As imagens da queda de Hosni Mubarak são comoventes, mas há algo de inquietante nos eventos históricos de ontem no Egito. Ruas em júbilo não bastam para o nascimento de democracia. Às vezes, são o prenúncio ingênuo de mais autoritarismo, especialmente quando regimes militares “provisórios”se impõem.

 

Golpes militares não são exclusividade africana, por certo, mas do continente vieram exemplos recentes e preocupantes de juntas de salvação nacional assumindo o poder após a queda de déspotas. Ocorreu na Guiné, Mauritânia e Níger, para citar exemplos recentes. Desconfie sempre delas.

Mas meu (pequeno) mau humor com os acontecimentos no Egito fica para outro dia. E não apenas por ser impossível não festejar a revolução da praça Tahrir.

Bem-vindo, novo Cairo.

Bem-vindo, Rafael, nascido numa data marcante para a liberdade africana.

Volto daqui a alguns dias.

 

Escrito por Fábio Zanini às 18h30

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Um julgamento para a história

Enquanto o planeta olha para o norte da África e o restante do mundo árabe, coisas históricas ocorrem também ao sul do deserto do Saara, na África negra.

Amanhã termina um dos julgamentos mais importantes da história do direito internacional, o do ex-presidente da Libéria Charles Taylor. Acusado de crimes relativos à guerra civil em Serra Leoa, oeste da África, nos anos 90, Taylor foi parar em Haia, Holanda.


A promotoria pede a prisão perpétua, com base na acusação de que ele ajudou rebeldes leoneses a trocar diamantes por armas –os famosos “diamantes de sangue”.

Desde o início do processo, Taylor, preso em 2006 enquanto estava exilado na Nigéria e depois entregue ao tribunal da ONU sobre crimes de guerra de Serra Leoa, está se fazendo de difícil. Não apareceu em diversas audiências e fez muita catimba.

Hoje mesmo, seu advogado fez uma cena e abandonou a sala de audiências depois que um documento com suas alegações foi recusado pelos juízes, sob o argumento de ter sido apresentado fora do prazo.

Nada deve adiantar. Amanhã, os meritíssimos juízes começam o longo processo de deliberação, para dar a sentença em algum momento deste semestre.

Se condenado, Taylor entrará para a história como o primeiro ex-chefe de Estado a pagar por seus crimes num julgamento internacional. O sérvio Slobodan Milosevic morreu preso, antes de ser condenado. Saddam Hussein foi sentenciado no Iraque e enforcado, mas seu julgamento teve um cheiro desagradável de revanchismo (não que Saddam não fosse um monstro, mas é fato que o julgamento não teve os parâmetros legais que se espera da justiça internacional).

Se há algo a ser lamentado é que, após quase quatro longos anos, pouco se acompanhou um julgamento que deveria ser emblemático. O processo só virou notícia quando a modelo Naomi Campbell foi elencada como testemunha por ter supostamente ganho um diamante de Taylor...

Escrito por Fábio Zanini às 22h57

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Direto do front no Egito: Tati, uma noiva brasileira

Alguns de vocês devem ter lido na Folha, na internet e em outros veículos o que ocorreu com a mineira Tatiana Cardoso. De todos os brasucas que se viram no Cairo pegos de surpresa com a revolta popular, ela tem uma das histórias mais incríveis.


Tinha casamento marcado para 28 de janeiro com seu noivo egípcio, justamente dia do primeiro dos megaprotestos contra o ditador Hosni Mubarak. O toque de recolher, o caos instalado e o clima de medo levaram inevitavelmente ao cancelamento da cerimônia. Seus convidados vindos do Brasil aos poucos estão voltando pra casa.

Por acaso, Tati é uma grande amiga minha. Fizemos juntos mestrado na School of Oriental and African Studies, da Universidade de Londres (eu mesmo era presença certa nesse casamento, se não fossem algumas questões pessoais mais urgentes a me segurarem no Brasil).

Enfim, poeira um pouco mais assentada, ela mandou o seguinte relato. Para quem viu sua festa atropelada pela mais assombrosa manifestação popular das últimas décadas no mundo árabe, Tati está até que muito relax. Afinal, mineiro não é de se estressar com qualquer coisa...

Isso é o que ela conta:

“O bicho está pegando para a imprensa, as pessoas continuam na praça, lojas e bancos reabriram hoje, mas as escolas internacionais só voltarão em março. 

 Hoje, fui ao clube onde seria a festa para salvar uns docinhos brasileiros. Consegui juntar várias caixas e vou distribuí-los entre a resistência da comunidade brasileira -ou seja, os que sobraram por aqui. Na verdade, todas [as amigas brasileiras] que são casadas permaneceram. Os que viajaram foram os que trabalham para empresas brasileiras. 

Durante estes dias de semicativeiro -devido ao toque de recolher-, desci algumas vezes [para o centro do Cairo]. Cheguei a dormir no hotel da minha mãe, o Ramses Hilton, epicentro do conflito, cercado de tanques do Exército e vários carros queimados das noites anteriores. Isso de terça para quarta. 

De longe, espiamos a marcha do milhão da terça [quando os manifestantes dizem ter colocado 1 milhão de pessoas nas ruas]. Já na quarta, saí para levar meu pai ao aeroporto, e quando voltei para buscar minha mãe no hotel, tivemos que passar com as malas em meio aos tanques e caminhar contra a demonstração "pró-Mubarak". Por poucas horas, teríamos presenciado o quebra pau [nesse dia, milicianos pró-Mubarak invadiram a praça montados em cavalos e camelos]. Mas felizmente, assistimos a tudo pela TV. 

A perseguição está intensa. Alguns amigos do Ahmed [seu noivo] foram presos por tentarem levar comida para os manifestantes na praça Tahrir. 

Zanini [esse sou eu], assaltaram o Jazz Club [casa noturna que ela me apresentou]. Deixaram as bebidas, mas levaram equipamento de som! 
 
Todos que vieram para o casamento já estão de volta ou pelo menos já saíram do Egito. Túlio [seu irmão] e meu pai foram os que mais se divertiram com tudo. Dr. Getulio [seu pai] tuitou tanto que quase virou correspondente internacional, com vista privilegiada da varanda do hotel -e um dos poucos pontos com conexão em toda a cidade. Até descobrirem...

Já o Túlio fez vários ensaios fotográficos até ficar complicado circular com uma câmera pelas ruas. Ficou com medo de tirarem a máquina dele. Sensato.

Continuo na casa dos meus sogros por segurança, uma vez que as cadeias foram queimadas e muita gente tem se aproveitado para roubar lojas, apartamentos e casas. Preferimos esperar e avaliar melhor a situação. Além do mais, aqui no condomínio, [onde fica a casa] o esquema de segurança conta com tanques do Exército desde os primeiros dias. 
 
Hoje, a cidade recomeçou aos poucos a retomar sua rotina, com os bancos e as lojas abrindo suas portas. Ainda estamos sob o toque de recolher, o que limita bastante as atividades diárias.

Beijos

Tati, direto do front"

 

 

Escrito por Fábio Zanini às 20h19

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Quando Obama falou no Egito

”Acredito inabalavelmente que todas as pessoas anseiam por certas coisas: a possibilidade de declarar o que você pensa e ter voz na maneira como é governado; a confiança no Estado de direito e na justiça igual para todos; em um governo que é transparente e não rouba da população; na liberdade de viver como você escolhe viver. Essas não são apenas idéias americanas, são direitos humanos, e é por isso que nós os apoiaremos em todo lugar”.

Esse era Barack Obama em 4 de junho de 2009, num discurso memorável dirigido às massas árabes. Àquela altura, com menos de seis meses no cargo, suas palavras ainda excitavam analistas e historiadores. Com a popularidade ainda alta, resquício de uma avassaladora e poética campanha presidencial no ano anterior, Obama estava no auge. E decidiu falar sobre democracia aos povos do Oriente Médio.

Teve mais:

“Governos que protegem direitos são, em última instância, mais estáveis, bem sucedidos e seguros. Reprimir ideias nunca consegue fazer com que desapareçam. Vamos saudar todos os governos eleitos e pacíficos, desde que governem com respeito por todas suas populações”.

Aplausos e mais aplausos de sua plateia. E o presidente americano arrematou, sem medo de puxar a orelha dos geriátricos ditadores do mundo árabe:

 “Vocês precisam manter seu poder através do consentimento, não da coerção; precisam respeitar os direitos das minorias e participar com um espírito de tolerância e conciliação; precisam colocar os interesses de sua população e a operação legítima do processo político acima dos interesses de seu partido. Sem esses ingredientes, as eleições, por si sós, não fazem uma democracia verdadeira”.

À luz dos últimos acontecimentos no Egito, é irônico pensar que Obama pronunciou essas palavras justamente no Cairo, há menos de dois anos. Terra de Hosni Mubarak, que o recebeu efusivamente na ocasião.

E exemplo maior de alguém que faz o exato oposto de tudo o que o presidente americano cobrava.

O presidente escolheu o Egito para falar ao mundo árabe, mesmo sabendo da ditadura do lugar (ingênuo ele nunca foi…) porque é o país mais importante da região, e antigo aliado norte-americano.

Num microcosmo, aquela fala de Obama, pensada para ser um recomeço após oito anos de aspereza política de George Bush, representa à perfeição o desconforto da situação americana com o que acontece na ponta norte da África.

Mas que poderia ser ampliado para o que ocorre também ao sul do deserto do Saara, na África negra. Os EUA, afinal, afagam ditadores como o da Guiné Equatorial e regimes cleptocráticos como o de Angola, em nome do petróleo.

Obama, ao pronunciar seu discurso no Cairo, tinha na verdade objetivos maiores em mente do que a democracia, mencionada quase en passant na longa fala. Queria reconquistar corações e mentes dos povos árabes, machucados com a guerra no Iraque e com o conflito Israel-Palestina.

Talvez por saber que a defesa da democracia traria perguntas incômodas, o presidente não se estendeu sobre o tema. Agora, está chegando a conta, nas ruas do Cairo. Nunca a credibilidade dos EUA esteve tão abalada por aquelas bandas.

Escrito por Fábio Zanini às 09h38

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PERFIL

Fábio Zanini Fábio Zanini, 34, é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), com mestrado em relações internacionais pela School of Oriental and African Studies (Soas), da Universidade de Londres.

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